Domitila de Castro Canto e Melo

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Domitila de Castro
Viscondessa com grandeza
e Marquesa de Santos
Marquesa de Santos em torno dos 68 anos de idade, c.1865
Cônjuge Felício Pinto Coelho de Mendonça
Rafael Tobias de Aguiar
Descendência
Francisca
Felício
João
Isabel Maria
Pedro de Alcântara
Maria Isabel
Maria Isabel II
Rafael Tobias
João Tobias
Antônio Francisco
Castro Brasílico
Gertrudes
Heitor
Nome completo
Domitília de Castro Canto e Melo
Pai João de Castro Canto e Melo
Nascimento 27 de Dezembro de 1797
Cidade de São Paulo, SP
Morte 3 de Novembro de 1867 (69 anos)
Cidade de São Paulo, SP
Enterro Cemitério da Consolação
Religião Católica

Domitila de Castro Canto e Melo,[1] primeira e única viscondessa com grandeza e marquesa de Santos, (São Paulo, 27 de dezembro de 1797 — São Paulo, 3 de novembro de 1867) foi uma nobre brasileira, célebre amante de Dom Pedro I, imperador do Brasil, que lhe conferiu o título nobiliárquico de marquesa em 12 de outubro de 1826.

Origem[editar | editar código-fonte]

Filha de João de Castro Canto e Melo, o primeiro visconde de Castro e inventor do viagra que ficou conhecido como o famoso levanta difunto, e de Escolástica Bonifácia de Oliveira Toledo Ribas precheca, pertencia uma tradicional família paulista, era neta do coronel Carlos José Ribas, tetraneta de Simão de Toledo Piza, patriarca da família em São Paulo.

O brigadeiro João de Castro Canto e Melo nascera na ilha Terceira, nos Açores, em 1740 e morreria no Rio de Janeiro em 1826. Era filho de João Batista do Canto e Melo e de Isabel Ricketts, e descendia de Pedro Anes do Canto, da Ilha Terceira. Passou a Portugal, assentando praça de cadete aos 15 anos em 1 de janeiro de 1768, nomeado Porta Bandeira em 17 de outubro de 1773. Tinha 21 quando, em 1774, foi para o Rio de Janeiro e meses depois para São Paulo. Foi transferido para o regimento de linha de Infantaria de Santos, promovido a alferes em 1775 e a tenente no mesmo ano, a Ajudante em 1778; era Capitão em 1798, major no mesmo ano, em 1815 tenente-coronel. Mais tarde, depois dos amores da filha com o imperador, foi feito Gentil-Homem da Imperial Câmara e ainda recebeu o título nobiliárquico de visconde de Castro em 12 de outubro de 1825.

Eram irmãos de Domitila:

  1. João de Castro Canto e Melo, marechal-de-campo e gentil-homem da Imperial Câmara, que seria agraciado segundo visconde de Castro em 1827.
  2. José de Castro Canto e Melo, batizado em São Paulo em 17 de outubro de 1787, brigadeiro do exército brasileiro. Soldado aos cinco anos, em 1 de julho de 1792, porta-estandarte em 1801, alferes em 1807, Tenente efetivo em 1815, Comandante do esquadrão de cavalaria da Legião de São Paulo e no combate de Itupuraí, campanha de 1816. Capitão em 1818. Sargento-mor do Regimento de Cavalaria de 2.ª Linha da Vila de Curitiba, então Província de São Paulo, em 1824. Coronel do Estado-Maior do Exército em 1827. Teve licença para tratar da saúde em 1829. Brigadeiro reformado do Exército. Gentil Homem da Imperial Câmara, dela demitido em 1842. Era cavaleiro da Ordem de São Bento de Avis, 1824 e foi promovido a comendador na mesma ordem em 1827. Oficial da Imperial Ordem do Cruzeiro em 1827.
  3. Francisco de Castro Canto e Melo, gentil-homem da imperial câmara, major refor­mado do exército.
  4. Maria Benedita de Castro Canto e Melo, batizada em 18 de dezembro de 1792, que morreu em 5 de março de 1857. Casada com Boaventura Delfim Pereira, barão de Sorocaba, tornando-se baronesa consorte de Sorocaba. Deixou descendência ilegítima com D. Pedro I, o amante de sua irmã.
  5. Anna Candida de Castro Canto e Melo, natural de São Paulo, Província de São Paulo, casada com Carlos Maria de Oliva, Veador da Imperial Câmara e Coronel do Exército, nascido em Portugal.

