Cloreto de sódio

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Cloreto de sódio
Alerta sobre risco à saúde
Selpologne.jpg
Sodium-chloride-3D-ionic.png
Chlorid sodný.JPG
Nome IUPAC Cloreto de sódio
Outros nomes Sal comum; sal de cozinha
Identificadores
Número CAS 7647-14-5
PubChem 5234
ChemSpider 5044
Número RTECS VZ4725000
Propriedades
Fórmula molecular NaCl
Massa molar 58,443 g/mol
Aparência branco ou incolor
sólido ou líquido
Odor Sem Odor
Densidade 2,165 g/cm3
Ponto de fusão

801 °C (1074 K)

Ponto de ebulição

1465 °C (1738 K)

Solubilidade em água 35.6 g/100 mL (0 °C)
35.9 g/100 mL (25 °C)
39.1 g/100 mL (100 °C)
Solubilidade solúvel em glicerol, etileno glicol, ácido fórmico
insolúvel em HCl(aq)
Solubilidade em metanol 1.49 g/100 mL
Solubilidade em amônia 2.15 g/100 mL
Índice de refracção (nD) 1.5442 (589 nm)
Estrutura
Estrutura cristalina Cúbica (veja o texto), cF8
Grupo de espaço Fm3m, No. 225
Geometria de
coordenação
Octahedral (Na+)
Octahedral (Cl)
Riscos associados
Índice UE Não listado
NFPA 704
NFPA 704.svg
0
1
0
 
Ponto de fulgor Não-inflamável
LD50 3000–8000 mg/kg (via oral em ratos, camundongos e coelhos)[1]
Compostos relacionados
Outros aniões/ânions Fluoreto de sódio
Brometo de sódio
Iodeto de sódio
Sulfeto de sódio
Hipoclorito de sódio
Outros catiões/cátions Cloreto de lítio
Cloreto de potássio
Cloreto de rubídio
Cloreto de césio
Cloreto de magnésio
Excepto onde denotado, os dados referem-se a
materiais sob condições PTN

Referências e avisos gerais sobre esta caixa.
Alerta sobre risco à saúde.
Célula básica da estrutura de um cristal de sal (NaCl). Note-se a ordenação dos átomos.

O cloreto de sódio, popularmente conhecido como sal ou sal de cozinha, é uma substância largamente utilizada, formada na proporção de um átomo de cloro para cada átomo de sódio. A sua fórmula química é NaCl. O sal ele é essencial para a vida animal e é também um importante conservante de alimentos e um popular tempero.

O sal é produzido em diversas formas: sal não refinado (como o sal marinho), sal refinado (sal de cozinha), e sal iodado. É um sólido cristalino e branco nas condições normais.

Cloreto de sódio e íons são os dois principais componentes do sal, são necessários para a sobrevivência de todos os seres vivos, incluindo os seres humanos. O sal está envolvido na regulação da quantidade de água do organismo. O aumento excessivo de sal causa risco de problemas de saúde como a hipertensão arterial.

Obtenção[editar | editar código-fonte]

Atualmente a água do mar, lagos, rios, e rochas podem conter sal.

O processo de fabricação do sal é físico e não químico, dando-se por dissolução de sal gema com água quente injetada nas jazidas para a produção de salmoura. Após, procede-se a concentração, etapa que também é realizada com a água do mar e de lagos salgados, a cristalização do cloreto de sódio e a colheita e sua lavagem, e se adequado, refino e adição de compostos contendo iodo para o consumo humano. [carece de fontes?]

Cloreto de sódio para uso industrial é obtido por processos mais complexos e cuidadosos que incluem etapas como as seguintes:[2]

  • Evaporação e concentração da salmoura por evaporação da salmoura de NaCl em instalações de duplo e simples efeito. Nas plantas deste processo, que incluem a produção conjunta de carbonato de sódio a fonte do vapor necessário é, na quase totalidade, obtido por um recuperador de vapor, dos líquidos quentes provenientes da fabricação de carbonato de sódio.
  • Decantação e centrifugação dos cristais obtidos de cloreto de sódio, quando a suspensão de cristais obtida é decantada e separa-se a fase líquida ("águas mães"). A fase mais densa é centrifugada, sendo separadas as restantes águas mães e obtém-se o cloreto de sódio úmido, com teor de água de 2 a 3%.
  • Secagem e peneiração do sal quando a secagem em leito fluidizado e a obtenção de granulação adequada por peneiração alimentam o processo de embalagem e o carregamento a granel do produto acabado.

