Coelho Neto

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Coelho Neto Academia Brasileira de Letras
Nome completo Henrique Maximiano Coelho Neto
Nascimento 21 de fevereiro de 1864
Caxias
Morte 28 de novembro de 1934 (70 anos)
Rio de Janeiro
Nacionalidade  Brasileiro
Ocupação Escritor e político
Escola/tradição Simbolismo/Modernismo

Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias, 21 de fevereiro de 1864Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) foi um escritor (cronista, folclorista, romancista, crítico e teatrólogo), político e professor brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras onde foi o fundador da Cadeira número 2.[1]

Foi considerado o "Príncipe dos Prosadores Brasileiros", numa votação realizada em 1928 pela revista O Malho.[1] Apesar disto, foi consideravelmente combatido pelos modernistas, sendo pouco lido desde então, em verdadeiro ostracismo intelectual e literário.[2]

Nas palavras de Arnaldo Niskier: "A vitória do modernismo se fez como se houvesse necessidade de abater um grande inimigo, no caso, Coelho Neto"[3]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Filho do português Antônio da Fonseca Coelho com a índia Ana Silvestre Coelho, que mudaram-se do Maranhão para o Rio de Janeiro quando o filho contava apenas seis anos de idade.[1]

Estudou no Colégio Pedro II, onde realizou os cursos preparatórios e ingressou na Faculdade de Medicina, que abandonou em seguida, matriculando-se em 1883 na Faculdade de Direito de São Paulo.[1]

No curso jurídico Coelho Neto expande suas revoltas, logo se envolvendo no movimento de alunos contra um professor e, para evitar represálias, transfere-se para a faculdade do Recife, e ali conclui o primeiro ano tendo por principal mestre Tobias Barreto.[1]

Após este lapso, retorna para São Paulo, e logo participa de movimentos abolicionistas e republicanos, entrando em choque com os professores, não chegando a concluir o curso.[1]

Sem se formar, retorna em 1885 para o Rio onde, ao lado de escritores como Olavo Bilac, Luís Murat, Guimarães Passos e Paula Ney forma um grupo cujas experiências vem a retratar no romance "A Conquista", de 1899.[1]

Ativo na campanha pela extinção da escravatura, alia-se a José do Patrocínio; labora como colaborador do jornal Gazeta da Tarde e, depois, para o A Cidade do Rio, onde foi secretário, ocasião em que inicia a publicação de seus textos literários.[1]

Coelho Neto, na maturidade.

Casou-se em 1890 com Maria Gabriela Brandão, filha do professor Alberto Olympio Brandão, com quem teve catorze filhos. Neste mesmo ano é nomeado secretário de governo do estado e em 1891 ocupa a direção de Negócios do Estado.[1]

Em 1892 é nomeado para o magistério de História da Arte na Escola Nacional de Belas Artes. Depois leciona literatura no Colégio Pedro II; nesta atividade é nomeado, em 1910, para as cátedras de História do Teatro e Literatura Dramática na Escola de Arte Dramática do Rio, da qual foi mais tarde seu diretor.[1]

Na política tornou-se deputado federal pelo estado natal, em 1909, reeleito em 1917. Ocupou ainda diversos cargos, e integrou diversas instituições culturais.[1] [1]

Em 1923 converteu-se ao Espiritismo, proferindo um discurso no Salão da Guarda Velha no Rio de Janeiro sobre sua adesão.[4] Sobre a matéria, o "Jornal do Brasil" publicou entrevista com o escritor (7 de junho de 1923), anteriormente intransigente adversário do Espiritismo, e que a ele se converteu após ter participado, na extensão do seu escritório, de uma conversa ao telefone entre a sua neta, falecida em tenra idade, e a mãe dela.[5]

Sua vida divide-se, assim, em três fases distintas: na primeira, aquela em que procura se firmar como escritor; a segunda, quando integra o movimento pela Academia, participa da política e obtém reconhecimento e consagração e, finalmente, a terceira, na qual experimenta os ataques modernistas e o consequente esquecimento.[2]

Academia Brasileira de Letras[editar | editar código-fonte]

Coelho Neto "operando" Artur de Azevedo, numa encenação que imita a Lição de Anatomia de Rembrandt - com Olavo Bilac (que assina), entre outros intelectuais que formaram o grupo fundador da ABL.

Coelho Neto esteve ao lado de Lúcio de Mendonça, idealizador da Academia Brasileira, nas primeiras reuniões que trataram da criação desta entidade literária, e realizadas nos dois últimos meses de 1896.[6]

Foi eleito seu presidente no ano de 1926, sucedendo à primeira gestão de Afonso Celso, e foi seguido por Rodrigo Otávio.[7]

Em 1928, Coelho Neto, que havia sempre recebido hostilidades de Oswald de Andrade, emitiu um parecer em que confere ao escritor menção honrosa no julgamento do concurso de romance da ABL; apesar de participar do movimento modernista, publicamente anti-academicista, Andrade por duas vezes concorreu a uma vaga naquele sodalício.[8]

Literatura[editar | editar código-fonte]

