Commedia dell'arte

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A commedia dell'arte é uma forma de teatro popular que aparece no século XV, na Itália, e se desenvolve posteriormente na França, permanecendo até o século XVIII, quando da reforma goldoniana da comédia.

A “commedia dell'arte” veio se opor à “comédia erudita”, também sendo chamada de commedia all'improviso e commedia a soggetto.

Suas apresentações eram realizadas nas ruas e praças públicas. As companhias eram itinerantes e possuíam uma estrutura de esquema familiar. Ao chegarem a cada cidade, pediam permissão para se apresentar nas suas carroças ou em pequenos palcos improvisados. Os atores seguiam apenas um roteiro simplificado (canovaccio) e tinham total liberdade para improvisar e interagir com o público. Os personagens ou "máscaras" [1] eram fixos, sendo que muitos atores representavam apenas e exclusivamente um desses papéis durante toda a vida.

Personagens[editar | editar código-fonte]

Histórico[editar | editar código-fonte]

Cena do palco improvisado de uma trupe viajante, em contraste com as ruínas romanas idealizadas (Karel Dujardins, 1657. Museu do Louvre)

As origens exatas desta forma de comédia são desconhecidas. Alguns reconhecem nela a herdeira das Festas Atelanas, assim chamadas porque se realizavam na cidade de Atella, na Península Itálica meridional, em homenagem a Baco. As Fabulae Atellane, farsas populares burlescas e grosseiras, eram uma das modalidades de comédia da antiguidade romana.

I Gelosi (Os Ciumentos), dos irmãos Andreni, foi a primeira companhia teatral de que se tem notícia. Foi fundada em 1545 por oito atores de Pádua que se comprometeram a atuar juntos até à quaresma de 1546. Foram os primeiros a conseguir viver exclusivamente da sua arte. Neste âmbito, destaca-se também o nome de Angelo Beolco (1502-1542), mais conhecido como Ruzante, considerado um precursor da commedia dell’arte. Beolco foi autor dos primeiros documentos literários em que os personagens eram tipificados. Outra das suas facetas mais conhecidas foi a de ator. Ele representava a personagem de Ruzante, um camponês guloso, grosseiro, preguiçoso, ingénuo e zombador.

Companhia I Gelosi (1580 d.C.).

No século XVIII , a commedia dell'arte entra em decadência, tornando-se vulgar e licenciosa. Alguns autores tentaram recuperá-la, criando textos baseados em situações típicas desse estilo de teatro, mas a espontaneidade e a improvisação que lhe eram peculiares não tardou a desaparecer. Em meados do século XVIII, o dramaturgo veneziano Carlo Goldoni revitalizou as fórmulas da commedia dell'arte através da introdução do texto escrito e elementos mais realistas, que tornaram as suas peças conhecidas em todo o mundo. [2]

Desde o seu início, a commedia dell'arte fascinou e atraiu o público entre as classes sociais mais elevadas. As melhores companhias - I Gelosi, I Confidenti, I Fedeli – conseguiram levar as suas peças da rua para o palácio, fascinando audiências mais nobres. Devido a esse apoio, foi-lhes permitido extrapolar as fronteiras do seu país de origem e viajar por toda a Europa, especialmente a partir de 1570. As companhias itinerantes levaram as suas peças a todas as grandes cidades da Europa renascentista, deixando a sua marca em França, Espanha, Inglaterra, entre outros. Mais tarde, dramaturgos como Ben Jonson, Molière, Marivaux e Gozzi vão inspirar-se nas personagens estereotipadas da commedia dell'arte.

Descrição[editar | editar código-fonte]

Os grupos de atores itinerantes montavam um palco ao ar livre e proviam o divertimento através de malabarismos, acrobacias e, mais tipicamente, peças de humor improvisadas, baseadas num repertório de personagens preestabelecidos e num roteiro descritivo das cenas (canovaccio). Essas trupes ocasionalmente atuavam na parte de trás de suas carroças de viagem, embora fosse mais comum a utilização do carro de Téspis, um teatro móvel de antigamente.

As apresentações eram improvisadas em cima de um estoque de situações convencionais: adultério, ciúme, velhice, amor. Esses personagens englobavam o ancestral do palhaço moderno. O diálogo e a ação poderiam facilmente ser atualizados e ajustados para satirizar escândalos locais, eventos atuais, ou manias regionais, misturados com piadas e bordões. Os personagens eram identificados pelo figurino, máscaras, e até objetos cênicos, como o porrete. Os Lazzi e Conchetti também são usados.

Na trama tradicional, os innamorati (enamorados) querem se casar, mas um ou mais vecchi (velhos) estãoimpedindo-os de se casar; então, eles precisam de um ou mais zanni para ajudá-los. Tipicamente termina tudo bem com o casamento dos enamorados e o perdão por todas as confusões causadas. Há inúmeras variações dessa história, assim como há muitas que divergem completamente dessa estrutura, como uma famosa história em que o Arlecchino fica misteriosamente “grávido”.