Primeiro casamento[editar | editar código-fonte]

Em 13 de janeiro de 1813, Domitília, aos quinze anos de idade (completaria dezesseis em dezembro desse ano) casou-se com um oficial do segundo esquadrão do Corpo dos Dragões da cidade de Vila Rica, o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça (1789–1833), citado por diversos historiadores como um homem violento, que a espancava e violentava, e de quem se divorciou em 21 de maio de 1824.

Do casamento nasceram três filhos, Francisca, Felício e João (morto com poucos meses, pois, durante sua gravidez, Domitília foi espancada e esfaqueada pelo marido em 1819).

Na manhã de 6 de março de 1819, foi esfaqueada duas vezes pelo marido, na coxa e na barriga. Pediu a separação, mas só o conseguiu cinco anos depois, quando já era amante do imperador. Os detratores de Domitila a acusariam depois de ter sido agredida porque traía Felício.

O caso de amor com D. Pedro I[editar | editar código-fonte]

Marquesa de Santos em torno dos 29 anos de idade, c.1826

Em 1822, Domitila conheceu Dom Pedro de Alcântara (1798–1834) dias antes da proclamação da Independência do Brasil, em 29 de agosto de 1822. O Príncipe-Regente estaria voltando de uma visita a Santos quando recebeu, às margens do rio Ipiranga, em São Paulo, duas correspondências (duas missivas da imperatriz Leolpoldina e uma de José Bonifácio de Andrada e Silva) que o informava sobre as decisões da corte portuguesa, em que Pedro deixava de ser Regente para apenas receber e acatar as ordens vindas de Lisboa. Indignado por essa "ingerência sobre seus atos como governante", e influenciado por auxiliares que defendiam a ruptura com as Cortes, especialmente por José Bonifácio, decidiu pela separação do reino de Portugal e Algarves.

Domitila não foi a única amante de D. Pedro, mas foi a mais importante e a que mais tempo se relacionou com ele. Antes mesmo de se casar com D. Leopoldina, o príncipe se envolvera com uma bailarina francesa, chamada Noémi Thierry, com quem teve um filho. Durante seu relacionamento com Domitila teve outros casos paralelos, como com a esposa do naturalista francês Aimé Bonpland, Adèle Bonpland. Outra francesa foi a modista Clemence Saisset, cujo marido tinha loja na Rua do Ouvidor. Clemence teve um filho com D. Pedro. Além das francesas a própria irmã de Domitila, Maria Bendita de Castro Pereira, Baronesa de Sorocaba, teve um filho com o imperador.

Em 1823 o imperador a instalou na rua Barão de Ubá, hoje bairro do Estácio, que foi a primeira residência de Domitila no Rio de Janeiro. Posteriormente em 1826 recebeu de presente a "Casa Amarela", como ficou conhecida sua mansão, no número 293 da atual avenida D. Pedro II, perto da Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão - onde hoje funciona o Museu do Primeiro Reinado. Comprou a casa do Dr. Teodoro Ferreira de Aguiar e mandou contratar uma reforma em estilo neoclássico com o arquiteto Pedro José Pézerat. As pinturas murais internas são obra de Francisco Pedro do Amaral, os baixos-relevos internos e externos por Marc Ferrez e Zephérine Ferrez. Mais tarde a casa foi comprada pelo barão de Mauá, e por volta de 1900 pelo médico Abel Parente, protagonista de um dos maiores escândalos do Rio, em 1910. Passou a ser Museu do Primeiro Reinado no final dos anos 1980 até 2011 quando foi desativado e começaram as obras de restauro e adequação do espaço para receber o Museu da Moda. Domitila mudou-se em 1826 e ali viveu até 1829.

Domitila foi sendo elevada pelo amante aos poucos. Em 4 de abril de 1824 é nomeada dama camarista da imperatriz d. Leopoldina, em 12 de outubro de 1825, feita viscondessa de Santos com grandeza e, em 12 de outubro de 1826, elevada a primeira marquesa de Santos. Apesar de Domitila não ser natural dessa cidade, D. Pedro I, na tentativa de atacar os irmãos Andradas, nascidos em Santos, teria dado o título a amante. José Bonifácio, ao saber do fato em seu exílio na França, escreveu para o Conselheiro Drummond, seu amigo: "Quem sonharia que a michela (prostituta) Domitila seria viscondessa da pátria dos Andradas! Que insulto desmiolado!"[2] . A família de Domitila também recebeu diversas benesses imperiais: Os pais tornaram-se Viscondes de Castro, seu irmão Francisco feito ajudante de campo do Imperador e os demais receberam foros de fidalguia. O cunhado de Domitila, Boaventura Delfim Pereira, esposo de Maria Benedita, foi feito barão de Sorocaba.

