Ficção científica do Brasil
A ficção científica do Brasil é um segmento literário que nunca demonstrou a popularidade conquistada por outros segmentos, embora possua um público cativo e fiel de aficionados. Foi praticada por diversos autores influenciados por escritores internacionais do gênero, que tem grande popularidade nos Estados Unidos ou Europa. Por outro lado, alguns autores brasileiros consagrados se aventuraram em obras únicas que podem ser consideradas ficção científica, como Machado de Assis no conto O Imortal.[1]
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[editar] História
[editar] Origens
Os primeiros textos do gênero no país datam do século XIX, mas considera-se que o primeiro autor especializado foi Jerônymo Monteiro[2], a partir do segundo quarto do século XX. Nos anos 30, Berilo Neves publicou três livros de contos curtos de ficção científica.[3]
Muitos autores brasileiros clássicos assinaram eventualmente obras que podem ser classificadas como de ficção científica ou algo próximo disso. Um exemplo é Machado de Assis (1839-1908), cuja noveleta "O alienista" tem alguma coisa a ver com o gênero. Monteiro Lobato, falecido em 1948 (época em que Jerônymo Monteiro se firmava como especialista em FC), produziu todo um universo ficcional infanto-juvenil - o do Sítio do Pica-pau Amarelo - ao qual não faltam elementos de FC, como sugerem mesmo alguns títulos ("A chave do tamanho", "A reforma da natureza", "Viagem ao céu") mas que são basicamente fantasias. Entretanto ele produziu um romance adulto de FC pura, "O choque das raças" (ou "O Presidente Negro") que porém não goza de boa fama por seus aspectos racistas e machistas.[1]. E outros autores da primeira metade do século XX também incursionaram no gênero, como Menotti del Picchia, Érico Veríssimo e Orígenes Lessa.
[editar] Geração GRD (Primeira Onda)
Um novo impulso à ficção científica escrita por brasileiros veio nos anos 60 e 70, com uma coleção de livros lançada pelo editor baiano Gumercindo Rocha Dorea ("GRD"), que passou a encomendar trabalhos dentro do gênero a autores já consagrados na literatura mainstream.
Foi na chamada "Geração GRD" - a partir do livro Eles herdarão a Terra, de Dinah Silveira de Queiroz -, que apresentou um começo de organização de autores brasileiros neste campo. A época viu a publicação de obras de Fausto Cunha, André Carneiro, Guido Wilmar Sassi, Antonio Olinto, Zora Seljan, Clovis Garcia e vários outros, alguns somente em contos isolados, saídos em antologias.
O principal nome revelado por GRD foi o escritor André Carneiro, considerado, ao lado de Braulio Tavares, um dos melhores prosadores na história da ficção científica brasileira. Nos anos 80, o jornalista Jorge Luiz Calife, depois de conquistar fama como um dos inspiradores do romance "2010", de Arthur C. Clarke, lançou uma trilogia própria, "Padrões de Contato".
Entre 12 e 18 de Setembro de 1965 foi realizada a "1.ª Convenção Brasileira de Ficção Científica" , nesse evento foi lançado o primeiro fanzine brasileiro O Cobra(Órgão Interno da 1.ª Convenção Brasileira de Ficção Científica)[1].
[editar] Segunda Onda
É chamada de Segunda Onda a geração de autores brasileiros de ficção científica que sucede a Geração GRD, mas que não são exatamente discípulos da mesma (tida como Primeira Onda). Articulada inicialmente em torno de diversos fanzines e posteriormente vista na edição brasileira da revista Isaac Asimov Magazine (publicada entre 1990 e 1993) e, depois, da editora Ano-Luz (1997-2004), além de diversas outras iniciativas, mantém ocupados os editores de fanzines e o pequeno "fandom" literário local.
O romance ficcional brasileiro também já atraiu interesse acadêmico, tendo gerado volume escritos pelo estudioso e autor brasileiro Roberto de Sousa Causo, pelo historiador Francisco Alberto Skorupa, pelo francês Eric Henriett, que aponta a produção brasileira no subgênero da História Alternativa como a mais original dessa vertente. Posteriormente foi alvo de estudos também pela brasilianista norte-americana M. Elizabeth Ginway.
