Ciclo da cana-de-açúcar

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Um engenho de cana-de-açúcar em Pernambuco colonial, pelo pintor neerlandês Frans Post (século XVII).

O ciclo da cana-de-açúcar representou um dos momentos de maior desenvolvimento econômico do Brasil Colônia. O açúcar representou a primeira grande riqueza agrícola e industrial do Brasil e, durante muito tempo, foi a base da economia colonial.

O ciclo teve início quando foi simultaneamente introduzida nas suas três capitanias: Pernambuco, Bahia e São Vicente. Em 1549, Pernambuco já possuía trinta engenhos-banguê, a Bahia, dezoito, e São Vicente, apenas dois. A lavoura da cana-de-açúcar era próspera e, meio século depois, a distribuição dos engenhos perfazia um total de 256.[1]

As plantações ocorriam no sistema de plantation, ou seja, eram grandes fazendas produtoras de um único produto, sua produção era voltada para o comércio exterior e utilizava mão de obra escrava. O açúcar brasileiro tinha como principal destino o mercado europeu,[2] e sua mão de obra era composta por escravos de origem indígena e africana, esta desenvolvida com o aumento dos lucros. Os pequenos núcleos continuavam com a mão-de-obra indígena.[3] O senhor de engenho era um fazendeiro proprietário da unidade de produção de açúcar. Além do açúcar, destacou-se também a produção de tabaco e algodão.

História[editar | editar código-fonte]

Contexto[editar | editar código-fonte]

Chegada de Vasco da Gama a Calecute, Índia em 20 de Maio de 1498. A nova rota provocou a queda nos preços das especiarias.

Em 1498, o navegador português Vasco da Gama descobriu uma rota marítima para as Índias, que permitiria aos portugueses realizar o comércio de especiarias sem a intermediação dos árabes e dos venezianos, que detinham o monopólio do comércio no Mar Mediterrâneo. Como consequência imediata, houve uma queda nos preços das especiarias.

A descoberta de ouro na América espanhola despertou grande interesse de Portugal em suas terras recém-descobertas. Mas atraiu também o interesse de Holanda, França e Inglaterra, que questionavam o Tratado de Tordesilhas, do qual não tomaram parte. Declaravam que somente reconheciam a posse sobre as terras povoadas. Para não perder suas terras, Portugal teria de ocupá-las, o que demandava muitos recursos. Sem encontrar ouro, teria que desenvolver alguma atividade econômica para compensar os custos dessa ocupação.

A produção agrícola se mostrava inviável. O trigo era cultivado na Europa e os fretes da América eram muito caros. Somente especiarias e manufaturados eram opções viáveis.[4]

Fatores do êxito[editar | editar código-fonte]

Os portugueses possuíam experiência em empreendimentos agrícolas, já há algumas dezenas de anos, explorando açúcar nas ilhas do Atlântico (Ilha da Madeira e São Tomé e Príncipe). O país já dominava a indústria de equipamentos para engenhos de açúcar. Além disso, o oferecimento do produto ainda relativamente novo com o controle comercial das cidades italianas formou consumidores, o que não evitou haver uma crise de baixa de preços em 1496, reorientando uma grande parte da produção para os portos flamengos. Na metade do século XVI, a empresa agrícola já passava a ser um empreendimento comum português e flamengo. Essa associação foi vital para absorver a grande produção brasileira que entrou no mercado a partir da segunda metade do século XVI. Há indícios de que poderosos grupos holandeses financiaram também as instalações produtoras no Brasil e o transporte de mão-de-obra escrava. Ressalte-se também que por esta época os portugueses já tinham conhecimento completo do funcionamento do mercado africano de escravos, tendo iniciado operações de guerra para captura de negros pagãos um século antes nos tempos de Dom Henrique.[3]

O Brasil se tornou o maior produtor de açúcar nos séculos XVI e XVII. As principais regiões açucareiras inicialmente eram Pernambuco, Bahia, São Paulo e parte do Rio de Janeiro, onde havia produtores secundários da região de Campos, no baixo vale do Paraíba do Sul. Posteriormente, com o fim da capitania de Itamaracá, que era das maiores produtoras no seu sudeste, a Paraíba também adentrou nesse seleto grupo, e na altura das invasões holandesas, teria quase duas dezenas engenhos.

