Donatismo

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Agostinho de Hipona discutindo com os donatistas, por Charles-André van Loo.

O donatismo (cujo nome advém de Donato de Casa Nigra, bispo da Numídia e posteriormente de Cartago) foi uma seita religiosa cristã, considerada herética e cismática pelo catolicismo. Surgiu nas províncias do Norte de África na Antiguidade Tardia. Iniciou-se no início do século IV e foi extinta no final do século VII.[1] Os autores que mais influenciaram os donatistas, em termos de doutrina religiosa, foram São Cipriano, Montano e Tertuliano.

Crença donatista[editar | editar código-fonte]

Assim como o Novacionismo, fundado pelo Antipapa Novaciano no século III,[2] os donatistas eram rigorosos, e sustentavam que a Igreja não devia perdoar e admitir pecadores, e que os sacramento, como o batismo, administrados pelos traditores (cristãos que negaram sua fé durante a perseguição de Diocleciano em 303 d.C.-305 d.C. e posteriormente foram perdoados e readmitidos na Igreja) eram inválidos[1] .

Este pensamento era bastante similar ao de Cipriano de Cartago, martirizado meio século antes em perseguições anteriores.

Em oposição, a crença da Igreja na época era de que os traditores poderiam voltar ao corpo da Igreja e ministrar os sacramentos, desde que o fizessem seguindo o ritual correto, sem a necessidade de re-batismo ou da re-ordenação.

O cisma donatista[editar | editar código-fonte]

Em 311 d.C., os bispos africanos opuseram-se à eleição do arcediago Ceciliano como novo bispo de Cartago. Ceciliano era acusado de ter sido um "traditor", uma vez que havia entregue exemplares das Sagradas Escrituras às autoridades, durante uma perseguição anterior recente. Insatisfeitos, os bispos escolheram como novo bispo a Donato de Casa Nigra, dando origem a um cisma[1] .

Em 313 d.C., uma comissão nomeada pelo Papa Melquíades condenou os donatistas, mas eles continuaram a existir, e consideravam-se a única igreja verdadeira. A questão se complicava bastante por que os donatistas foram incapazes de provar que Ceciliano teria mesmo sido um traditor, ao mesmo tempo em que eram por sua vez acusados de terem entre os seus pessoas suspeitas de terem sido.

O avanço do donatismo no Norte da África se dava principalmente entre a população rural, já ressentida com a administração romana. Os padres e bispos donatistas nestas regiões falavam as línguas vernaculares (líbio ou púnico), assim como o latim, enquanto que o os clérigos católicos romanos usualmente falavam apenas o latim[3] ..

Além disso, Ceciliano era impopular na região. Durante as perseguições em Cartago, muitos foram aprisionados, alguns voluntariamente. Estas pessoas, para serem presas, alegavam falsamente terem livros ou propriedades da Igreja e se negavam a entregá-las. O bispo de Cartago, Mensurius, que se opunha ao que considerava fanatismo, enviou Ceciliano até a prisão para dispersar, à força, a multidão inflamada reunida para apoiar os mártires voluntários. Este ato criou muitos inimigos para ele na região[3] .

Donatismo após a morte de Donato[editar | editar código-fonte]

Após o Sínodo de Arles, no qual a apelação de Donato falhou, ele foi exilado para Gália em 347 dC até sua morte, em 355 d.C.. Nesta época, o donatismo era a igreja dominante no Norte da África. Porém, já nesta época a seita sofria com divisões internas e estava sob constante ataque de Roma, que tinha como objetivo reincorporar os clérigos da região e reunificar a Igreja[3] .

Os Circoncélios eram bandos de rebeldes nômades anti-romanos, bandidos de fala púnica recrutados nos mais baixos estratos da sociedade. Eles apoiavam o donatismo e eram, por vezes, liderados por clérigos donatistas. Porém, fora de controle, eles passaram a atacar proprietários de terra e colonos romanos, redistribuindo bens muitas vezes obtidos com o trabalho honesto de camponeses locais. Assim, o donatismo passou a ser identificado com eles, levando os administradores oficiais a tomarem ações punitivas contra a igreja donatista[3] .

Apesar da condenação imperial, o Donatismo permaneceu como religião dominante na África romana até ao começo do séc a.C., quando enfraqueceu devido a atos de coerção.

Santo Agostinho e o donatismo[editar | editar código-fonte]

O bispo de Hipona, Agostinho, fez campanhas contra esta crença e foi principalmente graças aos seus esforços que a seita foi extinta. A controvérsia tem início em dois escândalos monásticos. Por volta de 422 d.C., Santo Agostinho se envolveu numa espécie de escândalo com um bispo chamado Antonino e posteriormente com Januário. A discussão parece ter sido causada porque Agostinho achava que a chamada "caridade monástica" pudesse semear a discórdia, dividir e fazer com que se aproveitasse da Igreja. Ele chegou a fazer campanhas contra o Donatismo. Com a ocupação vândala do norte de África, o donatismo voltou a ter, aí, alguma preponderância, o que continuou a acontecer depois da reconquista bizantina destes territórios por Justiniano. Desconhece-se quanto tempo persistiu depois da conquista muçulmana.

Referências

  1. a b c "Donatism." Cross, F. L., ed. The Oxford dictionary of the Christian church. New York: Oxford University Press. 2005
  2. "Novatianism." Cross, F. L., ed. The Oxford dictionary of the Christian church. New York: Oxford University Press. 2005
  3. a b c d Wikisource-logo.svg "Donatists" na edição de 1913 da Catholic Encyclopedia (em inglês)., uma publicação agora em domínio público.

Ver também[editar | editar código-fonte]