Civilização de Caral

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Antiga cidade de Caral, Peru.
Pirâmide de Caral.
Uma pedra parada na região de Huanca.
Altar del Fuego Sagrado.

A Civilização de Caral (também Caral-Supe ou Norte Chico) foi uma sociedade complexa pré-colombiana, que incluiu cerca de 30 grandes centros populacionais, nos quais são hoje a região centro-norte da costa do Peru. É conhecida, desde 1997, pela arqueóloga peruana Ruth Shady, como a mais antiga civilização nas Américas e um dos seis locais onde a civilização separadamente originou no mundo antigo. Floresceu entre o século XXX a.C. e XVIII a.C., no período neolítico pré-cerâmico. O nome "Caral-Supe" é derivado da Cidade Sagrada de Caral[1] , um grande sítio arqueológico ampliamente estudado que se encontra no vale de Supe, ao norte do departamento de Lima (região conhecida como Norte Chico). A sociedade da região surgiu um milênio depois de Suméria, e precede aos olmecas mesoamericana por quase dois milênios.

Na nomenclatura arqueológica, Norte Chico é una cultura pré-cerâmica do período pré-colombiano que apresenta uma ausência total de cerâmica e aparentemente carece de expressões artísticas. A realização mais impressionante da civilização foi sua arquitetura monumental, que incluía plataformas monticulares e circulares. A evidência arqueológica sugere o uso de tecnologia têxtil, e possivelmente adoração de símbolos representando a deuses, situações que concorrem nas culturas andinas pré-colombianas. Se assume que se requeria um governo sofisticado para liderar a antiga região de Norte Chico, e permanecem sem resposta as perguntas sobre sua organização, particularmente o tema dos recursos alimentícios e a função política.

No âmbito no qual se formou corresponde à denominada Área Norte-central Peruana, que comprende os vales da costa — Santa, Nepeña, Sechín, Culebras, Huarmey, Fortaleza, Pativilca, Supe, Huaura, Chancay e Chillón — e as aleias serranas de Huaylas e Conchucos, junto com o planalto de Junín, e as bacias dos rios Marañón, Huallaga e as nascentes do Ucayali. Na Área Norte-central Peruana se conhecia com anterioridade a existência de assentamentos pré-cerâmicos a partir das quais se assumiam organizações sociais de nível de lideranças. Destacam os de La Galgada, na aleia dos Conchucos, Piruro no Marañón, Huaricoto na aleia de Huaylas, Kotosh no Huallaga, Las Haldas em Casma, Los Gavilanes em Huarmey, Áspero em Supe, Bandurria e Rio Seco em Huaura e El Paraíso no Chillón.

Os arqueólogos sabiam de lugares arcaicos na área desde a década de 1940; as pesquisas mais antigas ocorreram em Aspero, na costa, um lugar encontrado em 1905[2] e depois em Caral. Arqueólogos peruanos, liderados por Ruth Shady Solís, desde a premeira grande documentação desta civilização a finais da década de 1990, com seu trabalho em Caral[3] . Um trabalho apresentado em 2001 na revista Science, mostrando uma investigação sobre a Caral[4] , e um artigo em 2004 na revista Nature, descrevendo o trabalho e a datação mediante radiocarbono através de toda a região[5] , revelou a verdadeira importância da Civilização Caral, obtendo grande repercução internacional[6] .

História e Geografia[editar | editar código-fonte]

O Peru Andino é reconhecido como uma das seis áreas globais onde ocorreu o desenvolvimento de uma grande civilização indígena e, juntamente com a Mesoamérica, as únicas do Hemisfério Ocidental[5] . Caral recuou o período de sociedades complexas na região do Peru para mais mil anos. A Cultura Chavín, c. 900 AC, era considerada como a cultura mais antiga da área e ainda é citada em alguns trabalhos.[7] [8] .

A descoberta de Caral também alterou o foco de pesquisa das regiões montanhosas dos Andes e áreas mais baixas adjacentes às montanhas (onde a Chavín, e posteriormente a Inca, desenvolveriam os seus maiores centro) para o litoral Peruano ou regiões costeiras. Caral está localizado na área centro-norte da costa, aproximadamente 150 - 200 km ao norte de Lima, circundado pelo Vale Lurín ao sul e o Vale Casma ao norte. Possui quatro vales costeiros: o Huaura, Supe, Pativilca e Fortaleza; sítios arqueológicos conhecidos estão concentrados nas últimas três, os quais compartilham a mesma planície costeira. Os três principais vales cobrem somente 1,800 km², e as pesquisas tem enfatizado a densidade populacional desses centros [9] .

O litoral peruano parece um "improvável, mesmo aberrante" candidato para um desenvolvimento de um civilização "primitiva", se comparada aos outros centros no mundo[10] . É extremamente árido, limitado por duas sombras de chuva (causadas pelos Andes ao leste e os ventos alísios do Pacífico ao oeste). A região possui mais de 50 rios que carregam todo o degelo andino. O desenvolvimento da irrigação através dessas fontes de água foi decisivo para emergência da Civilização de Caral[11] [12] ; uma vez que toda a sua arquitetura monumental em vários sítios estão localizadas próximas aos canais de irrigação.

