Estrada Real

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Ponte da Caveira próxima a entrada de Lavras Novas distrito de Ouro Preto - Minas Gerais.

Estrada Real era o nome alusivo a qualquer via terrestre que, à época do Brasil Colônia, era percorrida no processo de povoamento e exploração econômica de seus recursos, em articulação com o mercado internacional.

Historiografia[editar | editar código-fonte]

Dentro de uma visão historiográfica tradicional em História do Brasil, o conceito de Estrada Real pressupõe:

  • natureza oficial;
  • exclusividade de utilização;
  • vínculo com a mineração.

Nesta perspectiva, a designação "Estrada Real" reflete o fato de que era esse o caminho oficial, único autorizado para a circulação de pessoas e mercadorias. A abertura ou utilização de outras vias constituía crime de lesa-majestade, encontrando-se aí a origem da expressão descaminho com o significado de contrabando.

Por outro lado, uma moderna visão admite:

  • natureza tradicional e uma referência de bons caminhos;
  • utilização geral, universal, pública;
  • vínculo com outras atividades, como o comércio e a pecuária;
  • existências anteriores e/ou posteriores à mineração;
  • desvinculados das zonas mineradoras.

Em defesa desta última, considere-se que as Ordenações do Reino, também observadas na Colônia, estabeleciam como direitos reais ou regalias, entre outros, as vias públicas, os rios e os vieiros, e as minas de ouro e prata ou qualquer outro metal.

Os caminhos das Minas Gerais[editar | editar código-fonte]

Tropa na cidade de Pouso Alto, em Minas Gerais, no Brasil.

Entre os séculos XVII e XIX um conjunto de vias terrestres – muitas delas simples reapropriações de antigas trilhas indígenas (peabirus) – aproximou diferentes regiões do território brasileiro.

Caminho da Bahia[editar | editar código-fonte]

O chamado Caminho da Bahia ou Caminho dos Currais do Sertão e suas variantes, ligando a Capitania da Bahia às Minas.

Caminho do Rio de Janeiro[editar | editar código-fonte]

O chamado Caminho do Rio de Janeiro (depois chamado de Caminho Velho do Rio de Janeiro e atualmente de Estrada Real) e suas variantes, ligando a Capitania do Rio de Janeiro às Minas.

Caminho dos Diamantes[editar | editar código-fonte]

Posteriormente, com a descoberta de diamantes no Serro, entre 1725 e 1735, um novo caminho foi aberto, o chamado Caminho dos Diamantes, aos quais se uniriam a picada de Goiás e a do Mato Grosso, quando da descoberta de minerais nestas últimas regiões.

Entre os gêneros transportados registram-se:

  • gado bovino em pé, dos currais do sertão entre a Capitania das Minas e a da Bahia;
  • produtos de luxo e escravos, dos portos de Salvador (Bahia) e do Rio de Janeiro;
  • cavalgaduras da Capitania de Pernambuco.

Os caminhos de São Paulo[editar | editar código-fonte]

Na segunda metade do século XVII, diante da crise econômica da agromanufatura açucareira suscitada na Colônia a partir da expulsão dos Holandeses (1654), tornou-se imperioso identificar novas fontes de recursos. Desse modo, uma nova leva de expedições partiu da vila de São Paulo em direção ao interior. Essas expedições ficaram conhecidas como bandeiras e os seus empreendedores como bandeirantes. Os paulistas, mestiços de Portugueses com indígenas, tinham o conhecimento, não apenas dos milenares caminhos dos nativos (peabirus), como também das suas técnicas de sobrevivência nos sertões.

Bandeiras[editar | editar código-fonte]

O chamado Caminho dos Paulistas ou Caminho Geral do Sertão, ligando a Capitania de São Paulo às Minas.

Algumas dessas bandeiras, percorrendo a chamada trilha dos Guaianases, a partir do vale do rio Paraíba do Sul, através da passagem da Garganta do Embaú, na Serra da Mantiqueira, dirigiram-se para o sertão posteriormente denominado de Minas Gerais. Com a descoberta de ouro de aluvião, ao final desse século, intensificou-se o trânsito de pessoas, animais e gêneros entre o litoral e a região, definindo-se diversas vias, as principais das quais são referidas por Antonil (Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas. Lisboa, 1711):

A principal estrada aberta durante o período aurífero foi o Caminho de Goiás, ligando São Paulo à região das minas. Posteriormente, no final do século XVIII, foi aberto um novo caminho, o Picadão de Cuiabá, partindo de São Paulo, passando por Sorocaba, Itu, Piracicaba, Rio Claro e os sertões de Araraquara.[1]

Os caminhos do Rio de Janeiro[editar | editar código-fonte]

Os caminhos do Rio de Janeiro formavam uma rede de caminhos popularmente conhecida como Estrada Real. As suas principais variantes foram:

Caminho Velho[editar | editar código-fonte]

Caminho Velho, que ia de Paraty a Vila Rica (atual Ouro Preto). A partir da descoberta de ouro na região das Minas Gerais em fins do século XVII, este caminho transformou-se na rota preferida para atingir-se a região das Minas Gerais, assim como para o escoamento de ouro, que era transportado por mar de Paraty para o Rio de Janeiro, de onde embarcava para Portugal. Esta via estendia-se por mais de 1.200 quilômetros, percorridos em cerca de 95 dias de viagem.

