Pano (família linguística)

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Línguas pano (verde-escuro) e línguas tacanas (verde-claro): os pontos indicam a localização documentadas das línguas.

Pano é uma família linguística cujas línguas são faladas por povos indígenas no Brasil, no Peru e na Bolívia.

Descoberta[editar | editar código-fonte]

Descrita como linguística e culturalmente uniforme,[1] a família Pano foi proposta pela primeira vez pelo francês Raoul de la Grasserie em 1890. Nesse trabalho, o autor considera que a família é constituída por sete línguas:

"De la famille linguistique Pano. Sept langues Américaines, le Pano, le Mayoruna Domestica, le Mayoruna Fera, le Maxuruna, le Caripuna, le Culino, le Conibo et le Pacavara forment une seule famille linguistique."[2] (traduzido do francês: "Da família linguística pano. Sete línguas americanas: o pano, o mayoruna domestica, o mayoruna fera, o maxuruna, o caripuna, o culino, o conibo e o pacavara, formam uma só família linguística".)

De la Grasserie descreve a situação etnográfica e geográfica destes grupos, faz uma tabela lexical referente às partes do corpo, nomes de vegetais, adjetivos e de nomes e apresenta uma breve comparação fonético/fonológica dessas sete línguas. Por fim, o autor apresenta algumas anotações gramaticais sobre os pronomes e verbos. É através desse trabalho inicial que começa o tratamento dessas línguas como membros de uma mesma família linguística.

Classificação e distribuição geográfica[editar | editar código-fonte]

Os povos Pano atuais ocupam os territórios do leste peruano, do oeste amazônico brasileiro e do noroeste da Bolívia. Segundo Suárez (1973, p. 137), o grupo Pano pode fazer parte de um tronco linguístico denominado Pano-Takanan, porém há outras propostas, como as de Swadesh (1960) que fala de um "Tacanapano" e de Lathrap (1970, p. 79) sobre um "Macro-Pano". Greenberg (1987, p. 273) propõe um filo do tipo Ge-Pano-Carib. Rodrigues (2000) questiona a hipótese de Greenberg, argumentando que tal hipótese está firmada somente em meios estritamente quantitativos. Assim, Rodrigues considera que o melhor meio para realizar essa classificação seria o qualitativo, concluindo o seguinte: "veo mayor plausibilidad en una hipótese Jê-Tupí-Carib que en la Ge-Pano-Carib."[3]

A classificação de Loos dessa família[4] apresenta alguns homófonos de outras línguas, como por exemplo a língua Canamari, que consta dentro do subgrupo Capanawa e a língua Karipuna Br, que é classificado como "sem agrupamento".

Línguas Pano[editar | editar código-fonte]

  • O subgrupo Yaminawa:
    • Yaminawa 500 P, Br
    • Amawaca 200P
    • Cashinawa/Honikoin 500P, Br
    • Sharanawa/Shanindawa/Chandinawa/Inonawa/ Marinawa 300P
    • Yawanawa 200 Br
    • Chitonawa 35 Br
    • Yoranawa/Nawa/Parquenawa 200P
    • Moronawa 300Br
    • Mastanawa 100P
  • O subgrupo Chacobo
    • Chacobo
    • Arazaire† P
    • Atsawaca† P
    • Yamiaka† P
    • Katukina/Camannawa/Waninnawa 300Br
    • Pacawara 12 Bo
  • O subgrupo Capanawa
    • Capanawa/Pahenbakebo 400 P
    • Shipibo/Conibo/Xetebo 8000 P
    • Remo † Br
    • Marubo 400 Br
    • Waripano † / Panobo/Pano P
    • Isconawa 30 P
    • Taveri/Matoinahã†Br
  • Língua sem agrupamento
    • Cashibo/Cacataibo/Comabo 100 P
    • Karipuna † Br
    • Kaxarari 100 Br
    • Nukimin †+/-136 Br
    • Poyanawa † 137 Br
    • Tutxinawa † Br
  • Subgrupo Mayoruna
    • kulina 35 Br
    • Mawi X/9+e
    • Kapishtana 17/14 dialect of Kulina
    • Chema 12/7f
    • Korubos 300 (aproximadamente) Br
    • Chankuëshbo 5/2
    • Matses/Mayoruna 2000P, 2200 Br

O Matis faz parte de um subgrupo "Pano do Norte" ou "Mayoruna".[5] Neste grupo, estariam inseridos o Matsés, também conhecido como Mayoruna, o Korubo, o Maya e o Kulina-Pano. A língua matsés tem sido identificada por Kneeland (1994, 23) como uma língua à parte dentro da família Pano. O Matis mantém uma proximidade com a língua matsés, estudada Fields, H., Keneeland, Harriet. e Fleck, David. Os estudos feitos por Ferreira (2001a) demonstram que a estrutura gramatical interna da língua matis mantém uma distância significativa de outras línguas da família Pano, como a língua Katukina, estudada por Aguiar (1988 e 1994), a língua Poyanáwa, por Paula (1992), a língua Marubo[6] e a língua Caxinawa.[7] Dessa forma, tais estudos discutem a proposta feita por Erikson (1994), na qual há um subgrupo Mayoruna, assunto que trataremos mais adiante.

