Falácia

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O termo falácia deriva do verbo latino fallere, que significa enganar. Designa-se por falácia um raciocínio errado com aparência de verdadeiro[1] . Na lógica e na retórica, uma falácia é um argumento logicamente inconsistente, sem fundamento, inválido ou falho na tentativa de provar eficazmente o que alega. Argumentos que se destinam à persuasão podem parecer convincentes para grande parte do público apesar de conterem falácias, mas não deixam de ser falsos por causa disso.

Reconhecer as falácias é por vezes difícil. Os argumentos falaciosos podem ter validade emocional, íntima, psicológica, mas não validade lógica. É importante conhecer os tipos de falácia para evitar armadilhas lógicas na própria argumentação e para analisar a argumentação alheia. As falácias que são cometidas involuntariamente designam-se por paralogismos e as que são produzidas de forma a confundir alguém numa discussão designam-se por sofismas.[2]

É importante observar que o simples fato de alguém cometer uma falácia não invalida toda a sua argumentação. Ninguém pode dizer: "Li um livro de Rousseau, mas ele cometeu uma falácia, então todo o seu pensamento deve estar errado". A falácia invalida imediatamente o argumento no qual ela ocorre, o que significa que só esse argumento específico será descartado da argumentação, mas pode haver outros argumentos que tenham sucesso. Por exemplo, se alguém diz:

"O fogo é quente e sei disso por dois motivos:

  1. ele é vermelho; e
  2. medi sua temperatura com um termômetro".

Nesse exemplo, foi de fato comprovado que o fogo é quente por meio da premissa 2. A premissa 1 deve ser descartada como falaciosa, mas a argumentação não está de todo destruída. O básico de um argumento é que a conclusão deve decorrer das premissas. Se uma conclusão não é consequência das premissas, o argumento é inválido. Deve-se observar que um raciocínio pode incorrer em mais de um tipo de falácia, assim como que muitas delas são semelhantes.

Índice

Lista de falácias por categoria[editar | editar código-fonte]

Estas são as falácias formais e informais mais comuns.[3] [4] [5] [6]

Falácias da ambiguidade[editar | editar código-fonte]

Equívoco[editar | editar código-fonte]

Usar uma afirmação com significado diferente do que seria apropriado ao contexto.[7]

Ex.: Os assassinos de crianças são desumanos. Portanto, os humanos não matam crianças.

Joga-se com os significados das palavras. A palavra "humanos" possui vários sentidos, pode ser um tipo de primata (sentido biológico) ou uma boa pessoa (sentido moral), mas a falácia usa a palavra sem considerar a diferença de sentido.

Anfibologia[editar | editar código-fonte]

Ocorre quando as premissas usadas no argumento são ambíguas devido à má elaboração sintática.[7]

Ex.:

  1. Venceu o Brasil a Argentina.
  2. Ele levou o pai ao médico em seu carro.

1. Quem venceu? 2. No carro de quem?

Nesse caso, toda a frase possui sentidos diversos a depender do contexto.

Ênfase[editar | editar código-fonte]

Enfatizar uma palavra para sugerir o contrário.[7]

Ex.: Hoje o capitão estava sóbrio (sugerindo embriaguez).

Pronuncia-se a palavra "sóbrio" com muita força para sugerir que ele é um alcoólatra.

É uma ironia.

Apelo a motivos[editar | editar código-fonte]

Apelo à força[editar | editar código-fonte]

Utilização de algum tipo de privilégio, força, poder ou ameaça para impor a conclusão.[8]

Ex.: Acredite no que eu digo, não se esqueça de quem é que paga o seu salário.

O oponente pode perder a coragem de enfrentar seu chefe porque pode perder o emprego.

Apelo à consequência[editar | editar código-fonte]

Considerar uma premissa verdadeira ou falsa conforme sua consequência desejada.[8]

Ex.:

  1. Você deve ser bom com os outros ou irá para o Inferno.
  2. Você nada tem a perder sendo religioso porque, se Deus existe, você será recompensado.

A premissa é tida como válida somente porque a conclusão nos agrada ou assusta.

Apelo ao medo[editar | editar código-fonte]

Apelar ao medo para validar o argumento.

Ex.: Vote no candidato tal, pois o candidato adversário vai trazer a ditadura de volta.

É uma variação do apelo à consequência.

