Egberto de Wessex

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Egberto
Rei de Wessex
Reinado 802 a 839
Predecessor Beorhtric
Sucessor Etelvulfo
Rei de Kent
Reinado 825 a 839
Predecessor Baldred
Sucessor Etelvulfo
Descendência
Etelvulfo de Wessex
Casa Wessex
Pai Ealhmund de Kent
Nascimento 769 ou 771
Morte 839
Enterro Winchester

Egberto (em anglo-saxão: Ecgberht, Ecgbert ou Ecgbriht; em inglês: Egbert; 769 ou 771839) foi rei de Wessex, na atual Inglaterra, de 802 até sua morte, em 839. O seu pai foi Ealhmund de Kent. Na década de 780 Egberto foi forçado ao exílio por Ofa da Mércia e Beortrico de Wessex, porém com a morte de Beortrico, em 802, Egberto voltou e assumiu o trono.

Pouco se conhece dos primeiros 20 anos do reinado de Egberto, porém acredita-se que ele foi capaz de manter a independência de Wessex do reino da Mércia, que à época dominava os outros reinos do sul da Inglaterra. Em 825, na Batalha de Ellandun, derrotou Beornvulfo da Mércia e pôs um fim à supremacia mércia, assumindo o controle das dependências mércias no sudeste inglês. Em 829 Egberto derrotou Viglafo da Mércia e expulsou-o de seu reino, governando diretamente a Mércia de maneira temporária. No mesmo ano Egberto recebeu a submissão do rei nortúmbrio, em Dore. A Crônica Anglo-Saxã o descreveu então como um bretwalda, ou "Governante da Britânia".

Egberto não conseguiu sustentar, no entanto, esta posição de dominio, e um ano depois Viglafo reconquistou o trono mércio. Wessex, no entanto, manteve controle sobre as regiões de Kent, Sussex e Surrey, territórios que haviam sido concedidos ao filho de Egberto, Etelvulfo, para que os governasse como sub-rei, sob as ordens de Egberto. Quando este morreu, em 839, Etelvulfo sucedeu-o; os reinos do sudeste acabaram finalmente por ser incorporados no reino de Wessex com a morte de Etelvulfo, em 858.

Família[editar | editar código-fonte]

Entre os historiadores não existe um consenso acerca dos ancestrais de Egberto. A primeira versão da Crônica Anglo-Saxã, a Parker Chronicle, inicia-se com um prefácio genealógico que aponta os ancestrais do herdeiro de Egberto, Etelvulfo, andando para trás através de Egberto, Ealmundo de Kent e pelos desconhecidos Eoppa e Eafa, até Ingild, irmão de Ine de Wessex, que abdicou do trono em 726. A genealogia prosegue até Cerdic, fundador da Casa de Wessex.[1] A descendência de Egberto a partir de Ingild foi aceite pelo historiador inglês Sir Frank Stenton, porém não esta genealogia mais antiga, que se estende a Cerdic.[2] Heather Edwards, no entanto, no seu artigo no Dictionary of National Biography, argumenta que ele teria origem em Kent, e que a descendência saxã ocidental (Wessex) poderia ter sido fabricada durante seu reinado para lhe dar legitimidade,[3] enquanto Rory Naismith considera uma origem no Kent improvável, e que é mais provável que "Egbert nasceu da boa estirpe real saxã ocidental ."

