Esther Scliar

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Esther Scliar (Porto Alegre, 28 de setembro de 1926Rio de Janeiro, 18 de março de 1978) foi uma pianista e compositora brasileira.

Data Biográfica - um paralelo entre vida e obra[editar | editar código-fonte]

1926 - Esther Scliar nasce em Porto Alegre, no dia 28 de setembro, filha de Isaac Scliar e Rosa Scliar. Passa os primeiros anos de vida em Rivera, Uruguai, mas estuda em Livramento em virtude da deportação da mãe, em 1930, por motivos políticos. No ano seguinte, sua mãe abandona a família. Esther, então com 5 anos de idade, jamais se recupera dessa perda. Devido à separação, a família Scliar muda-se em 1932 para Passo Fundo, RS, lá permanecendo até 1938. Esther e sua irmã Leonor são entregues aos cuidados de tios, Jayme Kruter e Rosa Scliar Kruter, irmã de seu pai). Na casa dos Kruter, cultiva-se muito a música.

Esther Scliar manifestara prematuramente o talento musical entoando linhas melódicas antes mesmo das palavras. Em 1934, inicia o estudo do piano com Eva (então Kruter) Kotlhar, em Passo Fundo, prosseguindo-o com Judith Pacheco. Freqüenta o Colégio Notre Dame.

Após novo casamento do pai, os Scliar se transferem em 1938 para Porto Alegre. Nessa cidade —um centro cultural— e principalmente na casa do tio Henrique Scliar — uma família que cultiva a arte — Esther e a irmã se desenvolvem. Importante também é o momento histórico vivido pelo país nas lutas contra o nazi-fascismo e, em seguida, pela Constituinte após a ditadura Getúlio Vargas. A partir de 1939, cursa o ensino secundário no Colégio Americano e Esther se destaca como melhor aluna, principalmente nas atividades culturais e extracurriculares em que freqüentemente se apresenta ao piano. Do novo casamento do pai, nasce a meia-irmã Lúbia, com quem Esther e Leonor não desenvolveriam muitas afinidades de valores. Em 1941, forma-se no Ginásio, tendo como paraninfo o escritor Érico Veríssimo.

O cultivo da música, como interesse maior, continua com os estudos no Curso Superior de Música do Instituto de Belas Artes de Porto Alegre (atual Instituto de Artes da URGS) onde é aluna, entre outros mestres, de Paulo Guedes, Enio de Freitas e Castro e Demóstenes Xavier. Em 1945, diploma-se, com láurea, em piano. Nos anos de estudo, com um grupo de músicos, entre eles Bruno Kiefer, Lea Roland e Riva Milmann, freqüenta assiduamente os concertos do Teatro São Pedro. Em 1946, ingressa no curso de Composição do mesmo instituto, e passa a lecionar piano.

Em busca de centros mais desenvolvidos, Esther se desloca para o Rio de Janeiro em 1948. a fim de estudar Contraponto, Harmonia e Composição com H. J. Koellreutter, que exercerá decisiva influência em sua formação. Por orientação de Koellreutter, Esther viaja para Veneza como bolsista do Corso Internazionale di Direzione — isto é, regência—, do XI Festival Internazionale di Musica Contemporânea, ministrado por Hermann Scherchen. Vai com um grupo de jovens músicos entre os quais, Eunice Katunda, Geny Marcondes e Sonia Born, que se tornarão amigos de Luigi Nono. Como prova final, rege Ma Mère l’Oye, de Maurice Ravel. Freqüenta o I Curso Internacional de Composição Dodecafônica, ministrado por Koellreutter, em Milão, promovido pelo II Diapason, Centro Internazionale di Musica Contemporanea. Em dezembro, participa do Congresso de Música Dodecafônica em Locarno, Suíça.

No ano seguinte, de volta ao Rio de Janeiro, prossegue o curso de Composição com Koellreutter e, em São Paulo tem, até 1950, aulas de piano com Eunice Katunda e José Kliass. Em 1950, participa do 1º Curso de Férias de Teresópolis como aluna de Composição e assistente de Koellreutter, no curso de Percepção. Compõe Ao sair da Lua para 3 vozes.

Com um estado emocional fragilizado, em profunda tristeza e melancolia, vivendo um momento de grande angústia pela incerteza do futuro diante da impossibilidade de seguir a carreira de concertista, Esther comete sua primeira tentativa de suicídio. Submete-se a um tratamento de sonoterapia em Porto Alegre.

