Consciência Histórica

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Consciência histórica pode ser entendida como uma representação social que uma coletividade adquire advinda de seu desenvolvimento no espaço e no tempo. É o elemento que permite ao homem compreender a dimensão da própria história, sem o qual o homem não poderia compreender quem ele é ou o que foi.

Conceitos de Consciência Histórica[editar | editar código-fonte]

Nas palavras de Raymond Aron: "A consciência do passado é constitutiva da existência histórica. O homem tem realmente um passado a que ele tem consciência, pois só esta consciência introduz a possibilidade do diálogo e da escolha. Caso contrário, os indivíduos e as sociedades trariam consigo um passado que eles ignoram, que eles se submetem passivamente... Então eles não teriam consciência do que eles são e do que foram, eles não compreenderiam a dimensão da própria história[1] ".

Para Agnes Heller, a consciência histórica se dá em diferentes estágios. Num primeiro estágio, aquele onde a humanidade transcende o mundo, os instintos são naturalmente substituídos por normas e estas são relativizadas com a de outros grupos. Esse é o momento em que se forma uma primeira consciência histórica. Num segundo momento, têm-se a percepção de que a humanidade não evolui (necessariamente) para o progresso, o que dá forma a um novo estágio desta consciência. Por fim, a consciência de que a racionalidade e a ciência não conseguem dar conta da evolução humana, e de que o futuro é missão de cada um e de todos, acaba por culminar na atual configuração da consciência histórica[2] .

Diferentemente de Heller, Hans-Georg Gadamer acredita que somente nossa visão atual sobre a história pode ser tomada como consciência histórica, não existindo, portanto, estágios anteriores ou mesmo outras consciências. A consciência histórica, para Gadamer, pode ser definida como o "privilégio do homem moderno ter plena consciência da historicidade de todo o presente e da relatividade de toda opinião[3] ".

Marc Ferro chama atenção para a possibilidade de coexistirem, num mesmo grupo social, múltiplos focos de consciência histórica. Um exemplo disso pode ser verificado na dualidade entre as instituições (a história oficial) e os setores de oposição (contra-história), além de outros focos esparsos[4] .

De acordo com Antonio Gramsci, aquilo que as pessoas pensam é fruto de uma sedimentação da história, onde valores, ideias e imagens de períodos anteriores não desaparecem com a desestruturação de seus períodos, pelo contrário, tais fragmentos permanecem, com intensidade variável, sobre a forma dos indivíduos se definirem e compreenderem o mundo.

O historiador Luis Fernando Cerri, em sua compreensão acerca de consciência histórica, afasta-se de Gadamer por considerar que este não leva em consideração a heterogeneidade cultural presente, sendo que, somente aqueles que obtiveram uma educação formal, laica e humanista, bem como acesso a informações mundializadas, teriam condições para desenvolver uma “consciência histórica”. Cerri aproxima-se da ideia subentendida em Heller, de que existem diversas formas de conceber o grupo em relação ao tempo, bem como a ideia que, em Ferro, diferentes consciências coexistem numa mesma sociedade. Por fim, ele recorre à Gramsci, no sentido de que aquilo que forma a consciência histórica, provem tanto das representações da classe dominante atual, como da permanência de outras representações, que tiveram maior importância em outros momentos históricos[5] .

Conhecimento e Consciência Histórica[editar | editar código-fonte]

Tema evanescente, impreciso e incompreendido tanto na fisiologia humana como na psciologia coletiva, o termo “consciência”, devido ao seu aspecto metafísico, está condenado a permanecer como uma entidade abstrata. De outro lado, o conhecimento do passado é uma operação intelectual e espiritual erigida sobre a erudição e os novos métodos científicos. Na tentativa de estabelecer uma ponte entre a consciência e o conhecimento histórico, a adoção dos métodos da psicologia coletiva apareceu como um recurso, permitindo definir tanto a consciência como o objeto, relacionando-os com a representação social, como explica Pierre Mannoni:

"Em geral, as representações mentais aparecem como 'entidades' de 'natureza cognitiva' refletindo, no sistema mental de um indivíduo, uma fração do universo da produção de uma imagem que o tema elabora utilizando suas faculdades cognitivas, elas mesmas dependentes de substrato neurológico. Todo tema dispõe de um conjunto de representações constitutivas de sua informação e de sua memória semântica: estes são os tipos de representação. No entanto, como é impensável tratar o humano como um ser desintegrado de todo o meio, e compreendido como "espírito puro", é necessário considerar a produção de representações mentais no intercâmbio que cada indivíduo tem com seu meio ambiente, bem como quais são as características do meio, através das experiências, envolvem a produção de uma representação mental particular[6] ".

