Eneida

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
NoFonti.svg
Este artigo ou se(c)ção cita fontes fiáveis e independentes, mas que não cobrem todo o conteúdo (desde abril de 2010). Por favor, adicione mais referências e insira-as corretamente no texto ou no rodapé. Trechos sem fontes poderão ser removidos.
Encontre fontes: Googlenotícias, livros, acadêmicoYahoo!Bing.
Eneida
Vergilio mosaico de Monno Landesmuseum Trier3000.jpg
Virgílio (Mosaico)
Autor (es) Virgílio
Idioma Latim
País Roma Antiga
Género Poesia épica
Editora Várias
Lançamento século I a.C.

A Eneida (Aeneis em latim) é um poema épico latino escrito por Virgílio no século I a.C.. Conta a saga de Eneias, um troiano que é salvo dos gregos em Troia, viaja errante pelo Mediterrâneo até chegar à península Itálica. Seu destino era ser o ancestral de todos os romanos[1] .

Uma epopeia por encomenda[editar | editar código-fonte]

Eneias abandona Troia em chamas,
Federico Barocci, 1598, Galleria Borghese, Roma.

Virgílio já era ilustre pelas suas Bucólicas (37 a.C.), um poema pastoril, e Geórgicas (30 a.C.), um poema agrícola[1] . Então, o imperador Augusto encomendou-lhe a composição de um poema épico que cantasse a glória e o poder do Império Romano. Um poema que rivalizasse e quiçá superasse Homero, e também que cantasse, indiretamente, a grandeza de césar Augusto[1] . Assim Virgílio elaborou um trabalho que, além de labor lingüístico e conteúdo poético, é também propaganda política[1] .

Muitos dos episódios na Eneida, que narra um tempo mítico, têm uma correspondência síncrona com a atualidade de Augusto. Por exemplo o escudo de Eneias, simbolizando a Batalha de Áccio, quando Otaviano derrotou Marco Antônio em 31 a.C. e a previsão de Anquises, no Hades, sobre as glórias de Marcelo, filho de Otávia, irmã do imperador.

Virgílio terminou de escrever Eneida em 19 a.C.. A obra estava "completa" mas ainda não estava "pronta" segundo o seu criador. Virgílio gostaria ainda de visitar os lugares que apareciam no poema e revisar os versos dos cantos finais. Mas adoeceu e, às portas da morte, pediu a dois amigos que queimassem a obra por não estar ainda "perfeita". O grande poema, já conhecido de alguns amigos coevos, não foi destruído - para nossa felicidade e fortuna literária. Sem a epopeia virgiliana, não haveria Orlando Furioso, O Paraíso Perdido, Os Lusíadas, dentre outros grandes clássicos da literatura mundial.

Ambição de Virgílio[editar | editar código-fonte]

Virgílio, ao escrever esta epopeia, inspirou-se em Homero, tentando superá-lo: Virgílio empenhou-se em fazer da Eneida o poema mais perfeito de todos os tempos. De certa forma, a primeira metade (seis primeiros cantos) da Eneida tenta superar a Odisseia, enquanto a segunda tenta superar a Ilíada. A primeira metade é um poema de viagem e a segunda um poema bélico.

Dramatis personæ[editar | editar código-fonte]

Há dois tipos de personagens na Eneida: os "humanos" e os "deuses". Há uma espécie de terceira entidade que é a do Fatum (Fado, destino) que nem os deuses podem obliterar.

Humanos[editar | editar código-fonte]

Eneias ferido por una flecha, curado pelo médico Iapige, com o filho Ascânio e assistido por Vênus, pintura em parede, século I a.C.,Pompeia, atualmente no Museu Arqueológico Nacional de Nápoles

A Eneida tem doze capítulos - a metade do número de capítulos da Odisseia.