O nome da mulher de Egberto é desconhecido. A 500 crónica pertencente á Universidade de Oxford, nomeia a mulher de Egberto com Redburga, mas isto é rejeitado pelos historiadores devid á sua data final. Acredita-se que tenha tido uma meia-irmã, Alburga, mais tarde reconhecida como santa por sua fundação da Abadia de Wilton; Alburga foi casada com Vulfstano, ealdorman de Wiltshire, e após a morte deste tornou-se uma freira, e, posteriormente, abadessa da Abadia de Wilton.[4]

Contexto político e juventude[editar | editar código-fonte]

Etelvulfo de Wessex Baldred de Kent Coenwulf da Mércia Cuthred de Kent Eadbert III Præn Eadbert III Præn Offa da Mércia Ealhmund de Kent Egbert II de Kent Heabert de Kent Wiglaf da Mércia Wiglaf da Mércia Ludeca da Mércia Beornwulf da Mércia Ceolwulf da Mércia Coenwulf da Mércia Offa da Mércia Beorhtric de Wessex Cynewulf de Wessex

Offa da Mércia, que reinou de 757 a 796, foi a força dominante na Inglaterra anglo-saxã durante a segunda metade do século VIII. A relação entre Offa e Cynewulf, que governou Wessex entre 757 e 786, não é bem documentada, porém parece provável que Cynewulf tenha mantido alguma independência do domínio mércio. As evidências das relações entre reis podem ter origem em cartas, documentos que concediam terras a seguidores ou membros do clero, e que tinham como testemunhas os reis que detinham o poder para esta concessão de terras. Em alguns casos, este rei aparecia numa destas cartas como subregulus ("sub-rei"), o que deixava claro o fato de que ele tinha um superior.[5] [6] Cynewulf aparece como "Rei dos Saxões Ocidentais" numa carta de Offa que data de 772;[7] e foi derrotado por Offa em combate no ano de 779, em Bensington; porém nada existe que sugira que Cynewulf não fosse soberano, e não consta que ele tenha reconhecido Offa como seu superior.[8] Offa tinha, no entanto, influência sobre o sudeste do país: uma carta de 764 o mostra na companhia de Heahberht de Kent, o que sugere que a influência de Offa teria ajudado a colocar Heahberht no trono.[9] A extensão do controle de Offa sobre Kent entre 765 e 776 é um assunto discutido até hoje pelos historiadores, porém de 776 a 784 tudo indica que os reis de Kent era consideravelmente independentes da Mércia.[9] [10]

Outro Egberto, Egberto II de Kent, governou aquele reino durante a década de 770; foi mencionado pela última vez em 779, numa carta que concede terras em Rochester.[9] Em 784 um novo rei de Kent, Ealhmund, aparece na Crônica Anglo-Saxã. De acordo com uma nota na margem desta carta, "este rei Ealmundo era pai de Egberto [de Wessex], Egberto era pai de Etelvulfo." Isto é confirmado pelo prefácio genealógico do texto A da Crônica, que lista o nome do pai de Egberto como Ealmundo, sem maiores detalhes. O prefácio provavelmente data do fim do século IX; a nota da margem está no manuscrito F da Crônica, que é uma versão de Kent que data de por volta de 1100.[11]

Ealhmund não parece ter permanecido no poder por muito tempo: não existem registos das suas atividades após 784. Existem, no entanto, evidências extensivas do domínio de Offa em Kent durante o fim da década de 780, com suas metas variando da suserania até a anexação direta do reino,[9] com ele tendo sido descrito como "o rival, não o suserano, dos reis de Kent".[12] É possível que o jovem Egberto tenha fugido para Wessex por volta de 785; é sugestivo que a Crônica menciona num trecho posterior que Beorhtric, sucessor de Cynewulf, tenha ajudado Offa a exilar Egberto.[9]

Cynewulf foi assassinado em 786. Egberto pode ter contestado a sucessão, porém Offa interveio com sucesso na disputa de poder que se seguiu pelo lado de Beorhtric.[11] [13] A Crônica Anglo-Saxã registra que Egberto passou três anos na Frância antes de ser coroado, exilado por Beorhtric e Offa. O texto usa "iii" como três, porém este pode ter sido um erro do escriba, e a leitura correta seria "xiii", ou seja, treze anos. O reinado de Beorhtric durou dezasseis anos, e não treze; todas as cópias existentes da Crónica citam "iii", porém diversos relatos modernos assumem que Egberto teria passado na realidade treze anos na Frância. Isto exige que se assuma que o erro de transcrição seja comum a todos os manuscritos da Crónica Anglo-Saxã; diversos historiadores fazem esta presunção, porém outros a rejeitaram como improvável, tendo em vista a consistência das fontes.[14] De qualquer maneira, Egberto provavelmente foi exilado em 789, quando Beorhtric, seu rival, se casou com a filha de Offa da Mércia.[15]