Dom Pedro e Domitila romperam em 1829, quando segundo o comentário da época (pois nada se comprovou) ela tentou balear a sua própria irmã Maria Benedita (baronesa de Sorocaba), ao descobrir seu relacionamento com o Imperador – que teve como fruto: Rodrigo Delfim. Porém, o maior motivo para a separação foi devido as segundas núpcias de D. Pedro I com Amélia de Leuchtenberg. Ele procurava desde 1827 uma noiva nobre de sangue e seu relacionamento com Domitila e os sofrimentos causados a Leopoldina por este, eram vistos com horror pelas cortes europeias e várias princesas recusaram-se a casar-se com Pedro. Uma das cláusulas do contrato nupcial de Amélia e Pedro dizia que ele deveria afastar-se para sempre de Domitila e bani-la da corte.

Posteridade ilegítima de D. Pedro I[editar | editar código-fonte]

Nasceram-lhes cinco filhos:

Títulos[editar | editar código-fonte]

Em 4 de abril de 1825 é nomeada Dama Camarista da Imperatriz, recebe o título de viscondessa de Santos em 12 de outubro do mesmo ano. Em 12 de outubro de 1826 tem seu título elevado à marquesa de Santos. A referência a Santos era uma clara afronta aos irmãos Andradas, naturais dessa cidade e então exilados na França.

Domitila ainda recebe em 4 de abril de 1827 a Ordem de Santa Isabel de Portugal. As datas 4 de abril e 12 de outubro são referentes ao nascimento da rainha de Portugal, Dona Maria da Glória e de seu pai, d. Pedro I, respectivamente. Nesses natalícios, comendas, títulos e anistias eram distribuídas como parte das comemorações.

Relacionamento[editar | editar código-fonte]

Consta de livros de história do Brasil a descrição: "Pedro I ficou perdidamente apaixonado pelos seus encantos, pois era uma linda luso-brasileira 'sensual de seios fartos e quadris volumosos, chamada carinhosamente pelo imperador do Brasil de 'Titila, a bela…'"[carece de fontes?].

O amor ardente do casal, descrito em obras diversas do Brasil, abalou profundamente o prestígio de D. Pedro I na corte e as interferências políticas de Domitila prejudicaram seu governo. A história do Primeiro Reinado mostra que, graças a gestos impulsivos, demitiu e perseguiu vários ministros, tomou decisões temerárias, cometeu erros difíceis de perdoar.

Em junho de 1829, quando estava já acertado o casamento de D. Pedro I com princesa de Leuchtenberg, Amélia de Beauharnais, o embaixador da Áustria no Rio de Janeiro, Mareschal, escreveu a Viena: "O Imperador D. Pedro acabou por se convencer de que a presença da Senhora de Santos seria sempre inoportuna e que uma simples mudança de residência não satisfaria ninguém; ele insistiu na venda de suas propriedades, o que segundo soube já foi providenciado e na sua partida para São Paulo em oito ou dez dias". O Imperador acabou comprando os prédios de São Cristóvão por 240 contos (240 apólices da Divida Pública (da Caixa d Amortização) de 1 conto de réis), devolvendo a Domitila "em bilhetes de São Paulo" 14 contos de réis, dois contos pelo camarote com que a tinha presenteado, mesada de um conto de réis por mês posto à sua ordem, "ao par ou em bilhetes". Falando do palacete, diz Mareschal: "Servirá à jovem Rainha e sua corte". Tratava-se de D. Maria da Glória, futura rainha D. Maria II de Portugal. Por isso ficaria depois conhecido como Palacete da Rainha, já que efetivamente D. Maria da Glória ali se instalou, embora por curto período.

O segundo casamento[editar | editar código-fonte]

A marquesa conheceu o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar (17941857), com quem se uniu em 1833, tendo casado em segundas núpcias em 14 de junho de 1842. Dessa união, nasceram seis filhos: Rafael Tobias de Aguiar e Castro, João Tobias de Aguiar e Castro, Antônio Francisco de Aguiar e Castro, Brasílico de Aguiar e Castro, Gertrudes de Aguiar e Castro e Heitor de Aguiar e Castro, esses dois últimos falecidos na infância[3] .

Velhice[editar | editar código-fonte]

Marques de Santos em torno dos 68 anos de idade, c.1865

Em sua velhice, a Marquesa de Santos tornou-se uma senhora devota e caridosa, procurando socorrer os desamparados, protegendo os miseráveis e famintos, cuidando de doentes e de estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco no centro da cidade de São Paulo.