Deuses[editar | editar código-fonte]

  • Apolo, deus do Sol
  • Éolo, deus dos ventos
  • Juno, mulher de Júpiter, opositor de Eneias
  • Júpiter, o rei dos deuses
  • Mercúrio, o deus mensageiro
  • Neptuno , deus dos mares
  • Vénus, deusa do amor e da beleza, coadjuvante de Eneias

Nota: É de bom grado utilizar a terminologia latina (romana) para falar da Eneida, já que se trata de um poema romano.

Tempo da diegese[editar | editar código-fonte]

O tempo da diegese, ou seja, dos acontecimentos narrados, ocorre imediatamente após a queda da cidade de Troia, portanto a Eneida dá continuidade à Ilíada de Homero. Se a Odisseia narra as aventuras de um grego, de Ulisses (ou Odisseus), que tenta voltar para a sua casa e para a sua família, a Eneida narra as aventuras de um troiano que, depois da destruição de Troia, foge com a sua família. A sua fuga dá-se por mar. Eneias procura um sítio para fundar uma nova cidade.

Tempo do discurso[editar | editar código-fonte]

Quando o texto começa, a aventura de Eneias já se iniciou (a narrativa começa in media res, isto é, a meio da acção). O herói naufraga ao largo de Cartago (a actual Tunes) e vai ter com a rainha Dido. Conta-lhe as suas viagens até ao momento em que se encontra. Esse é um processo de analepse (em inglês, flashback). A partir do quarto capítulo, o tempo da diegese é contemporâneo ao da narração do poema, ou seja os acontecimentos são narrados como se estivessem acontecendo no presente.

Capítulos ou cantos[editar | editar código-fonte]

Gtk-paste.svg Aviso: Este artigo ou se(c)ção contém revelações sobre o enredo.

I - Eneias naufraga ao largo de Cartago[editar | editar código-fonte]

Depois de partir da Sicília, Eneias é arrastado por uma tempestade que o faz naufragar. Eneias observa a cidade. Ele que vem de Troia que fora totalmente arrasada e que tem por missão fundar uma nova cidade. É recebido por Dido, rainha de Cartago. Comove-se ao ver os afrescos nas paredes que narram a guerra de Troia. Dido começa a apaixonar-se por Eneias.

II- Eneias narra a Dido o último dia de Troia[editar | editar código-fonte]

Dido solicita a Eneias que lhe relate a queda da lendária cidade de Troia. Ele conta o célebre episódio do Cavalo de Troia. E conta como se deu a batalha durante a noite. Como o incêndio começou a devorar a cidade. No desespero Eneias decide lutar até morrer. Vênus, sua mãe, aparece e lhe diz: "vai procurar o teu pai, a tua mulher e teu filho e abandona a cidade".

A cidade é tomada pelos gregos. Eneias procura sua mulher, Creusa, gritando pelas ruas à sua procura. Encontra o espectro dela. Com muita ternura o fantasma de Creusa diz-lhe uma profecia: "que ele irá ter muitos infortúnios mas acabará por conseguir fundar uma nova cidade".

Eneias consegue fugir com o seu pai às cavalitas e com o seu filho pela mão.

III- Eneias narra a Dido as suas viagens rumo à Itália[editar | editar código-fonte]

Eneias continua a contar a Dido as suas peripécias para chegar à península Itálica, até aportar em Cartago temporária e acidentalmente. Conta a sua escala na Trácia e em Creta. A chegada a Épiro e à Sicília. Conta também seu encontro com Andrômaca (viúva de Heitor) e como faleceu o seu pai Anquises.

