Diógenes de Sinope

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Diógenes de Sinope
Διογένης ὁ Σινωπεύς
Diógenes, de John William Waterhouse
Nascimento 412 a.C.
Sinope, (colônia grega) (Ásia Menor)
Morte 323 a.C. (89 anos)
Corinto
Ocupação Filósofo
Influências
Influenciados
Escola/tradição Cinismo, Asceticismo
Principais interesses Justiça, Autonomia, Política, Liberdade, Crítica à Pólis
Ideias notáveis Tornou-se o arquétipo do filósofo cínico.

Diógenes de Sinope (em grego antigo: Διογένης ὁ Σινωπεύς; Sinope, 404 ou 412 a.C.[1]Corinto, c. 323 a.C.[2] ), também conhecido como Diógenes, o Cínico, foi um filósofo da Grécia Antiga. Os detalhes de sua vida são conhecidos através de anedotas (chreia), especialmente as reunidas por Diógenes Laércio em sua obra Vidas e Opiniões de Filósofos Eminentes.

Diógenes de Sinope foi exilado de sua cidade natal e se mudou para Atenas, onde teria se tornado um discípulo de Antístenes, antigo pupilo de Sócrates. Tornou-se um mendigo que habitava as ruas de Atenas, fazendo da pobreza extrema uma virtude; diz-se que teria vivido num grande barril, no lugar de uma casa, e perambulava pelas ruas carregando uma lamparina, durante o dia, alegando estar procurando por um homem honesto. Eventualmente se estabeleceu em Corinto, onde continuou a buscar o ideal cínico da autossuficiência: uma vida que fosse natural e não dependesse das luxúrias da civilização. Por acreditar que a virtude era melhor revelada na ação e não na teoria, sua vida consistiu duma campanha incansável para desbancar as instituições e valores sociais do que ele via como uma sociedade corrupta.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Busto de Diógenes de Sinope.

Segundo a tradição, Diógenes vivia a perambular pelas ruas na mais completa miséria até que um dia foi aprisionado por piratas para, posteriormente, ser vendido como escravo. Um homem com boa educação chamado Xeníades o comprou. Logo ele pôde constatar a inteligência de seu novo escravo e lhe confiou tanto a gerência de seus bens quanto a educação de seus filhos.

Diógenes levou ao extremo os preceitos cínicos de seu mestre Antístenes. Foi o exemplo vivo que perpetuou a indiferença cínica perante os valores da sociedade da qual fazia parte. Desprezava a opinião pública e parece ter vivido em uma pipa ou barril. Reza a lenda que seus únicos bens eram um alforje, um bastão e uma tigela (que simbolizavam o desapego e autossuficiência perante o mundo), sendo ele conhecido também, talvez pejorativamente como kinos, o cão, pela forma como vivia.

A felicidade - entendida como autodomínio e liberdade - era a verdadeira realização de uma vida. Sua filosofia combatia o prazer, o desejo e a luxúria pois isto impedia a autossuficiência. A virtude - como em Aristóteles - deveria ser praticada e isto era mais importante que teorias sobre a virtude.

Diógenes é tido como um dos primeiros homens (antecedido por Sócrates com a sua célebre frase "Não sou nem ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo.") a afirmar, "Sou uma criatura do mundo (cosmos), e não de um estado ou uma cidade (polis) particular", manifestando assim um cosmopolitismo relativamente raro em seu tempo.

Diógenes parece ter escrito tragédias ilustrativas da condição humana e também uma República que teria influenciado Zenão de Cítio, fundador do estoicismo. De fato, a influência cínica sobre o estoicismo é bastante saliente.

Provavelmente, Diógenes foi o mais folclórico dos filósofos. São inúmeras as histórias que se contavam sobre ele já na Antigüidade.

É famosa, por exemplo, a história de que ele saía em plena luz do dia com uma lamparina acesa procurando por homens verdadeiros (ou seja, homens auto-suficientes e virtuosos).