O matis e o mayoruna (matsés) são línguas distintas?[editar | editar código-fonte]

Por muito tempo, duas questões têm sido levantadas:

  • O grupo matis e Matsés constituem um único grupo?
  • Falam a mesma língua?

Quando se verifica a forma com que ambos se referem a si próprios, percebe-se que o termo utilizado é o mesmo, matses. Porém, no trabalho com os Kulina-Pano, constatamos, in loco, que este grupo também utiliza "matses" para se autorreferirem. Não seria propriamente uma autodenominação, pois este termo significa "pessoas", "gente", ou ainda é um termo que os distingue dos não indígenas. Para aqueles que não fazem parte de algum grupo indígena, o termo utilizado é matses wötsi, ou seja, "a outra gente". No caso do Matsés e do Matis, este é o termo utilizado, mas para os Kulina (Pano), "o outro" é mayu, provavelmente seja daí que vem o termo "Mayoruna".

As línguas matis e a língua matsés, apesar de serem próximas, quando observadas em seu inventário lexical e até mesmo gramatical, fornecem evidências que são línguas distintas. Fleck e Ferreira (2005) fazem uma comparação léxico-estatística, comparando duzentos itens lexicais do Matis que aparecem em Ferreira (2001a) com os dados do Matsés. Nesse trabalho, o autor mostra que 53-72 por cento dos termos são cognatos.

Além do trabalho de léxico-estatística, também foram realizados os testes de compreensão, tanto por Fleck em seus trabalhos de campo, quanto os realizados pelo autor desta tese com os matis. Fleck (2003a) descreve que colocou um homem velho Matsés para ouvir os matis conversando por um sistema de rádio. Segundo ele, o velho não pôde entender tudo o que era dito, mas era possível entender o assunto. Já um outro rapaz Matsés, que foi trabalhar na frente de atração do Rio Ituí, disse que, depois de alguns meses convivendo com os Matis que ali também se encontravam, pôde se comunicar significativamente, mas sempre por meio de expressões simples. Várias vezes, nos trabalhos de campo realizados pelo autor deste artigo, foram feitos testes de compreensão entre os Matis e entre alguns falantes de Matsés. Em todas as vezes, foi dito que era possível compreender o assunto, mas não totalmente. Também foi possível colocar um rapaz Matsés para ouvir os Matis conversarem; logo após, eram feitas algumas perguntas a respeito do assunto, detalhes do que era dito e do que foi difícil de se compreender. Com relação ao assunto, o rapaz havia compreendido o geral; já os detalhes, algumas coisas eram possíveis de ser explicadas e outras não, sendo que a parte difícil para ele era acompanhar questões que envolviam detalhes da língua.

Com respeito à questão de ser uma variação dialetal ou de duas línguas distintas, tanto Fleck quanto o autor deste artigo verificaram, por meio dos testes realizados, que se está lidando com duas línguas distintas. Além destes testes realizados, os dois pesquisadores (op.cit) estão comparando algumas questões gramaticais, o que tem confirmado a distinção linguística destes dois grupos e que eles fazem parte de um novo grupo dentro da família Pano. Como pudemos notar acima, Loos (1999, p. 229) não cita os Matis, os Korubo e os Kulina-Pano em sua classificação. No entanto, estes quatro grupos e outros encontrados por Fleck entre os Matsés, como os Chankuëshbo e os Kapisho, parecem fazer parte desse subgrupo Mayoruna, proposto por Erikson (1994a). Fleck e Ferreira (2005) apresentam uma proposta de agrupamento que pode ser entendida como uma classificação do subgrupo Mayoruna: Languages known to be in or possibly in the Mayoruna subgroup.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Shell, 1975b; Erikson, 1992 e 1994a
  2. p. 438
  3. p. 102
  4. Loos (1999, p. 228-29)
  5. Erikson (1994a, p.18)
  6. Costa (1992, 2000)
  7. Camargo, (1991)

Leituras[editar | editar código-fonte]

ABREU, J. C. Rã-txa hu-ni-ku-iâ: A língua dos Caxinauás do Rio Ibuacú Afluente do Murú. 2. ed. Rio de Janeiro: Sociedade Capistrano de Abreu, 1914

COUTO, CLÁUDIO A.C. Análise fonológica do Saynáwa (Pano) - A língua dos índios da T. I. Jamináwa do Igarapé Preto (Orient. Lima , Stella V.T.A.P.). Recife, Pe, Diss. Mestrado Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Disponível em pdf (Dez.2010)

ERIKSON, PHILIPPE. Uma singular pluralidade: a etno-história pano. in: Cunha, Manuela Carneiro (org.) História dos índios no Brasil. SP, Companhia das Letras - Secretaria Municipal de Cultura/ FAPESP, 1992 Disponível no Google Livros (Dez. 2010)

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