Edmund Husserl

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Edmund Husserl
Filosofia do século XX
Edmund Husserl 1900.jpg
Nome completo Edmund Gustav Albrecht Husserl
Escola/Tradição: Fenomenologia
Data de nascimento: 8 de Abril de 1859
Local: Proßnitz
 Império Austríaco
Data de falecimento 26 de Abril de 1938 (79 anos)
Local: Friburgo em Brisgóvia
 Alemanha
Principais interesses: Epistemologia, lógica, ontologia, matemática
Trabalhos notáveis Fundador da fenomenologia
Influenciado por: Descartes, Brentano, Stumpf, Bolzano, Leibniz, Riemann, Lotze, Immanuel Kant
Influências: Sartre, Camus, Heidegger, Derrida, Merleau-Ponty, Henry, Lévinas, Mises, Scheler, Stein, Jan Patočka, Carnap, Gödel, Koiré, Fink, Oskar Becker, Hermann Weyl, Antonio Meneghetti

Edmund Gustav Albrecht Husserl (alemão: [ˈhʊsɐl]; Proßnitz, 8 de abril de 1859Friburgo em Brisgóvia, 26 de abril de 1938[1] ) foi um matemático e filósofo alemão[2] [3] que estabeleceu a escola da fenomenologia. Ele rompeu com a orientação positivista da ciência e da filosofia de sua época. Elaborou críticas do historicismo e do psicologismo na lógica. Não se limitando ao empirismo, mas acreditando que a experiência é a fonte de todo o conhecimento, ele trabalhou em um método de redução fenomenológica pelo qual um assunto pode vir a conhecer diretamente uma essência.

Apesar de ter nascido em uma família judia, Husserl foi batizado como luterano em 1886. Ele estudou matemática nos termos de Karl Weierstrass e Leo Königsberger e filosofia sob Franz Brentano e Carl Stumpf. O próprio Husserl ensinou filosofia como Privatdozent (Professor) na Halle de 1887, depois como professor, primeiro em Gotinga entre 1901, depois para Friburgo entre 1916 até sua aposentadoria em 1928. Posteriormente, ele deu duas palestras notáveis: em Paris, em 1929, e em Praga em 1935. As notórias leis raciais do regime nazista de 1933 tiraram sua situação acadêmica e privilégios. Na sequência de uma doença, ele morreu em Friburgo, em 1938.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Nascido numa família judaica numa pequena localidade da Morávia (região da atual República Checa). Aluno de Franz Brentano e Carl Stumpf, Husserl influenciou entre outros os alemães Edith Stein, Eugen Fink e Martin Heidegger, e os franceses Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty, Michel Henry e Jacques Derrida. O interesse do matemático Hermann Weyl pela lógica intuicionista e pela noção de impredicatividade teria resultado de contatos com Husserl. Na verdade, a impulsão primeira da lógica positivista, como seus desenvolvimentos mais recentes, seriam estreitamente tributários da crítica de certos aspectos da filosofia de Husserl pelas filosofias insularias e americanas. Ao reverso, a obra do discípulo Heidegger foi considerada pelo mestre como resultando de graves desinterpretações de seus ensinos e métodos. Em 1887, Husserl converte-se ao cristianismo e junta-se à Igreja Luterana. Começa ensinando filosofia em Halle como tutor (Privatdozent) desde 1887, continua em Göttingen como professor em 1901 e mais tarde em Friburgo (Freiburg am Breisgau) a partir de 1916, até que se aposenta em 1928. Como aposentado, Husserl continua suas pesquisas e atividades nas instituições de Friburgo, até que seja definitivamente demitido por causa de sua ascendência judia, sob o reitorado de seu antigo aluno e protege Heidegger.

Vida e obra[editar | editar código-fonte]

Husserl estudou inicialmente matemática nas universidades de Leipzig (1876) e Berlin (1878), seguindo as lições de Karl Weierstrass e Leopold Kronecker. Em 1881, vai a Viena para estudar sob a direção de Leo Königsberger (antigo aluno de Weierstrass), obtendo seu doutorado em 1883, apresentando a tese Beiträge zur Variationsrechnung (« Contribuições ao calculo das variações »).

Formou-se em 1884, em filosofia, na Universidade de Viena. Brentano tanto impressionou Husserl que ele pretende então dedicar sua vida à filosofia. Em 1886 Husserl vai à Universidade de Halle, recomendado por Brentano para Carl Stumpf para sua habilitação. Sob sua direção, Husserl escreve Über den Begriff der Zahl (« Sobre o Conceito do Número », 1887) cujos arquivos fornecerão as bases de sua primeira obra importante, Philosophie der Arithmetik ("Filosofia da Aritmética", 1891).

