Extinção em massa do Holoceno

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O dodô, pássaro da ilha Maurícia, extinguiu-se em meados do século XVII, depois que os humanos destruíram as florestas onde as aves faziam seus ninhos e introduziram animais que comiam os ovos postos por elas.

Extinção em massa do Holoceno é a extinção em massa de espécies, em escala mundial, que está ocorrendo durante a moderna época geológica do Holoceno. A grande quantidade de extinções cobre numerosas famílias de plantas e animais incluindo mamíferos, aves, anfíbios, répteis e artrópodes; boa parte das quais nas florestas tropicais. Esta extinção em massa é às vezes denominada sexta extinção, por seguir-se às cinco anteriores, ocorridas nos últimos 420 milhões de anos[1] . Desde 1500 AD, 784 extinções foram documentadas pela IUCN.[2] Contudo, visto que a maioria das extinções provavelmente não são documentadas, os cientistas calculam que durante o último século, entre 20.000 e dois milhões de espécies tenham se extinguido, mas o número total não pode ser determinado mais precisamente dentro dos limites do conhecimento atual. Até 140.000 espécies por ano (baseando-se na teoria espécie-área)[3] pode ser a taxa atual de extinção, tendo por base o limite superior estimado.

Em sentido amplo, a extinção em massa do Holoceno inclui o desaparecimento notável de grandes mamíferos, conhecidos como megafauna, ao fim da última glaciação, de 9.000 a 13.000 anos atrás. Tais desaparecimentos tem sido considerados ou como uma resposta às mudanças climáticas, o resultado da proliferação dos humanos modernos, ou ambos. Estas extinções, que ocorreram perto do limite Pleistoceno-Holoceno, são às vezes citadas como extinções em massa do Pleistoceno ou extinções em massa da Era do Gelo. Todavia, a extinção em massa do Holoceno continua através dos vários milênios passados e inclui o tempo presente.

A taxa de extinção observada tem se acelerado dramaticamente nos últimos 50 anos. Não há uma concordância generalizada se as extinções mais recentes devem ser consideradas como um evento distinto ou meramente como parte de um único processo crescente. Somente durante estas partes mais recentes da extinção em massa, as plantas sofreram grandes perdas. Acima de tudo, a extinção em massa do Holoceno é caracterizada mais significativamente pela presença de fatores de influência humana e é muito curta em termos de tempo geológico (dezenas a milhares de anos) se comparada a maioria das outras extinções em massa.

Os eventos de extinção pré-históricos[editar | editar código-fonte]

A extinção em massa ora em andamento parece ainda mais espetacular se seguirmos a tradição e separarmos a extinção recente (aproximadamente desde a revolução industrial) da extinção do Pleistoceno, próxima ao fim da última era glacial. A última é exemplificada pela extinção do mamute lanoso e, incorretamente, do homem de Neandertal.

Todavia, a climatologia moderna sugere que a presente época do Holoceno não é mais do que a última numa série de intervalos interglaciais. Ademais, há um continuum de extinções entre 13.000 anos atrás e agora. Se considerarmos apenas o impacto humano, a vulnerabilidade e a taxa de extinções de espécies simplesmente cresce com o aumento da população humana, assim, não haveria necessidade de separar a extinção do Pleistoceno da atual. Não obstante, a extinção em massa do Pleistoceno é grande o bastante e ainda não foi completamente resolvida.

A extinção em massa do Pleistoceno (ou da Era do Gelo)[editar | editar código-fonte]

A extinção em massa da Era do Gelo é caracterizada pela extinção de muitos mamíferos de grande porte, pesando mais de 40 kg. Na América do Norte, cerca de 33 dos 45 gêneros de mamíferos de grande porte foram extintos, na América do Sul 46 de 58, na Austrália 15 de 16, na Europa 7 de 23, e na África subsariana, somente 2 de 44. A extinção em massa da América do Sul testemunhou o resultado do Grande Intercâmbio Americano[4] . Somente na América do Sul e Austrália a extinção ocorreu ao nível de famílias taxonômicas ou mais alto.

Existem duas hipóteses principais que dizem respeito à extinção em massa do Pleistoceno:

  • Os animais morreram devido a mudança climática: o recuo da calota polar.
  • Os animais foram exterminados pelos humanos: a "hipótese da matança pré-histórica" (Martin, 1967).

