Demiurgo

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Demiurgo (grego, δημιουργός, demiourgos), significa "o que trabalha para o público, artífice, operário manual", demios significando "do povo" (como em demos, povo) e -ourgos, "trabalhador" (como em ergon, trabalho.1 ))

No sentido de "trabalhador para o povo", a palavra foi usada em todo o Peloponeso,2 com exceção de Esparta, e em muitas partes da Grécia, como sinônimo de um alto magistrado.3 No pensamento cosmogônico de Platão, o termo designa o artesão divino - causa da alma do mundo - que, sem criar de fato o universo, dá forma a uma matéria desorganizada imitando as essências eternas, tendo os deuses inferiores, criados por ele, como tarefa a produção dos seres mortais.4 No pensamento gnóstico, o demiurgo, criador do mundo é distinto do Deus supremo e em geral considerado mau4 .

Platonismo e Neoplatonismo[editar | editar código-fonte]

O uso filosófico e o substantivo próprio derivam do diálogo Timeu escrito por Platão em 360 a.C.5 , a causa do universo6 , de acordo com a exigência de que tudo que sofre transformação ou geração (genesis) sofre-a em virtude de uma causa 7 . Diferente do deus cristão, o demiurgo não cria ex nihilo8 9 mas a partir de um estado preexistente de caos, tentando fazer seu produto assemelhar-se ao modelo eterno das Formas 10 , assim a atividade do demiurgo compreende observar as Formas 11 , desejar que tudo seja o melhor ou mais similar possível ao modelo eterno e perfeito12 .

A meta perseguida pelo demiurgo platônico é o bem do universo que ele tenta construir13 . Este bem é recorrentemente descrito em termos de ordem,14 Platão descreve o demiurgo como uma figura neutra (não-dualista), indiferente ao bem ou ao mal, 15 mas apesar de bom, sofre limitações na coordenação criativa do cosmos, por isso, só é bom até um ponto, enquanto manter correspondência absoluta ao modelo ideal, assim Platão apela para o princípio de "causa errante", que por natureza produz movimento16 e tempo.17 Platão entende a "carência total de finalismo" (a mera disteleologia), isto é, algo indeterminado, anômalo, casual, a desordem em sentido global. Eis o que significa justamente "causa errante", ou seja, "causa que age ao acaso e de modo anômalo".18

Médio platonismo[editar | editar código-fonte]

De acordo com Proclo19 , Numênio considerou que havia uma espécie de trindade, ou três princípios supremos: o "Primeiro Deus", chamado Pai, O Primeiro, Nous, O Um e O Bem, é o ser absoluto, perfeitamente transcendente e autônomo. Ele é pai do "Segundo Deus", o Demiurgo que também se chama Nous, ele é igualmente bom, porque compartilha do bem do Primeiro Deus, mas possui uma inclinação a matéria.20 Numênio também alegou que as três divindades eram na verdade uma só.21

Enquanto os deuses menores do Timeu de Platão são responsáveis por acrescentar uma alma mortal à alma racional imortal entregues pelo demiurgo, o demiurgo de Numênio é responsável apenas pela encarnação e reencarnação das almas mortais, que são, elas próprias, de origem superior.22 . Numênio considerou ainda um demiurgo dualista, sua parte contemplativa é a alma do mundo benévola e a parte da criação, porque se preocupa unicamente com a matéria, é a alma do mundo má23 .

Neoplatonismo[editar | editar código-fonte]

Plotino não interpreta a criação do mundo através do demiurgo platônico de modo literal, mas ainda assim, uma interpretação figurativa do demiurgo é usada, ele introduz uma separação entre realidade inteligível e realidade sensível.24

Segundo Proclo, Plotino considerava que o primeiro demiurgo é o que contempla o paradigma, o segundo é o que dispõe o resultado da contemplação em ação, primeiro criando o universo e então o governando. A parte elevada deve ser chamada Cronos e parte inferior, a ação, traz o nome de Zeus. O reino de Cronos e o intelecto de Zeus, juntamente constituem o nível intermediário entre O Um e o universo.25