Igualmente famosa é sua história com Alexandre, o Grande, que, ao encontrá-lo, ter-lhe-ia perguntado o que poderia fazer por ele. Acontece que devido à posição em que se encontrava, Alexandre fazia-lhe sombra. Diógenes, então, olhando para a Alexandre, disse: "Não me tires o que não me podes dar!" (variante: "deixa-me ao meu sol"). Essa resposta impressionou vivamente Alexandre, que, na volta, ouvindo seus oficiais zombarem de Diógenes, disse: "Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes."

Outra história famosa é a de que, tendo sido repreendido por estar se masturbando em público, simplesmente exclamou: "Oh! Mas que pena que não se possa viver apenas esfregando a barriga!"

Outra história ainda é a de que um dia Diógenes foi visto pedindo esmola a uma estátua. Quando lhe perguntaram o motivo de tal conduta ele respondeu "por dois motivos: primeiro é que ela é cega e não me vê, e segundo é que eu me acostumo a não receber algo de alguém e nem depender de alguém."

A temática do cão[editar | editar código-fonte]

Diógenes sentado em seu barril cercado por cães. Pintura de Jean-Léon Gérôme de 1860.

Muitas anedotas sobre Diógenes referem-se ao seu comportamento semelhante ao de um cão, e seu elogio às virtudes dos cães. Não é sabido se o filósofo se considerava insultado pelo epíteto "canino" e fez dele uma virtude, ou se ele assumiu sozinho a temática do cão para si. Os modernos termos "cínico" e "cinismo" derivam da palavra grega "kynikos", a forma adjetiva de "kynon", que significa "cão".[3] Diógenes acreditava que os humanos viviam artificialmente de maneira hipócrita e poderiam ter proveito ao estudar o cão. Este animal é capaz de realizar as suas funções corporais naturais em público sem constrangimento, comerá qualquer coisa, e não fará estardalhaço sobre em que lugar dormir. Os cães, como qualquer animal, vivem o presente sem ansiedade e não possuem as pretensões da filosofia abstrata. Somando-se ainda a estas virtudes, estes animais aprendem instintivamente quem é amigo e quem é inimigo. Diferentemente dos humanos, que enganam e são enganados uns pelos outros, os cães reagem com honestidade frente à verdade.

A associação de Diógenes com os cães foi rememorada pelos Coríntios, que erigiram em sua memória um pilar sobre o qual descansa um cão entalhado em mármore de Paros.

Precedente do anarquismo[editar | editar código-fonte]

O reecontro de Diógenes e de Alexandre.

Nas reflexões desenvolvidas pelo filósofos cínicos pode-se reconhecer importantes princípios do anarquismo ainda na Grécia Antiga.[4] Segundo o historiador inglês Donald R. Dudley, em particular no pensamento de Diógenes podem ser identificados muitos elementos presentes no movimento anarquista da contemporaneidade.[5]

Em seu artigo "Aristóteles e o Anarquismo" (Aristotle and Anarchism) o filósofo estadunidense David Keyt afirma que as sementes do anarquismo filosófico podem ser mais facilmente encontradas nas ideias de Diógenes de Sinope do que nas de Sócrates. Este mesmo autor confere também a Diógenes a defesa do gérmen do proto-internacionalismo na Antiguidade, uma vez que o próprio Diógenes, refutando todas as identidades vinculadas as cidades estados e povos antigos, e negando assim a imprescindibilidade da pólis (apolis), se definia como cidadão do cosmos (kosmopolitê).[6] O peso do pensamento ácrata de Diógenes na filosofia da Antiguidade faz este autor considerar a hipótese de Aristóteles estar em parte reagindo e se contrapondo às ideias de Diógenes quando faz sua defesa da pólis.[7]

Em relação a temática do casamento Diógenes refuta o modelo familiar grego afirmando que as esposas deveriam ser mantidas em comum, não reconhecendo nenhuma legitimidade em qualquer união baseada na coerção, mas somente nas relações que se baseiem na persuasão entre pares.[8]

Keyt apresenta ainda a perspectiva de Diógenes em relação à escravidão. Sua crítica à escravidão estaria focada no caráter de voluntarismo da parte dominada em relação à dominante: escravos sentem necessidade de mestres..[8] Em relação a este tema a posição de Diógenes se aproxima das reflexões apresentadas por Étienne de La Boétie sobre a servidão voluntária. Além de ser outro importante precedente do anarquismo no final do medievo, La Boétie fora a seu tempo tradutor de diversos escritos relacionados aos cínicos, adotando também a metodologia cínica baseada na inventividade, no uso da ironia, em jogos de palavras e paradoxos.[9]