IV- Os amores de Dido e seu fim trágico[editar | editar código-fonte]

A rainha Dido, segundo a Eneida de Virgílio, após ouvir a narração do fim de Troia e das viagens e peripécias de Eneias, influenciada por Vênus, deusa do amor e mãe de Eneias, vê-se completamente apaixonada pelo herói. Ela convida os troianos (Eneias e seus companheiros) para uma caçada. No meio de uma tempestade, abrigados em uma caverna, Dido e Eneias se amam. Entretanto Júpiter envia Mercúrio a Eneias para lhe lembrar que seu destino é encontrar o Lácio e fundar uma nova cidade que substitua a cidade de Troia destruída e que governe as demais cidades do mundo. Eneias tenta sair de Cartago sem que Dido se aperceba. Sentindo-se abandonada, enganada e vilipendiada, furiosa e ensandecidada pelo amor não retribuído, ela se suicida enquanto partem os navios troianos e Eneias ainda pôde ver a fumaça da pira funérea saindo de seu palácio.

V- Os jogos fúnebres[editar | editar código-fonte]

Eneias aporta à Sicília e decide realizar jogos fúnebres em honra de seu pai Anquises. Já se passou um ano desde que este morreu.

(Este capítulo é importante para quem estuda a antropologia dos romanos porque dá indicações de como eles se relacionavam com a morte.)

VI- Descida de Eneias ao Mundo dos Mortos[editar | editar código-fonte]

Eneias e a sibila de Cumas, por William Turner.

Este é um dos episódios mais famosos da Eneida. Depois de Eneias ter partido da Sicília fez escala em Cumas. Nesse local consulta uma sacerdotisa (uma sibila - Antes o termo era empregado como nome próprio e com o tempo passou a ser usado como comum para todas aquelas que servissem a um deus) de Apolo. Ele tem um desejo intenso (em sonhos seu pai o havia conclamado a fazê-lo) de falar uma última vez com seu pai para lhe pedir conselho sobre a viagem. Obtém permissão de descer ao mundo dos mortos (este episódio faz lembrar outras descidas famosas ao mundo dos mortos: o episódio de Orfeu e Eurídice, a nekya de Odisseu, no canto XI da Odisseia. No mundo dos mortos vê vários espectros. Um deles o de Dido que, ladeada por seu primeiro esposo, não lhe responde.

O seu pai Anquises dá-lhe importantes informações sobre a sua viagem e faz uma longa profecia sobre o futuro glorioso de Roma.

VII- Chegada ao Lácio[editar | editar código-fonte]

(Latium (Lácio), província romana onde Roma se situará)

Latino, rei do Lácio, recebe Eneias e oferece-lhe a mão de sua filha única, Lavínia, herdeira do trono. Turno, que estava apaixonado por ela, opõe-se.

VIII- Evandro. Descrição do escudo de Eneias[editar | editar código-fonte]

O canto VIII começa com o rio Tibre a falar com Eneias, que lhe diz que deverá fazer aliança com Evandro e o seu povo. Eneias e os troianos são recebidos por Evandro com um banquete de consagração a Hércules, Evandro conta a história do monstro Caco. Evandro leva Eneias a uma visita guiada, mostrando-lhe a cidade. Vénus suplica armas a Vulcano, seu marido. Vulcano forja então o escudo de Eneias (remetendo-nos para o episódio do escudo de Aquiles, da Ilíada de Homero). Um relâmpago dá o sinal das armas de Eneias. Palante, filho de Evandro vai então para a guerra com Eneias. Evandro suplica aos deuses que não permitam que o seu filho morra. Vénus leva as armas a Eneias. É-nos dada a descrição do escudo de Eneias, e o troiano aparece como vencedor da batalha de Áccio.

IX- Ataque ao acampamento troiano[editar | editar código-fonte]

X- Façanhas e morte de Palante[editar | editar código-fonte]

Júpiter convoca um concílio dos deuses. Aquando do retorno de Eneias, há uma batalha sangrenta. Turno mata Palante.

XI- Funerais dos guerreiros. Façanhas de Camila[editar | editar código-fonte]

XII- Combate de Eneias e de Turno. Vitória de Eneias[editar | editar código-fonte]

Turno desafia Eneias para um combate singular. Os termos são aceites, mas Juturna provoca um tumulto entre os latinos, e Eneias é ferido. Vénus o cura de forma milagrosa, e Turno é forçado a duelar; o poema conclui com a morte deste.

