Falseabilidade

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Falseabilidade, falsificabilidade ou refutabilidade é uma propriedade que uma asserção, hipótese ou teoria tem de poder ser provada como falsa. Conceito importante na filosofia da ciência (epistemologia), foi proposto por Karl Popper nos anos 1930, como solução para o chamado problema da indução. Para uma asserção ser refutável ou falseável, em princípio será possível fazer uma observação ou fazer uma experiência física que tente mostrar que essa asserção é falsa.

Por exemplo, a asserção "todos os corvos são pretos" poderia ser falseada pela observação de um corvo vermelho. A escola de pensamento que coloca a ênfase na importância da falseabilidade como um princípio filosófico é conhecida como a Falseabilidade.

Falsear[editar | editar código-fonte]

A falseabilidade foi desenvolvida inicialmente por Karl Popper nos anos 30 do século XX. Popper reparou que dois tipos de enunciados são de particular valor para os cientistas. O primeiro são enunciados de observações, tais como "este cisne é branco". Na teoria da lógica chamamos a estes enunciados existenciais singulares, uma vez que afirmam a existência de uma coisa em particular. Eles podem ser analisados na forma: existe um x que é cisne e é branco.  \left ( \exists x \right ) \left ( Cx \and Bx \right ) \,\! Onde: C é o predicado Cisne, B é o predicado branco.

O segundo tipo de enunciado de interesse para os cientistas categoriza todas as instâncias de alguma coisa, por exemplo "todos os cisnes são brancos". Na lógica chamamos a estes enunciados universais. Eles são normalmente analisados na forma: para todos os x, se x é um cisne então x é branco.  \left ( \forall x \right ) \left ( Cx \to Bx \right ) \,\!

"Leis" científicas, hipóteses com abrangência ampla corroboradas por incontáveis fatos, parte integrante de praticamente todas as teorias científicas (mas não devendo com estas ser confundidas), quase sempre são, em virtude de suas validades gerais esperadas, desta forma. Talvez a questão mais difícil na metodologia científica seja: como podemos chegar às hipóteses, mais especificamente às leis, partindo das observações? Como podemos inferir de forma válida um enunciado universal a partir de enunciados existenciais (por muitos que sejam)?

A metodologia indutivista supunha que se pode passar de uma série de enunciados singulares para um enunciado universal. Ou seja, que se pode passar de um "este é um cisne branco", "ali está outro cisne branco", e por aí em diante, para um enunciado universal como "todos os cisnes são brancos". Este método é claramente inválido em lógica, uma vez que será sempre possível que exista um cisne não-branco que por algum motivo que não tenha sido observado.

Este era o problema da indução, identificado por David Hume no século XVIII e cuja resolução é proposta por Popper, com o princípio da falseabilidade. Esse princípio também cumpria o papel de "critério de demarcação", isto é, que permitisse julgar se uma asserção é ou não "ciência":

O critério de demarcação proposto leva-nos, ainda, à solução do problema da indução, tal como colocado por Hume - do problema da validez das leis naturais. A raiz desse problema está na aparente contradição entre o que pode ser chamado de "tese fundamental do empirismo" - tese segundo a qual só a experiência pode decidir acerca da verdade ou falsidade de um enunciado científico - e o fato de Hume ter se dado conta da inadmissibilidade de argumentos indutivos[1] .

Popper defendeu que a ciência não poderia ser baseada em tal inferência. Ele propôs a falseabilidade como a solução do problema da indução. Popper viu que apesar de um enunciado existencial singular como "este cisne é branco" não poder ser usado para afirmar um enunciado universal, ele pode ser usado para mostrar que um determinado enunciado universal é falso: a observação existencial singular de um cisne negro serve para mostrar que o enunciado universal "todos os cisnes são brancos" é falso. Em lógica chamamos a isto de modus tollens.

Popper rejeitava o princípio indutivista dos positivistas do Círculo de Viena, por ela não proporcionar conveniente sinal diferençador do caráter empírico, não-metafísico, de um sistema teórético(sic); em outras palavras, consiste em ela não proporcionar adequado "critério de demarcação", que para Popper, era o mais importante dos dois.

Denomino problema de demarcação o problema de estabelecer um critério que nos habilite em distinguir entre as ciências empíricas, de uma parte, e a Matemática e a Lógica, bem como os sistemas metafísicos, de outra. Esse problema foi abordado por Hume, que tentou resolvê-lo. Com Kant, tornou-se o problema central da teoria do conhecimento. Se, acompanhando Kant, chamarmos o problema da indução "problema de Hume", poderíamos chamar ao "problema de Kant" o problema da demarcação"[2] .

Referências

  1. POPPER, K. A Lógica da Pesquisa Científica. São Paulo: Cultrix, 2007. Pág. 44.
  2. POPPER, K. A Lógica da Pesquisa Científica. São Paulo: Cultrix, 2007. Pág. 35.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • POPPER, Karl.(1978) A lógica das ciências sociais. Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro.

Ver também[editar | editar código-fonte]