Durante o exílio de Egberto, a Frância foi governada por Carlos Magno, que manteve a influência frâncica na Nortúmbria, e que teria dado apoio aos inimigos de Offa no sul. Outro exilado na Gália durante este período foi Odberht, um padre, que quase seguramente seria Eadberht, que mais tarde se tornou rei de Kent. De acordo com um cronista posterior, William de Malmesbury, Egberto teria aprendido as artes de governo durante seu período na Gália.[16]

Início do reinado[editar | editar código-fonte]

A dependência de Beorhtric continuou durante o reinado de Cenwulf, que se tornou rei da Mércia alguns anos após a morte de Offa.[8] Beorhtric morreu em 802, e Egberto assumiu o trono de Wessex, provavelmente com apoio de Carlos Magno e, talvez, do papado.[17] Os mércios continuaram a oporem-se a Egberto; no dia de sua ascensão ao trono, os Hwicce (que formavam originalmente um reino separado, mas que àquela altura já faziam parte da Mércia) atacaram, sob a liderança de seu ealdorman, Etelmundo. Weohstan, um ealdorman de Wessex, foi ao seu encontro com homens de Wiltshire:[11] de acordo com uma fonte do século XV, Weohstan havia se casado com Alburga, irmã de Egberto, e era, portanto, seu cunhado.[18] Os Hwicce foram derrotados, embora Weohstan tenha sido morto juntamente com Etelmundo.[11] Nada mais se registrou das relações de Egberto com a Mércia por mais de vinte anos depois desta batalha. Parece provável que Egberto não tenha exercido influências fora das suas fronteiras, porém por outro lado não existem evidências de que ele tenha se rendido à dominação de Cenwulf. Este dominava o resto do sul da Inglaterra, porém nas suas cartas oficiais o título de "soberano dos ingleses do sul" nunca aparece, supostamente como resultado da independência do reino de Wessex. [19]

Em 815 a Crónica Anglo-Saxã registrou que Egberto devastou todos os territórios do último reino britânico nativo, Dumnônia, conhecido pelo autor da Crónica como os galeses ocidentais; o seu território equivalia ao da atual Cornualha.[11] [20] Dez anos mais tarde, uma carta oficial datada de 19 de agosto de 825, indica que Egberto esteve envolvido em campanhas militares na Dumnônia novamente; este fato pode ter tido relação com uma batalha registrada na Crónica em Galford, em 823, entre os homens de Devon e os britões da Cornualha.[21]

A batalha de Ellendun[editar | editar código-fonte]

Mapa da Inglaterra durante o reinado de Egberto.

Foi em 825 também que ocorreu uma das batalhas mais importantes da história anglo-saxã, quando Egberto derrotou Beornwulf da Mércia, em Ellendun — atual Wroughton, próximo a Swindon. Esta batalha marcou o fim da dominação mércia sobre o sul da Inglaterra.[22] A Crônica narra como Egberto deu sequência à sua vitória: "enviou o seu filho, Etelvulfo, para a batalha, e Ealhstan, o seu bispo, e Wulfheard, seu ealdorman, para Kent, com uma grande tropa." Etelvulfo expulsou Baldred, rei de Kent, para o norte, além do Tâmisa, e, de acordo com a Crónica, os homens de Kent, Essex, Surrey e Sussex submeteram-se a Etelvulfo "porque haviam sido forçados antes, erroneamente, por seus parentes."[11] Isto pode referir-se às intervenções de Offa em Kent durante a época em que o pai de Egberto, Ealmundo, se tornou rei; se este for o caso, o comentário do cronista também pode indicar que Ealhmund tinha outras conexões no sudeste da Inglaterra.[17]