Nessas primeiras pesquisas, Husserl tenta combinar matemática com a filosofia empírica pela qual tinha sido iniciado em Viena. Seu objetivo central será contribuir no fornecimento de fundações sólidas para a ciência matemática. O tema de seu estudo será a análise dos processos mentais necessários para a formação do conceito de número; baseado em suas próprias análises, como nos métodos atípicos de seus professores, tentará projetar a possibilidade de uma teoria sistemática. Em relação ao ensino de Karl Weierstrass, Husserl tenta derivar a ideia de que o conceito de número se obtém por um "desconto" de certas coleções de objetos; em respeito a Brentano-Stumpf, Husserl desenvolve a distinção entre as noções de presentações próprias e impróprias. Temos uma presentação própria quando o objeto está "atualmente" presente (no campo de vista, contexto ou intuição). Imprópria (ou simbólica, como também é referida), se podemos indicá-lo somente através de signos, símbolos etc. Nas Investigações Lógicas, de 1901, a IIIª Investigação foi interpretada como o início da teoria simbólica dos todos e suas partes, também referida como mereologia (um ramo da Ontologia formal).

Outro elemento importante herdado por Brentano foi a noção de intencionalidade, que define a forma essencial dos processos mentais. Uma definição simples dirá que a principal característica da consciência é de ser sempre intencional. A consciência sempre é consciência de alguma coisa : a análise intencional e descritiva da consciência definirá as relações essenciais entre atos mentais e mundo externo. Mas, para Brentano, o objetivo fora gerar com métodos empíricos (apoiando-se na introspecção pura) um critério-chave que possa caracterizar os fenômenos psíquicos por oposto aos fenômenos físicos, distinção cujo objetivo fora legitimar uma ciência psicológica nova, e livre de preconceitos (Psychologie vom empirischen Standpunkt, 1874). Para Brentano, todo ato mental tem seus conteúdos, caracterizados por sua direção a um objeto ("objeto intencional"). Toda crença, desejo, tem necessariamente seus objetos : o desejado, o acreditado, etc. Brentano usou da expressão “inexistência intencional” para indicar o status, na mente, dos objetos do pensamento. Com a noção de intencionalidade, o filósofo austríaco propôs um conjunto de traços que distinguiriam de maneira perfeitamente empírica os fenômenos psíquicos dos fenômenos físicos : para Brentano, fenômenos físicos não tem intencionalidade. O desenvolvimento e a crítica do conceito brentaniano aparece como o motivo permanente, central, da obra de Edmund Husserl. A principal diferença, em sua interpretação da noção de intencionalidade, aparece na crítica de seu modo inexistente ("inexistência" como existência "interna"): a transcendência necessária da mente e do discurso, a objetividade óbvia e no entanto contraditória do porvir científico e histórico, a objetividade radical, constituidora, da subjetividade formarão a marca do trabalho do primeiro fenomenologista, e seus elementos próprios de fascinação.

Alguns anos após a publicação de sua principal obra, as Logische Untersuchungen (Investigações Lógicas; primeira edição, 1900-1901), Husserl elaborou alguns conceitos-chave que o levaram a afirmar que para estudar a estrutura da consciência seria necessário distinguir entre o ato de consciência e o fenômeno ao qual ele é dirigido (o objeto-em-si, transcendente à consciência). O conhecimento das essências seria possível apenas se “colocamos entre parênteses” todos os pressupostos relativos à existência de um mundo externo. Este procedimento ele denominou epoché. Estes novos conceito provocaram a publicação de Ideen (Ideias) em 1913, no qual eles foram pela primeira vez incorporados, e um plano para uma segunda edição das Logische Untersuchungen.

A partir de Ideen, Husserl se concentrou nas estruturas ideais, essenciais da consciência. O problema metafísico de estabelecer a realidade material daquilo que percebemos era de pequeno interesse para Husserl (diferentemente do que ocorria quando ele tinha que defender repetidamente sua posição a respeito do idealismo transcendental, que jamais propôs a inexistência de objetos materiais reais). Husserl propôs que o mundo dos objetos e modos nos quais dirigimo-nos a eles e percebemos aqueles objetos é normalmente concebido dentro do que ele denominou “ponto de vista natural”, caracterizado por uma crença de que os objetos existem materialmente e exibem propriedades que vemos como suas emanações. Husserl propôs um modo fenomenológico radicalmente novo de observar os objetos, examinando de que forma nós, em nossos diversos modos de ser intencionalmente dirigidos a eles, de fato os “constituimos” (para distinguir da criação material de objetos ou objetos que são mero fruto da imaginação); no ponto de vista Fenomenológico, o objeto deixa de ser algo simplesmente “externo” e deixa de ser visto como fonte de indicações sobre o que ele é (um olhar que é mais explicitamente delineado pelas ciências naturais), e torna-se um agrupamento de aspectos perceptivos e funcionais que implicam um ao outro sob a ideia de um objeto particular ou “tipo”. A noção de objetos como real não é removida pela fenomenologia, mas “posta entre parênteses” como um modo pelo qual levamos em consideração os objetos em vez de uma qualidade inerente à essência de um objeto fundada na relação entre o objeto e aquele que o percebe. Para melhor entender o mundo das aparências e objetos, a Fenomenologia busca identificar os aspectos invariáveis da percepção dos objetos e empurra os atributos da realidade para o papel de atributo do que é percebido (ou um pressuposto que perpassa o modo como percebemos os objetos).