Existem algumas inconsistências entre os dados atualmente disponíveis e a hipótese da matança pré-histórica. Por exemplo, existem ambiguidades sobre o "timing" de extinções súbitas de marsupiais da megafauna australiana. Biólogos notaram que extinções comparáveis não aconteceram na África, onde a fauna havia evoluído com os hominídeos. Extinções pós-glaciais de megafauna na África têm sido espaçadas por grandes intervalos de tempo.

As evidências que apóiam a hipótese da matança pré-histórica incluem a persistência de certas megafaunas insulares por vários milênios após o desaparecimento de seus "primos" continentais. A preguiça-gigante sobreviveu em Cuba, Haiti e Puerto Rico muito tempo depois das preguiças da América do Norte terem desaparecido. A extinção das espécies insulares coincide com a ocupação destas ilhas por humanos. De forma semelhante, o desaparecimento dos mamutes lanosos na remota ilha de Wrangel só ocorreu 7.000 anos depois da extinção no continente.

Uma alternativa para a teoria da responsabilidade humana é a teoria do bólido de Alexander Tollmann, uma hipótese muito mais controvertida que estipula que o Holoceno foi iniciado por uma extinção em massa causada pelo impacto de bólidos.

Principais extinções de megafauna[editar | editar código-fonte]

Europa[editar | editar código-fonte]
O mamute lanoso extinguiu-se cerca de 12.000 anos atrás.

(cerca de 15.000 anos atrás)

Ilhas do Mediterrâneo[editar | editar código-fonte]

(cerca de 9.000 anos atrás)

América do Norte[editar | editar código-fonte]

Durante os últimos 50.000 anos, incluindo o fim do último período glacial, aproximadamente 33 gêneros de grandes mamíferos foram extintos na América do Norte. Destes, 15 extinções de gêneros podem ser confiavelmente atribuídos a um breve intervalo de 11.500 a 10.000 anos Ap, datados por radiocarbono, logo em seguida à chegada da cultura Clóvis na América do Norte. A maioria das outras extinções são pobremente restritas no tempo, embora algumas definitivamente tenham ocorrido fora deste estreito intervalo.[5] Em oposição a isto, somente cerca de meia dúzia de pequenos mamíferos desapareceram durante este período. As ondas anteriores de extinções na América do Norte haviam ocorrido no fim das glaciações, mas não com tal desequilíbrio entre grandes e pequenos mamíferos. As extinções da megafauna incluem doze gêneros de herbívoros comestíveis (H), e cinco carnívoros grandes e perigosos (C). As extinções na América do Norte incluem:

Os sobreviventes são tão significativos quanto as perdas: bisonte, alce (imigrantes recentes através da Beríngia), uapiti, rena, cervos, antilocapras, boi-almiscarado, carneiro-selvagem e cabra-da-montanha. Todos, exceto as antilocapras, descendem de ancestrais asiáticos que sobreviveram aos predadores humanos.[6]

A cultura que tem sido vinculada à onda de extinções na América do Norte é a paleo-indígena cultura Clóvis, da qual se especula ter usado atlatls para matar grandes animais. A principal oposição à "hipótese da matança pré-histórica" é que populações de humanos como as da cultura Clóvis eram pequenas demais para serem ecologicamente significativas. Outras alegações generalizadas de mudanças climáticas falham quando examinadas mais detalhadamente.

A ausência de uma megafauna domesticável foi talvez uma das razões pelas quais as civilizações ameríndias evoluíram diferentemente daquelas do Velho Mundo.[7] Críticos têm contestado isso argumentando que a lhama, a vicunha e o bisonte eram domesticáveis[8]

América do Sul[editar | editar código-fonte]

Na transição Pleistoceno-Holoceno, a América do Sul, que havia permanecido em sua maior parte sem glaciação, exceto por um aumento nas geleiras dos Andes, passou por uma onda de extinções que levou muitas espécies de animais de grande porte. Hoje, não restaram mamíferos terrestres neste continente pesando mais do que a anta moderna.

Austrália[editar | editar código-fonte]
O Diprotodon extingiu-se há cerca de 50.000 anos.

