Doença

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
(Redirecionado de Doenças)
Ir para: navegação, pesquisa
Sin Nombre hanta virus TEM PHIL 1136 lores.jpg

A Doença (do latim dolentia, padecimento) designa em medicina e outras ciências da saúde um distúrbio das funções de um órgão, da psiqué ou do organismo como um todo que está associado a sinais e sintomas específicos.[1] [2] [3] Pode ser causada por fatores externos, como outros organismos (infecção), ou por desfunções ou mal funcionamento interno, como as doenças autoimunes. A patologia é a ciência que estuda as doenças e procura entendê-las.

Resulta de consciência da perda da homeostasia de um organismo vivo, total ou parcial, estado este que pode cursar devido a infecções, inflamações, isquemias, modificações genéticas, sequelas de trauma, hemorragias, neoplasias ou disfunções orgânicas. Distingue-se da enfermidade, que é a alteração danosa do organismo.[4] O dano patológico pode ser estrutural ou funcional.

O profissional de saúde faz a anamnese e examina o paciente a procura de sinais e sintomas que definem a síndrome da doença, solicita os exames complementares conforme suas hipóteses diagnósticas, visando chegar a um diagnóstico. O passo seguinte é indicar um tratamento.

Conceitos de doença[editar | editar código-fonte]

Doença é um conceito complexo e multifacetado:[5]

  • conceito do senso comum: a palavra tem em linguagem quotidiana diferentes significados, muitas vezes distintos do significado médico;
  • conceito jurídico: doenças dão a seus portadores determinados direitos (ex. não ir ao trabalho) e implica deveres para várias instituições (seguros de saúde, previdência social, empregador…);
  • conceito social: ser "doente" implica um determinado papel social que provoca em outras pessoas compaixão, atenção, apoio; além disso certos tipos de comportamento geralmente indesejáveis são aceitos (resmungar, não participar de atividades sociais…);
  • conceito acional (Handlungsbegriff): o ter uma doença conduz a um determinado tipo de comportamento e a determinadas ações (procurar um médico, tratamento…);
  • conceito profissional: a classificação de um fenômeno como doença implica que somente algumas classes profissionais podem realizar seu tratamento;
  • conceito antropológico: doença é uma forma de experiência humana como a felicidade, tristeza, luto, morte.

Conceito médico[editar | editar código-fonte]

Por ter tantos usos e significados diferentes faz-se necessária uma definição pelo uso científico do termo. O conceito de doença compõem-se, segundo Häfner (1981,[6] 1983[7] ), de dois componentes: 1. o distúrbio de funções, grupos de funções ou de sistemas interpessoais e 2. o estado não é proposital - "doença" implica incapacidade. Além disso ele é formado em diferentes níveis: (a) a manifestação e (b) o desenvolvimento da doença, que caracterizam o "estar doente" (Kranksein); o conhecimento (c) dos órgãos afetados e (d) e do contexto patológico, de forma a se compreender como os primeiros três níveis se influenciam mutuamente; e pro fim (e) o conhecimento das causas de (c). Somente quando todos esses níveis são conhecidos pode-se falar de nosologia.

Conceito bio-psicossocial[editar | editar código-fonte]

O conceito de doença descrito acima é o chamado "conceito médico". Ele localiza a doença dentro do indivíduo e a define como um fenômeno isolado, com causas biológicas e muitas vezes a ser tratado com medicamentos. Críticas contra esse conceito foram levantadas por várias ciências sociais (sociologia, antropologia, ciências da saúde, psicologia da reabilitação, etc.): uma doença não influencia somente o indivíduo, mas todas as pessoas que estão em contato com ele (família, amigos…); além disso ela tem não apenas consequências biológicas, mas sociais (isolamento, preconceito, etiquetação, etc.) e provocam muitas vezes mudanças no sistema social. Por isso se fala hoje de um conceito bio-psico-social, ou seja uma doença deve ser vista sob diferentes pontos de vista, de acordo com os diferentes fatores que a influenciam:[8]

  • fatores biológicos - como a predisposição genética e os processos de mutação que determinam o desenvolvimento corporal em geral, o funcionamento do organismo e o metabolismo, etc.;
  • fatores psicológicos - como preferências, expectativas e medos, reações emocionais, processos cognitivos e interpretação das percepções, etc.;
  • fatores socioculturais - como a presença de outras pessoas, expectativas da sociedade e do meio cultural, influência do círculo familiar, de amigos, modelos de papéis sociais, etc.

