Crônica do Padre de Dóclea

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A Crônica do Padre de Dóclea (Presbyter Diocleas), conhecida também como Crônica de Dóclea, é uma crônica medieval do Principado de Dóclea (Duklja). Sua cópia mais antiga ainda existente é do século XVII e acredita-se que ela foi compilada pelo menos no século XIV ou XV, embora o autor alegue ser o arcebispo de Bar numa época que o cargo não existia. Historiadores descartam a obra por conta das suas inúmeras incorreções e invenções, mas, mesmo assim, ela contém algum material semi-mitológico sobre a história primitiva dos eslavos do sul. A quinta parte, chamada "Hagiografia do Santo Sérvio João Vladimir" é considerada como sendo a novelização de uma obra anterior.

Autor[editar | editar código-fonte]

Há várias teorias sobre quem seria o autor da obra:

Uma das principais controvérsias sobre a Crônica está justamente no fato de que o arcebipado de Antivari não existia entre 1142 e 1198. Umas poucas notas autobiográficas identificando o autor se preservaram na porção introdutória da própria obra, chamada de "O Reino dos Eslavos".

Língua[editar | editar código-fonte]

A obra só sobreviveu em suas redações latinas[4] dos séculos XVI e XVII, mas sua língua original, segundo indicação do próprio autor, era o antigo eslavônico eclesiástico:

Instado por vocês, meus amados irmãos em cristo e honrados padres da santa Arquidiocese da Igreja em Dóclea e também por alguns anciões, mas, especialmente, pelos jovens de nossa cidade, que se deliciam não apenas em ouvir e ler sobre as guerras, mas em tomar parte nelas também, a traduzir da língua eslava para o latim a obra intitulada em latim Regnun Sclavorum no qual todos os feitos e guerras deles foram descritos...

Conteúdo[editar | editar código-fonte]

A Crônica está dividida em seis grandes partes:

O autor tentou apresentar uma visão geral das famílias reinantes no decurso de dois séculos — do século X até sua própria, o século XII. Há 47 capítulos no texto.

Folclore e traduções[editar | editar código-fonte]

É geralmente aceito que este presbítero incluiu em sua obra material folclórico e literário de fontes eslavas que ele depois traduziu para o latim. Entre o que ele traduziu (e não inventou) está "A Lenda do Príncipe Vladimir", que foi supostamente escrito por outro clérigo de Krajina, na Dóclea. Em sua versão original, tratava-se de uma obra hagiográfica, a "Vida de Santo Vladimir" ao invés da "Lenda". O príncipe Vladimir, o protagonista da história, assim como o rei Vladislau, que ordenou a sua morte, eram personalidades históricas, mas, apesar disso, a obra contém muito material não histórico.

Impacto[editar | editar código-fonte]

Mavro Orbini, o autor de "Il Regno dei Slavi" (Regnum Sclavorum, 1601) tomou emprestado o título de "O Reino dos Eslavos" da obra do padre de Dóclea e baseou seu relato na informação que encontrou ali.

Vários fatos incorretos ou simplesmente errados no texto tornam a obra pouco confiável. Historiadores modernos tem sérias dúvidas sobre a maioria do que se encontra ali como sendo puramente material ficcional ou wishful thinking. Alguns chegam ao ponto de defender que ela seja completamente descartada, mas esta não é a opinião majoritária, que defende que ela apresenta uma visão única da época sob o ponto de vista das populações eslavas indígenas da região. O tema ainda é tópico de discussão[5] .

A obra descreve os eslavos locais como um povo pacífico importado pelos governantes sérvios locais que invadiram a área no século V, mas não tenta elaborar sobre como e quanto isto teria acontecido. Esta informação contradiz o que nos conta o imperador bizantino Constantino VII Porfirogênito em De Administrando Imperio.

A Crônica também menciona um Svetopeleg or Svetopelek, o oitavo descendente dos invasores sérvios originais, como sendo o monarca das terras que cobrem os estados modernos da Croácia, Bósnia e Herzegovina, Montenegro (Dóclea) e a Sérvia. Ele também é creditado como sendo o responsável pela cristianização dos godos e eslavos - uma atribuição fictícia. Estas alegações sobre um reino unificado são provavelmente o reflexo da glória anterior da Grande Morávia. Ele pode também estar fazendo referência ao Caganato Ávaro.

O capítulo IX da Crônica menciona Methodus ou Liber Methodios, um texto do ano 753, como sendo a fonte.

Referências

  1. Danijel Dzino. Becoming Slav, Becoming Croat: Identity Transformations in Post-Roman and Early Medieval Dalmatia. [S.l.]: BRILL, 2010. ISBN 9004186468. Visitado em 2012-09-12.
  2. Tibor Živković: On the Beginnings of Bosnia in the Middle Ages, 2010; in Spomenica akademika Marka Šunjića (1927-1998), University of Sarajevo, p. 172, [1]; in the Yearbook of the Center for Balkan Studies of the Academy of Sciences and Arts of Bosnia and Herzegovina, p. 155, in Serbian, [2]
  3. S. Bujan, La Chronique du pretre de Dioclee. Un faux document historique, Revuedes etudes byzantines 66 (2008) 5–38
  4. The legend of Basil the Bulgar-slayer, p. 27
  5. Ljetopis popa Dukljanina pred izazovima novije historiografije, Zagreb, 3. ožujka 2011. godine (em croatian) Historiografija.hr (2011-07-11). Visitado em 2012-11-21.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]