Argumentum ad misericordiam (apelo à misericórdia)[editar | editar código-fonte]

Também chamado apelo à piedade. Consiste no recurso à piedade ou a sentimentos relacionados, tais como solidariedade e compaixão, para que a conclusão seja aceita, embora a piedade não esteja relacionada ao assunto ou à conclusão do argumento.[8] Do argumento ad misericordiam deriva o argumentum ad infantium - "Faça isso pelas crianças". A emoção é usada para persuadir as pessoas a apoiar (ou intimidá-las a rejeitar) um argumento com base na emoção, mais do que em evidências ou razões.

Apelo à emoção[editar | editar código-fonte]

Recorrer à emoção para validar o argumento.

Ex.: Apelo ao júri para que contemple a condição do réu, um homem sofrido, que agora passa pelo transtorno de ser julgado em um tribunal.

O advogado quer que o júri absolva o réu por compaixão. É semelhante ao apelo à misericórdia.

Argumentum ad antiquitatem (apelo à antiguidade)[editar | editar código-fonte]

Afirmar que algo é verdadeiro ou bom somente porque é antigo ou porque "sempre foi assim".

Ex.: Devemos seguir a Bíblia porque é um livro que atravessou os séculos intacto.

Argumentum ad novitatem (apelo à novidade)[editar | editar código-fonte]

Argumentar que o novo é sempre melhor, sem uma justificativa.

Ex.: Na filosofia, Sócrates já está ultrapassado. É melhor Sartre, pois é mais recente.

Argumentum ad ignorantiam (apelo à ignorância)[editar | editar código-fonte]

Tentar provar algo a partir da ignorância quanto à sua validade. Só porque não se sabe se algo é verdadeiro, não quer dizer que seja falso, e vice-versa.[9]

Ex.: Ninguém conseguiu provar que Deus existe, logo ele não existe.

Ou o contrário.

Ex.: Ninguém conseguiu provar que Deus não existe, logo ele existe.

Apelo ao preconceito[editar | editar código-fonte]

Associar valores morais a uma pessoa ou coisa para convencer o adversário.[8]

Ex.: Uma pessoa religiosa como você não é capaz de argumentar racionalmente comigo.

A pessoa é estigmatizada por ser religiosa, considerada inferior ao oponente.

Apelo à vaidade[editar | editar código-fonte]

Provocar a vaidade do oponente para vencê-lo.

Ex.: Não acredito que uma pessoa culta como você acredita nessa teoria.

O oponente, por ser muito culto, pode se sentir envergonhado de defender essa teoria "absurda". É o contrário do apelo ao preconceito.

Apelo à multidão[editar | editar código-fonte]

Também chamado apelo ao povo. É a tentativa de ganhar a causa por apelar a uma grande quantidade de pessoas. Por vezes é chamada de apelo à emoção, pois os apelos emocionais tentam atingir toda a população.[8]

Ex.: Inúmeras pessoas acreditam em Deus, portanto Deus existe.

Apelo ao ridículo[editar | editar código-fonte]

Ridicularizar um argumento como forma de derrubá-lo.

Ex.: Se a teoria da evolução fosse verdadeira, significaria que o seu tataravô seria um gorila.

Espera-se que o oponente desista da sua convicção porque ela parece ridícula.

Erros categoriais e de regras gerais[editar | editar código-fonte]

Composição[editar | editar código-fonte]

É o fato de concluir que uma propriedade das partes deve ser aplicada ao todo.[10]

Ex.: Todas as peças deste caminhão são leves; logo, o caminhão é leve.

Divisão[editar | editar código-fonte]

É o oposto da falácia de composição. Supõe que uma propriedade do todo é aplicada a cada parte.[10]

Ex.: Você deve ser rico, pois estuda em um colégio de ricos.

Acidente[editar | editar código-fonte]

Trata-se de querer aplicar uma regra geral a todos os casos, ignorando as exceções.[11]

Ex.: Devemos usar um protetor solar por causa da radiação UV, então devemos usá-lo hoje à noite, na praia.

Inversão do acidente[editar | editar código-fonte]

Trata-se de querer usar uma exceção como se fosse uma regra geral.[11]

Ex.: Se deixarmos os doentes terminais usarem maconha, deveremos deixar todas as pessoas a usarem.

É chamada de generalização precipitada e se assemelha à amostra limitada.

Falácias causais[editar | editar código-fonte]

Falsa causa[editar | editar código-fonte]

Afirma que, apenas porque dois eventos ocorreram juntos, eles estão relacionados.

Ex.: Nota-se uma maior frequência de erros de português em sala de aula desde o início das redes sociais e o uso do internetês. O advento das redes sociais vem degenerando o uso do português correto.

Falta mostrar uma pesquisa que o comprove.