1951 - Passa a residir em Porto Alegre com sua irmã, Leonor Scliar, permanecendo na cidade até 1956. Ministra aulas particulares de Piano, Teoria e Harmonia. É pianista da OSPA sob a regência de Pablo Komlós. Desenvolve trabalho como pianista e professora de formação musical dos bailarinos na classe da coreógrafa Tony Seitz Petzold, além de ser convidada como pianista de vários artistas em tournée na cidade de Porto Alegre. Esther é militante ativa filiada à Juventude Comunista do PCB. Entre os meses de julho e outubro, permanece na Europa, participando do Congresso Mundial da Juventude pela Paz.

1952 - É fundadora e primeira regente do Coro da Associação Juvenil Musical de Porto Alegre que, mais tarde, com Madeleine Ruffier, se transforma no Coral de Câmara da Faculdade de Filosofia da URGS. Compõe A pedrinha vai para coro a 4 vozes. Em Montevidéu, nos meses de verão, Esther estuda técnica de Regência Coral com Nilda Müller. É acometida de tuberculose. Nessa época inicia seus primeiros trabalhos em composição. Ao mesmo tempo desenvolve intensa atividade didática, dificilmente superada por outros mestres, segundo depoimento de seus alunos. É pianista da celebrada soprano Vera Janacopulos.

1953 - Compõe Vira a Moenda e Dorme-Dorme, ambas para coro a 4 vozes, apresentadas pelo Coro de Câmara da Associação Juvenil Musical de Porto Alegre, em 11 de junho de 1953, sob a regência de Esther Scliar, no 2º Festival da Juventude Farroupilha. São desse mesmo ano: Beira Mar (sobre um ponto de macumba); ''Maracatu'' Elefante (sobre uma melodia de Capiba); Papagaio louro; Flor da noite; Acalanto; Oração à manhã e Por sete mares (as cinco com versos de Geny Marcondes); ''Bumba meu boi''; Uma, duas angolinhas; Romeiro de São Francisco; Si quizieras que cantemos; La Virgen de las Mercedes; Toada de Nanã e a série No Parque, para coro infantil. Esther volta à Europa no mês de julho, permanecendo até outubro. Em Praga apresenta, sob sua regência, o Coro de Câmara da Associação Juvenil Musical de Porto Alegre.

1954 - Compõe A Esquila, para voz e piano, com poesia de Laci Osório; Novos Cantares, com poesia de García Lorca; 1ª Modinha, com poesia de Langston Hughes; 2ª Modinha, com poesia de Juan Ramón Jiménez; Eu plantei a cana; João Pestana; Boiadeiro e Duas Toadas para piano solo (obras não localizadas até o momento).

1955 - Participa, no mês de agosto, do Festival de Compositores Gaúchos com obras suas para piano solo, coro e para voz e piano.

1956 - Esther retorna ao Rio de Janeiro, onde se radica definitivamente. Desse ano até 1958, fica sob orientação de Claudio Santoro, ao mesmo tempo em que se dedica ao ensino de Teoria Musical, Percepção e Análise. Compõe Eu Fui Chamado pra Cantar no Limoeiro, sobre um tema folclórico, para 4 vozes e quinteto de cordas com piano.

1957 - Nesse ano, escreve Cantiga do Cacau para 4 vozes, sobre um motivo de plantadores. A convite de Geny Marcondes, Esther leciona na Escola da Associação dos Servidores Públicos do Rio de Janeiro até 1958, período em que escreve várias peças e operetas para Coro Infantil. Trabalha como pianista acompanhadora do Coral Pró Música do Rio de Janeiro até 1959. Esther compõe a Abertura e faz a orquestração da música de Geny Marcondes para a peça Guerras do Alecrim e da Manjerona, de Antônio José da Silva, "O Judeu", dirigida por Gianni Ratto para o Teatro República do Rio de Janeiro.

1960 - Conclui, com láurea, o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, no Rio de Janeiro. Tem aulas de Composição com Edino Krieger. Compõe a Sonata para Flauta e Piano. Orquestração de A Marcha dos Deputados (música de Geny Marcondes), para Revolução na América do Sul, documentário de Augusto Boal, para o Teatro de Arena, sob direção de José Renato.

1961 - Compõe a Sonata para Piano e recebe, com essa obra, o 1º Prêmio no Concurso Nacional de Composição do programa Música e Músicos do Brasil, promovido pela Rádio MEC.

