Embuste de Dreadnought

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Os embusteiros em trajes abissínios. A figura barbada na extrema esquerda é a escritora Virginia Woolf

Embuste de Dreadnought foi um embuste colocado em prática por Horace de Vere Cole em 1910. Cole enganou a Marinha Real Britânica para que ela autorizasse o acesso de uma suposta delegação de nobres abissínios a seu navio-almirante, o HMS Dreadnought. O embuste chamou atenção da Grã-Bretanha para o surgimento do Grupo de Bloomsbury.

História[editar | editar código-fonte]

A farsa envolveu Cole e cinco amigos—a escritora Virginia Stephen (que tornaria-se conhecida mais tarde como Virginia Woolf), seu irmão Adrian Stephen, Guy Ridley, Anthony Butxton e o artista Duncan Grant—que disfarçaram-se com turbantes, barbas postiças e escurecedores de pele. A principal limitação do disfarce era não permitir aos "nobres" comerem, caso contrário a maquiagem seria arruinada. Adrian Stephen ficou com o papel de intérprete.[1] [2]

Em 7 de fevereiro de 1910, o embuste foi colocado em prática. Cole combinou com um cúmplice o envio de um telegrama para o HMS Dreadnought, que estava então ancorado em Portland, Dorset. A mensagem, com a assinatura falsa do Secretário de Assuntos Externos Sir Charles Hardinge, dizia que o navio devia estar preparado para a visita de um grupo de príncipes da Abissínia.[1]

Cole e seu cortejo seguiram para a Estação de Paddington em Londres, onde ele apresentou-se como "Herbert Cholmondeley" do Departamento de Assuntos Externos da Grã-Bretanha, exigindo um trem especial para Weymouth. O chefe da estação concedeu-lhe então um vagão VIP.[3]

Em Weymouth, a marinha recebeu a "realeza" com uma guarda de honra. Como não foram capazes de encontrar uma bandeira da Abissínia, utilizaram uma de Zanzibar, procedendo com uma apresentação do hino daquela ilha.[2] [3]

O grupo então inspecionou a frota, demonstrando sua admiração num palavreado formado por termos em latim e grego. Em seguida eles solicitaram tapetes de oração e tentaram conceder honras militares fictícias a alguns dos oficiais. Foram embora quarenta minutos depois de embarcarem, não levantando qualquer suspeita.[1]

Consequências[editar | editar código-fonte]

Quando o embuste foi descoberto em Londres, Horace de Vere Cole contactou a imprensa e enviou uma fotografia da "realeza" ao Daily Mirror. As opiniões pacifistas do grupo foram consideradas motivo de embaraço, e a Marinha Real tornou-se brevemente objeto de ridículo. O comando da força militar naval exigiu mais tarde que Cole fosse preso, mas ele e seu grupo, contudo, não haviam violado qualquer lei, escapando portanto impunes.

Durante a visita ao Dreadnought, o grupo demonstrou assombro e apreço ao repetir diversas vezes a exclamação "Bunga! Bunga! Bunga!". Quando Menelik II da Etiópia visitou a Inglaterra pouco tempo depois, foi perseguido nas ruas por crianças que gritavam a mesma expressão. Ironicamente, o imperador da Etiópia solicitara uma visita às instalações da marinha, mas o oficial em comando recusou-se a atender seu pedido, provavelmente para evitar futuros constrangimentos.[4]

Em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, o HMS Dreadnought abalroou e afundou um submarino alemão. Entre os telegramas de congratulações estava um cujo único conteúdo era "BUNGA BUNGA".[5]

Referências

  1. a b c "AN AMAZING HOAX." - Hawera & Normanby Star, Volume LVII, 8 de abril de 1910, pág. 3
  2. a b The Bloomsbury Group: A Collection of Memoirs and Commentary, págs. 6 a 17 - Stanford Patrick Rosenbaum - University of Toronto Press - ISBN 9780802076403 (1995)
  3. a b "All dressed up, ready to hoax" - Daily Mail, 13 de abril de 2010
  4. "British novelist showed military chiefs could be duped" - Morning Call, 4 de julho de 2004
  5. Make Another Signal - Jack Broome - ed. William Kimber - ISBN 0-7183-0193-5 (1973)