Darwinismo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Charles Darwin em 1868

Darwinismo é um conjunto de movimentos e conceitos relacionados às ideias de Transmutação de espécies, selecção natural ou da evolução, incluindo algumas ideias sem conexão com o trabalho de Charles Darwin.[1] A característica que mais distingue o darwinismo de todas as outras teorias é que a evolução é vista como uma função da mudança da população e não da mudança do indivíduo.[2]

O termo foi cunhado por Thomas Henry Huxley em abril de 1860,[3] e foi usado para descrever conceitos evolutivos, incluindo conceitos anteriores, como malthusianismo e Spencerismo. No final do século XIX passou a significar o conceito de que a seleção natural era o único mecanismo de evolução, em contraste com o Lamarckismo e o Criacionismo. Por volta de 1900 o darwinismo foi eclipsado pelo mendelismo até a síntese evolutiva moderna unificar as ideias de Darwin e Gregor Mendel.[4] A medida que a teoria da evolução moderna se desenvolve, o termo tem sido associado às vezes com ideias específicas.

Embora o termo tenha permanecido em uso entre os autores científicos, tem sido cada vez mais discutido que é um termo inapropriado para a moderna teoria da evolução.[4] Por exemplo, Darwin não estava familiarizado com o trabalho de Gregor Mendel,[5] e como resultado teve apenas uma compreensão vaga e imprecisa de hereditariedade. Ele, naturalmente, não tinha noção dos desenvolvimentos mais recentes e, como o próprio Mendel, não sabia nada de deriva genética,[6] por exemplo.

Concepções do Darwinismo[editar | editar código-fonte]

A medida que o "Darwinismo" se tornou amplamente aceito nos anos 1870s, caricaturas de Charles Darwin com um corpo de macaco simbolizaram a evolução.

Embora o termo Darwinismo tenha sido usado anteriormente para se referir ao trabalho de Erasmus Darwin no final do século XVIII, o termo como é entendido hoje foi lançado á época do lançamento do livro de Charles Darwin de 1859 a Origem das Espécies[7] e foi revisado por Thomas Henry Huxley no exemplar de abril de 1860 da revista Westminster Review.[8] Depois de ter saudado o livro como "um verdadeiro rifle Whitworth no arsenal do liberalismo" promovendo o naturalismo científico sobre a teologia, e louvando a utilidade das ideias de Darwin enquanto expressava reservas profissionais quanto ao gradualismo de Darwin e duvidando que ele pudesse provar que a seleção natural podia formar novas espécies, Huxley comparou a realização de Darwin com a de Copérnico para explicar o movimento planetário:

E se a órbita do darwinismo deva ser um pouco circular? E se as espécies devem oferecer fenômenos residuais, aqui e ali, e não explicáveis ​​pela seleção natural? Vinte anos depois naturalistas poderão estar em posição de dizer se este é ou não, o caso; mas em qualquer evento eles terão com o autor de "A Origem das Espécies", uma imensa dívida de gratidão...... E visto como um todo, não acreditamos que, desde a publicação do "Pesquisas sobre o Desenvolvimento" de Von Baer, trinta anos atrás, qualquer trabalho apareceu calculado para exercer tão grande influência, não só sobre o futuro da Biologia, mas em estender o domínio da ciência sobre as regiões de pensamento em que ela tem, por enquanto, dificilmente penetrado.[3]

Outro importante teórico evolucionista do mesmo período foi Peter Kropotkin que, em seu livro Mutualismo: Um Fator de Evolução, defendia uma concepção de darwinismo contrária ao de Huxley. Sua concepção era centrada em torno do que ele viu como o uso generalizado de cooperação como mecanismo de sobrevivência nas sociedades humanas e animais. Ele usou argumentos biológicos e sociológicos em uma tentativa de mostrar que o principal fator para facilitar a evolução é a cooperação entre indivíduos em sociedades e grupos associados livremente. Isso foi com o fim de neutralizar a concepção de uma concorrência feroz como o núcleo da evolução, que fornecia uma racionalização para as teorias dominantes políticas, econômicas e sociais da época; e as interpretações prevalentes do Darwinismo, tais como as de Huxley, que é apontado como um adversário por Kropotkin. A concepção de Kropotkin do darwinismo poderia ser resumida pela seguinte citação:

No mundo animal, vimos que a grande maioria das espécies vivem em sociedades, e que elas encontram na associação as melhores armas para a luta pela vida: entendido, é claro, no seu sentido darwiniano mais amplo – não como uma luta para os meios absolutos de existência, mas como uma luta contra todas as condições naturais desfavoráveis ​​para as espécies. As espécies animais, em que a luta individual foi reduzida aos seus estreitos limites, e a prática de ajuda mútua alcançou o maior desenvolvimento, são, invariavelmente, as mais numerosas, as mais prósperas e mais abertas a novos progressos. A protecção mútuo que é obtida neste caso, a possibilidade de alcançar a velhice e a acumulação de experiência, o maior desenvolvimento intelectual, e o crescimento adicional dos hábitos sociáveis​​, asseguram a manutenção das espécies, a sua extensão, e a sua evolução ulterior progressiva. As espécies não sociáveis, ao contrário, estão condenados a desaparecer.

Peter Kropotkin, Mutualismo: Um Fator de Evolução (1902), Conclusão.

O uso no século XIX[editar | editar código-fonte]

Francis Galton nos anos 1850

O "Darwinismo" logo veio a representar toda uma gama de filosofias evolucionistas (e muitas vezes revolucionárias) sobre a biologia e a sociedade. Uma das abordagens mais proeminentes, resume-se na frase de 1864 "sobrevivência do mais apto" pelo filósofo Herbert Spencer, mais tarde se tornou emblemática do darwinismo, embora o entendimento próprio de Spencer da evolução (como expresso em 1857) era mais parecido com o de Jean-Baptiste de Lamarck do que com o de Darwin, e antecedeu a publicação da teoria de Darwin em 1859. O que agora é chamado de "Darwinismo social" era, na época, sinônimo de "Darwinismo" — a aplicação de princípios darwinianos de "luta" para a sociedade, geralmente em suporte à agenda política anti-filantrópica. Outra interpretação, que contava nomeadamente com o favor do meio primo de Darwin Francis Galton, era que "Darwinismo" implica que pelo fato de que a seleção natural aparentemente não mais funcionava com as pessoas "civilizadas", era possível para cepas de pessoas "inferiores" (que normalmente seriam filtradas fora do pool genético) prevalececem sobre as cepas "superiores", e medidas correctivas voluntários seriam desejáveis - o fundamento da eugenia.

Nos dias de Darwin, não havia uma definição rígida do termo "darwinismo", e este era usado pelos oponentes e proponentes da teoria biológica de Darwin tanto para significar o que eles queriam em um amplo contexto. As ideias tiveram influência internacional, e Ernst Haeckel desenvolveu o que ficou conhecido como Darwinismus na Alemanha, embora, como a "evolução" de Spencer, o "darwinismo" de Haeckel tinha apenas uma semelhança grosseira com a teoria de Charles Darwin, e não era centrado sobre a seleção natural de forma nenhuma. Em 1886, Alfred Russel Wallace foi a uma turnê de palestras nos Estados Unidos, começando em Nova York e passando por Boston, Washington, Kansas, Iowa e Nebraska para a Califórnia, palestrando sobre o que ele chamou de "darwinismo", sem quaisquer problemas.[9]

Após a síntese moderna[editar | editar código-fonte]

O darwinismo é usado dentro da comunidade científica para o distinguir das modernas teorias evolucionistas, algumas vezes chamadas de "neodarwinismo", daquele inicialmente proposto por Darwin. O Darwinismo também é usado pelos historiadores para diferenciar a sua teoria a partir de outras teorias evolucionistas correntes do mesmo período. Por exemplo, o darwinismo pode ser usado para se referir ao mecanismo proposto por Darwin da seleção natural, em comparação com mecanismos mais recentes, como a deriva genética e o fluxo gênico. Também pode se referir especificamente ao papel de Charles Darwin ao contrário de outros na história do pensamento evolutivo - particularmente resultados contrastantes de Darwin com as teorias anteriores, como o lamarckismo ou os posteriores, como a síntese moderna.