Entre os nomes mais atuantes na atual geração encontram-se Octavio Aragão (organizador e criador do Universo Intempol, iniciativa brasileira de gerar uma "franchising" multimidia, como as americanas "Jornada nas Estrelas" ou "Arquivo X"), Carlos Orsi, Fábio Fernandes, o premiado romancista e roteirista Max Mallmann e, talvez o mais bem-sucedido autor brasileiro dentro do gênero - com livros publicados no Brasil e Portugal - Gerson Lodi-Ribeiro.
A prova que o gênero está vivo e atuante é o surgimento de outros autores e projetos a partir da virada dos anos 1990.
[editar] Terceira Onda
A Terceira Onda é a atual geração de escritores de ficção científica brasileira. Assim como acontece com a segunda onda em relação a primeira, a terceira onda não é propriamente discípula da segunda. É a geração onde os fanzines foram substituídos por blogs na Internet ou por revistas eletrônicas. São novos talentos literários que vem se destacando, trazendo de volta o brilho da literatura fantástica no Brasil. Alguns poucos escritores da Segunda Onda se reinventaram, mantendo sintonia com os novatos da terceira, prosseguindo com seu ritmo de publicações, onde destacam-se Octavio Aragão, Gerson Lodi-Ribeiro e Fábio Fernandes (que publicou seu primeiro romance cyberpunk Os Dias da Peste em 2009).
Além de iniciativas de editoras como a Record e Novo Século, o selo Unicórnio Azul, da Editora Mercuryo, retornou às atividades em meados de outubro de 2006 com lançamentos de autores nacionais como Octavio Aragão, com A Mão que Cria, e Gerson Lodi-Ribeiro, com o já clássico Outros Brasis. Ao mesmo tempo, a Novo Século reforçava seu acervo de livros sobre vampiros e de Fantasia; a Devir publicava A Corrida do Rinoceronte, de Roberto de Sousa Causo, e a republicação de O Jogo do Exterminador e Orador dos Mortos, de Orson Scott Card; e a Aleph presenteava o mercado com uma belíssima edição de O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick. Esta configuração positiva passou a definir um novo momento promissor para a ficção científica brasileira.
Da Terceira Onda destacamos:
- Flávio Medeiros, que publicou o techno-thriller Quintessência (2004) e do romance Casas de Vampiro (2010).
- John Dekowes, autor de Só os Anjos Morrem Cedo (2004).
- Tibor Moricz, publicitário de origem húngara, autor dos livros Síndrome de Cérbero(2007) e Fome(2008).
- Clinton Davisson Fialho, jornalista e autor de Fafia: A Copa do Mundo de 2022 (1999) e Hegemonia - O Herdeiro de Basten (2007)
- Cristina Lasaitis com coletânea de contos Fábulas do Tempo e da Eternidade (2008).
- Richard Diegues, autor de CyberBrasiliana (2010).
- Hugo Vera, publicitário e escritor, organizador da coletânea Space Opera - Odisseias Fantásticas Além da Fronteira Final (2011) e do romance Revolução em Vera Cruz (no prelo)
- Larissa Caruso, escritora, também organizadora da coletânea Space Opera - Odisseias Fantásticas Além da Fronteira Final (2011) e autora do romance Nébula de um Buraco Negro (no prelo)
- Celso P. Santos, autor de As Flores Antárticas: Conspiração Lunar (2001) e Roleta Russa em Marte (2009).
- Gian Danton que junto com Jean Okada lançou a série de tiras (HQ) no blog Exploradores do Desconhecido.
- Ricardo Guilherme com O Espaço Inexplorado (2010)
- Goulart Gomes com Deixando de Existir (2009)
Os editores Richard Diegues e Gianpaolo Celli lançam pela Tarja Editorial as coletâneas Steampunk - Histórias de um Passado Extraordinário, FC do B - Ficção Científica Brasileira, Cyberpunk - Histórias de um Futuro Extraordinário e a série Paradigmas (volumes 1, 2, 3 e 4), revelando novos talentos literários tais como Ludimila Hashimoto, Romeu Martins e Marcelo Jacinto Ribeiro.
Os editor Erick Santos Cardoso lança pela Editora Draco as coletâneas Imaginários (volumes 1, 2 e 3), além dos romances Guerra Justa de Carlos Orsi.