O autor, o mais lido no país durante muitos anos, usou de diversos pseudônimos ao longo de sua vida, nas publicações tanto do Rio de Janeiro quanto de outras cidades, dentre os quais Amador Santelmo, Anselmo Ribas, Ariel, Blanco Canabarro, Caliban, Charles Rouget, Democ, Fur-Fur, Manés, N. Puck ou Tartarin.[1]

Sua extensa obra não se prendia a um só gênero,[1] embora seja considerado integrante do parnasianismo. Sua fecunda produção valeu-lhe a crítica de ser um "fabricante de romances".[2]

Mesmo nos tempos atuais, sua obra é vista como cheia de "pompa e formalismos", dotado de "artifícios retóricos" que foram rejeitados posteriormente pelos autores regionalistas, tal como Lima Barreto, e modernistas.[9]

Lima Barreto, por exemplo, chegou a publicar artigos em periódicos literários, como a Revista Contemporânea e A Lanterna em os quais direciona ataques a Coelho Neto, e sua visão tradicional da literatura; dizia que este preocupava-se somente com o estilo, vocabulário e passava ao largo das questões sociais, políticas e morais, deixando de usar a escrita como instrumento de transformação social.[9]

Num de seus artigos, Barreto escreveu: "Em um século deste, o Senhor Coelho Neto ficou sendo unicamente um plástico, um contemplativo, magnetizado pelo Flaubert da Mme Bovary, com as suas Chinesices de estilo, querendo como os Goncourts, pintar com a palavra escrita (...) mas que não fez de seu instrumento artístico um veículo de difusão das idéias de seu tempo..."[9]

Um outro fator é apontado por estudiosos como responsável pelo desconhecimento póstumo de sua obra, apesar da grande qualidade dos textos, e reside no fato de que as mesmas era editadas pela Lello, na cidade portuguesa do Porto; esse esquecimento, que perpassa mesmo no meio erudito e acadêmico, continuou mesmo após a publicação em 1958, pela editora Nova Aguilar, de uma coletânea em três volumes intitulada Obra Seleta.[10]

Em sua obra distingue-se claramente o romantismo, movimento vigente no final do século XIX e começo do XX, eivado de sentimentos de formação de uma identidade nacional; também se pode ver o registro do rural e o urbano, com os retratos da então capital federal. Teve colaboração na revista Branco e negro[11] (1896-1898)[10]

Opiniões[editar | editar código-fonte]

Foi dos primeiros autores a manifestar preocupações ecológicas; assim como Euclides da Cunha, escrevia contra o desmatamento e as queimadas na Amazônia, deixando manifestos tais como o que diz: "Com a morte das árvores, desaparecem as fontes: rios que rolavam águas abundantes derivam agora de filetes rasos e tão escassos que uma quente semana de verão é bastante para secá-los; a caça rareia."[3]

Coelho Neto foi um dos folcloristas que, com visão romântica, procuraram resgatar a imagem da capoeira no país, até então vista como uma prática de marginais, como sendo um esporte genuinamente brasileiro; defendia que fosse ensinada nas escolas e nas forças armadas, nestas últimas como técnica de defesa pessoal.[12]

Jorge Amado, no livro Vida de Luis Carlos Prestes: o cavaleiro da esperança, resume a obra de Coelho Neto:

“Na Academia Brasileira de Letras, amiga, um homem do país dos rios falava da Grécia. Coelho Neto era de um dos três estados amazônicos, Amazonas, Pará, Maranhão, seus destinos ligados ao grande rio. Havia o cearense, o português, o sírio, o índio, o homem rico e o homem pobre, não havia mulheres, havia a selva, a tragédia, o drama, o inferno em vida. A Amazônia era milhares de romances, de artigos, de poemas. Coelho Neto era símbolo e o chefe de toda uma literatura. Dos homens que haviam substituído na prosa a geração de Aluísio Azevedo, de Raul Pompéia, de Machado de Assis, de Euclides da Cunha e na poesia a geração de Castro Alves. Coelho Neto, Príncipe dos Escritores Brasileiros, considerado o maior de todos os que escreviam no país naquele momento, a literatura dando-lhe um lugar na Câmara, outro lugar na direção de um clube de futebol, dando-lhe empregos. Publicou duzentos livros. Sua letra bonita encheu milhares de folhas de papel, frases, adjetivos, verbos, substantivos, imagens trabalhadas, períodos estudados, os problemas da língua portuguesa de Lisboa caprichosamente analisados. Nem uma linha nesses milhões de linhas sobre os homens lutando na Amazônia, nem uma linha, nem um desaforo, nem um xingamento, contra os que vendiam a Amazônia. A literatura de toda essa geração sem fibra, sem nervos, toda uma geração vendida por migalhas, é a mais sórdida, inútil e falsa literatura do mundo. Mulatos do nordeste e do norte, mestiços do sul, imigrantes de São Paulo, falando todos eles na Grécia. São Luís do Maranhão não é uma cidade do Norte do Brasil: é a Atenas Brasileira, se orgulhando de falar português puro. A política vendia o país, contraía empréstimos, girava em torno de um produto, ora a borracha, ora o café, ora o açúcar, os literatos ignoravam o país. O povo ignorava os literatos e estes vendiam seus livros em Portugal, quando os vendiam. Para essa geração de sensibilidade de moça-da-cidade-pequena o Brasil não existiu. A literatura era escada para empregos, o livro e o artigo matéria para brilho social. Foi essa geração, amiga, quem pariu num aborto cretino a célebre frase: a literatura é um sorriso da sociedade. A sociedade bailava nos salões pagando com ouro estrangeiro a orquestra, pagando com dólar, libra, com marco, com franco, os vestidos, os sapatos, os sorrisos das mulheres, os sorrisos dos literatos. A tradição de luta e de brasileirismo da literatura nacional se perdia nesses desfibrados, maus escritores além de tudo, reles imitadores de quanta porcaria se publicava na Europa. Comprados por míseros empregos, respondendo à sensibilidade de uma burguesia que não a possuía, preocupados com ridículas questiúnculas gramaticais, trancados numa torre que não era de cristal porque não era de um vidro fosco e opaco, esses mulatos pernósticos do Maranhão, de Pernambuco e da Bahia, esses filhos de imigrantes de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que falavam em Grécia e Paris. Traíam a sua missão de escritor, desconheciam seu povo, empregavam sua voz apenas em cantar ditirambos aos vendedores da pátria. Resultavam da classe que enriquecia à base da entrega do Brasil aos imperialismos. Por isso mesmo tinham de ser neutros, apolíticos e medíocres.”