A versão dos eventos apresentada pela Crónica parece sugerir que Baldred foi expulso pouco depois da batalha, porém isto provavelmente não foi o que aconteceu. Um documento de Kent que sobreviveu até os dias de hoje apresenta a data de março de 826 como marcando o terceiro ano do reinado de Beornwulf, o que torna provável que Beornwulf ainda dominasse Kent até esta data, como suserano de Baldred; assim, Baldred ainda estava no poder, aparentemente.[21] [23] Em Essex, Egberto expulsou o rei Sigered, embora a data em que isto tenha acontecido não seja conhecida. O fato pode não ter ocorrido até 829, já que um cronista posterior associa a expulsão com uma campanha realizada por Egberto naquele ano, contra os mércios.[21]

A Crônica Anglo-Saxã não deixa claro quem deu início às agressões em Ellendun, porém um registo histórico recente assegura que Beornwulf teria quase seguramente iniciado o ataque. De acordo com este ponto de vista, Beornwulf teria se aproveitado da campanha de Wessex na Dumnônia, no verão de 825. A motivação de Beornwulf para atacar teria sido a ameaça de revoltas ou instabilidade no sudeste; as ligações dinásticas com Kent faziam de Wessex uma ameaça à dominação mércia.[21]

As consequências de Ellendun foram além da perda imediata do domínio mércio no sudeste. De acordo com a Crónica, os anglos orientais teriam pedido a proteção de Egberto contra os mércios no mesmo ano, 825, embora este pedido possa ter sido feito no ano seguinte. Em 826, Beornvulfo invadiu a Ânglia Oriental, supostamente para recuperar o poder na região. Foi morto, no entanto, juntamente com seu sucessor, Ludeca, que havia invadido a região em 827, evidentemente pela mesma razão. Os mércios também poderiam estar à espera de auxílio de Kent; há motivos para se supor que Wulfred, o arcebispo de Canterbury, estivesse descontente com o domínio saxão ocidental, já que Egberto havia interrompido o uso das moedas cunhadas por Wulfred começando a cunhar as suas próprias, em Rochester e Canterbury,[21] e sabe-se que Egberto se apossou de propriedade que pertencia a Canterbury.[24] O resultado do ocorrido na Ânglia Oriental foi desastroso para os mércios, e confirmou o poder dos saxões ocidentais no sudeste do país.[21]

Derrota da Mércia[editar | editar código-fonte]

Tópico referente ao ano de 827 no manuscrito [C] da Crônica Anglo-Saxã, listando os oito bretwaldas

Em 829 Egberto invadiu a Mércia e expulsou Wiglaf, rei local, exilando-o. Esta vitória lhe deu controle da casa de moedas de Londres, permitindo a cunhagem de moedas como rei da Mércia.[21] Foi apenas depois desta vitória que o escriba saxão ocidental passou a descrevê-lo como um bretwalda, significando "grande soberano" ou "soberano da Britânia", numa célebre passagem da Crônica Anglo-Saxã. O trecho relevante dos anais, no manuscrito [C] da Crônica, é:[25]

⁊ þy geare geeode Ecgbriht cing Myrcna rice ⁊ eall þæt be suþan Humbre wæs, ⁊ he wæs eahtaþa cing se ðe Bretenanwealda wæs.