[editar] Revistas
A revista mensal brasileira especializada em ficção científica Sci-Fi News atua há mais de 10 anos no mercado nacional. Aborda filmes, seriados estrangeiros, assim como livros e acontecimentos no mercado nacional. Com uma coluna mensal sobre o mercado de literatura, e recorrente publicação de contos inéditos do escritor Renato Azevedo, o veículo propõe o ato da leitura a um público mais acostumado ao estímulo visual da TV e da Internet.
A Sci-Fi News teve uma "filha", a Sci-Fi Contos com contos e noveletas inéditos e inspirados por séries e universos conhecidos, porém a iniciativa foi cancelada em sua terceira edição. Revistas como Starlog, Quark e Cine Monstro surgiram ao longo dos últimos anos, mas também deixaram de ser publicadas.
[editar] Televisão
O romance ficcional no Brasil apareceu de forma mais visível como elemento complementar em telenovelas (como O Clone, da autora Glória Perez, Kubanacan de Carlos Lombardi e Caminhos do Coração e Os Mutantes, da TV Record)
[editar] WebSéries
Em 2010 o conceito de Websérie, onde filmes curtos, dinâmicos, no ritmo do usuário da Internet, são veiculados diretamente na Rede, sem o intermédio da mídia tradicional, fez surgir produções totalmente voltadas à ficção científica, tais como 2012 - Onda Zero, idealizada e dirigida por Flávio Langoni, e 3%, uma criação de Pedro Aguilera.
[editar] Filmes brasileiros e Outras Mídias
Em 1995, o cineasta Allan Bispo, então estreante na computação gráfica, cria o primeiro filme de curta metragem brasileiro a usar composição de imagens reais com computação gráfica e 100% finalizado em computador. Hollywood F/X, é uma paródia aos filmes de efeitos hollywoodianos da época. O filme teve grande repercussão no Anima Mundi edição de 1997 e 98 no Rio e em São Paulo.
Com o surgimento em 2006 da mostra de cinema fantástico, e em 2009, do festival de cinema de terror de São Paulo, abriu-se espaço para exibições de longas e curtas de ficção científica, além do Anima Mundi, em sua 18 edição. Estes festivais estão se atualizando, porém ainda falta um espaço próprio para o gênero ficção científica, mecanismos para fomento e divulgação das produções nacionais.
O veterano Gerson Lodi-Ribeiro foi contratado pela Hoplon Infotainment para trabalhar no desenvolvimento do universo ficcional Taikodom, onde são ambientados o game online Taikodom e as obras literárias; e o curta-metragem Céus de Fuligem, produção de Marco Nápoli, busca resgatar as influências do cinema hollywoodiano para nossa realidade.
Atuando em outras mídias, o autor paulistano Rynaldo Papoy, com sua experiência de ator, criou o primeiro podcast brasileiro de ficção científica, que pode ser ouvido no endereço (ver links importantes).
[editar] Filmes brasileiros de ficção científica
[editar] Clube de Leitores de Ficção Científica
Divulgando o universo FC no Brasil, encontramos também o Clube de Leitores de Ficção Científica, um dos mais longevos expoentes da comunidade independente de fãs do gênero, com seus mais de 20 anos. Hoje, tendo a frente o presidente Eduardo Torres, o clube possui cerca de 500 membros registrados, publicando também o fanzine Somnium - que até seu centésimo exemplar foi publicado no formato impresso e hoje é adquirido em formato virtual (PDF) - com trabalhos inéditos de FC, Fantasia e Horror.
Referências
- ↑ a b c , Roberto de Sousa Causo Editora UFMG, Ficção científica, fantasia e horror no Brasil, 1875 a 1950, 2003. ISBN 8570413556, 9788570413550
- ↑ Emlio Fraia. (mar. 2005) "". Revista Trip. Trip Editora e Propaganda SA. ISSN 1414-350X.
- ↑ , Braulio Tavares, Romero Cavalcanti Casa da Palavra, Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros, 40, 2003. ISBN 8587220675, 9788587220677
[editar] Ligações externas
- Space Opera - Divulgando o Gênero Fantástico
- - Contos de Ficção Cientifica
- Editora Draco - Publicações de Literatura Fantástica do Brasil
- Tarja Editorial - Publicações de Literatura Fantástica do Brasil