As datações radiocarbônicas realizadas em 2004 [5] foram obtidas através de 95 amostras coletadas nas áreas do Pativilca e Fortaleza. Dentre eleas, 10 deram a data de 3,500 AC; a mais antiga, de 9,210 AC, permite uma "indicação limitada" de assentamento humano durante a era Arcaica Inicial Pré-Colombiana. Duas datas de 3,700 AC estão associadas com arquiteturas comunais, mas parecem ser anômalas. É a partir de 3,200 AC em diante que os assentamentos humanos em larga-escala e construções comunais se tornam visíveis.[5] Mann, revisando a literatura em 2005, sugere "algo em torno de 3,200 AC e possivelmente depois de 3,500 AC" como o início do período formativo da Civilização de Caral. Ele aponta que a data inicial seguramente associada com uma cidade é 3,500 AC, em Huaricanga, na região norte de Fortaleza, segundo os dados de Haas.[10]

As datas de Haas sugerem que tanto a região costeira quanto o interior tiveram um desenvolvimento concomitante. De 2,500 até 2,000 AC, durante o período de grande expansão, há um maior desenvolvimento e adensamento demográfico das regiões interioranas (como Caral), mas eles continuaram dependentes dos recursos marítimos (peixes e mariscos)[5] . As datas de Haas e Shady mostram que Caral teve seu auge entre 2,627 e 2,020 AC.[3] No entanto, a hipótese do desenvolvimento concomitante da costa e interior ainda não está totalmente clara.

Em torno de 1,800 AC, a civilização de Caral começou a declinar, com outros poderosos centros surgindo ao longo da costa norte e sul, e ao leste no cinturão andino. O sucesso de Caral com o desenvolvimento da irrigação deve ter contribuído para o surgimento desses outros centros. Um dos pesquisadores ressalta que "quando essa civilização está em declínio, nós começamos a encontrar extensivos canais mais ao norte. Pessoas estão se movendo para áreas mais férteis e levando consigo a tecnologia da irrigação".[12] Tudo isso aconteceu mil anos antes de Chavín, outra grande cultura da região do Peru.


Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligação externas[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Sacred City of Caral-Supe. UNESCO. Página visitada em 03-05-2014.
  2. Moseley, Michael E.; Gordon R. Willey. (1973). "Aspero, Peru: A Reexamination of the Site and Its Implications". American Antiquity 38 (4): 452–468. Society for American Archaeology. DOI:10.2307/279151. "We see the site as a 'peaking' of an essentially non-agricultural economy. Subsistence was still, basically, from the sea. But such subsistence supported a sedentary style of life, with communities of appreciable size."
  3. a b Shady Solís, Ruth Martha. La ciudad sagrada de Caral-Supe en los albores de la civilización en el Perú. Lima: UNMSM, Fondo Editorial, 1997. Página visitada em 03-05-2014. (espanhol)
  4. Shady Solis, Ruth; Jonathan Haas, Winifred Creamer. (27 April 2001). "Dating Caral, a Preceramic Site in the Supe Valley on the Central Coast of Peru". Science 292 (5517): 723–726. DOI:10.1126/science.1059519. PMID 11326098.
  5. a b c d e Haas, Jonathan; Winifred Creamer, Alvaro Ruiz. (23 December 2004). "Dating the Late Archaic occupation of the Norte Chico region in Peru". Nature 432 (7020): 1020–1023. DOI:10.1038/nature03146. PMID 15616561.
  6. Matéria publicada em 04-01-2005 no site de notícias CNN
  7. History of Peru. HISTORYWORLD. Página visitada em 2007-01-31.
  8. Roberts, J.M.. The New Penguin History of the World. Fourth ed. London: Penguin Books, 2004. 153 p.
  9. Haas, Jonathan; Winifred Creamer, Alvaro Ruiz. (2005). "Power and the Emergence of Complex Polities in the Peruvian Preceramic". Archaeological Papers of the American Anthropological Association 14 (1): 37–52. DOI:10.1525/ap3a.2005.14.037.
  10. a b Mann, Charles C.. 1491: New Revelations of the Americas Before Columbus. [S.l.]: Vintage Books, 2006. 199–212 p. ISBN 1-4000-3205-9
  11. Pringle, Heather. (2001-04-27). "The First Urban Center in the Americas". Science 292 (5517): 621. DOI:10.1126/science.292.5517.621. PMID 11330310."The claim in this Science 'News of the Week' column that Caral is the oldest urban center in the Americas is highly uncertain."
  12. a b Northern Illinois University (2004-12-22). Archaeologists shed new light on Americas’ earliest known civilization. Press release. Página visitada em 2007-02-01.