Em um período posterior, Husserl começou a se debater com as complicadas questões da intersubjetividade (especificamente, como a comunicação sobre um objeto pode ser suposta como referindo-se à mesma entidade ideal) e experimenta novos métodos para fazer entender aos seus leitores a importância da Fenomenologia para a investigação científica (especificamente para a Psicologia) e o que significa “pôr entre parênteses” a atitude natural. A Crise das Ciências Europeias é o trabalho inacabado de Husserl que lida mais diretamente com estas questões. Nele, Husserl pela primeira vez busca um panorama histórico do desenvolvimento da filosofia ocidental e da ciência, enfatizando os desafios apresentados pela sua crescente (unilateral) orientação empírica e naturalista. Husserl declara que a realidade mental e espiritual possui sua própria realidade independente de qualquer base física e que a ciência do espírito (Geisteswissenschaft) deve ser estabelecida sobre um fundamento tão científico como aquele alcançado pelas ciências naturais.

Como resultado da legislação anti-semita aprovada pelos nazistas em abril de 1933, foi negado ao Professor Husserl o acesso à biblioteca de Freiburg. Seu antigo pupilo e membro do partido nazista, Martin Heidegger, comunicou a Husserl sua demissão. Heidegger (cuja filosofia Husserl considerava ser o resultado de uma compreensão incorreta dos ensinamentos e dos métodos do próprio Husserl) retirou a dedicatória a Husserl de seu mais conhecido trabalho Ser e Tempo (Sein und Zeit), quando este foi reeditado em 1941.

Em 1939, os manuscritos de Husserl, que somavam aproximadamente 40 milhares de páginas taquigrafadas de Gabelsberger e sua pesquisa bibliográfica completa foi clandestinamente transportada para a Bélgica e depositada em Leuven onde foram criados os Husserl-Archives. Muito do material encontrado em suas pesquisas manuscritas foi publicado na série de edições críticas Husserliana.

Faleceu aos 79 anos e foi sepultado em Guenterstal, Friburgo em Brisgóvia, Baden-Württemberg na Alemanha.[4]

A crise das ciências[editar | editar código-fonte]

“A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental”[5] foi a última obra de Husserl, a qual se divide em três partes[6] :

  • Primeira Parte: “A crise das ciências como expressão da crise radical da vida da humanidade europeia”, correspondendo aos parágrafos 1 a 7;
  • Segunda Parte: “A origem do contraste moderno entre objetivismo fisicalista e subjetivismo transcendental”, correspondendo aos parágrafos 8 a 27;
  • Terceira Parte: “Esclarecimento do problema transcendental e a inerente função da psicologia”, a qual inclui as partes “A” (A via de acesso à filosofia transcendental fenomenológica por meio da reconsideração do mundo-da-vida já dado) e “B” (A via de acesso à filosofia transcendental fenomenológica a partir da psicologia), correspondendo, respetivamente, aos parágrafos 28 a 55 e 56 a 73.

Quanto aos textos agregados, incluem-se três conferências históricas de Husserl:

  • “Ciência da Realidade e Idealização. A Matematização da Natureza.”
  • “A Atitude das Ciências Naturais e a Atitude das Ciências do Espírito. Naturalismo, Dualismo e Psicologia Psicofísica.”
  • “A Crise da Humanidade Europeia e a Filosofia.”

A obra também contém os Apêndices I a XXIX, nos quais Husserl aprofunda os diversos argumentos tratados.

Lista de obras[editar | editar código-fonte]

Obras completas:

Obras publicadas em vida:

  • Über den Begriff der Zahl. Psychologische Analysen (1887).
  • Philosophie der Arithmetik. Psychologische und logische Untersuchungen (1891).
  • Logische Untersuchungen. Zweite Teil: Untersuchungen zur Phänomenologie und Theorie der Erkenntnis (1901).
  • Philosophie als strenge Wissenschaft (1911).
  • Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie. Erstes Buch: Allgemeine - - Einführung in die reine Phänomenologie (1913).
  • Vorlesungen zur Phänomenologie des inneren Zeitbewusstseins (1928).
  • Formale und transzendentale Logik. Versuch einer Kritik der logischen Vernunft (1929).
  • Méditations cartèsiennes (1931) (tradução francesa da obra póstuma Cartesianische Meditationen - 1950).
  • Die Krisis der europäischen Wissenschaften und die transzentale Phänomenologie: Eine Einleitung in die phänomenologische Philosophie (1936).

Referências

  1. Smith, D.W. (2007). Husserl. pp xiv
  2. Inwood, M. J.. In: Honderich, Ted. The Oxford Companion to Philosophy (em inglês). Oxford: Oxford University Press, 2005. p. 408. ISBN 0-19-926479-1.
  3. Solomon, Robert C.. In: Audi, Robert. The Cambridge Dictionary of Philosophy (em inglês). Cambridge: Cambridge University Press, 1999. p. 403. ISBN 0-521-63722-8.
  4. Edmund Husserl (em inglês) no Find a Grave.
  5. Die Krisis der europäischen Wissenschaften und die transzendentale Phänomenologie
  6. A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental, de Edmund Husserl: uma apresentação