1962 - Esther faz a direção musical do espetáculo Quatro Séculos de Maus Costumes, dirigida por Paulo Afonso Grisolli e compõe a música de cena para as duas peças teatrais que formam o espetáculo: Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, e Uma Mulher de Gravata, de Leonardo Fróes. O programa do espetáculo apresenta as palavras do diretor: "De todas as valiosas contribuições que recebemos neste espetáculo, é preciso ressaltar a de Esther Scliar, que compôs a música de Quatro Séculos de Maus Costumes." Esther Scliar continua seus trabalhos de composição sob a orientação do compositor Claudio Santoro e integra, até 1968, o Coro da Rádio MEC. Compõe O Menino Ruivo, para coro misto a capella, com poesia de Reynaldo Jardim e Desenho Leve, para 4 vozes, com poesia de Cecília Meireles. Leciona Teoria Musical, Percepção, Análise, Morfologia e Didática do Ensino Musical nos Seminários de Música Pró Arte do Rio de Janeiro, onde passa a ser coorde¬nadora das matérias teóricas, atividade que desenvolve até 1976.

1963 - Esther escreve a partitura e faz a direção musical da peça teatral As famosas Asturianas, de Augusto Boal, com direção de Yan Michalski. Sua atividade didática se desdobra nos Cursos de Férias da Pró Arte em Teresópolis e repete-se nos anos de 1964, 1966 e 1968.

1964 - Compõe Canto Menor com Final Heróico, para coro a 4 vozes, com versos de Reynaldo Jardim.

1965 - Compõe Lua, Lua, Lua, com versos de Lucia Candall; Pachamana (sobre motivo Inca) e Para Peneirar, as três para coro a 4 vozes e Entre o Ser e as Coisas, para voz e piano, com poesia de Carlos Drummond de Andrade.

1966 - Esther escreve a música do filme A Derrota, de Mário Fiorani e recebe, pela trilha sonora, o prêmio de "Melhor Música" na II Semana do Cinema Brasileiro, Brasília - DF. Escreve o Movimento de Quarteto, para quarteto de cordas.

1967 - Professora no Festival de Música de Ouro Preto e cursos intensivos em Brasília. Presidente da banca examinadora da prova para Professores de Música do Ensino Médio em Brasília. Esther é contratada para dar aulas de Teoria e Análise Musical no Instituto Villa-Lobos (atual UNI-RIO).

1968 - Júri do Concurso Universitário da Canção, Rio de Janeiro. Nesse ano Esther sofre um derrame e apesar de não apresentar seqüelas, por efeito de sensações subjetivas e uma preocupação obsessiva com o próprio estado de saúde, desenvolve uma séria hipocondria. Claudio Santoro assume então suas classes de Percepção Musical e Análise durante o segundo semestre nos Seminários de Música Pró-Arte. Após a decretação do AI-5, com outros professores, Esther é demitida do Instituto Villa-Lobos, em dezembro desse ano.

1969 - Membro do júri do Concurso Estadual de Composição em Salvador, Bahia.

1971 - Compõe Busca da Identidade entre o Homem e o Rio, para coro a 4 vozes, com poesia de José Carlos Capinam.

1973 - Júri do Concurso para Jovens Instrumentistas, promovido pela SABRARTE, Rio de Janeiro. Compõe Sentimiento del Tempo, para coro misto a 6 vozes, com poesia de Giuseppe Ungaretti e Trilha para curta-metragem (obra não localizada até o momento).

1974 - Júri do Concurso Nacional de Corais, promovido pelo Jornal do Brasil, Rio de Janeiro. Freqüenta aulas do compositor Guerra Peixe. Compõe Ofulú Lorerê ê (sobre canto de Oxalá), para coro a 4 vozes, peça finalista do 1º Concurso Nacional de Composições e Arranjos Corais, em Belo Horizonte.

1975 - Morte de seu pai, Isaac Scliar, a quem Esther é muito ligada. É convidada por Aylton Escobar para integrar o corpo docente da Escola de Música Villa-Lobos.

1976 - Compõe a Imbricata, para flauta, oboé e piano; o Estudo nº 1 para violão; Praia do Fim do Mundo, com poesia de Cecília Meireles e Toada de Gabinete (sobre motivo dos violeiros da Paraíba), ambas para coro a 3 vozes iguais, compostas sob encomenda da Rádio e Jornal do Brasil para o V Concurso de Corais, Rio de Janeiro.

1977 - Compõe Intermorfose, obra apresentada no I Primeiro Panorama de Música Brasileira. Participa da II Bienal de Música Brasileira Contemporânea, Rio de Janeiro.

1978 - Em janeiro, Esther ministra aulas no 7º Curso Latino-Americano de Música Contemporânea, em São João del-Rei, MG. Compõe Invenção a Duas Vozes, para sax alto e soprano (obra inacabada). No dia 18 de março, no Rio de Janeiro, Esther Scliar, aos 51 anos, comete suicídio, pondo fim à vida de forma trágica e prematura.

Obra[editar | editar código-fonte]

Composições[editar | editar código-fonte]

1950

Ao sair da Lua – peça para coro a 3 vozes.

1952

A pedrinha vai – peça para coro a 4 vozes.