Jâmblico equaliza todo o cosmos a Demiurgo,26 concordando com Plotino, ele afirma ainda que apenas o demiurgo contém o ser e o inteligível.27

Gnosticismo[editar | editar código-fonte]

Os gnósticos acreditavam que o Criador ou demiurgo era uma entidade do mal,28 o que contrasta com o conceito platônico29 Segundo o gnosticismo existe incompatibilidade entre a esfera divina, que é luz, e o universo de nossa experiência, que é terreno e desprovido de sentido, esse dualismo, inspirado por uma visão pessimista do mundo e de sua história, não é eterno como para os maniqueus, pois o mal só apareceu com a criação, atribuída à hìbrys de um demiurgo, e há de desaparecer um dia.30

Em textos gnósticos como no Apócrifo de João e Da origem do Mundo, demiurgo, o filho de Sophia recebe nomes que definem a sua natureza: Yaldabaoth ("filho dos caos"31 ), Sakla (do aramaico, "tolo")5 , Samael ("deus cego")32 ou ainda Nebruel (ou Nebro).33 .É ainda no Apócrifo de João que descrevem o demiurgo Yaldabaoth com um ser que tem o rosto que se assemelha a um leão.33

No apócrifo Hipóstase dos Arcontes, Yaldabaoth e Sabaoth são entidades diferentes, esta última seria o filho do primeiro mas mesmo nessa versão Sabaoth tem função semelhantes, seu trono é uma imensa carruagem de querubins rodeada por anjos ministeriais. O nome Yaldabaoth exercitou a ingenuidade dos estudiosos por um bom tempo, este arconte foi igualado a Yahweh (Javé) do Antigo Testamento34 35 36 , mas não há indícios no hebraico para tal significado.37

No Sistema de Ptolomeu de Valentim, o demiurgo é descrito como um anjo, semelhante a deus, que elevou-se até o sétimo céu que circunda a terra, acima deste está o oitavo céu e acima dele o Deus Supremo, que fica completamente distante do mundo. Anjo guardião da esfera inferior, o demiurgo foi designado como o criador do mundo, o chefe dos arcontes pelos quais Achamoth, a mãe, deu a luz (Ogdoad). Por trás do demiurgo, há uma reunião de forças subordinadas, os arcontes, que são seus colaboradores.38 A teoria Valentiniana elabora que da Achamoth (he káta sophía ou sabedoria menor), originaram-se três tipos de substâncias, o espiritual (pneumatikoi), o animal (psychikoi) e o material (hylikoi). O Demiurgo pertence ao segundo tipo, por ele ser fruto da união da Achamothcom a matéria39

A descrição do demiurgo, pelos setianistas é ainda mais negativa do que no sistema valentiano e seu status é inferior ao do Deus Supremo, como citado no Evangelho de Filipe, mas ele alcançou o status de criador dos arcontes e do mundo natural38 , tornando-se arrogante disse "Eu sou o Pai, e acima de mim não há nenhum outro"40 , (como em Isaías 45:5 e Isaías 46:9), de acordo com o Apócrifo de João, uma voz divina, ultrajada com a reivindicação arrogante de Yaldabaoth, dá a resposta e o refuta, a voz ressoa: "A humanidade existe, assim como o filho da humanidade".41

Marcião contrapunha o deus do Antigo Testamento ao deus de Jesus Cristo, para ele a criação era obra de um deus maligno, o Demiurgo, apresentado na Bíblia judaica. Segundo Marcião, o Pai de Jesus não tinha nada em comum com o Deus judaico do juízo e da guerra, o deus do Antigo Testamento, juiz potente, justo, colérico, cruel, mesquinho, capaz de afirmar: «Eu formo a luz, e crio as trevas; faço a paz, e crio o mal; eu sou Jeová que faço todas estas coisas.» (Isaías 45:7), esse deus não poderia ser o mesmo pai de Jesus Cristo.34 Coerente ao seu pensamento, Marcião não só rejeitou a Bíblia judaica como Escritura Sagrada, na luta pela mensagem pura, mas também os escritos do neotestamentários em que predomina a tradição judaica.42