Personagens[editar | editar código-fonte]

Antoine Watteau - Comediantes italianos

Os personagens eram interpretados por autores usando máscaras, embora os innamorati (ou enamorados) não as usassem. Assim como os da mesma época (Shakespeare), os italianos vestiam atores homens en travesti – com roupas de mulheres e perucas. Diferentemente dos atores do teatro renascentista inglês, eles o faziam por propósitos humorísticos - não por proibição legal.

Alguns personagens representavam regiões ou capitais italianas, como o Meneghino, identificado com a cidade de Milão . Frequentemente eles ainda são símbolos de suas cidades.

Características[editar | editar código-fonte]

As representações teatrais, levadas a cabo por atores profissionais, eram feitas nas ruas e nas praças, e fundaram um novo estilo e uma nova linguagem, caracterizadas pela utilização do cómico. Ridicularizando militares, prelados, banqueiros, negociantes, nobres e plebeus, o seu objetivo último era o de entreter um vasto público que lhe era fiel, provocando o riso através do recurso à música, à dança, a acrobacias e diálogos pejados de ironia e humor.

As encenações da Commedia dell’arte baseavam-se na criação colectiva. Os actores apoiavam-se num esquema orientador e improvisavam os diálogos e a acção, deixando-se levar ao sabor da inspiração do momento, criando o tão desejado efeito humorístico. Eventualmente, as soluções para determinadas situações foram sendo interiorizadas e memorizadas, pelo que os actores se limitavam a acrescentar pormenores que o acaso suscitava, ornamentados com jogos acrobáticos.

O elevado número de dialectos que se falavam na Itália pós-renascentista determinou a importância que a mímica assumia neste tipo de comédia. O seu uso exagerado servia, não só o efeito do riso, mas a comunicação em si. Comumente uma companhia nada fazia para traduzir o dialecto em que a peça era representada à medida que fosse actuando nas inúmeras regiões por que passava. Mesmo no caso das companhias locais, raras eram as vezes em que os diálogos eram entendidos na sua totalidade. Daí que atenção se centrasse na mímica e nas acrobacias, a única forma de se ultrapassar a barreira da ausência de unidade linguística.

As companhias, formadas por até dez ou doze actores, apresentavam personagens tipificados. Cada actor desenvolvia e especializava-se numa personagem fixa, cujas características físicas e habilidades cómicas eram exploradas até ao limite. Variavam apenas as situações em que as personagens se encontravam.

O comportamento destas personagens enquadrava-se num padrão: o amoroso, o velho ingénuo, o soldado, o fanfarrão, o pedante, o criado astuto. Scaramouche, Briguela, Isabela, Columbina, Polichinelo, Arlequim, o Capitão Matamoros e Pantaleone são personagens que esta arte celebrizou e eternizou. Importante na caracterização de cada personagem era o vestuário, e em especial as máscaras. As máscaras utilizadas deixavam a parte inferior do rosto descoberto, permitindo uma dicção perfeita e uma respiração fácil, ao mesmo tempo que proporcionavam o reconhecimento imediato da personagem pelo público.

As peças giravam em torno de encontros e desencontros amorosos, com um inesperado final feliz. As personagens representadas inseriam-se em três categorias: a dos enamorados, a dos velhos e a dos criados (zannis). Estes últimos constituíam os tipos mais variados e populares. Havia o zanni esperto, que movimentava as acções e a intriga, e o zanni rude e simplório, que animava a acção com as suas brincadeiras atrapalhadas. O mais popular é, sem dúvida, Arlequim, o empregado trapalhão, ágil e malandro, capaz de colocar o patrão ou a si em situações confusas, que desencadeavam a comicidade. No quadro de personagens, merecem ainda destaque Briguela, um empregado correcto e fiel, mas cínico e astuto, e rival de Arlequim, Pantaleone ou Pantaleão, um velho fidalgo, avarento e eternamente enganado. Papel relevante era ainda o do Capitano (capitão), um covarde que contava as suas proezas de amor e em batalhas, mas que acabava sempre por ser desmentido. Com ele procurava-se satirizar os soldados espanhóis.

As representações tinham lugar em palcos temporários, na maior parte das vezes nas ruas e praças das cidades e, ocasionalmente, na corte. A precaridade dos meios de transporte e vias e as consequentes dificuldades de locomoção, determinavam a simplicidade e minimalismo dos adereços e cenários. Muitas vezes, estes últimos resumiam-se a uma enorme tela pintada com a perspectiva de uma rua, de uma casa ou de um palácio. O actor surge assim como o elemento mais importante neste tipo de peças. Sem grandes recursos materiais, eles tornaram-se grandes intérpretes, levando a teatralidade ao seu expoente mais elevado.

Referências

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]