Declaração Teológica de Barmen

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Igreja Gemarker, em Barmen, onde as teses da Declaração foram aprovadas em 1934.

Declaração Teológica de Barmen - foi um documento elaborado a partir do posicionamento de evangélicos alemães, especificamente o grupo da resistência alemã denominado Igreja Confessante, contra o nazismo.

Antecedentes[editar | editar código-fonte]

O contexto do escrito é a história da Alemanha no período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Em janeiro de 1923, o exército francês ocupou o Vale do Ruhr, com o objetivo de obrigar a Alemanha a continuar pagando as indenizações da Primeira Guerra Mundial, o que tinha sido imposto pelo Tratado de Versalhes. Encorajados pelo governo, os mineiros e siderúrgicos alemães adotaram imediatamente uma resistência não violenta, recusando-se a trabalhar nas minas, fábricas e estradas de ferro.

Isso agravou a situação econômica do país, pois o governo alemão pagava os salários. O governo tentou sustentá-los emitindo enormes quantidades de papel-moeda. Essa política econômica e a sangria das reservas de ouro com as indenizações de guerra desencadearam uma hiperinflação na Alemanha. O marco alemão perdeu totalmente a seu valor. Para termos uma idéia da hiperinflação, observemos estes dados: antes da guerra, um dólar americano equivalia a 4,2 marcos alemães; em março de 1923 um dólar valia 22.000 marcos; a 1º de agosto de 1923 um dólar valia mais de 1 milhão de marcos, e a 10 de novembro de 1923, um dólar valia 1 bilhão de marcos; e no auge da hiperinflação, um dólar era cotado em Berlim à razão de 2,5 trilhões de marcos.

Carregando cédulas em sacolas, a povo obtinha comida para dois ou três dias. Trocava-se um par de sapatos por um prato de sopa, e um relógio de pulso por uma lingüiça. No final de 1923, o governo lançou uma nova moeda, sendo os novos marcos trocados pelos antigos à razão de 1 para 1 trilhão. Muitos cidadãos que tinham casa própria foram obrigados a vendê-la para ter com que comer. E muitos especuladores astutos enriqueceram, comprando valiosas propriedades com uma pequena entrada e pagando a restante com prestações insignificantes graças à depreciação da moeda. Em 1929, havia 1,6 milhões de desempregados. Em 1933, o número de desempregados subiu para 6 milhões.

A grande Crise de 1929 atingiu a economia mundial. Após a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos substituíram os países europeus na hegemonia mundial, tornando-se um país credor no mercado internacional. A agricultura e a indústria desenvolveram-se rapidamente e as reservas em ouro superavam as de todo a mundo. Vultosos empréstimos foram feitos aos países europeus. Mas na medida em que os países europeus se recuperavam, passaram a consumir menos artigos americanos. A queda das importações gerava uma superprodução nos Estados Unidos, que começaram então a ter grandes estoques de mercadorias agrícolas e industrializadas. A política do governo, essencialmente liberal, era de não-intervenção e os capitalistas, visando o lucro imediato, não diminuíram a produção. Era uma crise do sistema capitalista, que, produzindo para a lucro, sem que a população tivesse condições de consumir, provocou uma superprodução. A produção visava o lucro, não se preocupando com a demanda do mercado. Com o tempo, os estoques aumentaram assustadoramente. Não conseguindo escoar a mercadoria, os fazendeiros americanos depararam-se com uma situação de insolvência, sendo obrigados a arcar com a produção agrícola excedente e a hipotecar suas propriedades.

A Crise de 1929 foi o resultado da mística da prosperidade, que empolgava os americanos. Nem o governo e nem os empresários adotaram medidas para fazer frente ao perigo que surgia. Para tentar diminuir a crise, a governo norte-americano interrompeu os créditos para a Europa, suspendendo bruscamente os empréstimos e gerando ali crise semelhante. É este o quadro da situação econômica que culminou na crise de 1929. Diminuíram as exportações norte-americanas; as ações das grandes empresas começaram a cair; as fábricas adotaram férias coletivas, diminuíram a jornada de trabalho e, par fim, demitiram em massa. O número de desempregados chegou a 12 milhões. Fábricas, bancos e agricultores foram à falência. Em 24 de outubro de 1929, ocorreu a quebra da Bolsa de Valores de Wall Street, em Nova York (a Quinta-Feira Negra).

Memorial da Declaração de Barmen.

