Domínio (biologia)

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A hierarquia da classificação científica dos seres vivos.

Domínio (superregnum, super-reino ou império) é a designação dada em biologia ao taxon de nível mais elevado utilizado para agrupar os organismos numa classificação científica. O domínio agrupa os diferentes reinos, sendo a mais inclusiva das divisões taxonómicas em que se dividem as espécies que compõem a vida na Terra, o universo por vezes designado por super-domínio Biota. Apesar do número de domínios e do respectivo nome ser arbitrário, variando com a evolução do conhecimento científico e com as opiniões dominantes entre os sistematas, a estrutura adoptada, por definição, reflecte obrigatoriamente as diferenças evolucionárias fundamentais contidas no genoma dos seres vivos, agrupando-os de acordo com a sua estrutura biológica mais básica. Com o aparecimento da cladística, o conceito de domínio aparece associado ao da clade mais inclusiva em que se pretenda dividir o mundo vivo.

História e evolução do conceito[editar | editar código-fonte]

A divisão do mundo natural em grandes domínios aparece como uma constante em todas as civilizações, fazendo parte da procura de uma organização básica do ambiente que caracteriza o pensamento humano.

No contexto da actual classificação científica, o conceito de domínio, apesar de recente, tem as suas raízes na filosofia greco-latina, em particular no pensamento de Aristóteles, que classificou todos os organismos vivos então conhecidos em plantas e animais. Os animais eram, por sua vez, subdivididos de acordo com o meio em que se moviam (terra, água e ar).

Esta divisão de Aristóteles, contida na sua obra De Anima (Sobre a alma), foi traduzida em 1172 pelo sábio Ibn Rushd (Averroes) para a língua árabe, e foi através desta via que a classificação aristotélica chegou aos nossos dias e inspirou muitos dos trabalhos taxonómicos iniciais. A partir dessa classificação básica, e depois de uma longa maturação durante a Renascença europeia, o conceito de categoria fundamental que permitisse dividir o mundo natural nas suas componentes básicas entrou na moderna linguagem científica através da obra de Carolus Linnaeus.

Aquele autor, na sua obra Systema Naturae, divide a natureza em três grandes categorias: mineral, vegetal e animal. Apesar de ter apelidado cada um destes grandes domínios da natureza como sendo reinos, a evolução posterior da nomenclatura científica levaria a que o conceito de reino fosse utilizado para designar os grandes grupos de organismos, perdendo a abrangência inicial.

Quando se consolidou a aceitação da unicidade da vida na Terra surgiu a necessidade de agrupar os reinos até então reconhecidos num taxon mais abrangente: o domínio.

Nas modernas taxionomias, o domínio aparece como a categoria de topo, agrupando os reinos de acordo com as suas características mais fundamentais. Vulgarizado após a publicação da proposta de clades elaborada por Carl Woese, o conceito de domínio ocupa hoje um lugar importante na classificação científica dos organismos, embora ainda não tenha encontrado aceitação unânime nem uma estruturação estável.

A classificação de Carl Woese[editar | editar código-fonte]

Árvore filogenética baseada na configuração do rRNA, mostrando a separação dos grandes grupos biológicos: Bacteria; Archaea e Eukaryotes.

Carl Woese propôs em 1990 o agrupamento dos diferentes reinos da taxonomia tradicional em três grandes clados que designou por domínios.[1] Nessa classificação, a categoria domínio é o segundo nível hierárquico de classificação científica dos seres vivos, depois da categoria suprema que enquadra todos os seres vivos, o super-domínio Biota.

Naquele sistema de classificação, frequentemente designado pelo Sistema dos Três Domínios, são considerados os seguintes agrupamentos:

A classificação anterior não inclui os vírus dada a dificuldade em integrá-los entre os seres vivos devida à ausência de algumas das características definidoras de vida. Não obstante essas dificuldades, a que acresce que a nomenclatura utilizada é não binomial, surgiu uma classificação alternativa, criando um quarto domínio chamado Aphanobionta, composto exclusivamente pelos vírus.

Outras classificações[editar | editar código-fonte]

Em alternativa à classificação de Carl Woese e suas variantes, tem vindo a ganhar favor uma classificação que divide a vida na Terra em três domínios, geralmente designados como os três super-reinos, tendo como base a estrutura fundamental do organismo:

Uma alternativa consiste no agrupamento dos seres vivos nos seguintes domínios:

  • Acytota, que engloba somente os vírus;
  • Prokaryota, que engloba Eubacteria e Archaea;
  • Eukaryota, que engloba somente os Eukaria.

Uma forma mais simples, embora menos realista pois ignora diferenças metabólicas básicas, é o sistema dos dois impérios, classificando os organismos em duas categorias básicas:

No outro extremo da complexidade, mas com grande aceitação, sendo o sistema de uso mais generalizado, está o sistema dos seis reinos, no qual os domínios de topo são simplesmente os reinos tradicionais da biologia moderna:

Como todas estas formas de agrupar os seres vivos dependem, em última análise, do conhecimento da sequência genética de cada espécie, existe um número crescente de agrupamentos alternativos. Em resultado do extraordinário progresso conseguido nessa área da ciência, é de esperar uma veloz mutação conceptual, com novos agrupamentos a serem propostos em rápida sucessão. Daí que mais importante que decorar qualquer dos sistemas propostas, seja necessário entender o conceito e acompanhar a lógica subjacente a cada proposta.

Progressão da classificação dos reinos e domínios[editar | editar código-fonte]

Haeckel (1894)
Três reinos
Whittaker (1969)
Cinco reinos
Woese (1977)
Seis reinos
Woese (1990)
Três domínios
Cavalier-Smith (2004)[2] [3] [4] [5]
Dois domínios
e sete reinos
Animalia Animalia Animalia Eukarya Eukaryota Animalia
Plantae Fungi Fungi Fungi
Plantae Plantae Plantae
Protista Protista Chromista ? Vírus
Protista Protista
Monera Eubacteria Bacteria Prokaryota Bacteria
Archeabacteria Archaea Archaea

Referências

  1. Towards a natural system of organisms: Proposal for the domains Archaea, Bacteria, and Eucarya, por WOESE, Carl R.; KANDLER, Otto e WHEELIS, Mark L. Proc. Nati. Acad. Sci. USA Vol. 87, pp. 4576-4579, Junho 1990.
  2. A revised six-kingdom system of life, por T. CAVALIER-SMITH. DOI: 10.1111/j.1469-185X.1998.tb00030.x Biological Review Volume 73, n° 3, pp. 203–266, Agosto de 1998]
  3. The root of the eukaryote tree pinpointed, por Alexandra Stechmann e Thomas Cavalier-Smith. Current Biology. Vol 13 n° 17.
  4. Origin of the cell nucleus, mitosis and sex: roles of intracellular coevolution, por Thomas Cavalier-Smith.
  5. Only six kingdoms of life, por Thomas Cavalier-Smith.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Wikilivros
O wikilivro Bioquímica tem uma página intitulada Domínios da Vida
Domínio ou Super-reino Superordem Superfamília Superespécie
Reino Filo/Divisão Classe Ordem Família Tribo Gênero Espécie
Sub-reino Subfilo Subclasse Coorte Subordem Subfamília Subtribo Subgênero Subespécie
Infrarreino Infrafilo Infraclasse Legião Infraordem Seção Infraespécie
Parvclasse Parvordem