A súbita enxurrada de extinções da megafauna australiana ocorreu mais cedo do que nas Américas. A maioria das evidências aponta para o período imediatamente após a chegada dos primeiros humanos - estimado em pouco menos de 50.000 anos atrás - mas o debate científico em torno do intervalo exato de datas continua. Entre as extinções australianas estão:

  • Diprotodons (parente gigante dos wombats)
  • Zygomaturus trilobus (um grande herbívoro marsupial)
  • Palorchestes azael (uma "anta" marsupial)
  • Macropus titan (um canguru gigante)
  • Procoptodon goliah (um canguru gigante com cascos)
  • Wonambi naracoortensis (uma espécie de jibóia australiana com cinco a seis metros de comprimento)
  • Thylacoleo carnifex (um carnívoro marsupial do tamanho de um leão)
  • Megalania prisca (um grande lagarto da família dos Varanidae)

Alguns componentes da megafauna extinta, tais como o diprotodon tipo bunyip, podem ser as fontes de antigas lendas criptozoológicas.

Extinções recentes[editar | editar código-fonte]

Nova Zelândia[editar | editar código-fonte]

Em torno de 1500 AD, várias espécies foram extintas após a chegada de colonizadores polinésios, inclusive:

Pacífico, incluindo Havaí[editar | editar código-fonte]

Pesquisas recentes, baseadas em escavações arqueológicas e paleontológicas em 70 ilhas diferentes, demonstraram que numerosas espécies foram extintas quando os humanos começaram a mover-se através do Pacífico, começando há 30.000 anos no arquipélago de Bismarck e ilhas Salomão (Steadman & Martin 2003). Estima-se atualmente que entre os pássaros do Pacífico, cerca de 2.000 espécies tenham sido extintas depois da chegada dos humanos (Steadman 1995). Entre os extintos estão:

Madagáscar[editar | editar código-fonte]

Com a chegada dos humanos, cerca de 2.000 anos atrás, quase toda a megafauna da ilha foi extinta, incluindo:

Ilhas do oceano Índico[editar | editar código-fonte]

A partir de 500 anos atrás, várias espécies foram extintas depois da colonização humana das ilhas, incluindo:

Extinção do Holoceno em andamento[editar | editar código-fonte]

Casal de lobos-da-tasmânia.

Significativamente, a taxa de extinção de espécies no presente é estimada em 100 a 1.000 vezes superiores às taxas de extinção "históricas" ou médias na escala de tempo evolutiva do planeta Terra;[9]

Extinções da megafauna continuam a ocorrer no presente. Extinções modernas são atribuíveis mais diretamente à influência humana. Taxas de extinção são minimizadas na imaginação popular pela sobrevivência de populações de animais mantidos como troféus em cativeiro, e que estão "extintos na natureza" (cervo-do-padre-david, ararinha-azul etc) e por sobreviventes marginais amplamente divulgados na mídia mas que estão "ecologicamente extintos" (panda-gigante, rinoceronte-de-java, o furão-de-pés-pretos da América do Norte, etc) e por extinções negligenciadas entre os artrópodes. Alguns exemplos notáveis de extinções modernas da fauna mamaliana "carismática" incluem:

Muitos pássaros foram extintos como resultado da atividade humana, especialmente pássaros endêmicos de ilhas, incluindo muitas aves que não voavam (ver uma lista mais completa em aves extintas). Aves extintas notáveis incluem:

Em 1998, o American Museum of Natural History fez uma pesquisa entre biólogos a qual revelou que a maioria deles acredita que estamos no início de um processo de extinção em massa tremendamente acelerada, de origem antropogênica. E.O. Wilson de Harvard, em The Future of Life (2002), calcula que nas taxas atuais de perturbação humana na biosfera, metade de todas as espécies de vida estarão extintas em 100 anos. Numerosos estudos científicos desde então, tal como um relatório de 2004 da Nature,[10] e aqueles entre os 10.000 cientistas que contribuíram para a Lista Vermelha anual de espécies ameaçadas da IUCN, só fortaleceram esse consenso.

Peter Raven, ex-presidente da American Association for the Advancement of Science, declarou no prefácio de sua publicação AAAS Atlas of Population and Environment[11] : "Impulsionamos a taxa de extinção biológica, a perda permanente de espécies, até centenas de vezes acima dos níveis históricos, e há a ameaça da perda da maioria de todas as espécies no fim do século XXI."[12] Todas as razões para a presente extinção em massa estão relacionadas com a atividade humana, e incluem destruição de florestas e de outros habitats, caça e pesca, introdução de espécies não-nativas, poluição e mudança climática.