As agitações sociais aumentaram na Alemanha e os nazistas se aproveitaram da situação para disputar a poder. O modelo econômico nazista procurou sanear as estruturas capitalistas, abaladas com a Crise de 1929. Estava aberta a porta para a intervenção do Estado. O nazismo também rejeitou o marxismo, considerando-o o fundamento da luta de classes que enfraquece e divide a sociedade.

Os nazistas também identificavam o marxismo com o judaísmo, salientando que os dois haviam colaborado para o declínio da Alemanha desde a Primeira Guerra Mundial (ver: Dolchstoßlegende). De um modo resumido, estes são os fatores que contribuíram para a sucesso do nazismo: - a humilhação imposta à Alemanha pelo Tratado de Versalhes; - o nacionalismo e o militarismo; - a hiperinflação de 1923 - o medo do comunismo, que estava sendo implantado com a Revolução Russa; - a desconfiança perante o capitalismo, que se mostrou frágil com a Crise de 1929. - o anseio do povo por um governo forte, centralizador e intervencionista.

Em 1932, Hitler disputou a presidência da Alemanha, mas foi derrotado por pequena margem de votos. O Marechal Hindenburg foi reeleito. Mas o Partido Nazista aumentava consideravelmente o número de deputados, o que impossibilitava ao Chanceler (Primeiro Ministro) o apoio da maioria no Parlamento. Os banqueiros, industriais e grandes latifundiários pressionaram o Presidente Hindenburg e Hitler foi nomeado Chanceler. Em 1934, com a morte de Hindenburg, Hitler passou a acumular os cargos de Presidente e Chanceler, proclamando-se Guia (Führer) da Alemanha. Surgia assim o Terceiro Império (Reich), tendo como símbolo a bandeira vermelha com a cruz suástica.

A política interna era nacionalista e racista e tinha coma base estes princípios: - um povo (Volk), - um Império (Reich) e - um chefe (Führer). Desencadeou-se uma repulsa ao Tratado de Versalhes e à Liga das Nações. Foi abolido o princípio federativo e surgiu um Estado unitário, centralizador. A imprensa (rádios e jornais), a educação, o teatro, o cinema foram censurados. Passou-se a valorizar exclusivamente a cultura germânica. A economia alemã começou a se recuperar por intermédio de sua indústria bélica. O maior comprador de armamentos era a Estado, que se preparava para a guerra. Desencadeou-se uma perseguição aos judeus e outras raças. Inicialmente eram confinados em "guetos"; depois, nos campos de concentração.

A política externa era impulsionada pela teoria do Lebensraum (espaço vital), ou seja, a conquista de novas terras pelos alemães, para que a raça ariana pudesse se desenvolver. Em 1937, os alemães apoiaram as tropas de Franco na Guerra Civil Espanhola, bombardeando cidades como Guernica e testando assim suas armas. Em 1938, os alemães invadiram a Áustria (Anschluss) e a Tchecoslováquia, sob o pretexto de anexar territórios ocupados por minorias alemãs. Em 1939, os alemães queriam que os poloneses devolvessem a cidade-porto de Danzig e o Corredor Polonês, perdidos na Primeira Guerra Mundial. Diante da recusa dos poloneses, Hitler ordenou a invasão da Polônia, o que deu início à Segunda Guerra Mundial.

O significado teológico do documento[editar | editar código-fonte]

A Declaração Teológica de Barmen é a resolução fundamental do Primeiro Sínodo Confessante da Igreja Evangélica Alemã, realizado entre 29 a 31 de maio de 1934, em Barmen, Alemanha. O documento quer proporcionar orientação para os cristãos confusos diante da ideologia do nacional-socialismo. O documento corrige os posicionamentos da Igreja em relação à sua tarefa, natureza e ordem. O documento foi redigido por Karl Barth. Karl Barth tornou-se um dos líderes da Igreja Confessante, salientando publicamente que a Igreja deve obediência exclusiva a seu Senhor e ao Evangelho. Mostrou que a característica essencial da Igreja é ouvir a Deus.

O que faz da igreja uma igreja não é isto ou aquilo, por mais indicado e necessário que seja, mas sempre uma só coisa: que a pessoa ouve porque Deus lhe falou, e ela ouve o que Deus lhe falou. A igreja não vive em arbítrio próprio, por mais bem-intencionado que seja, e sim ela vive em obediência. (salientou também que:) o mundo nem sempre foi grato à igreja por ela ignorar seus deuses.

A Declaração[editar | editar código-fonte]

Tese IJesus Cristo, tal qual é testemunhado nas Sagradas Escrituras, é a única Palavra de Deus – a qual devemos ouvir e nela confiar e a ela obedecer tanto na vida como na morte.

