Confissão de Pedro

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Ordenação.
1630. Por Nicolas Poussin, atualmente em coleção privada.

No cristianismo, a Confissão de Pedro (do título da seção em latim do Evangelho de Mateus na Vulgata: Confessio Petri) é um episódio do Novo Testamento no qual o apóstolo Pedro proclama Jesus como sendo o Cristo - o esperado Messias. A proclamação está descrita nos três evangelhos sinóticos em Mateus 16:13-20, Marcos 8 27:30 e Lucas 9:18-20[1] [2] .

A proclamação de Jesus como Cristo é fundamental para cristologia e a confissão de Pedro - e a aceitação de Jesus ao título - é a frase definitiva sobre o assunto na narrativa do Novo Testamento[3] [4] . No episódio, Jesus não apenas aceita os títulos de Cristo e Filho de Deus, mas declara a proclamação como sendo revelação divina ao afirmar que seu Pai Celestial a revelou a Pedro, se declarando inequivocamente como sendo tanto Cristo e Filho de Deus[4] .

Neste episódio, Jesus também seleciona Pedro como o líder dos apóstolos e afirma que "sobre esta pedra edificarei a minha igreja". A maior parte das denominações cristãs concorda que esta frase se refere a Pedro, mas elas divergem entre si nas interpretações sobre o que acontece após Pedro[5] .

A Confissão de Pedro é também o nome de uma festa litúrgica celebrada por diversas igrejas cristãs, geralmente como parte da Semana de Oração pela Unidade Cristã[6] [7] .

Narrativa bíblica[editar | editar código-fonte]

Confissão de Pedro em «...quem dizeis que sou eu? Respondeu Pedro: O Cristo de Deus.» (Lucas 9:20)[2] .
Vitral na Igreja de St Mary e St Lambert em Stonham Aspal, em Suffolk, na Inglaterra.

Contexto e cenário[editar | editar código-fonte]

No Novo Testamento, esta perícope e o relato da Transfiguração de Jesus, que se segue, aparecem pelo meio da narrativa evangélica e, juntas, elas marca o início de uma gradual revelação da verdadeira identidade de Jesus aos seus discípulos[8] [9] .

A cena ocorre perto de Cesareia de Filipe, na Palestina setentrional, e no início da jornada final em direção a Jerusalém, que terminará com a crucificação e a ressurreição de Jesus[1]

A Confissão de Pedro começa como um diálogo entre Jesus e seus discípulos em Mateus 16:13, Marcos 8:27 e Lucas 9:18. Jesus começa a perguntar sobre quais seriam as opiniões do povo em relação a si próprio, "Que dizem os homens que sou eu?"[1] . Os discípulos então proveem uma variedade de hipóteses comuns na época, passando João Batista, Elias, Jeremias e outros profetas[1] . Anteriormente, estas hipóteses sobre a identidade de Jesus já haviam aparecido em Marcos 14:16, ditas pelos cortesãos de Herodes Antipas quando eles ponderavam se Jesus seria o Precursor ressuscitado[1] [10] .

Proclamação e aceitação[editar | editar código-fonte]

Nos três relatos evangélicos, após perguntar sobre as opiniões da multidão, Jesus pergunta aos discípulos sobre suas próprias opiniões: "Mas vós, quem dizeis que sou eu?". Apenas Simão Pedro responde: " Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo."[2] [11] .

Apenas em Mateus 16:17, Jesus abençoa Pedro por sua resposta e, posteriormente, o indica como sendo a rocha da Igreja. O trecho começa assim:

«Bem-aventurado és, Simão Bar-Jonas, porque não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus.» (Mateus 16:17)

Ao abençoar Pedro, Jesus não apenas aceita os títulos de "Cristo" e "Filho de Deus" que Pedro lhe atribui, mas também declara que a proclamação é uma revelação divina ao dizer que foi seu Pai Celestial quem a revelou ao apóstolo[4] . Nesta afirmação, ao endossar ambos os títulos como sendo revelação divina, Jesus inequivocamente se declara Cristo e Filho de Deus[4] .

Escolha de Pedro[editar | editar código-fonte]

Em Mateus 16:18, Jesus continua:

«Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja; e as portas do Hades não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus...» (Mateus 16:18)

A palavra "igreja" (em grego: ekklesia), como utilizada aqui, aparece nos evangelhos apenas uma outra vez, em Mateus 18:17, e se refere à comunidade de crentes da época[3] . As "portas do Hades" se referem ao submundo, morada dos mortos, e aos poderes que se opunham a Deus não serem capazes de triunfar sobre a igreja[12] . As Chaves do céu se referem à metáfora utilizada sobre o Reino de Deus como sendo um "lugar onde se entra" e aparece também em Mateus 23:13, de onde se infere que esta entrada pode ser fechada[12] .

A autoridade de Pedro é confirmada ainda mais pelo verso seguinte, "...o que ligares sobre a terra, será ligado nos céus; e o que desligares sobre a terra, será desligado nos céus." Como discutido na seção seguinte, as diversas denominações cristãs atribuem interpretações diferentes sobre o que significa esta autoridade.

Os três evangelhos terminam o relato com Jesus pedindo aos discípulos que mantenham segredo sobre a sua identidade, uma afirmação que deu origem, no século XX, à teoria do Segredo Messiânico no Evangelho de Marcos.

