Dinastia merovíngia

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Expansão dos francos 481-870

Os merovíngios foram uma dinastia franca saliana que governou os francos numa região correspondente, grosso modo, à antiga Gália da metade do século V à metade do século VIII. Seus governantes se envolveram com frequência em guerras civis entre os ramos da família. No último século de domínio merovíngio, a dinastia foi progressivamente empurrada para uma função meramente cerimonial. O domínio merovíngio foi encerrado por um golpe de Estado em 751 quando Pepino o Breve formalmente depôs Childerico III, dando início à dinastia carolíngia.

Eles eram citados às vezes por seus contemporâneos como os "reis de cabelos longos" (em latim reges criniti), por não cortarem simbolicamente os cabelos (tradicionalmente, os líderes tribais dos francos exibiam seus longos cabelos como distinção dos cabelos curtos dos romanos e do clero). O termo "merovíngio" deriva do latim medieval Merovingi ou Merohingi ("filhos de Meroveu"), alteração de uma forma não atestada do baixo franconiano ocidental antigo, relacionada ao nome da dinastia em inglês antigo, Merewīowing1 , com o final -ing sendo um sufixo típico patronímico.

Origens[editar | editar código-fonte]

A dinastia merovíngia deve seu nome ao semi-lendário Merovech (latinizado como Meroveus ou Merovius), líder dos francos salianos, e surgiu na história com as vitórias de seu filho Childerico I (que reinou entre c. 457 a 481) contra visigodos, saxões e alamanos. O filho de Childerico, Clóvis I, conseguiu unir sob seu controle a maior parte da Gália ao norte do Loire por volta de 486, quando ele derrotou Siágrio, o governante romano daquela região. Ele também venceu a batalha de Tolbiac contra os alamanos em 496, adotando nessa ocasião através de sua esposa o cristianismo. Decisivamente derrotou o Reino Visigodo de Tolosa na Batalha de Vouillé em 507. Após a morte de Clóvis, seu reino foi dividido entre seus quatro filhos, como era costume entre os francos. A tradição da divisão do reino entre os herdeiros continuaria no século seguinte. Mesmo quando mais de um rei merovíngio governava, o reino - similar ao Império Romano no seu ocaso - era concebido como uma entidade única governada coletivamente por vários reis (em seus próprios domínios) e a sequência de eventos poderia resultar na reunificação de todo o reino sob um único rei.

História[editar | editar código-fonte]

Anel com sinete de Childerico I. Monnaie de Paris.

Quando Clóvis morreu em 511, o reino merovíngio incluía todos os francos e toda a Gália exceto a Borgonha. O reino, mesmo quando dividido sob diferentes reis, manteve a unidade e conquistou a Borgonha em 534. Após a queda dos ostrogodos, os francos também conquistaram Provença. A partir daí, suas fronteiras com a Itália (governada pelos lombardos desde 568) e com a Septimania visigoda permaneceram bastante estáveis2 .

Internamente, o reino foi dividido entre os filhos de Clóvis e depois entre seus netos e frequentemente viu guerras entre os diferentes reis, que rapidamente se aliavam entre eles contra um outro. A morte de um rei criava conflitos entre os irmãos sobreviventes e os herdeiros do falecido, com consequências variadas. Depois, os conflitos foram intensificados pelas contendas que tiveram como figura central Brunhilda da Austrásia. No entanto, as guerras contantes muitas vezes não se constituíam em devastação geral e tomavam uma característica quase ritual, com 'regras' e normas estabelecidas.3

Finalmente, em 613, Clotário II reuniu todo o reino franco sob um único rei. Divisões posteriores produziram as unidas estáveis da Austrásia, Nêustria, Borgonha e Aquitânia.

As guerras frequentes enfraqueceram o poder real, enquanto a aristocracia lucrava e adquiria enormes concessões dos reis em troca de seu apoio. Estas concessões viram o poder absoluto do rei ser dividido e entregue aos principais comites e duces (condes e duques). Muito pouco de fato é conhecido sobre as ocorrências do século VII devido à escassez de fontes, mas é certeza a permanência dos merovíngios no poder até o século VIII.

O filho de Clotário II, Dagoberto I (morto em 639), que enviou tropas à Península Ibérica e aos territórios eslavos pagãos no leste, é geralmente visto como o último rei mervíngio poderoso. Os reis que o sucederam são conhecidos como rois fainéants ("reis preguiçosos", "reis que nada fazem"), apesar do fato de apenas os dois últimos reis realmente nada fazerem. Os reis, mesmo os voluntariosos como Dagoberto II e Chilperico II, não eram os principais agentes dos conflitos políticos, deixando esta função para seus prefeitos do palácio, que progressivamente substituíram os interesses dos seus reis pelos seus. Muitos reis chegaram ao trono muito jovens e morreram no verdor dos anos, enfraquecendo ainda mais o poder real.