Tese IIAssim como Jesus Cristo é a garantia de Deus para o perdão de todos os nossos pecados, do mesmo modo e com a mesma seriedade ele também é a reivindicação mais poderosa de Deus sobre toda nossa vida; por intermédio dele experimentamos uma libertação feliz das amarras ímpias deste mundo, para que possamos prestar um serviço livre e agradecido às suas criaturas.

Tese IIIA Igreja cristã é a comunhão dos irmãos, na qual Jesus Cristo, em Palavra e sacramentos, através do Espírito Santo, age de uma maneira presente como Senhor. Na condição de Igreja de pecadores agraciados, ela tem a tarefa de testemunhar em meio a um mundo pecador, tanto com sua como com sua obediência, tanto com sua mensagem como com sua ordem, que ela é somente propriedade do Senhor, que vive e pretende viver somente de seu conforto e a partir de sua orientação na expectativa de sua volta.

Tese IVOs diversos ofícios existentes na Igreja não estabelecem o domínio de uns sobre os outros, porém fundamentam o exercício do ministério confiado e destinado a toda a comunidade.

Tese VAs Sagradas Escrituras testemunham que o Estado, por ordem divina, tem a tarefa de, neste mundo ainda não redimido, no qual também se encontra a Igreja, providenciar a justiça e a paz. O Estado estará se desincumbindo da tarefa e para a tal poderá fazer ameaças e o uso da força de acordo com o bom senso e a capacidade humana. A Igreja reconhece o benefício dessa ordem divina com gratidão e reverência a Deus. Ela evoca o Reino de Deus, os mandamentos e a justiça de Deus, proclamando assim a responsabilidade de regente e regidos. Ela confia e obedece ao poder da Palavra, mediante a qual Deus sustenta todas as coisas.

Tese VIA tarefa da Igreja, sobre a qual se fundamenta a sua liberdade, consiste em pregar a todos os povos a mensagem da graça libertadora de Deus em Cristo, e por essa razão está a serviço de sua Palavra e obra, mediante a pregação e sacramentos.

Com essas seis teses, a Declaração Teológica de Barmen estabeleceu critérios para a delimitação do Estado.

Selo postal alemão: "Jesus Cristo é a única Palavra de Deus. 50 anos da Declaração Teológica de Barmen."

A Igreja se encontrava ameaçada por um Estado totalitário. Diante da ideologia do nacional-socialismo, alguns cristãos se depararam com a tarefa e o compromisso de integrar a "Igreja confessante", ou seja, confessar de uma maneira inequívoca a sua cristã. A partir de sua missão no mundo, a Igreja tem uma responsabilidade perante a humanidade. É um compromisso com a criação de Deus. A Igreja também precisa estar vigilante a respeito de sua relação com o poder constituído.

Diante desse desafio, a Igreja precisa prestar contas de sua fidelidade à Palavra de Deus. A "Igreja confessante" não aceitou a subordinação da Igreja ao Estado. A Igreja tem o seu fundamento única e exclusivamente em Jesus Cristo. Foi afirmada a revelação suprema e definitiva em Jesus Cristo. Nenhum outro acontecimento ou poder tem a possibilidade de se tornar fonte e fundamento da fé e da pregação. Para o cristão não existe nenhum âmbito da vida que esteja fora da reivindicação do senhorio de Jesus Cristo. Nenhum outro poder deve ser reconhecido como revelação de Deus. Como propriedade de Jesus Cristo, a Igreja deve testemunhar sua fé.

A Declaração Teológica de Barmen expressa esse testemunho, colocando-se sob a autoridade da Sagrada Escritura. O historiador Arnold J. Toynbee legou-nos este alerta:

Como o homem não pode viver sem algum tipo de religião, a recessão do cristianismo no Ocidente tem sido seguida pelo aparecimento de religiões substitutas na forma das ideologias pós-cristãs, nacionalismo e comunismo. Das três ideologias pós-cristãs, o nacionalismo mostrou-se o mais poderoso. É lamentável que, das três, também seja o mais poderosamente divisor.

Estejamos todos alertas para que o nosso espírito esteja preenchido pela fé em Deus – revelado em Jesus Cristo. Pois se o nosso espírito não estiver preenchido pela fé em Cristo, ele será um espaço aberto para alguma ideologia. E as ideologias proliferam sempre mais, sobretudo em época de eleições. Esteja o nosso espírito em comunhão e em sintonia com o Espírito de Deus, para descobrirmos – a partir de nossa reflexão teológica – o verdadeiro compromisso da Igreja de Jesus Cristo.