Félix Guattari

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Félix Guattari (Villeneuve-les-Sablons, Oise, 30 de Março de 1930Cour-Cheverny, 29 de Agosto de 1992) foi um filósofo, psicanalista e militante revolucionário francês praticamente autodidata, que não chegou a cumprir a burocracia de nenhum título universitário, produziu uma grande quantidade de textos, que relacionou-se de forma produtiva com muitas das figuras mais importantes das ultimas três duas ou quatro décadas, militou política e ativamente tanto nas organizações tradicionais, como na maioria das alternativas importantes do seu tempo cronológico e foi criador de uma série de movimentos, fundador de uma série de dispositivos políticos que tiveram um papel importantíssimo nas tentativas de transformação do que é o mundo moderno e pós-moderno.[1]

Entre os conceitos e noções criadas por Guattari estão: Transversalidade, Ecosofia, Caosmose, Desterritorialização, Ritornelo, Singularidade, Produção de Subjetividade, Capitalismo Mundial Integrado, etc. Teorizou também sobre a questão da transdisciplinaridade, do desejo, das instituições e foi, juntamente com Deleuze, o mais profundo crítico da Psicanálise que, segundo Michel Foucault tratava-se de um inimigo tático, ao passo que o seu inimigo estratégico seria o poder, o fascismo. A partir desta crítica, criou, em intercessão com Gilles Deleuze o que chamou de Esquizoanálise (e Cartografia e Pragmática Menor). Atuou e teorizou nos temas da homossexualidade - chegando a ser preso por seus ditos e escritos -, travestilidade, feminismo, anticolonialismo e outros movimentos minoritários, além das temáticas anarquistas e comunistas. É um dos principais percursores e referências da Reforma Psiquiátrica no mundo, juntamente com o italiano Franco Basaglia e outros. É também considerado um dos componentes do pós-estruturalismo francês.

Biografia[1] [editar | editar código-fonte]

Guattari teve escolaridade irregular, cursou Farmácia e Filosofia, mas não concluiu nenhum dos cursos. Durante a segunda guerra mundial, participou de vários movimentos sociais e partidos de esquerda, entre os quais, de um movimento destinado a construir albergues juvenis, moradias para refugiados de guerra. Dentro de suas tarefas políticas, ele teve contato com muitas figuras intelectuais da França e se encontrou com duas especialmente importantes: a do trabalhador em saúde mental de orientação anarquista e libertária, Francesc Tosquelles, que tinha imigrado da Catalunha no tempo da guerra civil e fundado a comunidade de Saint Alban. Trabalhou também com Jean Oury, um grande psiquiatra francês. Por outro lado, Guattari tinha descoberto as ideias de outro grande psiquiatra, Frantz Fanon, argelino, escritor de Os Condenados da Terra e que posteriormente chegou a ser Ministro da Saúde da Argélia.

Jean Oury, Guattari e outros encontraram um castelo em ruínas no interior da França e, fazendo uma reforma do mesmo, construíram uma célebre clínica psicoterapêutica e psiquiátrica denominada La Borde, que se transformou em um verdadeiro campo experimental para uma série de propostas psiquiátricas modernas, alternativas e até revolucionárias, que continua existindo na atualidade e sendo uma fonte de inspiração para todos os movimentos alternativos psiquiátricos do mundo.