A literatura sobre sociologia médica em língua inglesa costuma diferenciar esses diferentes aspectos da doença com o uso de três termos distintos (que no inglês quotidiano são usadas como sinônimos):[9]

  • disease é a parte médica e técnica;
  • illness refere-se à experiência pessoal da pessoa doente e
  • sickness refere-se ao aspecto social e relacional da doença.

Significado social da doença[editar | editar código-fonte]

A obesidade foi um símbolo de status na cultura do Renascimento: "O General Toscano Alessandro del Borro", atribuído a Andrea Sacchi, 1645.[10] É agora geralmente considerada como uma doença.

Uma condição pode ser considerada uma doença em algumas culturas e épocas, mas não em outras. Condições tais como o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade e a obesidade são consideradas doenças por parte de alguns países desenvolvidos, mas têm sido considerados de forma diferente em outras culturas. Por exemplo, a obesidade também pode representar riqueza e abundância e é um símbolo de status em áreas propensas à fome e alguns lugares mais atingidos pela caquexia decorrente da AIDS.[11]

A doença confere a legitimação social de determinados benefícios, como auxílio-doença, desnecessidade de comparecer ao trabalho e recebimento de cuidadas por outras pessoas. Em contrapartida, existe uma obrigação por parte do doente a procurar tratamento e trabalho para voltar a ficar bem. Como comparação, considere-se a gravidez, que não é normalmente interpretada como uma doença ou uma enfermidade. Por outro lado, é considerada pela comunidade médica como uma condição que exige cuidados médicos.

A identificação de uma condição como uma doença, ao invés de simplesmente como uma variação da estrutura ou funcionalidade humana, pode ter importantes implicações sociais ou econômicas. Os reconhecimentos controversos como doenças do transtorno de estresse pós-traumático, também conhecido como o "coração do soldado", "choque de stress do combate" ou "fadiga do combate", da lesão por esforço repetitivo e da síndrome da Guerra do Golfo teve uma série de efeitos positivos e negativos sobre as finanças e outras responsabilidades governamentais, empresas e instituições para indivíduos, assim como sobre os próprios indivíduos. A implicação social de considerar o envelhecimento como uma doença pode ser profunda, embora esta classificação não está ainda generalizada. Os leprosos eram um grupo de indivíduos socialmente evitados ao longo da história e o termo "leproso" ainda evoca estigma social. O medo da doença pode ainda ser um fenômeno social amplo, embora nem todas as doenças evocam um estigma social extremo.

