Estudo etnográfico

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Os estudos etnográficos são uma técnica, proveniente das disciplinas de Antropologia Social, que consiste no estudo de um objecto por vivência directa da realidade onde este se insere. Estes estudos têm mostrado que o trabalho das pessoas é, normalmente, mais rico e complexo do que o descrito pelas definições dos processos e pelos modelos dos sistemas.

O principal problema da aplicação deste método é fruto da dificuldade na generalização dos resultados. É um método qualitativo que se insere na corrente filosófica do Interpretivismo.

Visão Geral[editar | editar código-fonte]

A origem[editar | editar código-fonte]

A etnografia tem origem na Antropologia Social, um dos quatro campos da Antropologia, que surgiu da necessidade de compreender as relações sócio-culturais, os comportamentos, ritos, técnicas, saberes e práticas das sociedades até então desconhecidas, e que tem vindo a ser adaptada a problemas comuns da actualidade.

Os antropólogos, normalmente, têm a tarefa de estudar culturas que são completamente diferentes das sociedades nas quais eles vivem, estudar as diferenças entre as suas experiências e costumes, assim como entender como esta funciona. Ou seja, têm o objectivo de a compreender do ponto de vista das pessoas que nela vivem.

Este estudo por observação é necessário porque parte do comportamento das pessoas é baseado em conhecimento não-falado, o conhecimento tácito. Assim, não é suficiente fazer perguntas, é necessário observar o que as pessoas fazem, as ferramentas que utilizam e como se relacionam entre si.

É importante não repetir os erros cometidos ao longo da história provenientes de incompreensões de culturas estudadas. Por exemplo, as primeiras pessoas a contactar com culturas desconhecidas, tais como comerciantes, exploradores ou missionários, por diversas vezes realizaram interpretações incorrectas sobre os povos nativos que resultaram em graves problemas, nomeadamente conflitos armados.

Por isso mesmo, actualmente os etnógrafos tentam evitar este tipo de problemas assumindo todas as conclusões iniciais como susceptíveis de incorrecções, explicitando claramente todas as suposições, examinando-as e questionando-as durante toda a investigação.

Todo o conhecimento relevante que é necessário extrair é então totalmente resultado do contacto prolongado com as pessoas no seu ambiente natural, partindo para este estudo com um planeamento mínimo.

A linguagem da cultura em questão deve também ser correctamente estudada, é necessário entender todos os termos utilizados e a forma como estes se relacionam, procurando assim evitar distorcer o seu significado.

Também a abordagem a todos os objectos e documentos utilizados pelas pessoas deve ser extremamente cuidada. É importante observar como a utilização destas ferramentas é feita para atingir os objectivos pretendidos e não apenas classifica-las com base nas suas propriedades físicas ou outras.

O método[editar | editar código-fonte]

A abordagem etnográfica e a identificação de requisitos têm muito em comum. Ambas têm o objectivo de entender uma cultura não familiar, todo o conhecimento, técnicas e práticas que a constituem, de forma a traduzi-las de maneira a que possa ser entendida e usada por outros.

Tal como o etnógrafo, o engenheiro de requisitos tem a necessidade de documentar o domínio do sistema e a sua relação com a actividade de cada pessoa envolvida no seu funcionamento.

Para que se consiga extrair o máximo de conhecimento possível das pessoas, deve-se comunicar com estas utilizando a sua própria linguagem e não uma linguagem técnica de engenharia de software que é incompreensível e intimidadora para a maioria delas.

Posteriormente, a equipa de desenvolvimento deve ser capaz de usar todos os dados obtidos para que possa desenvolver o produto realmente apropriado, correspondente com a informação recolhida, que se adapte completamente às necessidades dos utilizadores e seja perfeitamente integrado no seu ambiente.

As pesquisas que se efectuam com o objectivo de realizar estes estudos resultam numa grande quantidade de informação, através de apontamentos, gravações de áudio e vídeo e um conjunto de objectos que fazem parte das culturas, que deverá ser gerida com toda a atenção para que a sua análise e processamento não se prolongue excessivamente.