Depois disso, por causa disso[editar | editar código-fonte]

Consiste em dizer que, pelo simples fato de um evento ter ocorrido logo após o outro, eles têm uma relação de causa e efeito. Porém, correlação não implica causalidade.[12]

Ex.: O Japão rendeu-se logo após a utilização das bombas atômicas por parte dos Estados Unidos. Portanto, a paz foi alcançada devido à utilização das armas nucleares.

Ex.: O Sol nasce porque o galo canta.

Inversão de causa e efeito[editar | editar código-fonte]

Considerar um efeito como uma causa.[12]

Ex.: O investimento na educação sexual causou a propagação da SIDA.

Na verdade, foi exatamente o contrário. A epidemia de SIDA levou ao incremento da educação sexual como forma de prevenção.

Terceira causa[editar | editar código-fonte]

Ignorar a existência de uma terceira causa, não levada em conta nas premissas.[12]

Ex.: Estamos vivendo uma fase de elevado desemprego, que é provocado por um baixo consumo.

Há uma causa tanto para o desemprego como para o baixo consumo.

Ex.: A Alemanha está em crise, que é provocada pelos banqueiros judeus.

Existem outros motivos para a crise (ter perdido a Primeira Guerra pode ser uma terceira causa).

Causa diminuta[editar | editar código-fonte]

Apontar uma causa pouco importante.[12]

Ex.: Fumar causa a poluição do ar em Edmonton.

A causa maior é a poluição industrial e dos automóveis.

Causa complexa[editar | editar código-fonte]

Supervalorizar uma causa quando há várias ou um sistema de causas.[12]

Ex.: O menino não teria sido atingido pela bola se não houvesse acabado o recreio.

Mas também não teria sido atingido se o colega não tivesse chutado a bola para cima, quando o recreio acabou.

Houve muitas outras causas.

Non-sequitur[editar | editar código-fonte]

Non sequitur (não se segue que)[editar | editar código-fonte]

Tipo de falácia no qual a conclusão não se sustenta nas premissas. Há uma violação da coerência textual.[13]

Ex.: Que nome complicado tem este futebolista! Deve jogar muita bola.

A conclusão de que ele joga muito bem nada tem a ver com a premissa de seu nome complicado.

É o modelo básico de uma falácia porque as premissas não levam à conclusão e podem até levar ao sentido contrário.

Afirmação do consequente[editar | editar código-fonte]

Essa falácia ocorre quando se tenta construir um argumento condicional da seguinte forma:

  Se A, então B.
  B
  Então A.

Ex.: Se há carros, então há poluição. Há poluição. Logo, há carros.

Afirma-se o consequente e depois se afirma o antecedente da proposição condicional. O antecedente é o que vem depois de "se" (A) e o consequente é o que vem depois de "então" (B).[13]

A poluição não é causada somente por carros.

Negação do antecedente[editar | editar código-fonte]

Essa falácia ocorre quando se tenta construir um argumento condicional da seguinte forma:

  Se A, então B.
  Não A
  Então não B.

Ex.: Se há carros, então há poluição. Não há carros. Logo, não há poluição.

Nega-se o antecedente e depois se nega o consequente.[13]

A falta de carros não acarreta necessariamente a falta de poluição.

OBS: Os modos certos de argumentar são os contrários, afirmar o antecedente e depois afirmar o consequente ou negar o consequente e depois negar o antecedente.

Inconsistência[editar | editar código-fonte]

Construir um raciocínio com premissas contraditórias.[13]

Ex.: John é maior do que Jake e Jake é maior do que Fred, enquanto Fred é maior do que John.

Qual é o maior?

Falácias da explicação[editar | editar código-fonte]

Invenção de fatos[editar | editar código-fonte]

Consiste em mentir ou apresentar informações imprecisas.

Ex.: A causa da gripe é o consumo de arroz.

Distorção de fatos[editar | editar código-fonte]

Também chamada de omissão de dados. Mascarar os verdadeiros fatos.[14]

Ex.: O segredo da minha força são os cabelos.

Ex.: Dos canais brasileiros com menos de 500 mil inscritos, atualmente eu sou o maior. Tuite de @marcoscastro.

É omissão de informação.

Teoria irrefutável[editar | editar código-fonte]

Informar um argumento com uma hipótese que não pode ser testada.

Ex.: Ganhei na loteria porque Deus quis assim.

Uma proposição que não pode ser testada e refutada não possui valor.

Deus das lacunas[editar | editar código-fonte]

Responder a questões sem solução com explicações sobrenaturais e/ou que não podem ser comprovadas.

Ex.: Os passageiros do avião sobreviveram porque Deus interveio no acidente.