Referências

  1. eMedicine/Stedman Medical Dictionary Lookup!.
  2. disease em Dorland's Medical Dictionary
  3. WordNet Search - 3.0.
  4. Saúde e Doença: Significados e Perspectivas em Mudança. Página visitada em 15 de janeiro de 2012.
  5. Perrez, Meinrad & Baumann, Urs (2005). Lehrbuch klinische Psychologie - Psychotherapie. Bern: Huber.
  6. Häfner, H. (1981). "Der Krankheitsbegriff in der Psychiatrie". In: R. Degwitz & H. Sidow (Hrsg.), Zum umstrittenen psychiatrischen Krankheitsbegriff. Standorte der Psychiatrie Bd. 2, München: Urban & Schwarzenberg, p. 16-54.
  7. Häfner, H. (1983). "Allgemeine und spezielle Krankheitsbegriffe in der Psychiatrie". Nervenarzt, 54, 231-238.
  8. Myers, David G. (2008). Psychologie. Heidelberg: Springer.
  9. Schweitzer, Jochen & Schlippe, Arist von (2006). Lehrbuch der systemischen Therapie und Beratung. Band: 2, Das störungsspezifische Wissen. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht.
  10. Carol Gerten-Jackson. The Tuscan General Alessandro del Borro.
  11. Haslam DW, James WP. (2005). "Obesity". Lancet 366 (9492): 1197–209. DOI:10.1016/S0140-6736(05)67483-1. PMID 16198769.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Myers, David G. (2008). Psychologie. Heidelberg: Springer. ISBN 978-3-540-79032-7 (Original: Myers (2007). Psychology, 8th Ed. New York: Worth Publishers.)
  • Perrez, Meinrad & Baumann, Urs (2005). Lehrbuch klinische Psychologie - Psychotherapie. Bern: Huber. ISBN 3-456-84241-4
  • Schweitzer, Jochen & Schlippe, Arist von (2006). Lehrbuch der systemischen Therapie und Beratung. Band: 2, Das störungsspezifische Wissen. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht. ISBN 3-525-46256-5
  • Antonovsky, A. (1979). Health, stress, and coping: new perspectives on mental and physical well-being. San Francisco: Jossey-Bass.
  • Aron, E., & Aron, A. (1987). The influence of inner state on self-reported long term happiness. Journal of Humanistic Psychology, 27, 248-270.
  • Blaxter, M. (1990). Health and Lifestyles. London: Tavistock.
  • Bolander, V.B. (1998). Enfermagem fundamental: abordagem psicofisiológica (pp.32-52). Lisboa: Lusodidacta.
  • Breslow, L. (1987). Some fields of application for health promotion and disease prevention. In T. Abelin, Z.J. Brzezinski, & D.L. Carstairs (Eds.), Measurement in health promotion and protection (Nº 22, pp.47-60). Copenhagen: World Health Organization Regional Office for Europe.
  • Calnan, M. (1987). Health and Illness: The lay perspective. London: Tavistock.
  • Cornwell, J. (1984). Hard-Earned Lives: Accounts of health and illness from East London. London: Tavistock.
  • Dean, K. (1990). Nutrition education research in health promotion. Journal of the Canadian Dietetic Association, 51(4), 481-484.
  • Diener, E. (1984). Subjective Well-being. Psychological Bulletin, 95 (3), 542-575.
  • Dubos, R. (1980). Man adapting. New Haven: Yale University Press.
  • Engel, G.L. (1977). The need for a new medical model: a challenge for biomedicine. Science, 196, 129-136.
  • Goodstadt, M.S., Simpson, R.I., & Loranger, P. (1987). Health promotion: a conceptual integration. American Journal of Health Promotion, 1 (3), 58-63.
  • Helman, C. (1978). Feed a cold and starve a fever: Folk models of infection in na English suburban community, and
  • Herzlich, C. (1973). Health and Iillness: A Social-Psychological Analysis. New York: Academic Press.
  • Kaplan, R. (1984). The connection between clinical health promotion and health status. American Psycholgy, 39 (7), 755-765.
  • Laderman, C. (1987). The ambiguity of symbols in the structure of healing. Social Science and Medicine, 24, 293-301.
  • Lalond, M. (1974). A new perspective on the health of Canadians. Ottawa; Minister of National Health and Welfare.
  • Mayer, E. (1988). Toward a New Philosophy of Biology. Cambridge: Harvard University Press.
  • McIntyre, T.M. (1994). A psicologia da saúde: Unidade na diversidade. In T.M. MacIntyre (Ed.), Psicologia da saúde: áreas de intervenção e perspectivas futuras (pp.17-32). Braga: APPORT.
  • McQueen, D. (1987). A research programme in lifestyle and health: methodological and theoretical considerations. Revue of Epidémiology et Santé Publique, 35, 28-35.
  • Ramos, V. (1988). Prever a medicina das próximas décadas: Que implicações para o planeamento da educação médica?. Acta Médica Portuguesa, 2, 171-179.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Wikiquote
O Wikiquote possui citações de ou sobre: Doença
O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Doença
Wikinotícias
O Wikinotícias tem uma ou mais notícias relacionadas com este artigo: Categoria:Doenças