Caminho Novo[editar | editar código-fonte]

Caminho Novo que ia do fundo da baía de Guanabara até encontrar o Caminho Velho em Ouro Branco, então arraial de Vila Rica, atual Ouro Preto. Foi aberto por Garcia Rodrigues Pais em 1707 como alternativa ao Caminho Velho para evitar a rota marítima entre Paraty e o Rio de Janeiro. Iniciava-se em portos do rio Iguaçu ou do rio Pilar, como Piedade do Iguaçu, hoje Iguaçu Velho em Nova Iguaçu, ou Pilar do Iguaçu, hoje um bairro de Duque de Caxias. Seguia dos portos fluviais até a vila de Xerém, passava pela atual Reserva Biológica do Tinguá, pela extinta freguesia, arraial e igreja de Santana das Palmeiras, subia a serra até Paty do Alferes e, dali, descia em direção a Paraíba do Sul onde cruzava o rio do mesmo nome. Daí seguia até Ouro Branco. Esse foi o caminho utilizado para escoamento do café do Vale do Paraíba, por tropas. Esse caminho foi calçado por Conrado Jacob Niemeyer, calçamento que persiste em excelente estado de conservação no interior da Reserva Biológica do Tinguá (nos municípios atuais de Nova Iguaçu e Miguel Pereira).

Caminho do Proença[editar | editar código-fonte]

Caminho do Proença, uma variante do Caminho Novo. que passava pela atual cidade de Petrópolis e por Santana de Cebolas (ou Sebollas), atual distrito de Inconfidência em Paraíba do Sul.

Estrada Real[editar | editar código-fonte]

Estrada Geral que unia as freguesias de Santo Antônio de Jacutinga e Nossa Senhora Conceição de Mariapicú, conectando com a Estrada Real hoje na altura da atual cidade de Belford Roxo). Hoje ele se divide em duas vias distintas: a estrada Plínio Casado e a estrada Abílio Augusto de Távora, antiga Estrada do Madureira.

Controle e fiscalização[editar | editar código-fonte]

Devido ao crescente volume de riqueza explorado na região das Gerais, a Coroa Portuguesa procurou garantir o seu controle e fiscalização de maneira severa, instalando postos de inspeção (Registros) para arrecadar os diversos tributos sobre minerais (notadamente ouro e diamantes), mercadorias, escravos e animais (cavalos, muares, bovinos) em trânsito, instituindo mais tarde as chamadas Casas de Fundição e mantendo na região dois destacamentos de cavalaria, os chamados Dragões das Minas, além de um terceiro, no Rio de Janeiro.

A partir da abertura do Caminho Novo, tornado via oficial, foram aí concentrados os Registros, proibindo-se a utilização das demais vias, consideradas como "descaminhos" e rigorosamente punidos como tal.

A partir da segunda metade do século XVIII registrou-se o declínio da produção mineral no distrito das Minas, o que, durante o consulado pombalino, levou a uma intensificação da política fiscal e a uma insatisfação que conduziu à Inconfidência Mineira. Com a proclamação da Independência do Brasil, no início do século XIX, esses caminhos tornam-se livres, vindo a constituir, com a riqueza proporcionada pela lavoura do café, os principais eixos de urbanização da região Sudeste.

O projeto turístico "Estrada Real"[editar | editar código-fonte]

Escudo do Projeto "Estrada Real".

O Projeto Estrada Real foi formulado em 2001 pelo Instituto Estrada Real, sociedade civil, sem fins lucrativos, criada pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) com a finalidade de valorizar o patrimônio histórico-cultural, estimular o turismo, a preservação e revitalização dos entornos das antigas Estradas Reais.

Referências

  1. LIMA, Renata Priore. O processo e o (des)controle da expansão urbana de São Carlos (1857-1977) [online]. São Carlos : Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, 2007. Dissertação de Mestrado em Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo. [acesso 2014-04-23]. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/18/18142/tde-07042008-111630/>

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • ABREU, Capistrano de. Caminhos antigos e povoamento do Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
  • ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1982.
  • CHENEY, Glenn Alan. Journey on the Estrada Real: Encounters in the Mountains of Brazil. Chicago: Academy Chicago, 2004. ISBN 0-89733-530-9
  • SANTOS, Márcio. Estradas reais: introdução ao estudo dos caminhos do ouro e dos diamantes no Brasil. Belo Horizonte: Editora Estrada Real, 2001.
  • VIEIRA JÚNIOR, Wilson; SCHLEE, Andrey R.; BARBO, Lenora de Castro. "Tosi Colombina, autor do primeiro mapa da capitania de Goiás?", História e-História (revista eletrônica), < http://www.historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=128 >, 2010.
  • ROCHA JUNIOR, Deusdedith; VIEIRA JÚNIOR, Wilson; CARDOSO, Rafael Carvalho. Viagem pela Estrada Real dos Goyazes. Brasília: Paralelo 15, 2006.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]