Docuficção

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Docuficção (termo que se confunde com docudrama) é um neologismo que designa uma obra cinematográfica híbrida cujo género se situa entre o documentário e a ficção.

É um género cinematográfico que procura captar a realidade “tal como ela é” (como cinema directo ou como cinema-verdade) e que ao mesmo tempo introduz na narrativa elementos irreais ou ficcionais com o intuito de reforçar a representação do real com recurso a determinada forma de expressão artística.

Mais precisamente, é um documentário contaminado por elementos ficcionais1 cuja adição tem lugar no momento preciso em que os acontecimentos decorrem, em tempo real, e em que alguém, a personagem, desempenha o seu próprio papel na vida real. É um género em expansão, adotado por um número crescente de cineastas2 . O termo docuficção surgiu no início do século XXI. É vulgarmente usado em várias línguas e aceite para classificação na maior parte dos festivais internacionais de cinema3 4 5 6 7 8 9 10 11

Docudrama[editar | editar código-fonte]

Docudrama, por outro lado, é por regra uma recriação12 de acontecimentos reais em forma de documentário, num tempo subsequente aos eventos factuais que retrata. Há quem indevidamente refira docuficção como sinónimo de docudrama, tomando drama por ficção, o que é vulgar na língua inglesa. Confunde-se assim termos diferentes e o conceito torna-se ambíguo: o sentido de emoção dramática confunde-se com o de expressão fictiva. Docudrama será por isso mais adequado neste sentido: telefilmes ou recriações mediáticas que encenam acontecimentos reais e os dramatizam, muitas vezes com actores.

As televisões dos EUA recorrem com frequência também a uma forma de “falso documentário”, o mockumentary (que se traduz em francês por documenteur: documentário mentiroso), para ilustrar situações reais em estilo trocista. Um «filme ou emissão televisiva com elementos ficcionais apresentados no formato de documentário», recriados regra geral depois de eles terem ocorrido. Retratando eventos num tempo ulterior e recorrendo basicamente à narrativa ficcional é género que também não se deve confundir com docuficção.

Conceito[editar | editar código-fonte]

Implica ainda o conceito de docuficção que documentário e ficção são géneros básicos na teoria do cinema13 , dado o estatuto ontológico da imagem filmada como fotografia: o duplo (a imagem filmada do sujeito) é a mesma coisa, como representação e como realidade 14 no documentário. Na ficção é pura representação: um actor representa outra pessoa (está para ela tal como ela está para ele), standing for15 16 , figurando a pessoa representada.

Pertencendo a ambos os géneros, sendo documentário e ficção, a docuficção é um híbrido intencionalmente equívoco que suscita questões éticas relativas à verdade 14 17 18 19 20 21 22 23 24 .

O termo docuficção é ainda usado, com alguma frequência em inglês (docufiction), para designar uma forma de jornalismo literário : a não-ficção criativa (Creative non-fiction).

Origens da docuficção[editar | editar código-fonte]

Sendo um neologismo, o termo docuficção ilustra uma prática do filme documentário que existe desde Robert Flaherty 25 26 , e que tem Jean Rouch como um dos seus mais representativos praticantes no Século XX.

No domínio da antropologia visual e da docuficção, a actividade inovadora de Rouch27 28 permite considerá-lo como o criador de um subgénero designado etnoficção (Jean Rouch and the Genesis of Ethnofiction – tese de Brian Quist, Long Island University). Sendo precursor do género, Robert Flaherty pratica a etnoficção de modo intuitivo, sem método científico, desde “Moana”, filme posterior a Nanook, o esquimó (Nanouk of the North) em que Flaherty se limita a encenar acções reais para reforçar a narrativa sem ficcionar. O termo significa: documentário etnográfico com nativos que desempenham papéis ficcionais. Fazer com que se representem a si próprios ajudará a retratar a realidade 29 que será reforçada com o imaginário. Um documentário não etnográfico com com elementos ficcionais pode ser designado com docuficção pelas mesmas razões.

A etnoficção é uma prática recorrente no cinema português. Leitão de Barros realiza a segunda etnoficção mundial (Maria do Mar - 1930) depois de Moana (1926), também de Flaherty.

