Fernando Alves de Sousa

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Entrevista realizada a 6 de Fevereiro de 2006 na Escola Básica 2,3 de Maxial (Torres Vedras) e publicada na tiragem de Março de 2006 do Jornal Escolar, de nome Piropo, da mesma escola:

[editar] Entrevista

Painel de homenagem à mulher universitária. Trabalho de 9 metros de comprimento por 3 metros de altura, exposto na sala de convívio da Residência de Estudantes Pedro Álvares Cabral, da Universidade da Beira Interior.
Painel de homenagem à mulher universitária. Trabalho de 9 metros de comprimento por 3 metros de altura, exposto na sala de convívio da Residência de Estudantes Pedro Álvares Cabral, da Universidade da Beira Interior.

No passado dia 6 de Fevereiro a Escola Básica 2,3 de Maxial teve a honra de receber a visita do Mestre Fernando Alves de Sousa. Durante a sua visita às instalações da escola, Alves de Sousa, conversou com os alunos e concedeu-nos uma entrevista, que podem ler nas páginas 10 e 11.

Fernando Alves de Sousa possui uma vastíssima obra espalhada por vários países, nomeadamente: Portugal, Espanha, França, Bélgica, Brasil e Estados Unidos. Obteve a sua formação por intermédio da Sociedade Nacional de Belas Artes, Museu do Prado, Museu do Louvre, Academia Grande Chaumière e das Universidades do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e de Ouro Preto. Ao longo da sua carreira recebeu vários prémios, tendo sido reconhecido em Portugal em vários salões de Primavera e Inverno na Sociedade Nacional de Belas Artes. São inúmeras as instituições portuguesas onde possui trabalhos, das quais se destacam a Assembleia da República, Supremo Tribunal de Justiça, Supremo Tribunal Administrativo, Academia das Ciências de Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, Universidade da Beira Interior e Associação Industrial Portuguesa.

Com 83 anos, continua a trabalhar, de forma entusiasmada, sendo o seu actual projecto a realização de um painel de 6,27 metros de comprimento por 3,5 metros de altura tendo como temática uma interpretação não figurativa inspirada no trabalho dos médicos. Este painel irá ser colocado na entrada principal das novas instalações da Faculdade de Ciências da Saúde, da Universidade da Beira Interior.

P: Com que idade é que começou a pintar? R: O primeiro desenho que fiz, e que chamou a atenção das pessoas, foi aos cinco anos e vivia em Coimbra. Aos treze anos comecei a estudar, trabalhar e a colaborar com um professor que morava em Lisboa. Mais tarde, frequentei outras escolas onde tirei diversos cursos por esse mundo todo.

P: Porque escolheu a pintura e não outra profissão? R: A pintura, ou mais precisamente a arte, não é uma profissão, mas sim um estado de espírito. Muitas vezes, é necessário ter uma profissão para suportar a nossa arte mas, para mim, o significado de profissão é um serviço público. A arte também é um serviço público, mas, não é uma coisa imediata como um carpinteiro fazer uma mesa, ou um médico tratar um doente, é uma coisa para alimentar o espírito. Se nós não tivermos quadros em casa não morremos por causa disso, mas, se o médico não nos tratar nós morremos. A arte é um alimento para o espírito indispensável e, algumas vezes, quando um artista não é compreendido é obrigado a trabalhar noutro ofício, para sustentar o seu trabalho artístico. Mas esse trabalho artístico tem que ter qualidade suficiente como se ele estivesse vivendo daquilo. E acontece, com o tempo, que quando ele ganha prestígio acaba mesmo vivendo daquilo e aí transforma-se numa profissão. Mas é uma coisa secundária.

P: O que mais o atrai no mundo da pintura? R: Não se explicou ainda porque razão é que eu fui para a pintura. Não foi por escolha própria, foi por acidente. Comecei por desenhar para ganhar a minha vida e, pouco a pouco, fui conhecendo artistas de arte mais séria que começaram a achar que eu tinha qualidades e assim comecei a colaborar e a concorrer com trabalhos nos salões oficiais – Salão da Primavera e o Salão do Inverno, que eram inaugurados pelo Presidente da República. Comecei a ser premiado e a ter encomendas de retratos e de cenários para teatro, foi assim que tudo começou, não foi propriamente uma escolha minha. Eu fui escolhido. Mas a minha grande paixão é a escultura.

P: Qual é o tipo de pintura que mais frequentemente realiza ou que mais gosta de fazer? R: É uma pergunta muito difícil de responder porque eu gosto de todas elas. O homem conforme vai ficando mais culto tem tendência para o abstracto, quer dizer, vai tendo tendência de simplificar as coisas. À medida que vai encontrando essa simplicidade de expressão, torna-se mais difícil para o que é menos culto entender essa simplicidade. O menos culto precisa de tudo explicado, o outro não. Por isso, é natural que o homem comece com pinturas figurativas e vá acabar em artes abstractas. Se repararmos nos artistas do século XVIII e XIX já vemos que eles procuravam aproximar-se das coisas menos realistas. Como dizia por vezes Picasso, “com a não-realidade se consegue explicar melhor a realidade”. São manifestações que o homem tem obrigação de ir compreendendo e isso só com muitos anos é que se alcança. Eu agora estou no movimento de arte abstracta que se chama «Pintura de Acção». É uma pintura que pretende agir como se fizesse movimentos para despertar ideias nas pessoas e fazer com que elas compreendam que se deve caminhar na direcção da Paz, do Amor, da Amizade pelos outros, etc. Então, é preciso fazer certas manifestações de expressão que levem uma pessoa a ficar incomodada, em lugar de se fazer uma pintura em que uma pessoa fica num estado contemplativo e diz: “Ai que coisa bonita!” Deve-se fazer uma pintura ou uma escultura que faça com que uma pessoa se sinta incomodada e culpada de qualquer coisa, para tentar melhorar a sua maneira de ser. Eu estou nessa fase, chamada «Pintura de Acção», movimento que começou pelos EUA e se expandiu para na Alemanha, na escola da Bauhaus.

