Dryas recente

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Três registos de temperatura, com a sequência GRIP (vermelho) mostrando claramente o evento designado Dryas recente há cerca de 11 000 anos.

O Dryas recente, do nome da planta da flora alpina e da tundra Dryas octopetala, foi um breve período (aproximadamente 1300 ± 70 anos) de clima frio que se seguiu à fase interestadial Bölling/Allerød no final do Plistoceno há cerca de 12 700 a 11 500 anos,[1] e que antecedeu o período pré-boreal do Holoceno inicial.

O Dryas recente (GS1) é também um período climático de Blytt-Sernander detectado a partir de camadas de turfeiras no norte da Europa. A sua datação aponta para que tenha ocorrido há aproximadamente 12 900 - 11 500 anos (idade calibrada), ou há 11 000 - 10 000 anos (idade não calibrada). Um Dryas antigo precedeu o Allerød, cerca de 1000 anos antes do Dryas recente, e durou 300 anos.[1]

Mudança climática abrupta[editar | editar código-fonte]

Durante o Dryas recente ocorreu um regresso rápido a condições glaciais nas altitudes mais elevadas do hemisfério norte entre 12 900 e 11 500 anos antes do presente[2] contrastando marcadamente com o aquecimento ocorrido durante a desglaciação interestadial que o precedeu. As transições ocorreram ao longo de um período de aproximadamente um decénio[3] . Dados isotópicos, obtidos com argon e azoto termicamente fraccionados obtidos a partir do testemunho de gelo GISP2 extraído na Gronelândia, indicam que o ponto mais elevado da Gronelândia encontrava-se cerca de 15 °C mais frio durante o Dryas recente[3] relativamente à temperatura actual. No Reino Unido, evidências sob a forma de fósseis de escaravelhos sugerem uma redução da temperatura média anual de aproximadamente 5 °C[4] , e condições periglaciais prevaleceriam nas zonas mais baixas, enquanto que nas zonas mais elevadas se formavam campos de gelo e glaciares.[5] Desde então, não se repetiu uma mudança climática repentina com esta magnitude, extensão e rapidez.[2] .

Terá o Dryas recente sido um evento global?[editar | editar código-fonte]

A resposta a esta questão é dificultada pela falta de uma definição precisa do "Dryas recente" em todos os registos. Na Europa ocidental e na Gronelândia, o Dryas recente é um período frio bem definido e síncrono.[2] No entanto, o arrefecimento no Atlântico Norte tropical pode ter antecedido este evento em algumas centenas de anos; na América do Sul o início está mais mal definido mas o seu final é bem visível. A Inversão Fria Antárctica parece ter começado alguns milhares de anos antes do Dryas recente e não apresenta nem início nem final bem definidos; Huybers argumentou que existe bastante confiança relativamente à ausência do Dryas recente na Antárctica, Nova Zelândia e partes da Oceania. De igual modo, o arrefecimento do hemisfério sul conhecido como Inversão Climática de Desglaciação (RCD) iniciou-se aproximadamente 1000 anos antes do Dryas recente, há entre 14 000 a 11 500 anos, como notado no testemunho de gelo Sajama. O clima andino regressou às condições do último máximo glacial com temperaturas mais baixas associadas a mais precipitação.[6]

Na América do Norte ocidental os efeitos do Dryas recente terão sido menos intensos do que os sentidos na Europa, porém as evidências de re-avanço glaciar[7] indicam um arrefecimento do noroeste da costa do Pacífico associado ao Dryas recente.

Outras características incluem:

Causas do Dryas recente[editar | editar código-fonte]

A teoria actualmente dominante diz que o Dryas recente foi causado por uma redução significativa ou mesmo paragem total da circulação termoalina do Atlântico Norte em consequência de um influxo súbito de água doce do lago Agassiz e do degelo da América do Norte.[3] O clima global teria então ficado "trancado" no novo estado até a congelação remover a "tampa" de água doce do Atlântico Norte. Esta teoria não explica por que a América do Sul foi a primeira região a arrefecer.

Os términos de glaciações anteriores provavelmente não tiveram eventos do tipo do Dryas recente, sugerindo que qualquer que tenha sido o mecanismo desencadeante, este terá uma componente aleatória.