Deus supre a falta de explicações, as lacunas. É uma teoria irrefutável.

Explicação incompleta[editar | editar código-fonte]

Ex.: As pessoas tornam-se esquizofrênicas porque as diferentes partes dos seus cérebros funcionam separadas.

Explicação superficial[editar | editar código-fonte]

Usar classificações para tirar conclusões.

Ex.: A minha gata Elisa gosta de atum porque é uma gata.

O gato deve gostar de atum somente porque é um gato, é uma questão de categoria.

Petitio principii (petição de princípio)[editar | editar código-fonte]

Demonstrar uma tese partindo do princípio de que já é válida.[15]

Ex.: É fato que a Bíblia é verdadeira, portanto todos devem buscar nela a verdade.

Trata-se de usar uma premissa que é igual à conclusão e forma com esta um raciocínio circular. A Bíblia é verdadeira porque contém a verdade e contém a verdade porque é verdadeira.

De fato, a informação de veracidade da Bíblia foi usada na premissa e na conclusão, não se usou uma premissa que levasse a uma conclusão de veracidade.

Conclusão irrelevante[editar | editar código-fonte]

Obter uma conclusão que não decorre das premissas.[15]

Ex.: A lei deve estipular um sistema de cotas nas eleições para que as mulheres possam ocupar mais cargos políticos. Os cargos são dominados por homens e não fazer algo para mudar essa situação é inaceitável. Necessitamos de uma sociedade mais igualitária.

As cotas não são a solução única e obrigatória do problema, o que se requer em um raciocínio dedutivo. A conclusão irrelevante ou sofismática é do tipo non sequitur, as premissas não justificam a conclusão.

Erros de definição[editar | editar código-fonte]

Definição muito ampla[editar | editar código-fonte]

Ex.: Uma maçã é um objeto vermelho e redondo.[16]

Mas o planeta Marte também é vermelho e redondo.

Definição muito restrita[editar | editar código-fonte]

Ex.: Uma maçã é um objeto vermelho e redondo.[16]

Mas há maçãs que não são vermelhas.

Definição circular[editar | editar código-fonte]

Definir um termo usando o próprio termo que está sendo definido.[16]

Ex.: A Bíblia é a palavra de Deus porque foi inspirada por Deus.

A circularidade consiste em repetir a premissa na conclusão.

Definição contraditória[editar | editar código-fonte]

Definir algo com termos que se contradizem.[16]

Ex.: Para serem livres, submetam-se a mim.

Definição obscura[editar | editar código-fonte]

Definir algo em termos imprecisos ou incompreensíveis.[16]

Ex.: Vida é a borboleta sublime que bate suas asas dentro de nós.

Falácias da dispersão[editar | editar código-fonte]

Falsa dicotomia[editar | editar código-fonte]

Também conhecida como falácia do branco e preto ou do falso dilema. Ocorre quando alguém apresenta uma situação com apenas duas alternativas, quando de fato outras alternativas existem ou podem existir.[9]

Ex.: Se você não está comigo, então está contra mim.

Reductio ad absurdum (redução ao absurdo)[editar | editar código-fonte]

Consiste em averiguar uma hipótese, chegando a um resultado absurdo, para depois tentar invalidar essa hipótese.

Essa técnica é utilizada muitas vezes sem ter o caráter falacioso, inclusive para provar teorias. Só é falaciosa quando o raciocínio desenvolvido pela pessoa utiliza falsas premissas.

Ex.:

  1. A: Você deveria respeitar a crença de C porque todas as crenças são de igual validade e não podem ser negadas.
  2. B: Eu recuso que todas as crenças sejam de igual validade.
  3. B: De acordo com sua declaração, essa minha crença é válida, como todas as outras crenças.
  4. B: Contudo, sua afirmação também contradiz e invalida a minha, sendo exatamente o oposto dela.

Aparentemente B mostrou que a afirmação de A é contraditória, porém A possivelmente quis dizer apenas que todas as crenças são subjetivamente válidas, ou seja, B fez uso de uma premissa falsa, uma premissa que não foi lançada por A.

Bola de neve[editar | editar código-fonte]

Também chamada de derrapagem. Elaborar uma sucessão de premissas e conclusões que conduzem ao absurdo.[9]

Ex.: Se legalizarmos o aborto de bebês anencéfalos, logo iremos legalizar o aborto em bebês com síndrome de Down e, no final, todo tipo de aborto será legalizado.

Pergunta complexa[editar | editar código-fonte]

Insinuação por meio de pergunta.[9]

Ex.: Por que você bate na sua mulher?