Questões específicas por denominação[editar | editar código-fonte]

Interpretações[editar | editar código-fonte]

As diversas denominações cristãs interpretam Mateus 16:18 de variadas maneiras. Embora a maioria concorde que o versículo se refira a Pedro, elas divergem sobre o que acontece em seguida e o que isso significa[5] .

Confissão de Pedro.
1904. Escultura atualmente na Igreja de São Pedro em Sarleinsbach, na Áustria.

Na Igreja Católica, as palavras de Jesus, "sobre esta rocha edificarei a minha igreja", são interpretadas como sendo a fundação da doutrina do papado, através da qual a Igreja de Cristo seria fundada sobre Pedro e seus sucessores, os bispos de Roma[13] . O versículo seguinte, "e as portas do Hades não prevalecerão contra ela", é interpretada como sendo a fundação da doutrina da infalibilidade papal[14] .

A Igreja Ortodoxa e as de Ortodoxia Oriental não rejeitam a sucessão dos papas mas enxergam nas palavras de Jesus sobre "as ligações" como sendo uma graça concedida inicialmente sobre Pedro (que o fez "Pedra de Confissão"), mas posteriormente a todos os apóstolos coletivamente (sendo Pedro o "primeiro entre iguais"). Os ortodoxos acreditam na infalibilidade da Igreja como um todo, mas que qualquer indivíduo, independente da posição que ocupa, pode estar sujeito a erros[5] .

As denominações protestantes (luteranos, anglicanos, calvinistas) acreditam que o verso afirma que São Pedro foi a pedra inaugural da Igreja, mas não aceitam que ela se aplique a uma contínua sucessão de papas, como bispos de Roma. A afirmação sobre as portas do Hades é geralmente interpretada como significando que a Igreja jamais se extinguirá[14] [5] .

Já os pentecostais, ignoram completamente esta idéia, afirmando que há, na realidade, uma figura de linguagem onde a Confissão de Pedro é, em si mesma, a referida rocha.

Reuniões ecumênicas entre as diferentes denominações já foram realizados para tratar destas divergências, mas não foi possível chegar ainda numa versão que todas concordem[5] .

Comemorações[editar | editar código-fonte]

Antes do Concílio Vaticano II, a Igreja Católica celebrava a festa da Cátedra de São Pedro em 18 de janeiro. Desde então, a festa é celebrada em 22 de fevereiro. A Igreja Católica jamais celebrou a festa sob o nome de "Confissão de Pedro"[15] . Nas igrejas anglicanas e luteranas, esta mesma festa é celebrada como "Festa da Confissão de Pedro" em 18 de janeiro[7] .

A Confissão de Pedro é o começo da "Semana de Orações pela Unidade Cristã" - atualmente uma oitava ao invés de semana - e era originalmente conhecida como "Oitava da Unidade Cristã". Trata-se de uma observância litúrgica cristã ecumênica que se iniciou em 1908 e que vai de 18 até 25 de janeiro (a Festa da Conversão de São Paulo)[7] .

Ver também[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Confissão de Pedro

Referências

  1. a b c d e The Collegeville Bible Commentary: New Testament by Robert J. Karris 1992 ISBN 0814622119 pages 885-886
  2. a b c Who do you say that I am? Essays on Christology by Jack Dean Kingsbury, Mark Allan Powell, David R. Bauer 1999 ISBN 0664257526 page xvi
  3. a b The Gospel of Matthew by Rudolf Schnackenburg 2002 ISBN 0802844383 pages 7-9
  4. a b c d One teacher: Jesus' teaching role in Matthew's gospel by John Yueh-Han Yieh 2004 ISBN 3110181517 pages 240-241
  5. a b c d e The people's New Testament commentary by M. Eugene Boring, Fred B. Craddock 2004 ISBN 0664227546 page 69
  6. Pocket Dictionary of Liturgy & Worship by Brett Scott Provance 2009 ISBN 9780830827077 page 59
  7. a b c Exciting holiness: collects and readings for the festivals by B. Tristam ISBN 1853114790 Canterbury Press 2003 pages 54-55
  8. The Christology of Mark's Gospel by Jack Dean Kingsbury 1983 ISBN 0800623371 pages 91-95
  9. The Cambridge companion to the Gospels by Stephen C. Barton ISBN 0521002613 pages 132-133
  10. The Gospel of Mark, Volume 2 by John R. Donahue, Daniel J. Harrington 2002 ISBN 0814659659 page 336
  11. Christology and the New Testament by Christopher Mark Tuckett 2001 ISBN 0664224318 page 109
  12. a b The Gospel of Matthew (Sacra Pagina Series, Vol 1) by Dainel J. Harrington 1991 ISBN 9780814658031 page 248
  13. Upon this Rock: St. Peter and the Primacy of Rome in Scripture and the Early Church by Stephen K. Ray 1999 ISBN 9780898707236 pages 11-15
  14. a b Papal infallibility: a Protestant evaluation of an ecumenical issue by Mark E. Powell 2009 ISBN 9780802862846 pages 35-40
  15. Preaching the Revised Common Lectionary Year A: Advent, Christmas, Epiphany, Part 1 by Marion L. Soards, Thomas B. Dozeman 1992 ISBN 068733800X page 130