No inglês moderno:[26]

And the same year King Egbert conquered the kingdom of Mercia, and all that was south of the Humber, and he was the eighth king who was 'Wide Ruler'.[27]

Os sete bretwaldas anteriores também receberam esta designação do autor da Crônica, que lista os mesmos sete nomes que Bede lista como detentores de imperium, a partir de Aelle de Sussex, e terminando com Oswiu da Nortúmbria. A lista frequentemente é considerada incompleta, omitindo tanto reis mércios dominantes como Penda e Offa. O significado exato do título foi muito debatido; já foi descrito como "um termo de encomiástica poesia",[28] embora existam evidências de que ele deixasse implícito um papel definido de liderança militar.[29]

No decorrer daquele ano, de acordo com a Crônica Anglo-Saxã, Egberto submeteu os nortúmbrios em Dore (atualmente um subúrbio de Sheffield); o rei nortúmbrio provavelmente era Eanred.[30] De acordo com um cronista posterior, Rogério de Wendover, Egberto teria invadido a Nortúmbria e a saqueado antes de subjugar Eanred: "Após Egbert conquistar todos os reinos meridionais, ele conduziu um grande exército à Nortúmbria, e devastou aquela província com pilhagens severas, e fez o rei Eanred pagar-lhe tributo." Sabe-se que Rogério de Wendover teria incorporado os anais nortúmbrios à sua versão; a Crônica não menciona estes eventos.[31] A natureza da submissão de Eanred, no entanto, já foi questionada; um historiador sugeriu que o encontro em Dore teria mais provavelmente representado um reconhecimento mútuo de soberania.[32]

Em 830 Egberto liderou uma expedição bem-sucedida contra os galeses, visando quase seguramente ampliar a influência saxã ocidental nas terras do País de Gales ocupadas anteriormente pela esfera de influência mércia. Isto representou o ponto alto da influência de Egberto.[21]

Perda de influência após 829[editar | editar código-fonte]

Representação de Egberto na fachada da Catedral de Lichfield, Inglaterra.

Em 830, a Mércia reconquistou sua independência, sob o comando de Wiglaf - a Crônica apenas afirma que Wiglaf "obteve novamente o reino da Mércia",[11] porém a explicação mais provável é que isto teria sido resultado de uma rebelião mércia contra o domínio de Wessex.[33]

O domínio de Egberto sobre o sul da Inglaterra terminou com a retomada de poder por Wiglaf, a cujo retorno se seguiram evidências de sua independência de Wessex. Cartas indicam que Wiglaf detinha autoridade em Middlesex e Berkshire, e, num documento de 836, Wiglaf utiliza a frase "meus bispos, duques e magistrados" para descrever um grupo entre os quais estavam onze bispos do bispado de Canterbury, incluindo bispos de sedes em território saxão ocidental.[34] É significativo o fato de Wiglaf ainda conseguir reunir um grupo semelhante de notáveis; os saxões ocidentais, mesmo quando o podiam fazer, não costumavam reunir tais conselhos.[24] [35] Wiglaf também pode ter trazido Essex de volta à esfera de influência mércia durante os anos após sua recuperação do trono.[21] [36] Na Ânglia Ocidental, o rei Aethelstan cunhou moedas, talvez já em 827, porém com mais probabilidade por volta de 830, após a redução da influência de Egberto que se seguiu ao retorno de Wiglaf ao poder na Mércia. Esta demonstração de independência por parte da Ânglia Oriental não é surpreendente, já que o próprio Aethelstan provavelmente foi responsável pela derrota e morte tanto de Beornwulf quanto de Ludeca.[21]

Tanto a ascensão súbita de Wessex ao poder no fim da década de 820 quanto a sua incompetência subsequente em manter esta posição dominante foram examinadas por historiadores à procura de causas subjacentes. Uma explicação plausível para os eventos daqueles anos seria a de que a sorte de Wessex teria dependido, de alguma maneira, do apoio carolíngio. Os francos apoiaram Eardwulf quando ele recuperou o trono da Nortúmbria em 808, e portanto é possível que eles também tenham apoiado a ascensão ao trono de Egberto em 802. Na Páscoa de 839, pouco antes da morte de Egberto, ele havia feito contato com Luís, o Pio, rei dos francos, para obter salvo-conduto até Roma. A partir daí uma relação contínua com os francos parece ter feito parte da política do sul da Inglaterra durante a primeira metade do século IX.[21]