O sapo-dourado da Costa Rica, extinto por volta de 1989. Seu desaparecimento tem sido atribuído à mudança do clima.

Evidências para todas as extinções em massa anteriores são de natureza geológica, e as mais curtas escalas de tempo geológico são da ordem de várias centenas de milhares a vários milhões de anos. Mesmo aquelas extinções em massa que foram causadas por eventos instantâneos - o impacto do asteróide de Chicxulub sendo atualmente o exemplo demonstrável - desdobrou-se através do equivalente a muitas vidas humanas, devido às complexas interações ecológicas que foram desencadeadas pelo evento.

Há um debate limitado quanto às implicações das atividades humanas no desaparecimento da megafauna no fim do último período glacial, seja de forma direta, pela caça, ou indiretamente, pela dizimação de populações de presas. Enquanto mudanças climáticas ainda são citadas como outro fator importante, explicações antropogênicas tornaram-se predominantes.

Há ainda a esperança, argumentam alguns, que a humanidade possa eventualmente diminuir a taxa de extinção através de um gerenciamento ecológico apropriado. Tendências atuais sócio-políticas e superpopulação, argumentam outros, indicam que esta ideia é demasiadamente otimista. Muitas esperanças estão sendo colocadas no desenvolvimento sustentável e conservação ambiental. 189 países signatários da Convenção sobre Diversidade Biológica comprometeram-se a preparar um Plano de Ação de Biodiversidade, um primeiro passo na identificação de espécies e animais em perigo, país por país.

Referências

  1. "Estamos destruindo rapidamente o planeta" in Pesquisa FAPESP Online. 11 de março de 2008.
  2. Ver Lista Vermelha da IUCN
  3. S.L. Pimm, G.J. Russell, J.L. Gittleman e T.M. Brooks, The Future of Biodiversity, Science 269: 347-350 (1995)
  4. Renato Pereira Lopes, Francisco Sekiguchi de Carvalho Buchmann, Felipe Caron e Maria Elisabeth Gomes da Silva Itusarry.Ossos de Animais Pré-Históricos de 120 Mil Anos nas Barrancas do Arroio Chuí - RS in "SIGEP 119" – Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil.
  5. Anthony D. Barnosky, Paul L. Koch, Robert S. Feranec, Scott L. Wing, Alan B. Shabel. (2004). "Assessing the Causes of Late Pleistocene Extinctions on the Continents". Science 306 (5693): 70-75 pp.. DOI:10.1126/science.1101476. PMID 15459379.
  6. MacPhee, RDE. Extinctions in Near Time: Causes, Contexts, and Consequences. [S.l.]: Kluwer Academic Publishers, 1999. ISBN 0306460920
  7. Diamond, J.. Guns, Germs, and Steel: The Fates of Human Societies. [S.l.]: WW Norton, 1997. ISBN 978-0393061314
  8. Pielou, EC. After the Ice Age: the return of life to glaciated North America. [S.l.]: University of Chicago Press, 1992. ISBN 978-0226668123
  9. J.H.Lawton e R.M.May, Extinction rates, Oxford University Press, Oxford, GB
  10. Study sees mass extinctions via warming. MSNBC. URL acessada em 26 de julho de 2006.
  11. Atlas of Population and Environment. AAAS (2000). Página visitada em 12-02-2008.
  12. Atlas of Population and Environment, Foreword. AAAS (2000). Página visitada em 12-02-2008.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Leakey, Richard e Roger Lewin, 1996. The Sixth Extinction : Patterns of Life and the Future of Humankind. Anchor. ISBN 0-385-46809-1.
  • Martin, P.S. & Wright, H.E. Jr., eds., 1967. Pleistocene Extinctions: The Search for a Cause. Yale University Press, New Haven, 440 pp., ISBN 0-300-00755-8
  • Oakes, Ted, Kear, Amanda, Bates, Annie, Holmes, Kathryn, 2003, Monsters we met. Man's prehistoric battle for the planet. BBC Worldwide Ltd., Woodlands. ISBN 1-59258-005-X
  • Steadman, D.W., 1995. Prehistoric extinctions of Pacific island birds: biodiversity meets zooarchaeology. "Science" 267, 1123-1131.
  • Steadman, D.W., Martin, P.S., 2003. The late Quaternary extinction and future resurrection of birds on Pacific islands. "Earth-Science Reviews '61", 133-147

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Em português[editar | editar código-fonte]