1953

Vira a Moenda – peça para coro a 4 vozes.

Dorme-Dorme – peça para coro a 4 vozes.

Beira Mar (sobre um ponto de macumba)

Maracatu Elefante (sobre uma melodia de Capiba)

Papagaio louro (versos de Geny Marcondes)

Flor da noite (versos de Geny Marcondes)

Acalanto (versos de Geny Marcondes)

Oração à manhã (versos de Geny Marcondes)

Por sete mares (versos de Geny Marcondes)

Bumba meu boi

Uma, duas angolinhas

Romeiro de São Francisco

Si quizieras que cantemos

La Virgen de las Mercedes

Toada de Nanã

No Parque - série para coro infantil.

1954

A Esquila - para voz e piano - poesia de Laci Osório

Novos Cantares - com poesia de García Lorca

1ª Modinha - com poesia de Langston Hughes

2ª Modinha - com poesia de Juan Ramón Jiménez

Eu plantei a cana

João Pestana

Boiadeiro

Duas Toadas para piano solo

1956

Eu Fui Chamado pra Cantar no Limoeiro – peça sobre um tema folclórico, para 4 vozes e quinteto de cordas com piano.

1957

Cantiga do Cacau – peça para coro a 4 vozes, sobre um motivo de plantadores.

Abertura.

1960

Sonata para Flauta e Piano.

Orquestração de A Marcha dos Deputados (música de Geny Marcondes), para Revolução na América do Sul, documentário de Augusto Boal.

1961

Sonata para Piano

1962

Direção musical do espetáculo Quatro Séculos de Maus Costumes, dirigida por Paulo Afonso Grisolli

O Menino Ruivo - peça para coro misto a capella, com poesia de Reynaldo Jardim

Desenho Leve – peça para coro a 4 vozes, com poesia de Cecília Meireles.

1963

Escreve a partitura e faz a direção musical da peça teatral As famosas Asturianas, de Augusto Boal, com direção de Yan Michalski.

1964

Canto Menor com Final Heróico - para coro a 4 vozes, com versos de Reynaldo Jardim.

1965

Lua, Lua, Lua - com versos de Lucia Candall - para coro a 4 vozes

Pachamana (sobre motivo Inca) – para coro a 4 vozes

Para Peneirar, - para coro a 4 vozes

Entre o Ser e as Coisas - para voz e piano, com poesia de Carlos Drummond de Andrade.

1966

Escreve a música do filme A Derrota, de Mário Fiorani

Movimento de Quarteto - para quarteto de cordas.

1971

Busca da Identidade entre o Homem e o Rio - para coro a 4 vozes, com poesia de José Carlos Capinam.

1973

Sentimiento del Tempo - para coro misto a 6 vozes, com poesia de Giuseppe Ungaretti

Trilha para curta-metragem.

1974

Ofulú Lorerê ê (sobre canto de Oxalá) - para coro a 4 vozes

1976

Imbricata - para flauta, oboé e piano

Estudo nº 1 para violão

Praia do Fim do Mundo, com poesia de Cecília Meireles - para coro a 3 vozes

Toada de Gabinete (sobre motivo dos violeiros da Paraíba) - para coro a 3 vozes iguais

1977

Intermorfose

1978

Invenção a Duas Vozes - para sax alto e soprano (obra inacabada).

Livros[editar | editar código-fonte]

  • Fraseologia Musical - publicação póstuma (1982) - Ed. Movimento
  • Elementos de Teoria Musical - publicação póstuma (1985) - Ed. Novas Metas
  • Análise de Density 21,5 de Varèse - publicação póstuma (1985) - Ed. Athanor
  • Solfejos Gradativos - Ed. Goldberg

Esther Scliar também escreveu obras sobre forma musical, didática para o ensino da música (proposta original) e monumentais análises compreendendo desde a Arte da Fuga de Bach até a música contemporânea, as quais ainda não foram publicadas.

Alunos[editar | editar código-fonte]

Entre aos alunos de Esther que se destacaram no meio artístico estiveram os músicos Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Paulo Moura, Luiz Eça, Helcio Milito, Egberto Gismonti, Vania Dantas Leite, Paulo Dorfman, Ronaldo Miranda, Flavio de Oliveira, e Marco Antônio Araújo - guitarrista que morreu de aneurisma cerebral precocemente aos 36 anos e dedicou a ela uma de suas obras.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • 2002 Maria Aparecida Gomes Machado (Aída Machado) Dissertação de Mestrado 2002 / USP / "Esther Scliar: um olhar perceptivo"
  • Machado, Aída: Esther Scliar - ecos de uma vida, em: Revista Brasiliana nº 24 - Dezembro 2006

Ligações externas[editar | editar código-fonte]