Referências

  1. Merriam-Webster - Demiurge (em inglês)
  2. "Mas "demiurgo" era também o "criador do mundo", "o primeiro magistrado dos estados do Peloponeso"."ORLANDO NEVES. Dicionário da origem das palavras. [S.l.]: Leya, 27 February 2012. p. 124. ISBN 978-989-555-646-5 Página visitada em 17 M.
  3. 1911 Encyclopædia Britannica/Demiurge (em inglês)
  4. a b Dicionário de filosofia. [S.l.]: PAPIRUS, 2005. p. 120. ISBN 978-85-308-0227-1
  5. a b "O conceito de demiurgo orgina-se na obra Timeu de Platão, onde é apenas um deus criador(...)"Andrew Phillip Smith. A Dictionary of Gnosticism. [S.l.]: Quest Books, 2009. p. 69. ISBN 978-0-8356-0869-5
  6. Platão, Timeu, 29 [wikisource]
  7. Platão, Timeu, 29
  8. "O demiurgo não cria o mundo a partir do nada." Jayme Paviani. Filosofia e método em Platão. [S.l.]: EDIPUCRS, 2001. p. 141. ISBN 978-85-7430-234-8
  9. "Todos os elementos da Criação, nomeadamente as criaturas, estão contidas no próprio demiurgo e ele não pode, de fato, gerar qualquer coisa sem ser a partir de si mesmo, desde que a criação ex nihilo é impossível." René Guénon. Miscellanea. [S.l.]: Sophia Perennis, 1/10/2003. p. 11. ISBN 978-0-900588-55-6 (em inglês)
  10. Platão, Timeu, 29, 30
  11. Platão, Timeu, 29, 39
  12. Platão, Timeu, 30, 31
  13. Platão, Timeu, 46,68
  14. "Tudo que é bom é belo, e o que é belo não é isento de medida", Platão, Timeu, 30, 31
  15. "A filosofia patrística (e depois escolástica) carregou a figura do Demiurgo de valências que não existem no texto platônico(...)" REALE, Giovanni. Para uma nova interpretação de Platão. [S.l.]: LOYOLA. p. 518. ISBN 978-85-15-01490-3
  16. Jayme Paviani. Filosofia e método em Platão. [S.l.]: EDIPUCRS, 2001. p. 141. ISBN 978-85-7430-234-8
  17. "Platão, atribui a origem do tempo à ação do demiurgo, assimila-o ao movimento e nele vê uma espécie de ritmo do eterno(...)" Ivan Domingues. O fio e a trama: reflexões sobre o tempo e a história. [S.l.]: Editora Iluminuras Ltda, 1996. p. 119. ISBN 978-85-7321-037-8
  18. REALE, Giovanni. História da filosofia grega e romana - Platão. [S.l.]: LOYOLA. p. 138. ISBN 978-85-15-03304-1
  19. Proclo, Comentário em Timeu, 93
  20. Roelof van den Broek. Gnostic Religion in Antiquity. [S.l.]: Cambridge University Press, 24/01/2013. p. 209. ISBN 978-1-107-03137-1 (em inglês)
  21. God the Creator, God the Creation: Numenius' Interpretation of Genesis 1:2 (frg. 30) por Robbert M. Van Den Berg
  22. CHARLES H. KAHN. Pitágoras e os pitagóricos - Uma breve história. [S.l.]: LOYOLA, 2007. p. 163. ISBN 978-85-15-03301-0
  23. Antonía Tripolitis. Religions of the Hellenistic Roman Age. [S.l.]: Wm. B. Eerdmans Publishing, 2002. p. 42. ISBN 978-0-8028-4913-7 (em inglês)
  24. "Ele nunca usa o imaginário do Demiurgo para descrever a mediação enter a hipóstase e o mundo sensível." Lloyd P. Gerson. The Cambridge Companion to Plotinus. [S.l.]: Cambridge University Press, 13 August 1996. p. 339. ISBN 978-0-521-47676-8 (em inglês)