Obras[editar | editar código-fonte]

Dentre os principais trabalhos publicados por Coelho Neto, destacam-se:

  • A Conquista
  • Turbilhão
  • Romance Bárbaro (1914)
  • O Mistério (1920)
  • Fogo fátuo, romance, (1929)
  • Álbum de Caliban, contos, (1897)
  • Contos da vida e da morte, contos, (1927)
  • Mano, Livro da Saudade, romance, (1924)
  • A Cidade Maravilhosa, contos, (1928)
  • O polvo, romance (1924)
  • Rapsódias, contos, (1891)
  • Sertão (1897)
  • A Bico de Penna
  • Rei Negro (1914)
  • A Capital Federal (Impressões de um Sertanejo), romance, (1893)
  • A Conquista, romance, (1899)
  • Tormenta, romance, (1901)
  • Imortalidade, lenda, romance, (1926)
  • O Paraíso (1898)
  • Bazar
  • Fogo Fátuo (1930)
  • Fogo de vista (1923)
  • Teatrinho (1905), coletânea de textos dramáticos para crianças, parceria com Olavo Bilac

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n Academia Brasileira de Letras. Biografia. Visitado em 21 de janeiro de 2012.
  2. a b c Adeítalo Manoel Pinho (2009). O Sistema Literário de "A Conquista" Revista Literatura em Debate V.3, n.4, p. 109-128. Visitado em 22 de janeiro de 2012.
  3. a b Arnaldo Niskier (12/2/2010). Coelho neto e a modernidade Jornal do Commercio. Visitado em 25 de janeiro de 2012.
  4. CURY, Aziz. Legado de Bezerra de Menezes ISBN 978857513091-9
  5. Cronologia Espírita: 1914-1945 Tempos de Comoções in Grupo de Estudos Avançados Espíritas. Visitado em 4 Jun 2011.
  6. ABL. Fundação ABL. Visitado em janeiro de 2012.
  7. ABL. Lista de Presidentes ABL. Visitado em janeiro de 2012.
  8. Academia Brasileira de Letras. Um Parecer de Coelho Neto Revista Brasileira - seção Guardados da Memória. Visitado em 25 de janeiro de 2012.
  9. a b c Juliana P. Rosa; Maria Cândida F. A. Neves (Novembro / 2010). A construção literária no Brasil República e a formação do caráternacional a partir da obra de Lima Barreto Docentes FSD - ISSN: 2177-0441 – Número 2. Visitado em janeiro de 2012.
  10. a b Rafael Ferreira Campos Mendes e Ewerton de Freitas Ignácio (novembro de 2010). Entre dois modus vivendi: arcaísmo e modernidade em Turbilhão, de Coelho Netto Universidade Estadual de Goiás. Visitado em janeiro de 2012.
  11. Branco e Negro : semanario illustrado (1896-1898) cópia digital, Hemeroteca Digital
  12. Vivian Luiz Fonseca (junho de 2008). A Capoeira Contemporânea: antigas questões, novos desafios Recorde: Revista de História do Esporte, volume 1, número 1. Visitado em 21 de janeiro de 2012.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. São Paulo: Global.
  • COELHO NETO, Zita. Coelho Neto, Meu Pai e Grande Amigo. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1964. (Ano do centenário de nascimento de Coelho Neto)
  • DANTAS, Paulo. Coelho Neto. São Paulo: Melhoramentos, 1953.
  • MENEZES, Raimundo de. Dicionário literário brasileiro. 2ª edição. Rio de Janeiro: LTC, 1978.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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