São duas peguntas numa só:

  1. Você bate na sua mulher?
  2. Por que você faz isso?

Insinua-se que o homem bate na sua mulher.

Reductio ad Hitlerum (redução ao hitlerismo)[editar | editar código-fonte]

Invalidar um argumento pela comparação com Hitler ou com o nazismo.

Ex.: Hitler acreditava em Deus, então os crentes não devem ser boas pessoas.

Argumentum ad nauseam (repetição nauseante)[editar | editar código-fonte]

É a aplicação da repetição constante e a crença incorreta de que, quanto mais se diz algo, mais correto isso está.

Ex.: Se Joãozinho diz tanto que sua ex-namorada é uma mentirosa, então ela é.

Espera-se convencer o oponente com a saturação da sua mente pelo argumento.

Argumentum verbosium (prova por verbosidade)[editar | editar código-fonte]

Tentativa de esmagar os envolvidos pelo discurso prolixo, apresentando um enorme volume de material. Superficialmente, o argumento parece plausível e bem pesquisado, mas é tão trabalhoso desembaraçar e verificar cada fato comprobatório que pode acabar por ser aceito sem ser contestado.

É mais uma tentativa de saturar a mente do oponente.

Meio-termo[editar | editar código-fonte]

Recorrer ao meio-termo sem razão.

Ex.: Não temos relógio, mas alguns dizem que são dez horas e outros dizem que são seis horas, então é mais acertado supor que são oito horas.

O meio-termo pode ou não ser falacioso, depende do contexto. Além disso, a exclusão do meio-termo pode também ser uma falácia.

Inversão do ônus da prova[editar | editar código-fonte]

O argumentador transfere ao seu opositor a responsabilidade de comprovar o argumento contrário, eximindo-se de provar a base do seu argumento original.

O ônus da prova inicial cabe sempre a quem faz a afirmação primária positiva.

Ex.: Dragões existem porque ninguém conseguiu provar que eles não existem.

No caso acima, o ônus da prova recairá sobre quem fez a afirmação de que dragões existem.

Ex.: Dragões não existem porque ninguém conseguiu provar que eles existem.

Ausência de evidência não significa evidência de ausência, no entanto o ônus da prova permanece subentendido para quem afirma que dragões existem, enquanto não houver a defesa da tese primária positiva, pois não é necessário nem possível provar que algo não existe se não há demonstração positiva de que exista.

Ou seja, quem afirma uma coisa deve prová-la para que uma refutação seja tentada.

Falácia genética[editar | editar código-fonte]

Consiste em aprovar ou desaprovar algo baseando-se unicamente em sua origem.

Ex.: Você gosta de chocolate porque seu antepassado do século XVIII também gostava.

Aponta-se a causa remota como o fator de validade.

Dicto Simpliciter (generalização inadequada)[editar | editar código-fonte]

Ocorre quando o tamanho da amostra é pequeno demais para sustentar uma generalização.

Ex.: Minha namorada me traiu. Logo, as mulheres tendem à traição.

É semelhante à inversão do acidente.

Argumentum ad hominem[editar | editar código-fonte]

Ataque pessoal[editar | editar código-fonte]

Em vez de o argumentador provar a falsidade do enunciado, ele ataca a pessoa que fez o enunciado.[17]

Ex.: Se foi um burguês quem disse isso, certamente é engodo.

O argumento está errado porque foi dito por um "canalha".

Apelo ao rico (ad crumenam)[editar | editar código-fonte]

Essa falácia consiste em pregar que a riqueza ou o sucesso material torna as pessoas corretas.

Ex.: O barão é um homem bem sucedido na vida. Se ele diz que isto é bom, há de ser.

Apelo ao pobre[editar | editar código-fonte]

Oposto ao ad crumenam. Essa é a falácia de assumir que, apenas porque alguém é mais pobre, então é mais virtuoso e verdadeiro.

Ex.: Joãozinho é pobre e deve ter sofrido muito na vida. Se ele diz que isso é uma cilada, eu acredito.

Apelo à autoridade[editar | editar código-fonte]

Argumentação baseada no apelo a alguma autoridade reconhecida para comprovar a premissa.[17]

Ex.: Se Aristóteles disse que o Sol gira ao redor da Terra em uma das esferas celestes, então é certamente verdade.

É como se um especialista pudesse acertar em tudo o que diz, mesmo sendo algo fora da sua área de especialidade. Essa falácia consiste em usar as opiniões de especialistas em áreas nas quais eles são leigos, como um físico se pronunciando sobre antropologia. A opinião dele só vale dentro da física.

