Cocamas

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Kokama
População total

21.242

Regiões com população significativa
 Brasil (AM) 9.636 Funasa, 2010[1]
 Colômbia 236 -
 Peru 11.370 Inei[1]
Línguas
Língua cocama
Religiões
Xamanismo
Etnia
Tupi-Guarani

Os Cocamas (Kokama ou Kocama) são um grupo indígena que habita a Amazônia do alto rio Solimões, onde se encontram a Área Indígena Évare I e Terras Indígenas Igarapé Acapori de Cima e Sapotal até o médio Solimões, na Área Indígena Kokama, no estado brasileiro do Amazonas; e também no Peru e na Colômbia.

Língua[editar | editar código-fonte]

A língua kokama foi classificada por muitos linguistas como sendo do tronco linguístico tupi. No fim da década de 1950, Rodrigues chegou a concordar com essa classificação, mas em 1985 retomou as discussões sobre a classificação, levantando a hipótese de que a língua poderia não pertencer a essa família. Em 1995, Cabral comprovou que se trata de uma língua crioula, resultado do contato com várias línguas, como tupi, aruaque e quíchua.[2]

A origem da língua Kokama remonta ao período pré-colombiano. Na segunda metade do século XV, um grupo falante do Tupinambá migrou da costa do Oceano Atlântico para o interior do norte amazônico, onde entrou em contato com povos falantes de uma ou mais línguas, possivelmente da família Arawak.[3]

Os materiais didáticos da língua kokama são produzidos com o alfabeto peruano e com o alfabeto brasileiro. Em São Paulo de Olivença, as comunidades pleiteiam o ensino da língua como disciplina permanente nas escolas kokama.[2]

História[editar | editar código-fonte]

Século XVI: A expedição de Salinas[editar | editar código-fonte]

Em 1557, Juan de Salinas Loyola organizou uma expedição na Amazônia. Salinas documentou sua expedição com o objetivo de reivindicar a jurisdição sobre as terras descobertas. Foi por meio dos registros de Salinas que os conquistadores descobriram a existência do rio Ucayali e dos povos indígenas que habitavam suas margens.[4]

A expedição partiu de Loja, no Equador, em 8 de julho de 1557 e retornou em 28 de agosto de 1559. Nesses dois anos, Salinas fundou quatro cidades (Valladolid, Loyola, Santiago de las Montañas e Santa Maria de Nieva) e distribuiu terras entre seus acompanhantes.[5]

A expedição de Salinas se insere no contexto da busca por novas terras pela coroa espanhola, e, embora seus registros não façam uma menção específica, é provável que ele estivesse particularmente interessado em atingir o El Dorado.[6]

Na região de Santiago de las Montañas, Salinas foi informado da existência de uma província muito povoada e de grande riqueza, situada ao longo do rio. Em 24 de agosto de 1557, Salinas parte com 54 homens em pequenas canoas pelos rios Marañon e Ucayali até chegar às terras dos Benorina, dos Cocama e dos Pariaches, além de um quarto povo, que não foi identificado.[7]

Ao entrar no território dos Cocama, a expedição foi recebida pacificamente. Salinas ficou bastante impressionado com a cultura material dos Cocamas, que ele descreveu como "pessoas de muita educação". Foram mencionadas peças de vestuário de algodão muito fino, pinturas elegantes e plumagens. Também destacou os adornos de ouro e prata, a abundância de recursos alimentares e a cerâmica, referida como "a mais bela e fina que há no mundo". Reportou que os caciques eram muito respeitados e que a língua era muito diferente das que ele havia contatado anteriormente, mas que ele conseguiu se comunicar com a ajuda de intérpretes.[7]

Século XVII[editar | editar código-fonte]

A presença dos kokama no rio Solimões e na região do rio Marañon é conhecida desde o século XVII.[8] Existem vários registros da presença dos kokama nas margens dos dois rios entre 1639 e 1691 e também em 1710.[9] Há relatos de missionários, viajantes, cronistas, naturalistas, historiadores e administradores coloniais que indicam um constante deslocamento geográfico do povo em busca de terra para plantio ou águas para pesca. A disputa por recursos hídricos e florestais os manteve em guerra durante séculos contra outros povos indígenas e contra ações do Império e da Igreja, com seus empreendimentos extrativistas e de agricultura tropical.