O apoio carolíngio pode ter sido um dos fatores que ajudou Egberto a conquistar os sucessos militares do fim da década de 820. No entanto, as redes comerciais do Reno e dos francos entraram em colapso em algum ponto entre 820 e 830; além disso, uma rebelião eclodiu, em fevereiro de 830, contra Luís - a primeira de uma série de conflitos internos que duraram por toda a década de 830 e perduraram por algum tempo. Estas distrações impediram que Luís desse apoio a Egberto. Por este ponto de vista, a ausência desta influência frâncica teria feito com que a Ânglia Ocidental, Mércia e Wessex fossem obrigados a encontrar um equilíbrio de poder que não dependesse de auxílio exterior.[21]

Apesar da perda da dominância, os sucessos militares de Egberto alteraram fundamentalmente o cenário político da Inglaterra anglo-saxã. Wessex manteve controle sobre os reinos do sudeste, com a possível exceção de Essex, e a Mércia não retomou controle da Ânglia Ocidental.[21] As vitórias de Egberto marcaram o fim da existência independente dos reinos de Kent e Sussex. Os territórios conquistados foram administrados como sub-reinos por algum tempo, incluindo Surrey e, possivelmente, Essex.[37] Embora Etelvulfo tenha sido um destes reis subordinados a Egberto, parece claro que ele mantinha sua própria corte real, com a qual ele viajava pelo seu reino. Cartas proclamadas em Kent descrevem Egberto e Etelvulfo como "reis dos saxões ocidentais e também do povo de Kent". Quando Etelvulfo morreu, em 858, seu testamento, no qual Wessex é deixado para um filho e o reino do sudeste para outro, deixa claro que não seria até 858 que os reinos seriam totalmente integrados.[38] A Mércia continuou, no entanto, a representar uma ameaça; o filho de Egberto, Etelvulfo, estabelecido como rei de Kent, doou extensões de terra à Igreja de Cristo, em Canterbury, provavelmente visando contrabalancear qualquer influência que os mércios pudessem deter ali.

No sudoeste, Egberto foi derrotado, em 836, em Carhampton, pelos dinamarqueses,[11] que por sua vez foram derrotados, juntamente com seus aliados, os galeses ocidentais, por ele em 838, numa batalha em Hingston Down, na Cornualha. A linhagem real dumnônia continuou após este período, porém é neste ponto que se considera que a independência do último reino britânico teria terminado.[21] Os detalhes da expansão anglo-saxã à Cornualha foram muito pouco registrados, porém algumas evidências podem ser obtidas dos topônimos.[39] O rio Ottery, que se desloca, rumo ao leste, até o rio Tamar, nas proximidades de Launceston, parece ter representado uma fronteira; a sul do Ottery os topônimos são majoritariamente córnicos, enquanto a norte dele foram bem mais influenciados pelos britânicos recém-chegados.[40]

Sucessão[editar | editar código-fonte]

Baú mortuário do século XVI, de uma série montada pelo bispo Foxe na Catedral de Winchester, que supostamente conteria os ossos de Egberto.

Numa assembleia em Kingston-upon-Thames, em 838, Egberto e Etelvulfo concederam extensões de terra às sedes de Winchester e Canterbury em troca da promessa de apoio para as pretensões ao trono de Etelvulfo.[24] [34] [41] O arcebispo de Canterbury, Ceolnoth, também aceitou Egberto e Etelvulfo como senhores e protetores dos mosteiros sob seu controle. Estes acordos, juntamente com uma carta posterior na qual Etelvulfo confirmou privilégios eclesiásticos, sugerem que a igreja teria reconhecido Wessex como uma nova potência política que deveria ser confrontada.[21] Os clérigos consagraram o rei em cerimónias de coroação, e ajudaram a escrever os testamentos que especificavam o herdeiro do monarca; seu apoio teve valor fundamental no estabelecimento do domínio saxão ocidental, e garantiu uma sucessão pacífica para a linhagem de Egberto.[42] Tanto os registros do Concílio de Kingston quanto outra carta proclamada naquele ano trazem uma frase idêntica: uma das condições da carta é a de que "nós mesmos e nossos herdeiros devemos doravante sempre ter amizades firmes e inabaláveis com o arcebispo Ceolnoth e sua congregação na Igreja de Cristo."[41] [43] [44]