O conflito entre os prefeitos terminou quando os austrasianos sob Pepino de Herstal triunfaram em 687 na batalha de Tertry. A partir daí, Pepino, mesmo não sendo rei, era o governante político do reino franco e legou esta posição como herança a seus filhos. Agora eram os filhos do prefeito que dividiam o reino entre eles sob um rei único.

Após o longo governo de Pepino, seu filho Carlos Martel assumiu o poder, lutando contra a nobreza e contra sua própria madrasta. Sua reputação de crueldade tornou questionável sua posição de rei. Durante os últimos anos de sua vida ele até mesmo governou sem um rei, apesar de não ter assumido a dignidade real. Seus filhos Carlomano e Pepino novamente nomearam um rei merovíngio (Childerico III) para sanar rebeliões na periferia do reino. Mas em 751, Pepino finalmente destronou o último rei merovíngio e, com o apoio da nobreza e a bênção do papa Zacarias, assumiu o título de rei dos francos. O rei merovíngio deposto foi enviado a um monastério, sendo despojado de seus simbólicos cabelos longos. Com Pepino, os carolíngios passaram a governar os francos como reis.

Governo e lei[editar | editar código-fonte]

O rei merovíngio era o senhor dos espólios de guerra, responsável pela redistribuição das riquezas conquistadas entre seus seguidores, apesar de estes poderes não serem absolutos. "Quando ele morria, suas propriedades eram divididas igualmente entre seus herdeiros como se fosse propriedade privada: o reino era uma forma de patrimônio" (Rouche 1987 p 420). Alguns acadêmicos atribuem isso à falta de senso merovíngia de res publica, mas outros historiadores criticam este ponto de vista como uma simplificação demasiada.

O rei indicava magnatas para serem comites (condes), incubindo-os da defesa, administração e do julgamento de disputas. Isto acontecia contra o pano de fundo de uma Europa recentemente isolada, sem os sistemas romanos de impostos e burocracia, que os francos foram empregando em sua administração à medida que penetravam nas regiões completamente romanizadas do oeste e sul da Gália. Os condes tinham que fornecer exércitos, alistando suas milites e doando-lhes terras no seu retorno. Estes exércitos estavam submetidos ao chamado do rei por apoio militar. Havia assembleias nacionais anuais dos nobres do reino e seus exércitos onde decidia-se as principais políticas de guerra. O exército também aclamava os novos reis, erguendo-os sobre seus escudos em continuação a uma antiga prática que fazia do rei o líder do bando guerreiro. Além disso, esperava-se que o rei se mantivesse com os produtos de seus próprios domínios (royal demesne), o que era chamado de fisc. Este sistema evoluiu gradualmente para o feudalismo, e as expectativas da auto-suficiência real duraram até a Guerra dos Cem Anos. O comércio declinou com a queda do Império Romano e as propriedades agrícolas eram em sua maioria auto-suficientes. O comércio internacional que persistiu era dominado por mercadores do Oriente Médio.

A lei merovíngia não era uma lei universal igualmente aplicável a todos; era aplicada a cada indivíduo de acordo com sua origem: os francos ripuários eram sujeitos à sua própria Lex Ripuaria, codificada numa dat posterior (Beyerle e Buchner 1954), enquanto a conhecida Lex Salica dos clãs salianos, a princípio temporariamente codificada em 511 (Rouche 1987 p. 423), foi invocada sob as exigências medievais posteriores no tempo dos Valois. Nisto os francos deixaram para trás borgonheses e visigodos, que não tinham uma lei universal baseada na romana. No período merovíngio, a lei permaneceu como costume de memorização dos rachimburgs, que memorizavam todos os precedentes nos quais ela era baseada, devido ao fato de que a lei merovíngia não admitia o conceito de criação de uma nova lei, apenas na manutenção da tradição.

Religião e cultura[editar | editar código-fonte]

A cultura merovíngia era tão completamente embebida de religião que Ytzhak Hen julgou que poder-se-ia apresentar a cultura popular merovíngia como essencialmente um sinônimo de sua religião, o que ele mostra através de textos escritos.4 A cultura merovíngia certamente testemunhou uma extensa proliferação de santos.

