Comenius

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Jan Amos Komenský (em latim, Iohannes Amos Comenius; em português, Comênio; (Nivnice, 28 de março de 1592 - Amesterdão, 15 de Novembro de 1670), foi um bispo protestante da Igreja Moraviana, educador, cientista e escritor checo. Como pedagogo, é considerado o fundador da didática moderna.[1]

Dados biográficos[editar | editar código-fonte]

Comenius nasceu em 28 de março de 1592, na cidade de Uherský Brod (ou Nivnitz), na Morávia, região da Europa Central pertencia ao antigo Reino da Boémia e que hoje corresponde à parte oriental da República Checa. Viveu e estudou na Alemanha e na Polónia.

Foi o último bispo da Igreja Hussita e tornou-se um refugiado religioso. Foi um inovador e um dos primeiros defensores da universalidade da educação, conceito que defende em seu livro Didactica magna. É considerado como o pai da educação moderna.[2] Aplicou um método de ensino mais efetivo, a partir dos conceitos mais simples para chegar aos mais abrangentes. Preconizava o aprendizado contínuo, por toda a vida, e o desenvolvimento do pensamento lógico, em vez da simples memorização. Apoiava o acesso das crianças pobres e das mulheres à escola. Introduziu livros textos escritos na língua nativa dos alunos, em vez de latim. Viveu em diversos países, incluindo a Suécia, a Comunidade Polaco-Lituana, a Transilvânia, o Sacro Império, a Inglaterra, os Países Baixos e o Reino da Hungria.

Era de família eslava e protestante, seguidora da Igreja dos Irmãos Morávios, baseada nas ideias do reformista boémio Jan Huss, estreitamente ligada às Sagradas Escrituras e defensora de uma vida humilde, simples e sem ostentação. Tal educação rígida e piedosa influenciou o espírito de Comenius e o despertou para os estudos teológicos.

Comenius perdeu os pais e as irmãs aos 12 anos e foi educado sem carinho, por uma família de seguidores da Igreja Morava. Sua educação não fugiu aos padrões da época: aprendeu a ler, a escrever e a contar, em um ambiente rígido, sombrio, onde a figura do professor dominava. As crianças eram tratadas como pequenos adultos. Os conteúdos escolares eram inquestionáveis; a rispidez no trato e o uso da palmatória eram a regra. Assim, o rigor da escola e a falta de carinho marcaram a vida do órfão Comenius a ponto de inspirar-lhe os princípios de uma didática revolucionária para sua época. Na Academia Herborn, na Alemanha, cursou teologia, adquirindo uma vasta cultura enciclopédica. Tornou-se pastor, tendo, ainda estudante, começado a escrever. Problemata Miscelanea e Syloge Questiorum Controversum foram suas primeiras obras.

Em Heidelberg, na Alemanha, aprimorou seus estudos de astronomia e matemática. Voltou à Morávia e se estabeleceu em Přerov, atuando no magistério, ansioso por colocar em prática suas ideias pedagógicas. Modificaria radicalmente a forma de ensinar artes e ciências na sua escola, destacando-se como professor.

Pastor e reformador[editar | editar código-fonte]

Ordenado pastor da igreja dos Morávios em 1616, aos 26 anos, mudou para Fulnek, capital da Morávia, onde se casou e teve filhos. Mas era região conturbada por rebelião nascida de disputas entre católicos e protestantes, estopim da Guerra dos Trinta anos. Os exércitos espanhóis, em 1621, invadiram e incendiaram Fulnek quase extinguindo a população. Comenius perdeu a família - mulher e dois filhos - na epidemia de peste que brotou, e perdeu sua biblioteca e seus escritos.

