Damáscio

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Damáscio (em grego: Δαμάσκιος; Damasco, c. 458 d.C. - após 538), conhecido como "o último dos neoplatônicos", foi um filósofo da Antiguidade, o último escolarca da Escola de Atenas. Foi um dos filósofos pagãos perseguidos por Justiniano, no início do século VI, e foi forçado se refugiar por um tempo na corte do Império Sassânida (persa), antes de receber permissão para voltar ao Império Bizantino. De sua obra restam atualmente apenas três comentários sobre as obras de Platão, e um texto metafísico intitulado Dificuldades e Soluções dos Primeiros Princípios.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Damáscio nasceu em Damasco, na província romana da Síria, de onde vem o seu nome; seu nome original é desconhecido. Em sua juventude foi para Alexandria, onde passou doze anos como pupilo de Téon, um retórico, no início, e como professor de retórica, posteriormente. Voltou-se então para a filosofia e a ciência, estudando com Hérmias e seus filhos, Amônio e Heliodoro. Mais tarde emigrou para Atenas, e deu sequência a seus estudos com Marino, o matemático, o filósofo Zenodoto, e Isidoro, o dialetista. Tornou-se grande amigo de Isidoro, a quem sucedeu no comando da Escola neoplatônica de Atenas, por volta de 515, e escreveu sua biografia, preservada parcialmente na Bibliotheca de Fócio.

Em 529 Justiniano I fechou a escola, e Damáscio, com seis de seus colegas, procuraram asilo - provavelmente em 532 - na corte de Cosroes I. As condições locais lhes foram intoleráveis, no entanto, e no ano seguinte, quando Justiniano e Cosroes assinaram um tratado de paz, decidiu-se que os filósofos deveriam voltar.[1] Acredita-se que Damáscio tenha voltado então a Alexandria, onde se dedicou a escrever suas obras.

Entre os mais importantes discípulos de Damáscio estão Simplício, célebre comentarista de Aristóteles, e Eulâmio. Não se conhecem detalhes da vida de Damáscio; sabe-se apenas que ele não fundou novas escolas, e assim a filosofia neoplatônica deixou efetivamente de ter uma existência externa. As ideias neoplatônicas, no entanto, foram preservadas pela Igreja Cristã até o final da Idade Média, principalmente através da imensa influência exercida pelo corpus pseudo-dionisíaco. Carlo Maria Mazzucchi, professor de filologia bizantina na Universidade Católica de Milão, identifica o próprio Damáscio como sendo o autor dos escritos pseudo-dionisíacos, a "última contra-ofensiva do paganismo" (l'ultima controffensiva del paganesimo).

Obras[editar | editar código-fonte]

Seu principal tratado chama-se Dificuldades e Soluções dos Primeiros Princípios (ἀπορίαι καὶ λύσεις περὶ τῶν πρώτων ἀρχῶν). A obra examina a natureza e os atributos de Deus e da alma humana, e o faz de maneira fortemente contrastante, em dois pontos específicos, com a obra de outros autores neoplatônicos: ela está obviamente livre de qualquer influência do misticismo oriental, e não apresenta nenhuma polêmica contra o cristianismo, uma das doutrinas às quais ele não faz qualquer alusão. Este foi o motivo da acusação de impiedade feita por Fócio. Em seu tratado Damáscio investiga o princípio primordial de todas as coisas, que ele acredita ser uma profundidade divina incompreensível e indescritível, consistindo de todas as coisas em uma só, indivisível. Sua conclusão principal é a de que Deus é infinito, e, como tal, incompreensível; que seus atributos de bondade, sabedoria e poder lhe são creditados apenas através da inferência de seus efeitos; e que a lógica desta inferência é válida e suficiente para o pensamento humano, insistindo, ao longo da obra, na unidade e indivisibilidade de Deus. A obra teve grande importância na história da filosofia, especialmente por conter um grande número de relatos sobre antigos filósofos.

O resto das obras de Damáscio parece ter sido de comentários sobre obras de Aristóteles e Platão. Os comentários ainda existentes são:

Entre as obras que se perderam estão:

  • Comentários sobre Timeu, de Platão, Primeiro Alcebíades, e outros diálogos.
  • Comentários sobre De Coelo, de Aristóteles, e outras obras. Os escritos de Damáscio sobre Tempo, Espaço e Número, citados por Simplício em seus comentários sobre a Física, de Aristóteles.[3] talvez façam parte de seus comentários sobre obras de Aristóteles.
  • Vida de Isidoro. Biografia feita por Damáscio de seu professor, Isidoro de Alexandria (talvez como parte da philosophos historia atribuída a Damáscio pelo Suda), que Fócio[4] preservou um grande fragmento. O texto foi reconstruído e traduzido para o inglês recentemente.[5]
  • Logoi Paradoxoi, em quatro livros, que Fócio[6] também descreve e até mesmo especifica os títulos de cada um dos livros.

Referências

  1. Agátias, Scholast. ii. 30
  2. a b Giovanni Reale, John R. Catan, 1989, A History of Ancient Philosophy: The Schools of the Imperial Age, p. 546. SUNY Press.
  3. Simplício, fol. 189, b., 153, a., 183, b.
  4. Fócio, Cod. 242, comp. 181; no volume 6 da edição de Rene Henry.
  5. Polymnia Athanassiadi (ed.), Damascius. The Philosophical History. Atenas: Apamea Cultural Association, 1999. Pp. 403. ISBN 960-85325-2-3.BMCR review
  6. Fócio, Cod. 130

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • P. Athanassiadi: Persecution and Response in late Paganism. The evidence of Damascius. In: Journal of Hellenic Studies 113 (1993), pp. 1–29.
  • Raban von Haehling: Damascius und die heidnische Opposition im 5. Jahrhundert nach Christus. In: Jahrbuch für Antike und Christentum 23 (1980), pp. 82–85.
  • Udo Hartmann: Geist im Exil. Römische Philosophen am Hof der Sasaniden. In: Udo Hartmann/Andreas Luther/Monika Schuol (eds.), Grenzüberschreitungen. Formen des Kontakts zwischen Orient und Okzident im Altertum. Stuttgart 2002, pp. 123–160.
  • John R. Martindale, John Morris: The Prosopography of the Later Roman Empire II. Cambridge 1980, pp. 342f.
  • Carlo Maria Mazzucchi, Damascio, Autore del Corpus Dionysiacum, e il dialogo Περι Πολιτικης Επιστημης. In: Aevum: Rassegna di scienze storiche linguistiche e filologiche 80, nº 2 (2006), pp. 299–334.
  • S. Rappe: Scepticism in the sixth century? Damascius’ ‘Doubts and Solutions Concerning First Principles,’ Journal of the History of Philosophy 36 (1998), pp. 337–363.
  • Sara Ahbel-Rappe, Damascius' Problems and Solutions Regarding First Principles, (Nova York, 2010) (OUP USA American Academy of Religion - Texts & Translation).
  • Cosmin Andron: “Damascius on knowledge and its object,” Rhizai 1 (2004) pp. 107–124
  • Cosmin Andron: Knowledge and Reality in Damascius, dissertação de PhD, Universidade de Londres
  • Este artigo incorpora texto da Encyclopædia Britannica (11ª edição), publicação em domínio público.
  • Este artigo foi inicialmente traduzido do artigo da Wikipédia em inglês, cujo título é «Damascius».