Alguns desses aspectos pertinentes à psicologia coletiva, que são o imaginário, a memória semântica e a inserção do grupo no meio, podem ser verificados a seguir:[7]

  1. O imaginário: as imagens, representações das visões de um indívidio ou grupo que exprimem o modo de conceber sua relação com o mundo. É o que dá lógica ao seu papel histórico. É a Historicidade, o papel individual no coletivo.
  2. A memória semântica: o sentido de todo o conjunto de imagens, que se sobrepõe à lógica histórica. O Significado da história, o sentido para a coletividade. Emerge o conceito de um corps de l'histoire. Inicialmente, tem-se a compreensão deste corpo, geralmente relacionado às limitações territoriais: a nação (figura maternal). Tal entendimento do corpo exige a necessidade de uma “cabeça”, que se dá com o Estado (figura paternal), autoridade que ordena a disciplina das populações. O grupo humano identica-se com o Filho, que explora o corpo da Mãe e em conformidade com as exigências do Pai.
  3. A inserção do grupo no meio e seus valores morais. François Grégoire fala da existência de uma “fundamental e permanente ambiguidade” no pensamento moral que se deu através dos séculos[8] . Toda a doutrina ética, de qualquer época, tem uma dupla aparência, uma oposição entre uma restrição externa que “obriga”, mais ou menos, o indivíduo; e uma aspiração interna, que conduz o indivíduo a um ideal. Os grupos humanos tendem a elevar este conflito para os diversos campos da sociedade: econômico, político, cultura e intelectual. Desta oposição nasce a Moralização da história.

Os níveis da Consciência Histórica[editar | editar código-fonte]

Não é necessário dizer que todos os indivíduos, todos os grupos humanos e todas as civilizações não compartilham da mesma relação com seu espaço-tempo. Nem se pode negar que haja níveis de consciência histórica.

Um primeiro nível de consciência pode ser exemplificado pelo mito do “eterno retorno”, onde a história se apresenta como cíclica, repetindo no presente condições do passado; ou ainda, são as ideias acerca de progresso ou decadência, que obriga o indivíduo ou sociedades a olharem sempre para o passado em busca de um elemento passível de comparação.

Um segundo nível se desenvolve na participação dos indivíduos nos afazeres do mundo. A militância política, seja ela nacionalista ou socialista (e daí a consciência nacional ou consciência social) e o feminismo (pela liberação e igualdade dos sexos), são representativos desse segundo nível.

Um terceiro nível ocorre da relação entre o imaginário e o conhecimento do passado. Os romances históricos, a TV e o cinema contribuem na exploração deste nível, uma vez que o que eles produzem são ficção e não a reprodução do real, ou seja, da verdade tal como concebemos na epistemologia. Compõem ainda este nível, a “história-espetáculo”, os grupos de folclore que reproduzem a história regional, os participantes de eventos como batalha campal, que reconstituem armas, vestimentas e armaduras militares de outras épocas e também os monumentos patrimoniais.

O quarto nível de consciência histórica é a dos filósofos que questionam as formas. Seus questionamentos nos levam a perceber que as coisas que fazemos no presente, com as intenções (motivações, inspirações) que são as nossas, nos conduzem a resultados que são imprevisíveis, estranhos ou inacessíveis ao nosso espírito. Um exemplo disso é dado por Gibbon, em sua Autobiografia: da observação de uma procissão católica diante de um templo romano dedicado a Júpiter, surgiu-lhe o questionamento: os romanos poderiam conceber, algum dia, que o templo erigido a Júpiter, serviria, no futuro, para celebrar uma missa católica? Este questionamento, revolucionário em si, demonstra o nosso desconhecimento acerca das consequências de nossas ações.

Por fim, um quinto nível de consciência histórica poderia ser qualificado como o sentimento trágico da história. Vivemos um sentimento de inquietante estranheza quando viramos as páginas de um livro de história, como se nosso mundo atual escapasse, para sempre, destas páginas que listam tantos sofrimentos dos homens e mulheres do passado. Somos, portanto, incapazes de pensar que tais eventos traumáticos poderiam afetar a nós e ao nosso redor. Vivemos nossa história como que projetados para seu exterior, de onde esta tendência em considerar espaço-tempo não passassem de exotismos temporais.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. AARON, Raymond. Dimensions de la conscience historique, Paris, Plon, 1964, p. 5
  2. CERRI, Luis Fernando. Ensino de História e Nação na Propaganda do "Milagre Econômico". Revista Brasileira de História, Vol. 22, no 43, 2002, p. 197
  3. Ibdem. p. 197.
  4. Ibdem, p. 198.
  5. Ibdem, p. 199.
  6. MANNONI, Pierre. Les représentations sociales, Paris, P.U.F. Col. Que sais-je? # 3329, 1998, p. 10
  7. Estes três aspectos foram elaborados e desenvolvidos por Jean-Paulo Coupal, em um curso ministrado por ele em 2010, que resultou na publicação do artigo Psychologie Collective et Conscience Historique (Montréal, Édition de l'Auteur, 2010, 126 p.). Outras aplicações dessa abordagem podem ser encontradas no blog do autor: jeanpaulcoupal.blogspot.com
  8. GRÉGOIRE, F. Les grandes doctrines morales, Paris, P.U.F., Col. Que sais-je?, É# 638, 1955, pp. 9 e 12.