Aplicações[editar | editar código-fonte]

Embora a maioria das pessoas esteja familiarizada com os vários usos do sal na culinária, desconhece que a substância é utilizada em várias outras aplicações, como a manufatura de papel e a produção de sabão e detergentes.

No norte dos Estados Unidos e na Europa são utilizadas grandes quantidades de sal para limpar as rodovias do gelo durante o Inverno, pois este baixa a temperatura do ponto de fusão da água. A temperatura de fusão da água é de 0°C mas, quando o sal entra em contacto com o gelo, a fusão ocorre a uma temperatura inferior a esta.

É utilizado em larga escala na produção de hidróxido de sódio, cloro, hidrogênio e indiretamente ácido clorídrico por eletrólisede sua solução aquosa (processo cloro-álcali).

O sal também é utilizado para a produção de gás cloro e de sódio metálico, através da eletrólise ignea. Além disso, este mineral é o de maior utilidade aplicada entre todos, sendo utilizado em mais de 16 mil formas diferentes.[3]


A obtenção e o uso do sal pelos nativos das Américas[editar | editar código-fonte]

A maioria dos nativos do Novo Mundo utilizavam o sal como tempero. Quando não tinham acesso ao cloreto de sódio obtinham sais de cinzas de vegetais, de ossos ou através da geofagia, a ingestão de terra[4] .

O sal, cloreto de sódio (NaCl), é encontrado dissolvido na água do mar na proporção de 26 a 29 gramas por litro. Também pode estar presente em lagos, rios e rochas. Há jazidas na superfície terrestre como resultado da evaporação e recebem o nome de sal-gema e são compostas de cloreto de sódio misturado ao cloreto de potássio e cloreto de magnésio. Alguns indígenas do litoral, como os Tupinambá, obtinham o sal deixando a água do mar evaporar em valas. Era pilado com pimentão e a mistura consumida com carnes de caça e peixe[5] .

A grande maioria dos indígenas do interior desconhecia o cloreto de sódio e tentavam suprimir esta carência através da geofagia, ou seja, ingestão de terra, ou produzindo sal através das cinzas de vegetais. Alguns depósitos de sal-gema eram encontrados no interior da Amazônia, principalmente no Peru, e eram explorados por tribos locais para uso próprio e comércio[6] . Indígenas de Minas Gerais iam buscar o sal no litoral, porque na região mineira só encontravam depósitos pobres em sal[7] .

Os Kalapalo do Mato Grosso obtinham sal extraindo-o de cinzas de algumas árvores. Faziam também tocaia em áreas de queimadas, aguardando os veados quem iam lamber as cinzas e os matavam a flechadas[8] .

Os Pariukur do Amapá e Guiana Francesa faziam cigarros com lâminas finas de casca de tauari, que serviam para envolver folhas de tabaco secas ao fogo. Além de fumá-lo, ingeriam as cinzas, que segundo eles tem um sabor de salitre[8] .

Várias tribos praticavam o processo de extrair o sal do aguapé (Eichornia crassipes). As mulheres dos Aweti do Mato Grosso removiam somente as folhas que afloravam, evitando assim danificar a planta. Os homens espalhavam as folhas para que secassem ao sol. Depois de secas as folhas eram queimadas e as cinzas misturadas à água. A matéria que decantava era o sal, não o cloreto de sódio e sim o cloreto de potássio. Com a fervura da água e sua evaporação obtinha-se o sal[9] .

O chefe dos Waurá, também do Mato Grosso, coletava com as mulheres da aldeia, uma vez por ano, o aguapé para fazer sal[8] .

Os Matipu do Mato Grosso usavam como tempero para o peixe o homi, uma pimenta pequena e forte e o sal de aguapé, planta aquática usada para fabricar o sal do índio [10] .

Aguapé
Caruru-da-cachoeira
Paxiuba-barriguda

Alguns grupos indígenas do Xingu como os Trumai, Camaiurá, Mehinaku, Nahuquá e outros obtinham o sal de maneira semelhante ao descrito acima, secando e queimando folhas de aguapé. As cinzas eram colocadas em um tipo de coador de fibras sobre um vasilhame e água era despejada em cima. A mistura obtida no vasilhame era fervida até total evaporação da água e o que restava era o sal, o cloreto de potássio[11] . Outros grupos indígenas, como os Carajá, vizinhos dos Tupinambá, obtinham o sal de cinzas de palmeiras, processadas de maneira semelhante. Às vezes os índios nem faziam o coamento e ingeriam as próprias cinzas [4] .