No caso acima, Aristóteles não tinha meios de testar essa teoria astronômica, no tempo dele não havia recursos para isso. Entretanto, as teses dele em metafísica certamente podem ser consideradas porque não dependem de instrumentos e experimentação, somente do raciocínio típico de um filósofo.

Apelo à autoridade anônima[editar | editar código-fonte]

Trata-se de fazer afirmações recorrendo a supostas autoridades, mas sem citar as fontes.[17]

Ex.: Os peritos dizem que a melhor maneira de prevenir uma guerra nuclear é estar preparado para ela.

Que peritos?

Argumentum ad lapidem[editar | editar código-fonte]

Desqualificar uma afirmação como absurda, mas sem provas.

Ex.: João, ministro da educação, é acusado de corrupção e defende-se dizendo: "Esta acusação é um disparate".

Baseado em quê? Onde estão as evidências em contrário?

Estilo sem substância[editar | editar código-fonte]

Validar um argumento por sua beleza estética ou pela elegância do argumentador.[17]

Ex.: Trudeau sabe dirigir as massas com muita habilidade. Ele deve ter razão.

Expulsão do grupo (falácia do escocês)[editar | editar código-fonte]

Fazer uma afirmação sobre uma característica de um grupo e, quando confrontado com um exemplo contrário, afirmar que esse exemplo não pertence realmente ao grupo.

Ex.:

  1. Nenhum escocês coloca açúcar em seu mingau.
  2. Ora, eu tenho um amigo escocês que faz isso.
  3. Ah, sim, mas nenhum escocês "de verdade" coloca.

Ou se diz que o "verdadeiro socialismo" não poderia ter causado opressão como no regime stalinista.

A falácia não ocorre se há uma justificativa para o argumento.

Espantalho[editar | editar código-fonte]

Consiste em criar ideias reprováveis ou fracas, atribuindo-as à posição oposta.[15]

Ex.:

  1. Deveríamos abolir todas as armas do mundo porque elas causam guerras. Só assim haveria paz verdadeira.
  2. Meu adversário, por ser de um partido de esquerda, é favorável ao comunismo radical e quer retirar todas as suas posses, além de ocupar as suas casas com pessoas que você não conhece.

O outro é convertido num monstro, num espantalho, uma figura fácil de odiar e na qual todos querem bater visto que sua maldade foi "comprovada". É dessa forma que se faz uma pessoa odiar alguém ou alguma coisa, basta associá-los a outra pessoa ou coisa que todos odeiam. Leva-se a pessoa a odiar o outro por associação.

É uma demonização do oponente.

Egocentrismo ideológico[editar | editar código-fonte]

Realizar um argumento de forma parcial e tendenciosa.

Ex.: O liberalismo é o ideal, pois Smith disse que...

A pessoa só consegue pensar de seu ponto de vista.

Bulverismo[editar | editar código-fonte]

Argumentar partindo do pressuposto de que o oponente já está comprovadamente errado.

Ex.:

  1. Você está dizendo que a Bíblia é correta? Nem vou discutir com você, parei. Sabemos que a ciência comprovadamente explica tudo corretamente.
  2. Se você não acredita que a Bíblia é infalível, já perdeu o argumento, pois é óbvio que ela é.

É um egocentrismo ideológico, não se consegue considerar os pontos de vista do outro.

Falácia da falsa proclamação de vitória[editar | editar código-fonte]

Proclamar vitória, dando a entender que venceu a discussão, sem ter conseguido realmente apresentar bons argumentos.

É uma bravata contra o oponente para intimidá-lo.

Falácias indutivas[editar | editar código-fonte]

Generalização precipitada[editar | editar código-fonte]

Uma pequena amostra leva a uma conclusão tendenciosa.[14]

Amostra limitada[editar | editar código-fonte]

A amostra não representa toda a população. É uma generalização precipitada.

Ex: Na região Sul do Brasil, faz muito frio. Logo, em todo o Brasil faz frio.[14]

Falsa analogia[editar | editar código-fonte]

Duas coisas sem relação são comparadas.

Ex.: Os empregados são como pregos: temos que martelar a cabeça para que cumpram suas funções.[14]

Outras falácias[editar | editar código-fonte]

Círculo vicioso[editar | editar código-fonte]

É a tentativa de provar uma conclusão com base em uma retroalimentação, o efeito reforçando a causa.

Ex.:

  1. A inflação diminui o poder dos salários, temos que aumentar os salários, mas, fazendo-o, teremos que aumentar os preços para pagá-los, o que aumentará a inflação.
  2. A polícia me passou uma multa porque não gosta de mim. E a prova de que eles não gostam de mim é terem me passado uma multa.