Um estudo etnográfico requer muito mais tempo do que as técnicas de identificação de requisitos mais comuns, como as entrevistas, logo todos os recursos financeiros e temporais, muitas vezes difíceis de obter, que o suportam devem ser utilizados da forma mais optimizada possível.

Os princípios[editar | editar código-fonte]

Em 1993, Blomberg argumentou que os engenheiros de software:

  • criam ferramentas para processos de trabalho dos quais pouco conhecem;
  • devem adquirir uma visão adequada do mundo e não apenas confiar nas suas próprias experiências e imaginação;
  • extrair um conhecimento completo das práticas de trabalho para explorar e consolidar a relação as tarefas e a tecnologia

Desta forma, para orientar a actividade etnográfica apresentou os seguintes quatro princípios:

  • Encontro inicial – passar algumas horas no ambiente onde os processos ocorrem para estudar as pessoas nas suas actividades diárias;
  • Holismo – crença que os comportamentos apenas podem ser entendidos no contexto em que ocorrem;
  • Descrição e não prescrição – descrever como as pessoas se comportam realmente e não como se deveriam comportar;
  • Ponto de vista dos participantes - descrever os comportamentos de forma relevante para os participantes do estudo.

Estes princípios implicam que os engenheiros de requisitos devem capturar toda a estrutura social que constitui a actividade e não devem predefinir qualquer estrutura conceptual.

O trabalho é uma actividade socialmente organizada, onde muitas vezes o comportamento real difere da forma como é descrito por quem o faz, e dessa forma é importante confiar tanto nas entrevistas quanto nas observações diárias das pessoas no próprio local de trabalho onde a tecnologia deverá ser inserida.

Directrizes[editar | editar código-fonte]

Em 1995, um grupo de autores publicaram um conjunto de directrizes com o objectivo de orientar as equipas de desenvolvimento a realizar, de forma correcta e completa, todo o processo de identificação de requisitos através de estudos etnográficos.

Estas directrizes estão divididas em quatro conjuntos cada um deles respeitante a uma das fases deste processo (preparação, estudo, análise e especificação) que são descritos de seguida.

Preparação[editar | editar código-fonte]

Uma preparação adequada do processo é fundamental para o sucesso do mesmo. Assim sendo, a directriz para esta fase inclui os seguintes pontos:

  • Entender a política organizacional e a cultura de trabalho;
  • Familiarizar-se com o sistema e a sua história;
  • Estabelecer objectivos iniciais e elaborar questões;
  • Obter acesso e permissão para realizar entrevistas e observações.

Estudo[editar | editar código-fonte]

É a principal fase do processo, onde se realiza o contacto directo com os stakeholders do sistema a desenvolver. Esta directriz é constituída por:

  • Estabelecer empatias com administradores e utilizadores do sistema;
  • Realizar observações e entrevistas aos utilizadores do sistema no seu ambiente de trabalho;
  • Recolher dados objectivos e subjectivos de modo quantitativo e qualitativo;
  • Seguir todas as pistas que surjam durante as visitas;
  • Registar todas as visitas.

Análise[editar | editar código-fonte]

Esta fase permite extrair conclusões do estudo já efectuado e, dessa forma, realizar melhoramentos durante todo o processo. Aqui pode incluir-se:

  • Compilar todos os dados recolhidos numa base de dados;
  • Quantificar os dados e realizar estatísticas;
  • Filtrar e interpretar os dados;
  • Redefinir os objectivos e o processo utilizado.

Especificação[editar | editar código-fonte]

Por fim, há que documentar a informação recolhida e para esta directriz podemos considerar os seguintes dois itens:

  • Ter em conta os diversos públicos alvo e objectivos existentes;
  • Elaborar um relatório e apresentar as conclusões do estudo.

Por fim, apesar de não ter sido mencionada pelos autores, é uma boa prática realizar, ao longo de todo o processo, sessões de crítica por parte de elementos externos ao projecto.

Referências[editar | editar código-fonte]