O Pacto Colonial imposto por Portugal estabelecia que o Brasil (Colônia) só podia fazer comércio com a Metrópole, não devendo concorrer com produtos produzidos lá. Logo, o Brasil não podia produzir nada que a Metrópole já produzisse. Desta forma foi estabelecido um monopólio comercial. O monopólio foi de certa forma imposto pelo governo da Inglaterra a Portugal, com o objetivo de garantir mercado aos comerciantes ingleses. A colônia vendia metais, produtos tropicais e subtropicais a preços baixos, estabelecidos pela metrópole, e comprava dela produtos manufaturados e escravos a preços bem mais altos, garantindo assim o lucro de Portugal em qualquer uma das transações.

A partir da segunda metade do século XVII, Portugal se separara da Espanha mas buscou se aliar a Inglaterra para conseguir manter as colônias que lhe restara [3] . Nunca chegou a ter uma indústria significativa e desta forma dependia das manufaturas inglesas, principalmente com o acordo de 1703. Portugal se beneficiava do monopólio, mas o país era dependente da Inglaterra.

Monopólio[editar | editar código-fonte]

Avaliação histórico sociológica[editar | editar código-fonte]

Nas palavras de Gilberto Freyre:

Cquote1.svg O Massapê (...) tem profundidade. É terra doce sem deixar de ser terra firme: o bastante para que nela se construa com solidez engenho, casa e capela. Nessas manchas de terra pegajenta foi possível fundar-se a civilização moderna mais cheia de qualidades, de permanência e ao mesmo tempo de plasticidade que já se fundou nos trópicos. A riqueza do solo era profunda: as gerações de senhores de engenho podiam suceder-se no mesmo engenho; fortalecer-se; criar raízes em casas de pedra-e-cal; não era preciso o nomadismo agrário que se praticou noutras terras, onde o solo era menos fértil, esgotado logo pela monocultura, fez do agricultor quase sempre um cigano à procura de terra virgem. Um dom-juan de terras. (...) A qualidade do solo, completada pela da atmosfera, condicionou, como talvez nenhum outro elemento, essa especialização regional da colonização da América pelos portugueses que foi a colonização baseada na cana-de-açúcar (...) A verdade é que foi no extremo Nordeste - por extremo Nordeste deve entender-se o trecho da região agrária do Norte que vai de Sergipe ao Ceará - e no Recôncavo Baiano - nas suas melhores terras de barro e húmus - que primeiro se fixaram e tomaram fisionomia brasileira os traços, os valores, as tradições portuguesas que junto com as africanas e as indígenas constituiriam aquele Brasil profundo, que hoje se sente ser o mais brasileiro. O mais brasileiro pelo seu tipo de aristocrata, hoje em decadência, e principalmente pelo seu tipo de homem do povo, já próximo, talvez, de relativa estabilidade. Um homem do povo [...] feito de três sangues, em outras terras tão inimigas - o do branco, o do índio e o do negro. Um negro adaptado como nenhum à lavoura do açúcar e ao clima tropical. Um português também disposto à sedentariedade da agricultura. Um índio que ficou aqui mais no ventre e nos peitos da cabocla gorda e amorosa do que nas mãos e nos pés do homem arisco e inquieto". Cquote2.svg
Gilberto Freyre[5]

Referências

  1. Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda, Vol. 2 pg. 153-154. São Paulo (1994).
  2. Schwartz 2005, p. 79-116
  3. a b c Furtado 2000, p. 7-10;36
  4. Furtado 2000, p. 11-14
  5. Freyre 2013, p. 47-8, 50-1

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Freyre, Gilberto. Nordeste (em português). 7 ed. [S.l.]: Global, 2013. ISBN 9788526018167 Página visitada em 8 de fevereiro de 2015.
  • Furtado, Celso. Formação Econômica do Brasil (em português). São Paulo: Folha da Manhã (sob licença da Companhia Editora Nacional), 2000.
  • Schwartz, Stuart B. (2005). "A Commonwealth within itself: The Early Brazilian Sugar Industry, 1550-1670" (em português) LXV (233). Revista de Indias. ISSN 0034-8341.

Ver também[editar | editar código-fonte]