Uma coisa leva à outra.

Complexo do pombo enxadrista[editar | editar código-fonte]

Proclamar vitória, dando a entender que venceu a discussão, sem ter conseguido realmente apresentar bons argumentos.

É uma bravata contra o oponente para intimidá-lo. É parecida com a falsa proclamação de vitória.

Esnobismo cronológico[editar | editar código-fonte]

Ocorre quando o pensamento, a arte ou a ciência de um período histórico anterior é tido como inevitavelmente inferior, quando comparado com os equivalentes do tempo presente.

Ex.: A é um argumento antigo, da época em que as pessoas também acreditavam em B. Se B é claramente falso, A também é falso.

É um apelo à tradição ou à antiguidade.

Evidência anedótica[editar | editar código-fonte]

Refere-se a uma evidência informal na forma de anedota (conto, episódio, derivado do grego anékdota, significando "coisas não publicadas") ou de "ouvir falar". A evidência anedótica é chamada de testemunho.

Ex.: Há provas abundantes de que Deus existe e de que continua produzindo milagres hoje. Na semana passada, li sobre uma menina que estava morrendo de câncer. Sua família inteira foi à igreja e rezou e ela se curou.

É um mero boato.

Falácia da pressuposição[editar | editar código-fonte]

Consiste na inclusão de uma pressuposição que não foi previamente esclarecida como verdadeira, ou seja, na falta de uma premissa.

Ex.: Você já parou de bater na sua esposa?

É uma pergunta maliciosa porque se divide em duas. A primeira seria "Por que você bate na sua esposa?", é isso o que se pretende dizer aos ouvintes.

É semelhante à pergunta complexa.

Falácia da probabilidade condicionada[editar | editar código-fonte]

Ocorre quando se expõem estatísticas e probabilidades sem oferecer o contexto necessário para sua interpretação, confundem-se probabilidades condicionais, invertendo-as ou tratando-as como se fossem incondicionais.

Ex.: Os jurados foram expostos à chance de o marido vir a matar a mulher porque ele a espancava, quando o dado relevante, diante do fato consumado (a esposa já tinha sido assassinada), era "Qual a chance de a mulher ter sido morta pelo marido, dado que ele a espancava?". A chance de ser morta por um marido espancador é de 1 em 1.000, de qualquer forma é muito mais alta que o risco de uma mulher ser morta por um marido que não a espanca ou por um estranho qualquer na rua, mas era a pergunta errada.

Falácia de validação pessoal (efeito Forer)[editar | editar código-fonte]

Avaliar algo ou alguém com critérios genéricos, dando a entender que essa avaliação é individual.

Seria como avaliar alguém em função de ser comunista, como se todos os comunistas fossem iguais.

Falácia nomotética[editar | editar código-fonte]

Consiste na crença de que uma questão pode ser resolvida simplesmente dando-lhe um novo nome, quando, na realidade, a questão permanece sem solução.

Ex: Renomear o criacionismo como design inteligente.

Falácias tipo "A" baseado em "B" (conclusão sofismática)[editar | editar código-fonte]

Ocorrem dois fatos. São colocados como similares por serem derivados ou similares a um terceiro fato.

Ex.:

  1. O islamismo é baseado na .
  2. O cristianismo é baseado na fé.
  3. Logo, o islamismo é similar ao cristianismo.

É uma falsa aplicação do princípio do silogismo. Pode-se visualizar como três conjuntos, o cristianismo e o islamismo são dois conjuntos dentro do conjunto fé, mas isso não significa que aqueles dois conjuntos são iguais, eles apenas compartilham o elemento fé.

Ignoratio elenchi (conclusão sofismática)[editar | editar código-fonte]

Consiste em utilizar argumentos que podem ser válidos para chegar a uma conclusão que não tem relação alguma com os argumentos utilizados.

Ex.: Os astronautas do Projeto Apollo eram bem preparados, todos eram excelentes aviadores e tinham boa formação acadêmica e intelectual, além de apresentarem boas condições físicas. Logo, foi um processo natural os Estados Unidos ganharem a corrida espacial contra a União Soviética, pois o povo americano é superior ao povo russo.

Só a conclusão é discutível, as premissas são verdadeiras.

É uma falácia de conclusão irrelevante. Esse é o modelo de falácia porque as premissas não levam à conclusão exposta.

Plurium interrogationum[editar | editar código-fonte]

Ocorre quando se exige uma resposta simples a uma questão complexa.

