Escracho

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Escracho é o nome dado no Rio da Prata, principalmente em Buenos Aires e Montevideo, a um tipo de Manifestação em que um grupo de ativistas se dirigem ao domicílio ou ao lugar de trabalho de alguém a quem se quer denunciar. Tem como finalidade que as denúncias se façam conhecidas pela opinião pública, mas em algumas ocasiões também é utilizada como forma de intimidação e perseguição pública, para o qual se realizam diversas atividades, geralmente violentas. No Chile estas ações são conhecidas como funa.

Cartaz aludindo ao "escracho" do denunciado como ex-médico legista do Regime Militar no Brasil, Harry Shibata

Índice

[editar] Conceito

A Academia Argentina de Letras descreve "escracho" em seu Dicionário da Fala dos Argentinos como uma "denúncia popular contra pessoas acusadas de violação aos direitos humanos ou de corrupção, que se realiza mediante atos como sentar, cantar e pintar em frente à residência dos denunciados ou em lugares públicos".1

A palavra é utilizada desde 1995 pelo coletivo de direitos humanos H.I.J.O.S. (Hijos por la Identidad y Justicia contra el Olvido y el Silencio. Em Português: Filhos pela Identidade e Justiça, contra o Esquecimento e o Silêncio), quando processados por delitos cometidos em nome da Ditadura Militar Argentina (Processo de Reorganização Nacional) haviam sido postos em liberdade pelo perdão concedido por Carlos Menem para denominar as manifestações realizadas nas imediações do lugar onde vivia o considerado genocida, e mediante cantos, músicas, pinturas, representações teatrais, se avisava a população vizinha que viviam próximos a um criminoso. No entanto, esse tipo de ação política não se limita a essa classe de fatos, podendo também ser realizada em outros casos referidos à delitos comuns, como homicídio, estupro, etc.

[editar] Origem do vocábulo

Escracho do suspeito de cúmplice da ditadura, David dos Santos Araújo, denunciado como torturador da presidenta Dilma Rousseff, na década de 70.

Do lunfardismo, "escracho" é um verbete antigo e era mencionado por Benigno B. Lugones em 1879 referindo-se à fraude que se comete mostrando à pessoa que se quer enganar um bilhete de loteria e um extrato em que o mesmo aparece premiado, procurando assim que a pessoa aceite recebê-lo pagando um valor menor ao qual supostamente vá receber com o prêmio. 2 Também possivelmente do genovês "scraccé", como sinônimo de fotografia, especialmente retrato do rosto.

Desta segunda opção passou a significar cara, e especialmente, cara feia. Daí deriva o verbo escrachar com significado de retratar e, mais recentemente, de quebrar a cara.

[editar] Modalidades

  • Teatro de rua.
  • Pixações com aerossol em frente ao domicílio.
  • Jogar ovos em frente à residência.
  • Colocar cartazes e faixas em ruas próximas ao domicílio.
  • Churrasco em frente ao domicílio.
  • Manifestação pública em frente ao domicílio ou lugar de trabalho.

[editar] Fundamentos

O grupo “H.I.J.O.S.” prega que o escracho seja utilizado como método de participação social quando há um contexto de impunidade, onde não há a possibilidade de uma condenação judicial de pessoas que tenham sido culpadas por delitos de lesa humanidade. Assim, “se ordena um escracho para dar resposta quando não há justiça.”. O grupo “HIJOS” criou o lema “Se não há justiça há escrache”. Além disso, determinaram que o mais importante a respeito dos escraches era a condenação social dos militares, razão dos trabalhos prévios nas vizinhanças das residências a escrachar, dando a conhecer informações sobre o escrachado.

[editar] Críticas

Os escrachos receberam críticas de distintos setores.

O jornalista antiperonista Rogelio Alanis disse o seguinte à respeito do escracho:

Es la versión politizada de la patota. La patota y el patotero son dos versiones canallas de la vida cotidiana. El escrache es lo mismo que la patota con la sutil diferencia de que los patoteros en este caso se justifican invocando una razón política. El patotero y el escrachador no son diferentes en lo que importa, es decir en el ejercicio de la violencia alevosa y cobarde. Lo que distingue a uno de otro es la retórica disfrazada de ideología (...) Sin dudas, desde cualquier punto de vista, la actitud cobarde de juntar fuerzas para insultar a alguien en situación de vulnerabilidad, en su hogar, debe ser repudiada (...) El patotero supone que sus acciones no tienen nada que ver con la política; el escrachador se justifica a sí mismo invocando argumentos políticos que transformarían un acto cobarde y miserable en una causa justa. Desde el punto de vista estrictamente político, el escrachador es más peligroso que el patotero porque uno viola el Código Penal mientras el otro viola la convivencia social.

O escracho, segundo o jornalista Fabricio Moschettoni, independentemente de seu propósito, é uma metodologia própria do fascismo que nada tem a ver com a democracia. Seria um método de um autoritarismo atroz, repleto de violência, agregando que esta metodologia era própria dos piores regimes totalitários, que escrachavam as suas vítimas, as marcavam para denegri-las e atormentá-las. Na história mais recente manifestações muito parecidas com os escrachos foram utilizados na Espanha, durante a Guerra Civil e a ditadura de Franco. Ali os fascistas marcavam os republicanos. Também na plena época do nazismo, onde se escrachavam primeiro os judeus e com o correr do tempo se generalizou a homossexuais, ciganos, lésbicas, mendigos, e outros integrantes da sociedade “rejeitados” pelos seguidores do ditador. Existe importante literatura sobre a condição do autoritarismo expresso no sentido de escrachar,segundo o jornalismo, onde os escrachadores gozam do seu poder de fogo contra as vitímas.