O cristianismo foi levado aos francos pelos monges. O mais famoso desses missionários é São Columbano, um monge irlandês que desfrutou de grande influência junto à rainha Batilde. Os reis e rainhas merovíngios tomavam vantagem da recente formação da estrutura do poder eclesiástico. Monastérios e sedes episcopais eram cuidadosamente concedidas às elites que apoiavam a dinastia. Grandes extensões de terras foram doadas aos monastérios para dispensar aquelas terras dos impostos reais e para preservá-las dentro da família. A família manteria seu domínio sobre o monastério pela indicação de seus membros como abades. Filhos e filhas mais novos e que não poderiam casar-se eram enviados aos monastérios para que não ameaçassem a herança da criança mais velha. Esse uso pragmático dos monastérios assegurou laços fortes entre as elites e as propriedades monásticas.

Vários merovíngios que serviram como bispos e abades, ou que generosamente fundaram abadias, foram recompensados com a santidade. A grande quantidade de santos francos que não pertenciam nem à realeza merovíngia nem às famílias aliadas que forneciam condes e duques, merece uma verificação mais apurada para este fato isoladamente: assim como Gregório de Tours, eles pertenciam, quase sem exceção, à aristocracia galo-romana das regiões meridionais e ocidentais sob controle merovíngio. A principal forma característica da literatura merovíngia é representada pelas biografias dos santos. A hagiografia merovíngia não prepara uma biografia no sentido romano nem no moderno, mas a prepara para atrair e manter a devoção popular através das fórmulas de elaborados exercícios de literatura, através dos quais a igreja franca direcionava a piedade popular dentro dos canais ortodoxos, definindo a natureza da santidade e mantendo algum controle sobre os cultos póstumos que se desenvolviam espontaneamente nos locais de sepultamento, onde a força de vida do santo prolongava-se, pelo bem do devotos.5

Os vitae et miracula, porque os milagres impressionantes eram um elemento essencial da hagiografia merovíngia, eram lidos em voz alta nos dias comemorativos dos santos. Muitos santos merovíngios, e a maioria das santas, eram locais, venerados apenas dentro de regiões estritamente circunscritas; seus cultos foram revividos na Alta Idade Média, quando a população de mulheres nas ordens religiosas cresceu enormemente. Judith Oliver apontou cinco santas merovíngias na diocese de Liège que aparecem numa longa lista de santos de um saltério do final do século XIII.6 As características que elas dividem com muitas santas merovíngias podem ser mencionadas:

As biografias de seis santos merovíngios que ilustram a história política daquela era foram traduzidas e editadas por Paul Fouracre e Richard A. Gerberding, e apresentadas como o Liber Historiae Francorum, para fornecer de certa forma contexto histórico.8

Santos merovíngios mais importantes[editar | editar código-fonte]

Rainhas e abadessas[editar | editar código-fonte]

  • Genoveva, a virgem de Paris (falecida em 502);
  • Clotilde, rainha dos francos (falecida em 544/45);
  • Monegunda, viúva e eremita de Tours (falecida em 544);
  • Radegunda, princesa turingiana que fundou um monastério em Poitiers (falecida em 587);
  • Rusticula, abadessa de Arles (falecida em 632);
  • Cesária II, abadessa de Saint Jean de Arles (falecida em c. 550);
  • Glodesinda, abadessa de Metz (falecida em c. 600);
  • Burgundofara, abadessa de Moutiers (falecida em 645);
  • Sadalberga, abadessa de Laon (falecida em 670);
  • Rictrude, abadessa fundadora de Marchiennes (falecida em 688);
  • Itta, abadessa fundadora de Nivelles (falecida em 652);
  • Begga, abadessa de Andenne (falecida em 693);
  • Gertrudes de Nivelles, abadessa de Nivelles (falecida em 658);
  • Aldegunda, abadessa de Mauberges (falecida em c. 684);
  • Waltrude, abadessa de Mons (falecida em c. 688);
  • Batilde, rainha dos francos (falecida em c. 680);
  • Eustadiola, viúva de Bourges (falecida em 684);
  • Bertilla, abadessa de Chelles (falecida em c. 700);
  • Anstrude, abadessa de Laon (falecida antes de 709);
  • Austreberta, abadessa de Pavilly (falecida em 703).

Bispos e abades[editar | editar código-fonte]

  • Audoin de Rouen, bispo de Rouen;
  • Aunemundo;
  • Leodegário, bispo de Autun;
  • Praejectus;
  • Elígio, bispo de Noyon-Tournai;
  • Pretestato, bispo de Rouen e amigo de Gregório de Tours;
  • Gregório de Tours, bispo de Tours e historiador;
  • Santo Huberto, apóstolo de Ardennes e o primeiro bispo de Liège.

Historiografia e fontes[editar | editar código-fonte]

"A história dos francos, especialmente dos primeiros francos, é rica em fábulas, mas pobre em história".
Prefácio de "Os Francos" ("The Franks"), Lewis Sergeant.