Mudou-se para Polônia em 1628, como a maioria dos Irmãos Morávios, fugindo da perseguição e se estabeleceu em Lezno, onde retomou actividades de pastor e professor. Dedicou-se a escritos religiosos para ajudar a levantar o ânimo de seus irmãos de igreja. Sua fama crescia e ganhou simpatizantes na Inglaterra, onde permaneceu quase um ano. Visitou o reino da Suécia, contratado para promover a reforma do ensino, permanecendo seis anos. Ali se encontrou com René Descartes, que lá vivia sob a proteção da rainha Cristina.

Preocupado com um dos grandes problemas epistemológicos de seu tempo - o método - publicou em 1627 a Česká didaktika ('Didática tcheca'), obra pedagógica fundadora que será traduzida em latim sob o título de Didactica magna em 1638.

Em 1648, doente e desprestigiado entre os seus, estabeleceu-se em Amsterdã, onde se casou de novo em 1649 e retornou a seu trabalho como educador e reformador social. Prestigiado pelas autoridades neerlandesas, viu publicadas todas as suas obras pedagógicas, muitas já famosas.

Comenius morreu, famoso e prestigiado, a 15 de novembro de 1670 em Amsterdã tendo sempre lutado pela fraternidade entre os povos e as igrejas. Foi enterrado em Naarden, onde foi construído um mausoléu. Em 1956, a Conferência Internacional da UNESCO em Nova Delhi (Índia) decidiu a publicação de todas a sua obra e o apontou como um dos primeiros propagadores das ideias que inspiraram - quase 300 anos depois - a fundação da UNESCO.

A pedagogia de Comenius[editar | editar código-fonte]

Propôs um sistema articulado de ensino, reconhecendo o igual direito de todos os homens ao saber. O maior educador e pedagogo do século XVII produziu obra fecunda e sistemática, cujo principal livro é a DIDÁTICA MAGNA. São suas propostas:

  • A educação realista e permanente;
  • Método pedagógico rápido, econômico e sem fadiga;
  • Ensinamento a partir de experiências quotidianas;
  • Conhecimento de todas as ciências e de todas as artes;
  • Ensino unificado.

Defendia sua pedagogia com a máxima: "Ensinar tudo a todos" que sintetizaria os princípios e fundamentos que permitiriam ao homem colocar-se no mundo como autor. Objectivando a aproximação do homem a Deus, seu objectivo central era tornar os homens bons cristãos - sábios no pensamento, dotados de fé, capazes de praticar acções virtuosas estendendo-se a todos: ricos, pobres, mulheres, portadores de deficiências. A didática é, ao mesmo tempo, processo e tratado: é tanto o ato de ensinar quanto a arte de ensinar.

Salientava a importância da educação formal de crianças pequenas e preconizou a criação de escolas maternais, pois teriam, desde cedo, a oportunidade de adquirir as noções elementares do que deveriam aprofundar mais tarde. A educação deveria começar pelos sentidos, pois as experiências sensoriais obtidas por meio dos objetos seriam internalizadas e, mais tarde, interpretadas pela razão. Compreensão, retenção e práticas consistiam a base de seu método didático e, por eles se chegaria às três qualidades: erudição, virtude e religião, correspondendo às três faculdades necessárias - intelecto, vontade e memória.

Fundamentos naturais do método de Comenius:

  • o fim é o mesmo: sabedoria, moral e perfeição;
  • todos são dotados da mesma natureza humana, apesar de terem inteligências diversas;
  • a diversidade das inteligências é tão somente um excesso ou deficiência da harmonia natural;
  • o melhor momento para remediar excessos e deficiências acontece quando as inteligências são novas.

O método tem como preceitos:

  • tudo o que se deve saber deve ser ensinado
  • qualquer coisa que se ensine deverá ser ensinada em sua aplicação prática, uso definido;
  • deve ensinar-se de maneira direta e clara;
  • ensinar a verdadeira natureza das coisas, partindo de suas causas;
  • explicar primeiro os princípios gerais;
  • ensinar as coisas em seu devido tempo;

Com suas ideias inovadoras, Comenius desempenhou uma influência considerável, não somente porque se empenhou em desenvolver métodos de instrução mais rápidos e eficientes, mas também porque desejava que todas as pessoas pudessem usufruir dos benefícios do conhecimento.