Embora não se saiba nada de quaisquer outros pretendentes ao trono, provavelmente haviam outros descendentes vivos de Cerdic (o suposto progenitor de todos os reis de Wessex) que teriam oferecido concorrência ao domínio do reino. Egberto morreu em 839, e seu testamento, de acordo com o relato apresentado no testamento de seu neto, Alfredo, o Grande, deixou extensões de terra apenas aos membros de sua família do sexo masculino, de modo que estes territórios não fossem perdidos à casa real através de casamentos. A riqueza de Egberto, adquirida através de conquistas, foi, sem dúvida, um dos motivos de sua capacidade de adquirir o apoio das autoridades eclesiásticas do sudeste; a parcimônia de seu testamento indica que ele compreendeu a importância da riqueza pessoal para um rei.[42] O cargo de rei de Wessex foi disputado com frequência por diferentes ramos da linhagem real, e um dos feitos notáveis de Egberto é ter sido capaz de assegurar a sucessão tranquila para Etelvulfo.[42] Além disso, a experiência monárquica de Etelvulfo, no sub-reino formado a partir das conquistas de Egberto no sudeste, lhe foram valiosas quando ele subiu ao trono.[45]

Egberto foi sepultado em Winchester, bem como seu filho, Etelvulfo, seu neto, Alfredo, o Grande, e o filho de Alfredo, Eduardo, o Velho. Durante o século IX, Winchester começou a mostrar sinais de urbanização, e provavelmente esta sequência de sepultamentos indiquem que o local seria visto de maneira especial pela linhagem real dos saxões ocidentais.[46]