Há evidências que sugerem que o chamado impacto do Dryas recente, ocorrido há 12 900 anos na América do Norte, poderia ter iniciado o arrefecimento Dryas recente.[4]

O final do Dryas recente[editar | editar código-fonte]

Medições de isótopos de oxigénio do testemunho de gelo GISP2 sugerem que o fim do Dryas recente ocorreu ao longo de apenas 40 a 50 anos em três passos discretos, cada um com a duração de 5 anos. Outros dados indirectos, como a concentração de poeiras e a acumulação de neve, sugerem uma transição ainda mais rápida, requerendo um aquecimento de aproximadamente 7 °C em apenas alguns anos.[2] [3] [8] [9] [10]

Determinou-se que o final do Dryas recente terá ocorrido há cerca de 11 500 anos (9600 a.C.), utilizando vários métodos, com resultados geralmente consistentes:

11530±50 -- testemunho de gelo GRIP, Gronelândia[11]
11530+40-60 -- Lago Kråkenes, Noruega.[12]
11570 -- Testemunho da bacia de Cariaco, Venezuela [13]
11570 -- Dendrocronologia de carvalhos e pinheiros alemães[14]
11640±280 -- testemunho de gelo, Gronelândia[8]

O Dryas recente e o princípio da agricultura[editar | editar código-fonte]

O Dryas recente é muitas vezes ligado à adopção da agricultura no Levante.[15] Argumenta-se que o período frio e seco que foi o Dryas recente levou à diminuição da capacidade de carga da área, forçando a população sedentária natufiana a um padrão de subsistência mais móvel. Pensa-se que a deterioração adicional das condições climáticas terá conduzido ao cultivo de cereais. Apesar de existir um consenso relativo sobre o papel do Dryas na mudança dos padrões de subsistência dos natufianos, a sua ligação ao início da agricultura no final do período continua a ser debatida.[16]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas

  1. How Rapidly did Climate Change in the Distant Past?, Climate Change 2001: Working Group I: The Scientific Basis, Intergovernmental Panel on Climate Change
  2. a b c Alley, R.B.: "The Younger Dryas cold interval as viewed from central Greenland.", page 213-226. Quaternary Science Reviews 19, 2000
  3. a b c Alley et al.: "Abrupt accumulation increase at the Younger Dryas termination in the GISP2 ice core", page 527-529. Nature 362, 1993
  4. Severinghaus, J.P.: "Timing of abrupt climate change at the end of the Younger Dryas interval from thermally fractionated gases in polar ice.", page 141-146. Nature 391, 1998
  5. Atkinson, T.C.: "Seasonal temperatures in Britain during the past 22,000 years, reconstructed using beetle remains.", page 587-592. Nature 325, 1987
  6. Thompson et al., 2000.
  7. Friele, P.A., Clague, J.J.: "Younger Dryas readvance in Squamish river valley, southern Coast mountains, British Columbia.", page 1925-1933. Quaternary Science Reviews 21, 2002
  8. a b Sissons, J.B.: "The Loch Lomond stadial in the British Isles.", page 199-203. Nature 280, 1979
  9. Alley, R.B., et al.: "Abrupt increase in Greenland snow accumulation at the end of the Younger Dryas event.", page 527-529. Nature 362, 1993
  10. Dansgaard, W., et al.: "The abrupt termination of the Younger Dryas climate event.", page 532-534. Nature 339, 1989
  11. Taylor, K.C., et al.: "The Holocene-Younger Dryas transition recorded at Summit, Greenland.", page 825-827. Science 278, 1997
  12. Spurk, M., et al.: "Revisions and extension of the Hohenheim oak and pine chronologies: New evidence about the timing of the Younger Dryas/Preboreal transition", page 1107-1116. Radiocarbon 40, 1998
  13. Gulliksen, S., et al.: "A calendar age estimate of the Younger Dryas-Holocene boundary at Krakenes, western Norway", page 3, 249-259. Holocene 8, 1998
  14. "Hugheus radiocarbon and climate shifts during the last deglaciation", page 5498, 1951-1954. Science 290
  15. Bar-Yosef, O. and A. Belfer-Cohen: "Facing environmental crisis. Societal and cultural changes at the transition from the Younger Dryas to the Holocene in the Levant." In: The Dawn of Farming in the Near East. Edited by R.T.J. Cappers and S. Bottema, pp. 55-66. Studies in Early Near Eastern Production, Subsistence and Environment 6. Berlin: Ex oriente.
  16. Munro, N. D.: "Small game, the younger dryas, and the transition to agriculture in the southern levant", page 47–64. Mitteilungen der Gesellschaft für Urgeschichte 12, 2003

Ligações externas[editar | editar código-fonte]