Simbologias da Eneida[editar | editar código-fonte]

Eneias na corte de Latino, óleo em tela de Ferdinando Bol, 1661-1663 ca, Rijksmuseum, em Amsterdam

A Eneida simboliza o poder do Império Romano, sob o comando de Augusto.

Dido simboliza o poder de Cartago, rival de Roma, que seria por esta destruída na Terceira Guerra Púnica. Dido também simboliza Cleópatra, rainha do Egipto, que se tinha aliado a um general romano, Marco António, para resistir a Roma. Marco António e Cleópatra foram derrotados na batalha de Áccio, ao largo do delta do Nilo e o Egito transformado em província romana. Dido simboliza assim a mulher misteriosa e sedutora do Oriente, que resiste ao poder romano mas que por ele é submetida. Por metonímia simboliza todo o Médio Oriente e Norte de África, que foram as últimas terras a serem conquistadas pelo Império Romano.

Turno simboliza os antecedentes latinos da "raça" romana, enquanto Eneias simboliza os antecedentes troianos (que são ficcionais). Eneias é uma personagem que permite dar a Roma uma ascendência mítica, juntando-se assim ao mito da fundação de Roma por Rómulo e Remo.

Repercussões literárias da Eneida[editar | editar código-fonte]

Dante Alighieri, no seu famoso episódio da descida aos infernos, é levado pela mão de Virgílio para ver os mesmos.

Luís de Camões inspira-se directamente neste grande épico romano para escrever os seus Os Lusíadas.

A CAPCOM inspira-se no autor para criar a personagem Vergil do jogo, "DEVIL MAY CRY". E posteriormente em 2012 no jogo Resident Evil Revelations pode-se encontrar várias referência ao livro, além de citações diretas e ainda é possível ver um dos personagens a ler o livro.

Traduções[editar | editar código-fonte]

Outros projetos Wikimedia também contêm material sobre este tema:
Wikisource Textos originais no Wikisource
Commons Imagens e media no Commons

Há algumas traduções da Eneida para a língua portuguesa, feitas do latim. Em verso, citam-se a "Eneida Portuguesa", de João Franco Barreto, em oitava-rima, do século XVII, e a "Eneida Brasileira", de Manuel Odorico Mendes, do século XIX, que utilizou o decassílabo branco; além destas, há a tradução de Carlos Alberto da Costa Nunes, do século XX, que utilizou o verso de dezesseis sílabas poéticas para verter o hexâmetro dactílico épico; e a portuguesa de José Victorino Barreto Feio e José Maria da Costa e Silva, do século XIX, em decassílabos. Em prosa, publicaram-se as traduções de Tassilo Orpheu Spalding, Jaime Bruna e David Jardim Jr.

Referências

  1. a b c d GLEESON-WHITE, Jane. 50 Clássicos: que não podem faltar na sua biblioteca. 1. ed. Campinas: Verus, 2009. 276 pp. 1 vols. vol. 1. ISBN 978-85-7686-061-7.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • BARRETO, João Franco. Eneida Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1981.
  • VIRGÍLIO. A Eneida. Trad. por João Felix Pereira. Lisboa : Typ. Bibliotheca Universal, 1879.
  • VIRGÍLIO. Eneida Brazileira. Trad. Odorico mendes. Paris: Typ. de Rignoux, 1854.
  • VIRGÍLIO. Eneida. Trad. Carlos Aberto Nunes. Brasília: UnB, 1975;
  • VIRGÍLIO. Eneida. Trad. José Victorino Barreto Feio e José Maria da Costa e Silva. São Paulo: Martins Fontes, 2004
  • VERGÌLIO, Eneida. Trad. Luis Cerqueira, Ana Alexandra Alves de Sousa, Cristina Abranches Guerreiro. Lisboa, Bertrand Editora, 2011.

Bibliografia Crítica[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]