"Na casa de um rico não há lugar para se cuspir, a não ser em sua cara."
Diógenes de Sinope
Portal Portal da Anarquia

Da perspectiva apresentada por Roca e Álvarez, Diógenes de Sinope pode ser considerado também um predecessor dos happenings como ferramenta de contestação política. Ainda na ótica destes autores, através de suas ações provocativas individuais com as quais contestava toda forma de autoridade (Diógenes adorava ridicularizar Platão enquanto autoridade filosófica) e de sacralidade, Diógenes pode ser considerado um importante precedente da vertente libertária conhecida como anarcoindividualismo.[10]

Obra[editar | editar código-fonte]

Talvez em parte por causa de seu comportamento escandaloso, que os escritos de Diógenes caíram no quase total esquecimento. Com efeito, a politeia (a República) escrita por Diógenes ataca numerosos valores do mundo grego, preconizando, entre outros, a antropofagia, a liberdade sexual total, a indiferença à sepultura, a igualdade entre homens e mulheres, a negação do sagrado, a supressão das armas e da moeda e o repúdio à arrecadação em prol da cidade e de suas leis. Por outro lado, Diógenes considerava o amor como sendo absurdo: não se deve apegar-se a outra pessoa.[carece de fontes?]

Síndrome de Diógenes[editar | editar código-fonte]

O nome de Diógenes tem sido aplicado a um distúrbio comportamental caracterizada por autonegligência involuntária e acumulação de objetos.[11] O distúrbio afeta predominantemente os idosos e não tem relação com a rejeição hercúlea de Diógenes deliberada de conforto material.[12]

Referências

  1. Teria morrido em 323 a.C., com a idade de "quase 90 anos", segundo Diógenes Laércio (vi. 76), o que faz com que sua data de nascimento fosse por volta de 412 a.C.. Porém Censorino (De die natali, 15.2) afirma que teria morrido com 81 anos, e o Suda precisa a data de seu nascimento durante o período dos Trinta Tiranos, ou seja, 404 a.C..
  2. Supostamente no mesmo dia que Alexandre, o Grande: Diógenes Laércio, vi. 79, Plutarco, Moralia, 717c.
  3. Liddell, H. G.; Scott, R.: A Greek-English Lexicon
  4. ancienthistory.about.com: Cynicism (em inglês)
  5. Dudley, Donald R. A History of Cynism (Londres: Methuen, 1937 [repr. 197411], pp. 211-12
  6. Keyt, David. Aristotle and Anarchism, p. 135
  7. Keyt, David. Aristotle and Anarchism, p. 145
  8. a b Keyt, David. Aristotle and Anarchism, p. 136
  9. Laursen, John Christian. Cynicism and Cosmopolitanism at the Roots of Freedom of the Press. Universidade da Califórnia. p.4
  10. Entrevista com Juan Manuel Roca e Ivan Dario Álvarez sobre seu Dicionário Anarquista de Emergência in Divergenses, Revista Libertária Internacional..
  11. Hanon C, Pinquier C, Gaddour N, Saïd S, Mathis D, Pellerin J (2004), "[Diogenes syndrome: a transnosographic approach"] (em French), Encephale 30 (4): 315–22, doi:10.1016/S0013-7006(04)95443-7, PMID 15538307, http://www.masson.fr/masson/MDOI-ENC-9-2004-30-4-0013-7006-101019-ART2 
  12. Navia, Diogenes the Cynic, pg 31

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Outros projetos Wikimedia também contêm material sobre este tema:
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Commons Categoria no Commons
  • Dudley, Donald. A History of Cynism London: Editora Methuen, 1937
  • Keyt, David. Aristotle and Anarchism. Washington: Universidade de Washington.
  • Laursen, John Christian. Cynicism and Cosmopolitanism at the Roots of Freedom of the Press. Universidade da Califórnia, 2007.


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