Referências

  1. Garmonsway 1990, p. xxxii, 2, 4.
  2. Stenton, Anglo-Saxon England, p. 65–66
  3. Edwards, Ecgbehrt
  4. Farmer, D.H.: The Oxford Dictionary of Saints, p. 10
  5. Hunter Blair, Roman Britain, p. 14–15.
  6. P. Wormald, "The Age of Bede and Æthelbald", in Campbell et al., The Anglo-Saxons, p. 95–98
  7. Anglo-Saxons.net: S 108. Página visitada em 8-8-2007.
  8. a b Stenton, Anglo-Saxon England, p. 209–210.
  9. a b c d e Kirby, Earliest English Kings, p. 165–169
  10. Stenton, Anglo-Saxon England, p. 207.
  11. a b c d e f g h Swanton, The Anglo-Saxon Chronicle, p. 58–63.
  12. Wormald, "Bede, the bretwaldas and the origins of the Gens Anglorum", in Wormald et al., Ideal and Reality, p. 113; citado em Kirby, Earliest English Kings, p. 167., e n. 30.
  13. Fletcher, Who's Who, p. 114.
  14. Fletcher, por exemplo, assume que Egberto teria passado essencialmente todo o reinado de Beorhtric na Frância; ver Fletcher, Who's Who, p. 114. Da mesma maneira, Swanton anota "3 anos" com "na realidade treze anos . . . este erro é comum a todos os manuscritos." Ver nota 12 em Swanton, Anglo-Saxon Chronicle, p. 62–63. Por outro lado, Stenton aceita o número como três: ver Stenton, Anglo-Saxon England, p. 220. Stenton acrescenta, numa nota de rodapé, que "é muito perigoso rejeitar uma leitura tão bem atestada."
  15. Stenton, Anglo-Saxon England, p. 220.
  16. Kirby, Earliest English Kings, pp. 176–177.
  17. a b Kirby, Earliest English Kings, p. 186.
  18. A fonte, um poema na Chronicon Vilodunense, é descrito por Yorke como "admitidamente . . . longe do ideal". Ver Barbara Yorke, "Edward as Ætheling", in Higham & Hill, Edward the Elder, p. 36.
  19. Stenton, Anglo-Saxon England, p. 225.
  20. A fronteira havia sido empurrada até o rio Tamar, entre Devon e a Cornualha, por Ine de Wessex, em 710. Ver Kirby, Earliest English Kings, p. 125.
  21. a b c d e f g h i j k l m n o Kirby, Earliest English Kings, p. 189–195.
  22. Stenton, Anglo-Saxon England, p. 231.
  23. Anglo-Saxons.net: S 1267 Sean Miller.
  24. a b c P. Wormald, "The Age of Offa and Alcuin", p. 128, in Campbell et al., The Anglo-Saxons.
  25. Tony Jebson. Manuscript C: Cotton Tiberius C.i. Página visitada em 12-8-2007.
  26. Tradução baseada em Swanton; notar que "bretwalda" (que Swanton traduz como "Controller of Britain") aparece no ms A como "brytenwealda" e, em outros mss, como variantes; aqui foi traduzido como "Wide Ruler", per Swanton. Ver Swanton, Anglo-Saxon Chronicle, p. 60–61.
  27. Numa tradução livre:
    "E no mesmo ano o Rei Egberto conquistou o reino da Mércia, e tudo que estava ao sul do Humber, e foi o oitavo rei a ser 'Grande Soberano'."
  28. Stenton, Anglo-Saxon England, p. 34–35.
  29. Kirby, Earliest English Kings, p. 17.
  30. Kirby, Earliest English Kings, p. 197.
  31. P. Wormald, "The Ninth Century", p. 139, in Campbell et al., The Anglo-Saxons.
  32. Yorke, Kings and Kingdoms, p. 96.
  33. Stenton cita os anais de 839, que afirmam que Etelvulfo teria "concedido" ou "dado" o reino de Kent a seu filho, como exemplo da linguagem que teria sido utilizado se Wiglaf tivesse recebido o reino de Egberto. Ver Stenton, Anglo-Saxon England, p. 233–235
  34. a b Stenton, Anglo-Saxon England, p. 233–235
  35. P. Wormald, "The Ninth Century", p. 138, in Campbell et al., The Anglo-Saxons.
  36. Yorke, Kings and Kingdoms, p. 51.
  37. Yorke, Kings and Kingdoms, p. 32.
  38. Abels, Alfred the Great, p. 31.
  39. Yorke, Kings and Kingdoms, p. 155.
  40. Payton, Cornwall, p. 68.
  41. a b Anglo-Saxons.net: S 1438 Sean Miller. Página visitada em 1-9-2007.
  42. a b c Yorke, Kings and Kingdoms, p. 148–149.
  43. Anglo-Saxons.net: S 281 Sean Miller. Página visitada em 8-8-2007.
  44. P. Wormald, "The Ninth Century", p. 140, in Campbell et al., The Anglo-Saxons.
  45. Yorke, Kings and Kingdoms, p. 168–169.
  46. Yorke, Wessex, p. 310.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Fontes primárias
  • Garmonsway, George Norman (ed.). The Anglo-Saxon Chronicle. Londres: J. M. Dent, 1990. xliii, [xliv-xlix], 295 pp. ISBN 0460870386
  • Swanton, Michael (ed.). The Anglo-Saxon Chronicle. Nova York: Routledge, 1998. xxxvi, 363 pp. ISBN 0415921295
Fontes secundárias

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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Casa de Wessex
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