Durante a segunda metade do século XVII, houve uma grande atividade missionária no Ucayali. Pelo sul e pelo leste vinham os franciscanos, enquanto os jesuítas chegavam pelo norte. Essas duas ordens atuaram de forma relativamente independente, apesar de terem contato entre si e até mesmo ajudarem-se em certas ocasiões.[10]

Os cocama eram uma fonte permanente de problemas para as missões no rio Huallaga e no rio Marañon. Em 1644, os espanhóis de Mianas enviaram uma expedição para estabelecer a paz. O padre Gaspar Cujia foi acompanhado de soldados espanhóis, índios Xevero e Mainas, e um intérprete. Não foi estabelecida uma missão na região pela falta de missionários, mas algumas visitas posteriores se seguiram até 1651, quando o padre Bartolome Peréz criou a primeira missão entre os cocama. O padre Peréz foi logo enviado de volta a Borja e a missão durou apenas três meses. Não houve outra missão entre os cocama pelos seis anos seguintes. Entre 1657 e 1659, o padre Tomas Mojano e o irmão Domingo Fernandez viveram entre os cocama e estabeleceram quatro novas cidades no lago conhecido como Gran Cocama. Em 1659, o perigo de viver entre os cocama se tornou demasiado e os missionários foram enviados a Santa Maria de Huallaga. Eles levaram consigo 100 guerreiros cocama com suas famílias.[11]

Século XVIII[editar | editar código-fonte]

Em 1758, o Marquês de Pombal proibiu o uso das línguas indígenas no Brasil.

No século XVIII, a política pombalina de concessões de terras na Amazônia acelerou a usurpação de seu território. Além disso, a permanente resistência dos kokama comprometeu suas atividades produtivas, uma vez que seus instrumentos de caça, pesca e agricultura foram gradativamente substituídos por armas de defesa, como arcos, flechas e zarabatanas.[12]

Seguiu-se uma desestruturação cultural causada pelos estabelecimentos de ensino, que eram utilizados para a educação indígena como parte das medidas governamentais de integração. A partir de agosto de 1758, o governo de Pombal obrigou o uso da língua portuguesa, apoiando-se no princípio da "língua do príncipe". Essa uniformidade linguística seria decisiva para o funcionamento econômico do sistema agrário-exportador apoiado no trabalho escravo e na monocultura, uma vez que escravos de diferentes etnias eram separados em diversas fazendas para evitar agrupamentos étnicos na mesma unidade de produção e inibir conflitos e resistências.[12]

Com o declínio da política pombalina, as escolas indígenas voltaram a ser mantidas por ordens religiosas. Com a educação religiosa, as crianças passaram a rejeitar a identidade indígena, o que interrompia a transmissão das tradições e da língua entre pais e filhos. Elas entendiam o que seus pais e avós falavam, mas se recusavam a se expressar na língua. A geração de falantes da língua cocama foi gradativamente sucedida por uma geração de ouvintes (que apenas entendia a língua), e essa por uma geração de lembradores (que apenas lembrava de conversas dos pais). Atualmente, a maioria dos kokama são considerados aprendizes, pois não falam fluentemente e sequer entendem a língua.[12]

Séculos XIX e XX[editar | editar código-fonte]

Índios ticuna (1865). Por muito tempo, os kokama perderam sua identidade e se mesclaram entre os ticuna.

A rejeição da identidade étnica causou a desagregação do povo kokama. Os pais não falavam mais a língua, seus filhos passaram a viver com parentes, mas não se reconheciam como do mesmo povo, cresceram os casamentos com pessoas de outros povos, principalmente os Ticuna, que tinham maior população e território e assumiram uma hegemonia política. Suas manifestações culturais submetiam-se às dos Ticuna, inclusive quanto à língua. As comunidades e os indivíduos não eram mais reconhecidos e nem se reconheciam como kokamas.[13]

Os kokama passaram a observar a mobilização política dos Ticuna, inclusive participando de reuniões e assembleias em prol da demarcação de suas terras. Esse aprendizado político propiciou uma retomada da consciência e da identidade coletiva dos kokama, que a partir da década de 1980, passaram a se distinguir dos ticuna e a reivindicar suas próprias terras e políticas de saúde e educação diferenciadas, escapando de seu encapsulamento histórico.[13] Embora os ticuna tenham tentado inibir a autodefinição dos kokama, que ameaçavam a sua hegemonia, eles contribuiram para tal.[14] Entretanto, as relações dos kokama com as instituições públicas esbarrava em obstáculos. A Fundação Nacional do Índio (Funai) não os reconhecia formalmente, pela falta de identidade linguística e organização política. Laudos linguísticos e antropológicos elaborados por pesquisadores acadêmicos e da própria Funai surtiram efeito e contribuiram para a redução das tensões políticas pelo reconhecimento étnico.

A Irmandade de Santa Cruz[editar | editar código-fonte]

Na década de 1960, um profeta brasileiro mestiço, conhecido como Francisco da Cruz, viajou pelos principais rios da Amazônia peruana, visitando as comunidades e pregando sua mensagem sobre a última reforma do cristianismo e a iminência do fim do mundo. Ensinava técnicas de agricultura, fundava novas comunidades religiosas e ditava regras de conduta para seus seguidores. Alguns relatos apontam que ele curava enfermos.