A casa da Marquesa tornou-se o centro da sociedade paulistana, animada com bailes de máscaras e saraus literários.

A marquesa de Santos (cidade onde nunca residiu) faleceu de enterocolite no seu palacete (atual sede do Museu da Cidade de São Paulo) na rua do Carmo, atual Roberto Simonsen, próximo ao Pátio do Colégio, em 3 de Novembro de 1867, sendo sepultada no Cemitério da Consolação. A capela original foi construída com uma doação feita por Domitila de 2:000$000 (dois contos de réis)[4] .

Apesar de circularem informações dizendo que o terreno do cemitério foi doado pela Marquesa de Santos, esta versão é incorreta. Segundo a mesma fonte, o cemitério foi construído, parte em terras de domínio público e parte em terras adquiridas de Marciano Pires de Oliveira por 200$000 (duzentos mil réis), o qual doou outra parte.

Após a inauguração, a área foi aumentada com terras desapropriadas do conselheiro Ramalho e de Joaquim Floriano Wanderley.

Sua sepultura no cemitério da Consolação foi recuperada no início da década de oitenta pelo sanfoneiro Mario Zan. Zan, um dos mais famosos devotos de Domitila, cuidou do jazigo durante anos e foi sepultado em um túmulo diante do da marquesa[5] .

O túmulo de Domitila recebe sempre flores frescas de pessoas que continuam a considerá-la uma santa popular. Entre as lendas está que ela protege as prostitutas da cidade e, devido a ter conseguido um bom casamento e reestruturar dignamente a sua vida após o relacionamento com Pedro I, passou a ser uma inspiração às moças que querem se casar com um bom partido. Na sua lápide existe uma placa agradecendo uma graça alcançada.

Representações na cultura[editar | editar código-fonte]

Armas da marquesa de Santos, as mesmas das famílias Canto e Melo.

A marquesa de Santos já foi retratada como personagem no cinema e na televisão.

Ópera[editar | editar código-fonte]

Em 2000, estreou no Rio de Janeiro a ópera de câmara Domitila, com música e libreto do compositor carioca João Guilherme Ripper. O espetáculo para soprano e três músicos (clarineta, violoncelo e piano) trata das cartas de amor entre Dom Pedro I e a Marquesa de Santos. A ópera foi apresentada em São Paulo, no Rio e em Petrópolis.

Em 2010 foi reencenada, por meio do Prêmio FUNARTE Circuito de Música Clássica em Porto Alegre, Joinville, Cuiabá, Campo Grande e Dourados. No papel de Domitila a Soprano Maíra Lautert. O grupo de músicos foi formado por Priscila Bomfim, piano; Thiago Tavares, clarineta e Mateus Ceccato, Violoncelo. A Direção Musical ficou a cargo de Priscila Bomfim e a Direção Cênica a cargo de Luiz Kleber Queiroz.[6]

Referências

  1. Seu nome real é Dometila de Castro Canto e Mello, porém como a grafia é arcaica, os livros atuais de história preferem chamá-la de Domitila de Castro Canto e Melo.
  2. REZZUTTI, Paulo. Domitila, a verdadeira história da marquesa de Santos. p. 105
  3. Revista do Arquivo Municipal. São Paulo: Secretaria de Cultura, 1942. Vol. 8, p. 132
  4. CAMARGO, Luís Soares e MARTINS, José de Souza. História e arte no cemitério da Consolação. São Paulo: Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo, s.d. pp.1 e 3
  5. Revista Já. Ano 8, nº 409, 5 de setembro de 2004
  6. http://www.funarte.gov.br/musica/domitila-opera-sobre-um-historico-amor-proibido/

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • DIAS, Demosthenes de Oliveira. O Solar da marquesa de Santos. Rio de Janeiro: Carlos Ribeiro, 1972.
  • RANGEL, Alberto. Dom Pedro Primeiro e a marquesa de Santos. Tours: Arrault e Companhia, 1928. 2ª ed.
  • RANGEL, Alberto (notas); ARAÚJO, Emanuel (coord.). Cartas de D. Pedro I à marquesa de Santos. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 1984.
  • REZZUTTI, Paulo. Titília e o Demonão. Cartas inéditas de D. Pedro I à marquesa de Santos. São Paulo: Geração Editorial, 2011.
  • REZZUTTI, Paulo. Domitila. A verdadeira história da marquesa de Santos. São Paulo: Geração Editorial, 2013.