  25. Proclo, Comentários sobre Timeu de Platão, 1.306.24
  26. Fragments of Iamblichus' Commentary on the Timaeus. [S.l.]: Brill Archive, 1973. p. 38. GGKEY:BWCTUDWS8RU (em inglês)
  27. Mark J. Edwards. Culture And Philosophy in the Age of Plotinus. [S.l.]: Duckworth, 2006. p. 55. ISBN 978-0-7156-3563-6 (em inglês)
  28. "Os gnósticos, por regra geral, representam o demiurgo, isto é, o arquiteto do mundo, a que identificam com Yahveh, como o pai de todo o mal. Eles o descrevem como irascível, ciumento e vingativo, contrastante com o deus superior que nada tem a ver com a criação." Paul Carus. The History of the Devil and the Idea of Evil from the Earliest Times to the Present Day. [S.l.]: NuVision Publications, LLC, 30 March 2008. p. 167. ISBN 978-1-61536-151-9 (em inglês)
  29. Verdadeira História de Maria Madalena, A. [S.l.]: Ediouro Publicações. p. 128. ISBN 978-85-00-02040-7
  30. LEON-DUFOUR, Xavier. Leitura do Evangelho segundo João - IV. [S.l.]: LOYOLA. p. 229. ISBN 978-85-15-01649-5
  31. "A derivação mais provável do nome “Yaldabaoth” foi dada por Johann Karl Ludwig Gieseler, “Filho do caos” do hebraico yalda bahut, ילדא בהות" Johann Karl Ludwig Gieseler. A Text-book of Church History. [S.l.]: Harper & Brothers, 1857. p. 136.
  32. "Samael ("Deus da cegueira") é identificado com Sakla, no apócrifo Hipóstase dos Arcontes,ele toma o lugar do deus hebraico na história do Jardim do Éden" Andrew Phillip Smith. A Dictionary of Gnosticism. [S.l.]: Quest Books, 2009. p. 217. ISBN 978-0-8356-0869-5 (em inglês)
  33. a b Marvin Meyer. Mistérios Gnósticos. [S.l.]: Editora Pensamento. p. 100. ISBN 978-85-315-1508-8
  34. a b "O demiurgo dos diversos sistemas gnósticos é identificado com o deus do Antigo Testamento e contraposto ao verdadeiro Deus, pai de tudo, o Deus agnostos. ""Paulo Cezar Costa. "Salvatoris disciplina": Dionísio de Roma e a "Regula Fidei" no debate teológico do III século. [S.l.]: Gregorian Biblical BookShop, 2002. p. 27. ISBN 978-88-7652-911-5
  35. "Segundo certos relatos, o demiurgo autor da criação é o deus dos hebreus, do qual a Bíblia diz que é "um deus ciumento" (Êxodo 20:5)." LEON-DUFOUR, Xavier. Leitura do Evangelho segundo João - IV. [S.l.]: LOYOLA. p. 229. ISBN 978-85-15-01649-5
  36. The Great Angel: A Study of Israel's Second God. [S.l.]: Westminster John Knox Press, 1992. p. 174. ISBN 978-0-664-25395-0
  37. "Alguns sustentam que Sabaoth é um epíteto em aposição a Javé e que significa algo como "o poderoso", mas não há indícios no hebraico para tal significado." Bruce Manning Metzger. Dicionário da Bíblia 1: as pessoas e os lugares. [S.l.]: Jorge Zahar Editor, 2002. p. 233. ISBN 978-85-7110-690-1
  38. a b John Glyndwr Harris. Gnosticism: beliefs and practices. [S.l.]: Sussex Academic Press, 1999. p. 108. ISBN 978-1-902210-07-0 [1]
  39. Irineu, Contra Heresias, i. 5.
  40. Evangelho de Filipe
  41. Apócrifo de João, II, 14
  42. ZENGER, Erich. Introdução ao Antigo Testamento. [S.l.]: LOYOLA. p. 17. ISBN 978-85-15-02328-8