A obra de Comenius é um paradigma do saber sobre a educação da infância e juventude, utilizando, para isso, um local privilegiado: a escola. Já a Didática Magna apresenta as características fundamentais da escola moderna: - a construção da infância moderna como forma de pedagogização dessa infância por meio da escolaridade formal (até então, as crianças eram tratadas como pequenos adultos); - uma aliança entre a família e a escola, por meio da qual a criança vai se soltando da influência da órbita familiar para a órbita escolar; - uma forma de organização da transmissão dos saberes, baseada no método de instrução simultânea, agrupando-se os alunos; e - a construção de um lugar de educador, de mestre, reservado aos adultos portadores de saberes legítimos.

Críticas[editar | editar código-fonte]

Segundo José Monir Nasser[3] , o método de Comenius teria trazido prejuízos para a educação ao enfatizar ensino universal de praticamente todas as ciências humanas desde a tenra infância, com um sentido utilitário, o que teria prejudicado a formação de indivíduos com senso crítico mais apurado.

Mas, ao contrário do que argumenta Nasser, o plano pedagógico de Comenius era fundamentalmente voltado às artes liberais. O que Comenius criticava era a aplicação do escolasticismo estéril da Baixa Idade Média ao ensino de crianças e jovens[4] . O currículo de Comenius separava a educação superior da educação pré-universitária de jovens e crianças. Segundo seu currículo, haveria o estudo disciplinas das artes liberais embutidas no nível equivalente ao ensino médio: a gramática, a física, a matemática, a ética, a dialética e retórica, além das línguas clássicas e modernas.

"...que os escolásticos conservem para si a sua língua; nós agora pensamos apenas nos simples e no modo de os levar também a entender as artes liberais e as ciências." Comenius. Didática Magna. Capítulo XXIX 15.

O método que Comenius aplicou na Suécia logo surtiu efeitos. Utilizando o método de Comenius, partir de 1686, a alfabetização de todos os residentes da Suécia passou ser obrigatória. No começo do século XIX, já não havia, praticamente, analfabetismo naquele país.[5]

Na Conferência What does liberal education offer the civil society?, realizada em Budapest, 1996, Roger Martin, presidente do Moravian College (uma faculdade de artes liberais nos Estados Unidos), relembrou do papel de Comenius para desenvolver as artes liberais contemporânea[6] . Essa conferência marcou a reintrodução das artes liberais como programa de ensino superior na Europa.

Obras publicadas[editar | editar código-fonte]

Deixou mais de 200 obras, dentre as quais:

  • Labirinto do Mundo (1623)
  • Didática checa (1627)
  • Schola Ludus (1630)
Alto-relevo numa escola de Dolany (República Checa)
  • Porta Aberta das Línguas (1631)
  • Didacta Magna (versão latina da Didática checa) (1631)
  • Novíssimo Método das Línguas (1647)
  • Mundo Ilustrado (1651)
  • Opera didactica omnia ab anno 1627 ad 1657 (1657)
  • Consulta Universal Sobre o Melhoramento dos Negócios Humanos (1657)
  • O Anjo da Paz (1667)
  • A Única Coisa Necessária (1668)

Referências

  1. Comênio - O pai da didática moderna - Revista Nova Escola.
  2. John Amos Comenius Biography
  3. NASSER, José Monir. in JOSEPH, Miriam. O Trivium. As Artes Liberais da Lógica, Gramática e Retórica. É Realizações: São Paulo. 2011. p. 11-16.
  4. COMENIUS, Didactica Magna, xxx, 2
  5. Nilsson, Anders, et al. (1999). "Agrarian Transition and Literacy: The Case of Nineteenth Century Sweden." European Review of Economic History 3: 79-96.
  6. Liberal Learning Eastern European Students Experience Advantages Of Comenius' Educational Reforms
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