Dom Casmurro

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Nota: Se procura Dom Casmurro, revista literária brasileira dos anos 1939-1940, consulte Dom Casmurro (revista literária).

Machado de Assis, foto de 1890

Dom Casmurro é um romance do escritor brasileiro Machado de Assis. Foi publicado em 1899, e é um dos livros da literatura brasileira mais traduzidos para outros idiomas.

É uma obra do Realismo brasileiro.

Helen Caldwell, crítica estadunidense, autora de três livros sobre Machado, considera Dom Casmurro o Otelo brasileiro.

Índice

[editar] Enredo

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A história se passa no Rio de Janeiro do Segundo Império, e conta a trajetória de Bentinho e Capitu. É um romance psicológico, narrado em primeira pessoa por Bentinho, o que permite manter questões sem elucidação até o final, já que a história conta apenas com a perspectiva subjetiva de Bentinho.

O romance Dom Casmurro além de estar entre as grandes obras da Literatura Brasileira, é considerado como a obra-prima de Machado de Assis.

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[editar] Análises da obra

Em Dom Casmurro, encontramos a dúvida sobre a existência do adultério de Capitu, não havendo nenhum momento que o comprove, permanecendo apenas como suspeitas. Sendo escrito em primeira pessoa, apresenta apenas a interpretação dos fatos presenciados pelo narrador-personagem, não apresentando em nenhum momento outras visões. O fato de o autor escrever o romance em capítulos curtos, com títulos explicados posteriormente e de utilizar citações de obras importantes e personagens históricos, em frases curtas, facilita a leitura e prende o leitor.


Machado de Assis permite, ao deixar o final com uma questão em aberto, que um mesmo leitor retome o livro e tire diferentes conclusões a cada vez que o releia. Porém, a questão principal do livro não é essa. Machado escreve sobre a suposta traição para que o leitor se distraia, e só os mais atentos percebam que o assunto principal da obra é a análise social da sociedade burguesa brasileira do século XIX. Para isso, Machado trabalha um micro cosmo - Casa de D. Glória- para refletir sobre o macro cosmo - a sociedade. Assim, cada habitante da casa representa um tipo social da época.

[editar] Os pólos do livro

O livro apresenta dois pólos: o dos dominantes e os dos dominados.

Dominantes: Dona Glória (a matriarca escravocrata da qual todos dependem), Capitu (domina Bentinho e em partes D. Glória) e Dom Casmurro.

Dominados por D. Glória: Bentinho, José Dias, prima Justina, Tio Cosme, Sancha, Gurgel, etc.

Dominados por Capitu: Bentinho, em parte D. Glória, Ezequiel, etc

[editar] A santidade da Família Santiago: A Família Santa

Dona Glória passara anos tentando engravidar sem sucesso. O seu primeiro filho morre logo ao nascer, e por possuir uma grande fé, faz uma promessa a Deus: se conseguisse engravidar novamente e ter um filho homem ele seria padre. Daí, ela finalmente consegue. O nascimento de Bentinho é um milagre, já que ele é fruto de uma promessa a Deus.

Machado já glorifica D. Glória em seu nome: GLÓRIA, sendo ela uma mãe que ampara e ama profundamente seu filho, vivendo para ele.

[editar] Metalinguagem

Em Dom Casmurro, Machado de Assis enquanto narra, discute o ato e o modo de narrar. Ele põe em prática a metalinguagem, em que a própria narrativa trata de se auto-explicar. Logo no início, a metalinguagem ganha corpo, quando o personagem-narrador explica o título do livro e os motivos que o impulsionaram a escrevê-lo: Também não achei melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores, alguns nem tanto. E mais adiante: Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão. Durante toda a narrativa de Dom Casmurro, a metalinguagem tem um papel fundamental, dando um tom muitas vezes jocoso, ou criando cumplicidade com o leitor, que ao invés de apenas ler passivamente, participa do próprio ato de narrar, ao servir de confidente do escritor, transcendendo o próprio texto.

[editar] Alguns exemplos

  • Ao narrar as tentações vividas na juventude dirige-se a uma possível leitora "Tudo isso é obscuro, dona leitora, mas a culpa é do vosso sexo, que perturba assim a adolescência de um pobre seminarista".
  • Ao dar uma explicação, dialoga com o leitor dizendo: "Não sei se me explico bem. Suponde uma concepção grande executada por meios pequenos".
  • Depois de longa narração preliminar, chega ao ponto em que vai narrar o casamento e diz: "Pois sejamos felizes de uma vez, antes que o leitor pegue em si, morto de esperar, e vá espairecer a outra parte; casemo-nos."

[editar] Intertextualidade

No livro percebe-se o fenômeno da intertextualidade, o mais expressivo é como a obra de Shakespeare, Otelo , em que Bento associa-se a Otelo(general Mouro ciumento), Capitu a Desdêmona (esposa de Otelo, que era suspeita de tê-lo traido, mas na verdade não o traiu) e José Dias associado a Iago no início do livro, depois passando a ser Dom Casmuro (alter ego de Bento) a ser o associado a Iago (vide que seu nome é Bento Santiago e que ele fica a todo momento se instigando em relação à suposta traição de Capitu).