Existe um número limitado de fontes contemporâneas para a história dos francos merovíngios, mas esta que sobreviveram cobrem todo o período da sucessão de Clóvis à deposição de Childerico. Em primeiro lugar entre os cronistas da época está o canonizado bispo de Tours, Gregório de Tours. Seu Decem Libri Historiarum é uma fonte primária dos reinados dos filhos de Clotário II e de seus descendentes até a morte de Gregório.

A fonte importante seguinte, bem menos organizada que o trabalho de Gregório, é a Crônica de Fredegar, iniciada por Fredegar, mas continuada por autores desconhecidos. Ela cobre o período de 584 a 641, apesar de seus continuadores, sob patrocínio carolíngio, estenderem-na até 768, após o fim da era merovíngia. Ela é a única fonte narrativa primária da maior parte de seu período. A única outra fonte contemporânea importante é o Liber historiae Francorum, uma adaptação anônima do trabalho de Gregório aparentemente ignorante da crônica de Fredegar: seu(s) autor (es) termina com uma referência ao sexto ano de Teodorico IV, que seria 727. Ele foi amplamente lido; apesar de ele ser indubitavelmente uma parte do trabalho pipinida, e seus preconceitos levrem-no a iludir (por exemplo, concernente às duas décadas entre as controvérsias envolvendo os prefeitos do palácio Grimoaldo o Velho e Ebroin: 652-673).

Junto com estas crônicas, as únicas fontes sobreviventes de historiografia são cartas, cânones e seus semelhantes. Clérigos como Gregório e Sulpício o Pio escreviam cartas, apesar de relativamente poucas cartas tenham sobrevivido. Decretos, concessões e decisões judiciais sobreviveram, assim como a famosa Lex Salica, mencionada acima. A partir dos reinados de Clotário II e Dagoberto I sobreviveram muitos exemplos da posição real como o suprema corte e juiz definitivo. Também sobreviveram biografias da vida dos santos do período, por exemplo Santo Elígio e Leodegário, escritas logo após suas mortes.

Finalmente, a evidência arqueológica não pode ser ignorada como uma fonte de informação, no mínimo, sobre o modus vivendi dos francos da época. Entre as grandes descobertas de objetos perdidos está a desvelação acidental em 1653 da tumba de Childerico I numa igreja em Tournai. Os objetos do túmulo incluíam uma cabeça de touro dourada e os famosos insetos dourados (talvez abelhas, cigarras, afídeos ou moscas) com os quais Napoleão enfeitou seu manto de coroação. Em 1957, o sepulcro da segunda esposa de Clotário I, Aregunda, foi descoberto na Basílica de Saint-Denis em Paris. As vestimentas funerárias e as jóias estavam razoavelmente bem preservadas, dando-nos uma visão dos costumes da época.

Numismática[editar | editar código-fonte]

A cunhagem bizantina estava em uso na Frância antes que Teodeberto I começasse a cunhar seu próprio dinheiro no começo de se reinado. Ele foi o primeiro a lançar uma cunhagem distintamente merovíngia. O soldo e o triens foram cunhados na Frância entre 534 e 679. O denário apareceu depois, em nome de Childerico II e de vários membros da nobreza não reais por volta de 673-675. Um denário carolíngio substituiu o merovíngio e o pfennig frisão na Gália de 755 até o século XI.

As moedas merovíngias estãoem exibição no Monnaie de Paris, em Paris.

Merovíngios na cultura popular[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Babcock, Philip (ed). Webster's Third New International Dictionary of the English Language, Unabridged. Springfield, MA: Merriam-Webster, Inc., 1993: 1415
  2. Archibald R. Lewis, "The Dukes in the Regnum Francorum, A.D. 550-751." Speculum 51.3 (July 1976, pp. 381-410) p 384.
  3. Guy Halsall, Warfare and Society in the Barbarian West, 450-900 (Routledge, London, 2003)
  4. Yitzhak Hen, Culture and Religion in Merovingian Gaul, A.D. 481-751 (New York: Brill) 1995
  5. J. M. Wallace-Hadrill, The Frankish Church,, V:"The Merovingian Saints" (1983), pp. 75-94
  6. Judith Oliver, "'Gothic' Women and Merovingian Desert Mothers" Gesta 32.2 (1993), pp. 124-134
  7. Oliver 1993:127
  8. Paul Fouracre and Richard A. Gerberding, Late Merovingian France: History and Hagiography, 640-720 (Manchester University) 1996

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

A designação Merovíngio é o tema central do thriller O ÚLTIMO MEROVÍNGIO (Kingdom Come), escrito por JIM HOUGAN (Editora Planeta do Brasil), escritor americano e traduzido por Lúcia Brito, editado em 2005.

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