Algoritmos genéticos[editar | editar código-fonte]

O darwinismo é utilizado por biólogos, filósofos, matemáticos e cientistas para descrever processos evolucionários semelhantes à evolução da vida, como o desenvolvimento de software com algoritmos genéticos.[10]

Neste contexto mais abstracto, o darwinismo é independente dos detalhes da evolução biológica. Um processo darwinista requer as condições seguintes:[11]

  • Reprodução: os agentes devem ser capazes de produzir cópias de si próprios e essas cópias devem ter igualmente a capacidade de se reproduzirem;
  • Hereditariedade: As cópias devem herdar as características dos originais;
  • Variação: Ocasionalmente, as cópias têm que ser imperfeitas (diversidade no interior da população);
  • Recombinação: Troca de informações genéticas entre pares de cromossomos;
  • Seleção Natural: Os indivíduos são selecionados pelo ambiente. A seleção natural destrói, e não cria. O problema da existência de um objetivo não surge da eliminação dos inaptos, e sim da origem dos aptos.

Em qualquer sistema onde ocorram essas características deverá ocorrer evolução.

Alguns autores, adicionalmente, propõe a elaboração de modelos matemáticos de seleção sexual.[12]

Referências

  1. Steele, Edward J.; Lindley, Robyn A.; Blanden, Robert V.. Lamarck´s Signature: How Retrogenes are Changing Darwin´s Natural Selection Paradigm (em inglês). Reading, Massachusetts: Helix Books, 1998. 286 p. p. xviii-xx. ISBN 0-7382-0014-X
  2. Ruse, Michael. Darwinism Defended: A Guide to the Evolution Controversies (em inglês). Reading, Massachusetts: Addison-Wesley Publishing Company, 1982. 356 p. p. 76. ISBN 0-201-06273-9
  3. a b Huxley, T.H. (Abril de 1860). ART. VIII.- Darwin on the origin of Species p. 541–70. Westminster Review. "What if the orbit of Darwinism should be a little too circular?"
  4. a b Margulis, Lynn; Sagan, Dorion. Acquiring Genomes: A Theory of the Origins of Species. New York: Basic Books, 2002. 240 p. p. 7-8. ISBN 0-465-04392-5
  5. Sclater, Andrew. (Junho de 2006). "The extent of Charles Darwin’s knowledge of Mendel". Journal of Biosciences 31 (2) p. 191–193. DOI:10.1007/BF02703910. PMID 16809850.
  6. Gillespie, John H. Population Genetics: A Concise Guide. Baltimore/London: The John Hopkins University Press, 1998. 169 p. p. 19-48. ISBN 0-8018-5755-4
  7. Darwin, Charles. A Origem das Espécies e a Seleção Natural. São Paulo: Hemus, 2003. 471 p. ISBN 85-289-0134-3
  8. The Huxley File § 4 Darwin's Bulldog.
  9. Evolution and Wonder - Understanding Charles Darwin - Speaking of Faith from American Public Media.
  10. Michaelewicz, Zbigniew. Genetic Algorithms + Data Structures = Evolution Programs (em inglês). 3ª ed. Berlin: Springer, 1999. 387 p. p. 14-15. ISBN 3-540-60676-9
  11. Linden, Ricardo. Algoritmos Genéticos. Rio de Janeiro: Brasport, 2006. 348 p. p. 52. ISBN 85-7452-265-1
  12. Mitchell, Melaine. An Introduction to Genetic Algorithms (em inglês). Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 1996. 209 p. p. 100-104. ISBN 0-262-63185-7

Ver também[editar | editar código-fonte]

Livros da Wikipédia

Ligações externas[editar | editar código-fonte]