Enteógeno

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Ritual com peiote documentado por Edward S. Curtis, 1927, entre índios de Oklahoma

Enteógeno (também chamado enteogênico (português brasileiro) ou enteogénico (português europeu)) é o estado xamânico ou de êxtase induzida pela ingestão de substâncias alteradoras da consciência. É um neologismo que vem do inglês: entheogen ou entheogenic, tendo sido proposto em 1973 por investigadores, dentre os quais se pode citar Gordon Wasson (1898-1986). Segundo Roberts [1] foi incluído no Oxford English Dictionary na lista de novas palavras desde setembro de 2007, significando uma substância química, normalmente de origem vegetal, que é ingerido para produzir um estado de consciência não-ordinária para fins religiosos ou espirituais.

A palavra enteógeno, que significa literalmente "manifestação interior do divino", deriva de uma palavra grega obsoleta, da mesma raiz da palavra "entusiasmo", que refere à comunhão religiosa sob efeito de substâncias visionárias ou à ataques de profecia, e paixão erótica. Entretanto este termo foi proposto como uma forma elegante de nomear estas substâncias, sem tachar pejorativamente costumes de outras culturas (ver Medicina indígena).

O uso de plantas (ou fungos) para alteração da consciência e percepção é uma realidade mundial e milenar. Até mesmo animais usam plantas com atividade psicotrópica, como é o caso de javalis e primatas que cavam para conseguir as raízes do poderoso iboga. Esses seres, são considerados pelos usuários, como seres divinos e professores espirituais. Entre as plantas, alguns dos enteógenos mais conhecidos são Ayahuasca, Jurema, Cânabis, Yopo, Peiote, Ololiuqui. Entre os fungos, Psilocybe, Amanita. [2]

Morning Glory ou Glória da Manhã o Ololiuhqui dos Astecas

Observe-se que incluem nessa relação plantas com substâncias que possuem efeitos farmacológicos distintos . A Cannabis (Cannabis sativa) por exemplo com suas múltiplas formas de preparação Bangue (Bhang), Haxixe, etc. se enquadra nessa categoria por seu uso étnico (religioso - medicinal) em algumas culturas da Índia, da Jamaica e de algumas tribos africanas, mas é considerada por alguns como um sedativo euforizante, ou seja um psicotrópico com efeito depressor no sistema nervoso com propriedades diferenciadas deste grupo dos tranquilizantes, análogas talvez às que explicam as diferenças entre dois elementos ativos extraídos do ópio, a Heroína e Morfina. [3] , [4]

Enteógeno x alucinógeno[editar | editar código-fonte]

A farmacologia ainda não chegou a acordo sobre o termo para descrever as suas ações farmacológicas, assim o termo alucinógeno continua sendo a designação predominante entre os cientistas mais tradicionais, apesar da maioria das substâncias não provocar alucinações no sentido clínico. O termo psicodélico continua muito utilizado por cientistas de gerações mais recentes, em geral referindo-se apenas a substâncias cujos efeitos são semelhantes aos do LSD ou da mescalina.

Alguns autores não consideram que a expressão enteogénico seja um mero sinônimo de psicodélico, já que nem todas as substâncias usadas num contexto sagrado provocam alucinações, e para diferenciar do uso de alucinógeno com finalidade lúdica. Os estados de comunhão com a divindade são característicos do uso tradicional de substâncias visionárias, não seria igualmente alcançado com o uso de substâncias sintéticas (LSD, MDMA, etc) para fins recreacionais ou de prazer farmacológico. A distinção se apoia no contexto em que seu uso é feito. Se for dentro de uma realidade religiosa, sagrada e tradicional a substância é considerada enteogénica. Se for num contexto recreativo e associado à moderna cultura pop ela é considerada psicodélicas. [carece de fontes?]

Por outro lado o sentido do termo psicodélico como associado a utilização individual e lúdica foi uma consequência do uso descontrolado a partir do movimento hippie mas iniciou-se com sérias pesquisas etnofarmacológicas e bioquímicas, mais especificamente na área da psicoterapia, associadas a descoberta do LSD.

A proibição moral de algumas substâncias de uso recreativo como lícitas e outras como ilícitas não se relacionam necessariamente como o potencial de dano e efeito colateral ou potencial de causar dependência química das mesmas. Alguns autores associam essa preocupação à denominada invasão farmacêutica, ou aumento explosivo da produção e consumo de novos fármacos ocorrida ao longo de todo o século XX e/ou ao etnocentrismo e combate à culturas pagãs do período colonial. Os legisladores estão atentos para esse fenômeno diante dos efeitos sociais nefastos do Narcotráfico, mas essa é outra área cerceada por múltiplos interesses e aonde também não se possui um saber esclarecedor. [5] , [6]

Referências

  1. ROBERTS, Thomas B. The New Religious Era - From the 500-year Blizzard of Words to Personal Sacred Experiences. forthcoming 2014 in: Harold J. Ellens (editor) Seeking the Sacred With Psychoactive Substances: Paths to Self and God. Praeger/ABC-CLIO, Westport, CT. Academia.edu Jul. 2014
  2. *ANTOS, RAFAEL G. DOS; Aspectos culturais e simbólicos do uso de enteógenos; NEIP
  3. *GREEN, JONATHON. Cannabis. Barcelona, RBA - integral, 2003
  4. GOTH, ANDRES. Farmacologia médica. RJ, Guanabara Koogan, 1975
  5. CARNEIRO, HENRIQUE. Filtros, mezinhas e triacas, as drogas no mundo moderno. SP, Xamã, 1994
  6. VARGAS, EDUARDO. V. Fármacos e outros objetos sócio-técnicos: notas para uma genealogia das drogas, in: LABATE, BEATRIZ C....(et al.) (orgs.) Drogas e cultura: novas perspectivas. Salvador, EDUFBA, 2008 PDF Jul. 2014

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]