Guattari militou na Juventude Comunista, mas foi expulso por sua oposição aos acontecimentos de Budapeste e à política do Partido Comunista na Argélia. Participou na organização de ajuda à "Frente de Libertação Nacional Argelina". Escreveu para um periódico comunista relacionado com a Liga Comunista e com as organizações marxistas e anarquistas. Interessou-se pela Psicanálise e se analisou com o professor Jacques Lacan durante sete anos. Pertenceu à Escola Freudiana de Paris e fundou a Federação de Grupos de Estudo e Pesquisa Institucional, ou seja, uma enorme corrente que reunia experts de diferentes disciplinas, antropólogos, sociólogos, economistas, etc., que se ocupavam em estudar as instituições. Guattari fundou também a revista "Recherche", que teve um papel importantíssimo na, divulgação das idéias institucionalistas. Em 1966, organizou um jornal e um grande agrupamento que se denominou "Oposição de Esquerda". Participou também da redação das novas teses da "Oposição de Esquerda", propondo uma ética militante que reunia os descontentes de todos os partidos políticos de esquerda, particularmente da Liga Trotskista e do Partido Comunista Francês. Participou na operação de ajuda ao povo do Vietnã na guerra contra os Estados Unidos. Em 1967 foi um dos fundadores da Organização de Solidariedade com a Revolução Latino-americana, organização esta do intelectual Régis Debray, que estava preso na Bolívia. Em maio de 1968, Guattari associou-se a vários setores protagonistas desse importantíssimo fato histórico e participou, pessoalmente, de uma das manobras táticas que foi a ocupação do teatro Odeon. Fundou o CEPFI – Centro de Estudos e Pesquisas de Formação Institucional, centro esse que publicou obras tais como "Genealogia dos Equipamentos Coletivos", "O ideal militante", etc. Dentre suas publicações na Revista "Recherche", uma em particular se referia aos movimentos homossexuais, o que motivou sua prisão, tendo sido anistiado por Giscard d'Estaign. A partir de 1970, militou ativamente pela implantação da rede de rádios livres, a primeira das quais se chamou "Alice". Fundou o CINEL – Comitê de Iniciativa pelos Novos Espaços da Liberdade, organização que defendeu os extremistas autônomos italianos e que lutou pela libertação do intelectual italiano Toni Neri, preso na Itália, por sua vinculação com as Brigade Rose. Em 1981 foi um dos artífices da candidatura do célebre cômico francês Coluche. Foi membro ativíssimo de uma grande organização ecológica chamada "Geração Ecológica" e, finalmente, fundador da Rede de Alternativa Psiquiátrica, um Movimento com propostas psiquiátricas críticas que se estendeu pelo mundo inteiro.

Guattari escreveu os seguintes livros: "Psicanálise e Transversalidade", que pertence ao período em que ainda era psicanalista; "A Revolução Molecular", um belo livro que resume suas propostas de militância política; "O Inconsciente Maquínico", onde expõe a reformulação que fez da ideia do inconsciente freudiano; posteriormente escreveu com Gilles Deleuze, o grande filósofo e seu amigo pessoal, "O Anti-Édipo", um livro que foi expressivo do movimento político e cultural de maio de 68. Fez um estudo com Deleuze sobre o escritor Kafka, a quem eles consideram uma das maiores expressões de um gênero que seria "uma literatura menor"; depois, escreveu, também com Deleuze, "Mil Platôs", que é o segundo tomo de "O Anti-Édipo". MaIs recentemente ele publicou um livro chamado "Caosmose" e, imediatamente antes deste, um belo livro sobre Ecologia, chamado "As Três Ecologias", e depois, com Gilles Deleuze, "O Que é Filosofia?". Além disso, inúmeros artigos publicados em todos estes órgãos que acabamos de expor. Por outra parte, publicou, em português, em colaboração com Suely Rolnik,o livro "Cartografias do Desejo", e, na mesma língua, foi editado um pequeno volume de suas conversas com Lula e outro com Toni Negri.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Livros de autoria de Félix Guattari[editar | editar código-fonte]

  • 1972: Psicanálise e Transversalidade
  • 1973: Plan sobre el Planeta: Capitalismo Mundial Integrado y Revoluciones Moleculares
  • 1979: O Inconsciente Maquínico: ensaios de esquisoanálise
  • 1985: Os Anos de Inverno (Les Anées d'Hiver)
  • 1989: Cartografias Esquizianalíticas
  • 1989: As Três Ecologias
  • 1992: Caosmose: um novo paradigma estético

Livros em colaboração com Gilles Deleuze[editar | editar código-fonte]

  • 1972: O Anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia
  • 1975: Kafka: por uma literatura menor
  • 1976: Rizoma
  • 1977: Politique et Psychanalyse (Política e Psicanálise)
  • 1979: Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia
  • 1991: O que é a filosofia?

Livros em colaboração com Suely Rolnik[editar | editar código-fonte]

  • 1977: Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo
  • 1986: Micropolítica: cartografias do desejo

Livros em colaboração com Toni Negri[editar | editar código-fonte]

  • 1985: Novos Espaços de Liberdade
  • 1985: Les vértés nômades

Outros[editar | editar código-fonte]

  • 1982: Félix Guattari entrevista Lula
  • 2007: Máquina Kafka ou Sesenta y Cinco Sueños de Franz Kafka (textos inéditos de Félix Guattari anotados por Stéphane Nadaud)

Referências[editar | editar código-fonte]

  • [1] Baremblitt, Gregorio. Instrodução à Esquizoanálise. Belo Horizonte, FGB/IFG:2010

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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  1. a b c BAREMBLITT, Gregorio. Introdução à Esquizoanálise. 3ª Edição ed. Belo Horizonte: FGB/IFG, 2010. p. 11-30. ISBN 9788563971005