Alguns indígenas do litoral brasileiro obtinham no século XVI o sal fervendo a água do mar, como descreveu André Thevet,frade franciscano francês, explorador, cosmógrafo e escritor:[12]

Fervem esse legumes com sal, do qual não estão privados, pois o fazem com água do mar, sem preparar lagunas e marinhas de sal para fazê-lo secar, mas tomam somente a água marinha, fazendo-a ferver e consumir-se até mais da metade, depois adicionam-lhe qualquer coisa e a fazem converter-se em sal, que chamam de ioncure.

Outra planta utilizada pelos indígenas para extrair o sal era a folha do caruru, ou caruru-das-cachoeiras (Mourera fluviatilis), sendo que o processo de obtenção do sal era semelhante ao do aguapé[13] . Os indígenas também cozinhavam as folhas do caruru com peixe e no processo o sal das folhas temperavam o alimento[8] . Os índios Ingaricó, de Roraima, enrolavam folhas do caruru com folhas de tabaco, colocavam na boca e sorviam o suco do tabaco e o sal do caruru[8] [13] .

Os Crichaná de Roraima usavam o sal vegetal, por eles chamado de tuirino[14] . No século XX os Trumái, povo nômade da região amazônica tinha o sal vegetal como valoroso objeto de comércio com os povos do alto Xingu[15] .

A palmeira paxiuba fornecia sal do seu âmago para os Cauaiua-Parintintins e das suas flores para os povos do alto Amazonas e alto Rio negro[8] [13] .

Os Miranha do Amazonas e Colômbia extraiam sal de galho novo de jukira-uva e de espádices de flores da paxiuba-barriguda e do patauá. As flores eram incineradas, lixiviadas, coadas e o líquido, depois que evaporava, deixava o sal no recipiente. Indígenas do Rio Solimões utilizavam partes das plantas tanimbuda e gurupé para produzir sal[8] .

Hans Staden relatou que no século XVI os Carajás de Goiás, Tocantins , Pará e Mato Grosso assim produziam o sal:

Fabricam-no do seguinte modo – eu mesmo o vi e nisso ajudei: abatem uma palmeira grossa e a picam em pequenas lascas. Fazem depois uma caieira com lenha seca, colocam em cima estas lascas, queimando-as e reduzindo-as a cinza. Desta fazem uma barrela, que cozem. Separa-se então uma coisa, que tem aparência de sal. Pensei que fosse salitre e provei-o no fogo. Não era porem. Tinha gosto de sal e era de cor cinzenta[16] .

Os Macu do Rio Negro obtinham o sal dos ossos fervidos e socados de animais. Os Tupinambá obtinham o sal fazendo fossos à beira mar e deixando a água evaporar[8] .

Os Ianomâmis do Amazonas utilizavam como sal as cinzas de uma planta por eles chamada de kololi[17] .

Índios do interior queimavam, no século XVI, o salitre, misturava a cinza com água e fervia. Quando toda a água evaporava restava o sal[18] .

No Canadá os índios obtinham o sal deixando evaporar a água de fontes salgadas, enquanto que em outros locais era encontrado na forma cristalina em lagos e fontes salgadas. Algumas tribos o obtinham através de cinzas vegetais[19]

Os Tubatulabal da Califórnia obtinham o sal excretado pelas folhas da saltgrass (grama do litoral ou grama do deserto) (Distichlis spicata). A grama era cortada e seca ao sol, depois batida para liberal o sal, que era por eles agrupado em forma de bolas. Pedaços eram tirados das bolas, misturados com água e bebidos como refresco ou laxativo. Folhas frescas e picadas de trevo eram comidas depois de salpicadas com água onde havia ficado imersa a grama fresca. Também comiam as folhas frescas da grama do litoral enroladas em folhas de trevo. Nas manhãs de verão as crianças passavam varas de salgueiro sobre a grama e quando havia uma boa quantidade de cristais aderidos elas os lambiam. Os Southern Valley Yokut californianos extraiam o sal de várias espécies de grama do litoral, usando técnicas diferentes. O sal não era usado no preparo da comida, mas pitadas eram colocadas na boca durante a ingestão de alimentos. Grumos que se formavam no processo da preparação do sal eram lambidos pelas crianças. Os Chukchansi Yokut, também da Califórnia, usavam este tipo de sal no trevo e em frutinhas salgadas[20] .

Havia muito sal no lago salgado seco no território dos Coso, na Califórnia, e os Tubatulabal faziam viagem de um dia para buscá-lo. Os blocos de sal eram fragmentados no almofariz ou moídos entre duas pedras e as partículas salpicadas sobre carne cozida. Era também usado para salgar carnes de caça e peixe, mas nunca para temperar vegetais. Já os Chukchansi Yokut usavam o sal na carne, amêndoas e sementes. Na costa nordeste da Califórnia os índios usavam a alga Porphyra perforata como alimento e também como sal. Flocos de folhas secas eram comidos com mingau de amêndoas da bolota do carvalho[20] .