Ex.: O que faremos com esse criminoso? Matar ou prender?

É um falso dilema.

Red herring (nariz vermelho ou de palhaço)[editar | editar código-fonte]

Falácia cometida quando material irrelevante é introduzido no assunto discutido, para desviar a atenção e chegar a uma conclusão diferente.

Ex.: Será que o palhaço é o assassino? No ano passado, um palhaço matou uma criança.

O fato de um palhaço ter matado uma criança não significa nada, não interfere no caso em questão.

As premissas usadas devem ser relevantes para a conclusão.

Apelo ao lucro[editar | editar código-fonte]

Considerar uma conclusão verdadeira ou falsa conforme suas premissas financeiras.

Ex.:

  1. Se o aquecimento global for verdade, então muitos cientistas vão ganhar dinheiro para pesquisas e muitas empresas vão lucrar milhões para produzirem energia de fontes que não emitem dióxido de carbono. Portanto, o aquecimento global não é verdade.
  2. Se o aquecimento global for verdade, então países pobres ou em desenvolvimento vão ter prejuízo por não explorarem suas jazidas de petróleo e carvão. Portanto, o aquecimento global não é verdade.

A conclusão é válida ou inválida porque vai haver lucro ou prejuízo financeiro. É uma insinuação maliciosa de que as teorias são feitas para causar lucros ou prejuízos às pessoas.

É uma forma de ataque pessoal porque insinua que o oponente tem algo a ganhar com seu argumento. Esse ganho pessoal pode não ser financeiro, é comum insinuar que o oponente tem motivos pessoais para defender um argumento, mas todo argumento deve ser analisado conforme a adequação da conclusão às premissas.

Falso axioma[editar | editar código-fonte]

Consiste em fazer uma afirmação duvidosa parecer uma verdade incontestável.

Ex.: Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher.

Exigência de perfeição[editar | editar código-fonte]

Pede-se mais do que o necessário para resolver um problema.

Ex.: A egiptóloga Fulana de Tal é uma principiante, obteve o doutorado há pouco tempo, tem limitada experiência: não pode julgar um descobrimento tão importante.

É um ataque pessoal.

Tu quoque (tu também)[editar | editar código-fonte]

Consiste em admitir um erro que os outros também cometem, como se fosse uma desculpa.[17]

Ex.: Você também foi acusado de crime de corrupção.

Falácia da conversão[editar | editar código-fonte]

Ex.:

  1. O mendigo pede.
  2. Logo, quem pede é mendigo.

Não respeita as leis da oposição. Pode-se imaginar o conjunto mendigos dentro do conjunto pedintes, mas pode haver pessoas dentro do conjunto pedintes que não fazem parte do conjunto mendigos. Além disso, a negação de que todo mendigo pede é que algum mendigo não pede.

Falácia da oposição[editar | editar código-fonte]

Ex.:

  1. É falso que todo homem é sábio.
  2. Nenhum homem é sábio.

Não respeita as leis da oposição. A conclusão pretende ser a negação da premissa, portanto a sentença certa é "Algum homem não é sábio".

OBS: Algum é a negação (oposição, contrário) tanto de todo como de nenhum.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Falácias e Paradoxos, afilosofia.no.sapo.pt
  2. Falácias e Paradoxos, afilosofia.no.sapo.pt
  3. Logical Fallacies and the Art of Debate
  4. Introduction to Logic Argumentum ad Misericordiam.
  5. Britannica (em Inglês). Página visitada em 03/05/2009.
  6. Dicionário escolar de filosofia - falácia ad hominem. Página visitada em 03/05/2009.
  7. a b c Falácias da ambiguidade. Guia das Falácias. Crítica na Rede.
  8. a b c d e Apelo a motivos (em vez de razões). Guia das Falácias. Crítica na Rede.
  9. a b c d Falácias da dispersão. Guia das Falácias. Crítica na Rede.
  10. a b Erros categoriais. Guia das Falácias. Crítica na Rede.
  11. a b Falácias com regras gerais. Guia das Falácias. Crítica na Rede.
  12. a b c d e Falácias causais. Guia das Falácias. Crítica na Rede.
  13. a b c d Non-sequitur. Guia das Falácias. Crítica na Rede.
  14. a b c d Falácias indutivas. Guia das Falácias. Crítica na Rede.
  15. a b c Falhar o alvo. Guia das Falácias. Crítica na Rede.
  16. a b c d e Erros de definição. Guia das Falácias. Crítica na Rede.
  17. a b c d e Fugir ao assunto. Guia das Falácias. Crítica na Rede.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]