Painel de homenagem à mulher universitária.
Painel de homenagem à mulher universitária.

P: Em todos os locais onde já realizou exposições quais foram os que gostou mais? R: Os lugares que mais me impressionaram e onde gostei mais de fazer exposições foram, por esta ordem: Madrid, Barcelona, Paris, EUA e Brasil.

P: O que recomenda a uma pessoa que goste de pintar e queira seguir pintura? R: Eu não diria só pintura. A arte não é só pintura, existe a escultura, a arte decorativa, o desenho de ilustração, a arte gráfica, etc. Há tanta arte! O tipo de arte que mais se tem desenvolvido em Portugal é a arte gráfica. O que faz com que se vá para aí? Não se sabe, uma pessoa começa a sentir vontade de fazer “aquilo”. Eu vou contar até uma história engraçada: Um dos grandes pintores italianos, Tiziano Vecelli, um grande artista da época do século XVI, entrou numa ocasião numa igreja, ainda criança, viu um quadro muito importante de um grande artista e saiu da igreja a falar sozinho dizendo: “EU SOU PINTOR, EU SOU PINTOR”. Quando viu o quadro sentiu que ele tinha que fazer “aquilo”, é um chamamento, é a natureza que pede para fazermos essas coisas. Não se vai para ali porque se acha que se é muito bom e pronto. É o que está a acontecer agora, por isso se vê tanta asneira. Não se vai para uma coisa por se querer ir para essa coisa, mas porque se é chamado para a fazer. É um sacerdócio. Com a música é a mesma coisa.

P: Acha que a pintura tem grande futuro no nosso país? R: A arte tem futuro em qualquer parte do mundo, porque é absolutamente necessária. Tem períodos em que por má administração ou por falta de desenvolvimento cultural dos povos, por vezes consequência também dessa má administração, sofre certos recuos ou certos estagnamentos, mas ela tem que avançar porque é absolutamente necessária. Dizia Baudelaire, poeta francês, que “a poesia não servia para nada mas era indispensável”.

P: Qual foi o seu último trabalho? R: O meu último trabalho tem 9 metros de comprimento por 3 metros de altura. Está na sala de convívio da Residência de Estudantes Pedro Alvares Cabral, da Universidade da Beira Interior. É um painel de homenagem à mulher universitária.

P: Qual o seu projecto actual? R: O trabalho que estou a iniciar agora, também é muito grande, tem 6,27 metros de comprimento por 3,5 metros de altura. É inspirado no trabalho dos médicos nos hospitais, porque é para colocar na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior. É um painel abstracto – abstracto é uma palavra que não me agrada muito, prefiro «não figurativo», afinal de contas se analisarmos bem a arte, toda ela é abstracta, nenhum quadro é parecido com a natureza. Um quadro é uma recordação da natureza, por isso lhe chamo interpretação. Dizia o poeta Goethe a uma senhora que se ela pintasse um retrato de um cão exactamente igual ao cão, não ficava com um quadro do cão mas sim com dois cães. Quer dizer, a arte tem que ser sempre qualquer coisa inspirada na natureza, mas que saia de dentro de nós e que sejamos nós a falar do que pretendemos transmitir aos outros. Não é estar a mostrar-lhes como é que é a natureza, para demonstrar isso não era preciso nem a arte, nem o quadro, nem o livro, nem a música para nada. Não é só olhar e já está tudo, tem que ser a nossa linguagem a falar das coisas. Então, o que eu pretendo fazer é um trabalho não figurativo inspirado no trabalho dos médicos. Vai ser feito em três cores: o azul, que é a definição que se dá ao sangue venoso; o carmim, que é o sangue arterial e o amarelo, que é a cor que representa a medicina. Com estas três cores vou elaborar uma série de formas onde se persintam nervos e órgãos que recordem o coração, o pulmão, as costelas, etc. Tudo isso vai ser um embaranhado de linhas, de círculos e de curvas que dêem a sensação do movimento do sangue dentro do corpo e algumas manchas mais violentas, que possam dar a sensação das hemorragias que levam à morte. Enfim, até que chegue ao final do quadro nunca sei bem como é que o acabo, mas esta vai ser a grande temática. Haverá referência a figuras que obtiveram Prémio Nobel na medicina.

Damos por terminada esta agradável entrevista agradecendo-lhe a sua disponibilidade, cooperação e simpatia. Não tem que agradecer, eu é que estou muito agradecido de se lembrarem de mim para dizer estas palavrinhas. Gosto sempre de falar de arte, não da minha, mas da arte em geral que é uma coisa que leva os homens a meditar. E tudo que leva o homem a meditar é bom e é útil.

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