O diário "La Gazeta de Tucumán" ao se referir sobre a ação realizada contra o deputado nacional argentino Alejandro Rossi, disse que “o clima de democracia que nos orgulhamos de viver presupõe a livre expressão do mais amplo leque de opiniões, e a manutenção, a todo momento, do respeito as discórdias. É uma condição suprema da vida republicana e que a diferencia dos sistemas autoritários". O periódico agrega, no entanto, que os escrachos são atitudes absolutamente repudiantes dentro de um regime de democracia, pelo perigo intrínseco que contém, já que ninguém é capaz de prever os extremos que poderiam alcançar atos agressivos desenvolvidos pelos grupos responsáveis pelos escrachos. E diz em seguida "Em uma nação civilizada todo cidadão pode exercer seu direito ao protesto, frente a situações ou mediadas que considere lesivas ao seu interesse ou a seus ideais. Adverte-se que tal direito seja exercido em plenitude, mesmo quando em ocasiões chegue a adquirir demasiada demência. A preocupação é que o protesto e o repúdio perpassem o marco constituído por normas de convivência pacífica e razoável do corpo social. Atacar e molestar as pessoas, danificar suas casas ou seus bens, é algo que não se pode admitar sob nenhum ponto de vista". Segue apontando que estas ações apelam ao lado mais primitivo e arriscado dos impulsos humanos, e significam uma depreciação tanto das pessoas como dos mecanismos em instituições da democracia que dizemos praticar. O jornal conclui, por fim, apontando para a necessidade do fim dos escracho, que seriam potenciais inimigos à vigência do clima de respeito mútuo que todo cidadão consciente e civilizado tem o dever direito de respeitar.

Para o escritor Carlos Balmaceda o escracho se pratica como se fosse uma epopeia justiceira, mas que na realidade é totalmente contrário a uma ética baseada na dignidade humana, nos direitos humanos, sendo um gesto sádico típico do autoritarismo. No escracho se destrói o desejo de justiça, dando lugar a violência exercida com prazer sobre o próximo, segundo Balmaceda. O escritor relembra que quando Hitler chegou ao poder os nazistas marcaram as casas dos judeus com a estrela de David pintada nas paredes com grafite e mais a frente nos campos de concentração aplicaram o escrache individual marcando com triângulos amarelos os judeus, rosa os homossexuais, de preto as lésbicas, prostitutas, delinquentes, indigentes, drogados e alcolátras e marrom para os ciganos. Prosegue dizendo que:

o escracho se opõe a toda ética de memória, já que utiliza o mecanismo político usado pelo poder genocida para identificar, classificar e matar milhões de pessoas.

Por isso, segundo o autor, a legitimação do escrache seria um ato de negação da história e do padecimento atroz das vítimas, ofendendo a quem acredita que os crimes de lesa a humanidade jamais prescrevem. "Não somente deveria se repudiar os genócidas, mas também aos seus métodos, estratégias e táticas. Adotar suas práticas desvirtua a essência da justiça e lesa a vigência dos direitos humanos", conclui o autor.

Jornalistas como Mariano Grondona ou Joaquim Morales Solá escreveram artigos críticos aos escrachos.

Segundo Mariano Grondona o escracho é uma agressão física que não chega a ser cruel contra aquelas pessoas as quais seus agressores procuram menosprezar simbolicamente dentro da sociedade. Em seu entendimento os escraches devem receber uma série quase unânime de condenações, principalmente por, sem a autoridade para tal, se auto-afirmarem como uma fonte de justiça direta, renegada pela democraci

Joaquim Morales Solá afirmou que o escrache é um método detestável criado há quase 70 anos pelo nazismo para identificar seus inimigos.

Jornais como o argentino La Nación, de tendência conservadora, também criticaram os escrachos, como por exemplo no seu editorial de 3 de julho de 2008. Segundo o jornal, o escrache seria um ato de violência moral contra as instituições, uma arma definitivamente não conciliável com respeito da dignidade do outro.

[editar] Estudos do escracho na escola pública

As escolas secundárias da Província argentina de Buenos Aires, na disciplina de Política e Cidadania, incluem o escracho como tema de estudo. Perguntado sobre isso o ministro de educação provincial Mario Oporto declarou a respeito de quando foi escrachado em 2001: “Prejudicaram muito a mim e a minha família. Me senti violentado e me lembro como um dos piores momentos da vida pública. Mas formam parte do meu passado, não posso negá-los” e comenta que considera o escrache como uma forma de participação política, tal como o define o programa para secundários, da mesma forma que existem formas de pressão ou de ação que incidem na política. Agregou que a sua inclusão no programa de estudos é parte da tentativa de entender a sociedade democrática em que se vive. O ministro comenta que seu estudo apenas serve como exemplo: “de que o escrache serve para amedrontar, para tirar a liberdade ou como forma de intolerância, preconceito ou discriminação, sendo um dos males da sociedade. Os alunos devem refletir e tirar conclusões para entender que os conflitos são resolvidos na justiça e não com escracho. Se não toco nesse assunto em aula é impossível chegar a essa conclusão. Quero que os pais saibam que eu sancionaria a um docente que ensine como se faz um escracho”.

No Brasil, segundo relatórios das Secretarias de Educação das diverss unidades da federação referem-se a essa prática como de "BOOLING", do inglês do Boo! de amedrontar pela força. Essa prática do chamado "Escracho Escolar", que também acontece em ensino superior como na Argentina, é combatido pelo Ministério da Educação do Brasil. Dentro das escolas, o Escracho é proibido no Brasil, sob pena de expulção.

Referências

  1. Diccionario del habla de los argentinos, página 298.
  2. Gobello, José: Lunfardía. Introducción al estudio del lenguaje porteño pág. 18 Buenos Aires 1953 Ed. Argos

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