Referências

  1. Martel, B.; Cassidy, K. (2004), Chemical Risk Analysis: A Practical Handbook, Butterworth–Heinemann, p. 369, ISBN 1903996651 
  2. CLORETO DE SÓDIO - Esquema de fabricação - www.solvay.pt (em português).
  3. Salt Institute.
  4. a b CAVALCANTE, Messias S. Comidas dos Nativos do Novo Mundo. Barueri, SP. Sá Editora. 2014, 403p.ISBN 9788582020364
  5. LÉRY, Jean de (1534-1611). Viagem à terra do Brasil. Belo Horizonte, Edit. Itatiaia; São Paulo, Edit. da Universidade de São Paulo. 1980, 303 p.
  6. ACUÑA, Cristóbal de (1597-1675). Novo descobrimento do rio Amazonas. Consejeria de Educación de La Embajada de España em Brasil. Uruguay, Oltaver S. A. Buenos Librosactivos. 1974, 211 p.
  7. JOSÉ, Oiliam. Indígenas de Minas Gerais – Aspectos sociais, políticos e etnológicos. Belo Horizonte, Edições MP. 1965, 217 p.
  8. a b c d e f g h BASTOS, Abguar. A pantofagia ou as estranhas práticas alimentares da selva: Estudo na região amazônica. São Paulo, Editora Nacional; Brasília DF, INL. 1987, 153 p.
  9. POVOS INDÍGENAS NO BRASIL (2011). Almanaque Socioambiental. Parque Indígena do Xingu – 50 anos. 316p. São Paulo, Instituto Socioambiental. Disponível em http://pt.scribd.com/doc/87459949/5/povos-indigenAs-no-pArque-indigenA-do-xingu Consulta em 06/09/2012.
  10. POVOS INDÍGENAS NO BRASIL (S/DATA). Matipu. Alimentação e plantas medicinais. Disponível em http://pib.socioambiental.org/pt/povo/matipu/765 Consulta em 06/09/2012
  11. REVISTA DE ATUALIDADE INDÍGENA (1977). Sal vegetal. p. 14-16. In: Revista de Atualidade Indígena, ano I, nº 6, 64p. Brasília, Fundação Nacional do Índio.
  12. THEVET, André ((1502-1590). A cosmografia universal de André Thevet, cosmógrafo do Rei. Coleção Franceses no Brasil – Séculos XVI e XVII, vol. II. Rio de Janeiro, Batel; Fundação Darci Ribeiro. 209, 186 p.
  13. a b c PEREIRA, Manuel Nunes (1892-1985). Moronguêtá: um Decameron indígena. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 1980, 2ª Ed.; vol. 1. P. 1-434
  14. RODRIGUES, João Barbosa (1885). Rio Jauapery, pacificação dos crichanás. 286p. Rio de Janeiro: Impr. Nac. Disponível em http://archive.org/stream/riojauaperypaci00rodrgoog#page/n10/mode/1up. Consulta em 23/02/201
  15. RIBEIRO, Berta G. (1924-1997). Diário do Xingu. Rio de Janeiro, Paz e Terra. 1979, 265p.
  16. STADEN, Hans (séc. XVI). Duas viagens ao Brasil. Belo Horizonte, Edit. Itatiaia; São Paulo, Universidade de São Paulo. 1974, 216 p.
  17. REVISTA DE ATUALIDADE INDÍGENA. A arte Yanoama de fabricar utensílios. p. 43-51. In: Revista de Atualidade Indígena, ano. Brasília, Fundação Nacional do Índio. 1978, ano II, nº 12, 64p
  18. SOUSA, Gabriel Soares de (1540-1590). Tratado descritivo do Brasil em 1587. São Paulo, Cia Editora Nacional, Editora da Universidade de São Paulo. 1971, 4ª ed. 389p
  19. BÉLANGER, Claude (2004) . QUEBEC HISTORY. L’Encyclopédie de l’histoire du Québec / The Quebec Encyclopedia - Food and the Indians of Canada. Disponível em http://faculty.marianopolis.edu/c.belanger/quebechistory/encyclopedia/foodindians.htm Consulta em 04/03/2013
  20. a b CAMPBELL, Paul D. Survival skills of native California. Layton, Utah, Gibbs Smith Publisher. 1999, 448 p.

Ver também[editar | editar código-fonte]