[editar] As fases do romance

A ação do livro acontece em duas fases, a primeira vai da adolescência de Bentinho com a decisão de seus familiares que, por uma promessa feita por sua mãe, ele deveria tornar-se padre. O convívio com Capitu e a luta para se unir a ela, contrariando a vontade dos familiares. O casamento, o qual torna Bentinho um homem lutador que busca por seus sonhos. A segunda parte trata desde sua separação de Capitu, por causa da desconfiança sobre a paternidade do filho, até o seu fim solitário, como homem frio que esqueceu sua luta para conquistar Capitu.

[editar] As duas pontas da vida

No desenvolvimento do romance, o narrador diz que tentou “atar as duas pontas da vida”, a juventude e a velhice, ou nascimento e morte. Essa tentativa fica evidente em algumas de suas atitudes, descritas a seguir:

  • Relembrar sua história enquanto jovem, e tentar reviver as lembranças após a parada para analisar sua vida e perceber que talvez estivesse errado.
  • O relacionamento paradoxal com Escobar, que sendo amigo era também um fantasma na vida conjugal, pois Bentinho acreditava que ele era o amante de Capitu.
  • Os sentimentos antagônicos em relação ao filho Ezequiel, por sua semelhança com Escobar.
  • A construção de uma casa idêntica à antiga casa da Rua de Matacavalos onde viveu quando criança.

[editar] O enigma

Pela narração não há como afirmar se houve ou não adultério. Os fatos deixam dúvidas, pois a semelhança de Ezequiel com Escobar, o fato de Escobar ser muito amigo de Capitu e sempre rondar a família levam o leitor a pensar que houve a traição. Por outro lado, a amizade de Capitu por Escobar não seria amor carnal, mas um amor fraterno, o seu amor por Bentinho desde a infância e a sua luta por ele, além do fato dele não ter visto a traição, levam o leitor a acreditar em sua fidelidade. O leitor pode supor que Bentinho fosse ciumento e imaginasse os fatos. Não há comprovação de nada, afinal a visão dos fatos é parcial, já que Bentinho que narra a história como a vê. Além disso, soma-se uma lógica ziguezagueante com que Bentinho narra a história, um raciocínio tortuoso que, por vezes, omite certos fatos propositalmente, e em outros, esquece de contar episódios.Entretanto, não se pode afirmar em quais trechos houve omissão proposital ou não.

Há divergências sobre a traição de Capitu. Várias teses acadêmicas já abordaram o assunto e nenhuma chegou a uma análise conclusiva:

  • Em páginas mais avançadas deste clássico da literatura brasileira, o autor deixa claro que o filho de Bentinho com Capitu era quase idêntico ao seu amigo Escobar.
  • Antes, porém, o pai de Sancha relata que Capitu se parece muito fisicamente e também no gênio com sua falecida esposa, deixando a idéia de que existem semelhanças inexplicáveis no mundo, o que justificaria a semelhança entre o filho de Dom Casmurro e Escobar.
  • Também há criticas sobre o fato de que, tanto Capitu quanto Escobar sempre achavam que, quando crescessem, Ezequiel e Capituzinha acabariam namorando, algo que não incentivariam caso as crianças fossem realmente irmãs.
  • Mas por outro lado, ambos talvez não desconfiassem disso, e os outros personagens não desconfiavam também não fica demonstrado que desconfiavam, e apenas comentar questiona-se que chegue a ser um incentivo.
  • Nas páginas iniciais da obra, o autor descreve Capitu como tendo muita facilidade em disfarçar as situações, inclusive enganando seus pais que tanto amava muitas vezes, o que fortalece a hipótese de adultério.
  • Cogita-se a possibilidade de a mãe de Bentinho também desconfiar da paternidade de Ezequiel, já que com o passar do tempo, conforme a criança vai ficando cada vez mais parecida com Escobar, ela passa a ser indiferente com o neto e também com Capitu.
  • Apesar da suspeita acima, não se pode deixar de cogitar também o fato de simplesmente a mãe de Bentinho ter se tornado uma senhora "ranzinza" com o passar dos anos, portanto mais fria com as pessoas ao seu redor.
  • Também há o fato de Bentinho tentar ter um filho com Capitu por muito tempo (como D. Glória, que passou anos tentando engravidar) e não ter conseguido. Fazendo o leitor imaginar que ele fosse estéril; assim, Capitu só engravidaria de Escobar.

[editar] Os medalhões das Casas de Bento

Quando Bento vai mudar da casa de sua mãe, na Rua de Matacavalos, para a Praia da Glória, ele constrói uma casa idêntica aquela em que viveu desde criança, colocando inclusive quatro medalhões de quatro imperadores notórios na sala de estar: Nero, Augusto, Massinissa e César que, segundo Bento, o sugerem a escrita do romance. Os imperadores possuem algo muito interessante em comum: acusaram suas mulheres de adultério e mataram-nas, mesmo sabendo que elas eram inocentes. César disse: " minha mulher não basta ser inocente, ela tem que parecer inocente". Isso nos dá mais uma pista sobre a suposta traição no romance.

[editar] Ligações externas

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