Seguido por uma multidão de adeptos, a maioria deles indígenas de diversas etnias, Francisco chegou às cidades peruanas de Pucalipa, Nauta e Iquitos. A partir de 1971, várias famílias Kokama partiram de Nauta e das aldeias situadas às margens do rio Marañón, nas proximidades da confluência com o rio Ucayali. Em Iquitos, Francisco contatou autoridades católicas buscando o reconhecimento oficial como último reformador do cristianismo. Partiu pelo rio Amazonas em direção à Colômbia, até ser detido na fronteira e preso pelas autoridades brasileiras, acusado de comunismo. A pressão de seus adeptos provocou sua libertação, sob o compromisso de permanecerem no interior da floresta.

Sua marcha seguiu por território brasileiro, subindo o rio Içá. Em um de seus afluentes, o rio Juí, Francisco fixou residência definitiva e instalou a sede de seu movimento. Permaneceu ali com seus adeptos até sua morte, em 1982. Seu sucessor, um índio tupinambá, adotou posteriormente o nome de Francisco Neves da Cruz. [15]

Organização social[editar | editar código-fonte]

O principal fundamento da organização interna dos Kokama é a relação de parentesco. Suas comunidades são formadas por grupos de parentes com fortes vínculos, e a proximidade das casas denota sua relação genealógica.[16] As casas são enfileiradas, próximas entre si e construídas de frente para os rios, em cima de estacas que as protegem das cheias.[17]

Supõe-se que antes do contato mais intenso com os não-indígenas, eles adotavam descendência patrilinear, regra patrilocal para residência pós-marital e viviam em malocas agrupadas com as famílias extendidas (pais, filhos e genros).[18] A organização política dos Kokama é tradicionalmente descentralizada e acéfala, com a autoridade de cada chefe limitada ao seu próprio grupo doméstico, a não ser em caso de guerra, quando um grupo poderia se expandir em torno de um líder.[16]

As mulheres costumavam preparar o alimento e ajudar os maridos no cultivo da roça familiar e no transporte de frutos coletados. A pesca e a caça eram atividades predominantemente realizadas pelos homens, que também fabricavam os anzóis, arcos e flechas.[16]

Praticam o ajuri (trabalho coletivo seguido de refeição coletiva), especialmente na abertura de novas roças, quando diversos grupos familiares se reúnem para limpar o terreno. Assim como os Kambeba e os Tikuna, os Kokama têm o hábito de consumir uma bebida fermentada de mandioca, que chamam pajuaru.[16]

Cultura material[editar | editar código-fonte]

Os kokama costumavam usar braceletes, pulseiras, cintos de algodão, tornozeleiras e enfeites de plumas. Até os dias atuais fazem peneiras com folhas e cascas de árvore e cestas cilíndricas com desenhos hexagonais. As mulheres vestiam um xale sobre os ombros e uma espécie de túnica de algodão na cintura, que chegava-lhes até os joelhos. Os homens usavam uma espécie de camisa com desenhos geométricos amarelos, azuis e roxos, também com comprimento até os joelhos, denominada cushma, também usada pelos Omágua.[19]

Referências

  1. a b Povos Indígenas no Brasil: 2006-2010 2011, p. 9-16
  2. a b Almeida 2012, p. 79
  3. Muysken 2012, p. 249-251
  4. Ales 1981, p. 87
  5. Ales 1981, p. 88
  6. Ales 1981, p. 87-88
  7. a b Ales 1981, p. 88-89
  8. Almeida 2012, p. 67-68
  9. Freitas 2002, p. 28
  10. Myers 1974, p. 143
  11. Myers 1974, p. 143-145
  12. a b c Almeida 2012, p. 68
  13. a b Almeida 2012, p. 69
  14. Almeida 2012, p. 70
  15. Agüero 1994, p. 7
  16. a b c d Instituto Socioambiental. Kokama (em português). Povos Indígenas do Brasil. Página visitada em 13 de abril de 2014.
  17. Ramos 2003
  18. Agüero 1994, p. 44
  19. Agüero 1994, p. 41

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Livros e revistas
Teses e dissertações
  • Agüero, Oscar Alfredo. Social change and symbolic expression: a case of religious ethnodynamism among the Tupi-Cocama of the Peruvian Amazonia, 1971. 135 f (em inglês). Doutorado - Universidade de Uppsala, Uppsala, 1971.
  • Cabral, Ana Suelly. Contacta-induced language change in the Western Amazon: the non-genetic origin of the Kokama language, 1995. 415 f (em inglês). Doutorado - Universidade de Pittsburgh, Pittsburgh, 1995.
  • Freitas, Marcos Antonio Braga de. O povo kokama: Um caso de reafirmação de identidade étnica, 2002. (em português). Mestrado - Universidade Federal do Amazonas, Manaus, 2002.
  • Victer, Rogério Santos. Carisma e rotina na sucessão de uma liderança religiosa: a participação dos índios Cocama na renovação da Irmandade de Santa Cruz, 1992. 176 f (em português). Mestrado - UFRJ, Rio de Janeiro, 1992.

Ver também[editar | editar código-fonte]