Primeiras docuficções por país[editar | editar código-fonte]

Outras docuficções históricas[editar | editar código-fonte]

A docuficção em Portugal[editar | editar código-fonte]

A docuficção é pela primeira vez praticada em Portugal em 1930, como etnoficção, por Leitão de Barros : Maria do Mar, seguida de Ala-Arriba! (filme) (1945). A partir da década de sessenta começa a ser explorada por realizadores como Manoel de Oliveira (O Acto da Primavera - 1963), seguido por António Campos (Gente da Praia da Vieira), Ricardo Costa (Mau Tempo, Marés e Mudança), António Reis (Trás-os-Montes (filme), Fernando Lopes (Nós por cá todos bem), quatro docuficções de 1976, e depois por Pedro Costa (Ossos) . Outros surgirão.

docuficções portuguesas recentes[editar | editar código-fonte]

2000

2003

2006

2008

2012/14

Docudrama[editar | editar código-fonte]

definições

  • Compact Oxford English Dictionary: «um filme dramatizado baseado em eventos reais e incorporando aspectos de documentário».
  • Cambridge Advanced Learner's Dictionary: «um programa de televisão cuja história se baseia num evento ou situação que realmente aconteceu, embora não pretenda ser fiel em todos os detalhes»
  • Wikitionary: «Um tipo de drama (um filme, espectáculo de televisão, uma peça de teatro) que combina elementos de documentário e drama, mostrando até certo ponto eventos reais e até certo ponto usando actores representando recriações e acontecimentos documentados».
  • American Heritage: «Uma dramatização televisiva ou cinematográfica de uma situação baseada em factos».
  • Rhymezone: «um filme ou programa de televisão apresentando factos sobre uma pessoa ou acontecimento»

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Il difficile rapporto tra fiction e non fiction che si concretizza nella docu-fiction (A difícil relação entre ficção e não ficção que se concretiza na docuficção) – tese em italiano de Laura Marchesi, Faculdade das Ciências da Comunicação (Università degli Studi di Pavia) em Tesionline, 2005/06
  2. What is docufiction? – Ver Section II, pp 37 a 75 (quatro capítulos) da tese do Prof. Theo Mäusli
  3. Indie Matra Bhumi (Terra-Mãe)Festival de Cannes
  4. Abel Ferrara to Venice Film Festival, through a docufilm Ischia to NaplesFestival de Veneza
  5. The Savage Eye: White Docu-Fiction & Black Reality em Tribeca Film Festival
  6. Brian De Palma's On His Iraq Docu-Fiction Comeback at The Huffington PostFestival de Toronto e Festival de Veneza
  7. Darius Mehrjui’s film Diamond 33 – Festival de Veneza
  8. New Film EventsLondon Short Film Festival
  9. Oscilloscope 'Howl' for Off Beat Docu-Fiction Sundance Selection em Ion Cinema
  10. Docufiction em vários festivais de cinema
  11. Ver: Híbridos nas Ligações Externas
  12. Ver Docudrama: the real (his)tory Confusion of genres – Pág. 2 da tese de Çiçek Coşkun (New York University School of Education)
  13. The Gap: Documentary Truth between Reality and Perception – artigo de Randolph Jordan referindo «a crescente indistinção entre documentário e ficção (the increasing lack of distinction between documentary and fiction film)» em Hors Champ
  14. a b Open-ended Realities – artigo de Luciana Lang em Latineos
  15. Semiotics em Book Regs
  16. Semiotics for Beginners de Daniel Chandler em Aberystwyth University
  17. (NON)FICTION AND THE VIEWER: RE-INTERPRETING THE DOCUMENTARY FILM – Paper de Tammy Stone, Avila University
  18. See hybrid genre – pág. 50, tese sobre docuficão do Prof. Theo Mäusli
  19. The appeal of hybrid documentary forms in West Africa em Project Muse
  20. Ethics and Documentary Filmmaking – Artigo de Marty Lucas em Center for Social Media (American University in Washington, D.C)
  21. On Ethics and Documentary: A Real and Actual Truth – Artigo den Garnet C. Butchart em Cultural Studies Program, Trent University, Peterborough, Ontario, Canada, publicado por University of South Florida
  22. What to Do About Documentary Distortion? Toward a Code of Ethics – Artigo de Bill Nichols at Documentary.org
  23. Documentary Film Prompts-Ethics in Documentary/Fiction vs. Documentary – Paper de Ardavon Naimi at University of Texas at Dallas
  24. Ethics and Filmmaking in Developing Countries em Unite For Sight
  25. Definition of documentary – New Frontiers in American documentary (American Studies at The University of Virginia)
  26. The Impulse of Documentary-Fiction - Paper em Transart Institute
  27. READING THE IMAGE: Visual Literacy And The Films Of Jean Rouch – artigo de Rayma Watkinson em Inter-disciplanary Net
  28. Jean Rouch 1917-2004, A Valediction – Artigo de Michael Eaton em Rouge
  29. "Ethnofiction: drama as a creative research practice in ethnographic film." Journal of Media Practice 9, no. 3(2008), eScholarID:1b5648, artigo de Johannes Sjöberg
  30. António Reis e Margarida Cordeiro em retrospectiva no Harvard Film Archive – Notícia jornal Público, 17/05/2012

Fontes e bibliografia[editar | editar código-fonte]





Ver também[editar | editar código-fonte]


docudrama:

Ligações externas[editar | editar código-fonte]