Filosofia clínica

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Filosofia clínica é uma proposta de utilização terapêutica da filosofia. O termo (em alemão: klinische Philosophie, em francês: philosophie clinique, em inglês: clinical philosophy) foi cunhado pelo psicólogo e filósofo alemão Hilarion Petzold[nota 1] em 1971[1] [2] e faz parte de conceitos de diversos outras pessoas, entre outros do filósofo japonês Kiyokazu Washida[3] [nota 2] e do cientista norte-americano James Elliott.[4]

Contexto[editar | editar código-fonte]

A partir década de 1980 o termo, declinado para aconselhamento filosófico (do inglês: philosophical counseling), ganhou popularidade pela divulgação da obra do filósofo canadense Lou Marinoff[5] , pelo filósofo francês Marc Sautet[nota 3] e - no Brasil - pelo psicanalista e filósofo Lúcio Packter.[6]

O termo aconselhamento filosófico assemelha-se à Philosophische Praxis (português, literalmente: prática filosófica ou consultório filosófico, não confundir com a filosofia prática de Aristóteles) criada pelo filósofo alemão Gerd B. Achenbach[nota 4] em 1981, a partir da concepção epicurista de filosofia como "terapia da alma".[7] Neste contexto o aconselhamento filosófico é entendido como uma proposta para resolver questões típicas da psicoterapia (problemas pessoais de relacionamento, auto-imagem, etc.).[8]

A prática filosófica no sentido de Achenbach é definida principalmente pela preocupação de tornar acessível a metodologia e o conhecimento filosófico ao público em geral e usar o potencial prático da filosofia como recurso terapêutico para indivíduos, organizações ou empresas através de consultas individuais, discussões de grupo, seminários, palestras, viagens ou cafés filosóficos.[6]

No Brasil[editar | editar código-fonte]

Lúcio Packter criou a sua versão da Terapia filosófica chamada de Filosofia clínica, em 1994. Considerado o precursor do ramo no Brasil[9] , a Filosofia Clínica, segundo Packter, "direciona e elabora, a partir da metodologia filosófica, procedimentos de diagnose e tratamento endereçados a questões existenciais"[10] [8] ou - em outras palavras - "trata-se da "utilização da filosofia aplicada ao indivíduo".[11] Cabe ressaltar que na Filosofia Clínica de Packter os conceitos de doença e patologia deixam de existir, havendo, então, representações de mundo que originam maneiras singulares de existência. Em decorrência disso, fica explícito que a Filosofia Clínica não promove curas, mas auxilia na tentativa de resolução de choques estruturais que causam um mal-estar existencial à pessoa.

A Filosofia Clínica elaborada por Packter é baseada em diversas correntes filosóficas, entre elas no Logicismo, na Epistemologia, na Fenomenologia, na Historicidade, no Estruturalismo e na Analítica da Linguagem, entre outras abordagens".[12]

Inicialmente foi divulgada e implantada pelo Instituto Packter, que ofereçe cursos para se habilitar como "filósofo clínico" ou "especialista em filosofia clínica" e organiza viagens de estudos, entre outros eventos. A Associação Nacional dos Filósofos Clínicos (ANFIC), criada em 2008, defende os interesses dos "filósofos clínicos" formados pelo Instituto Packter e organizações vinculadas.[13]

Há ainda diversas outras pessoas, consultórios e empresas ativas na área do aconselhamento filosófico, porém às vezes com outras prioridades, não necessáriamente ligado ao aspecto terapêutico de Packter. Existem, entre outros, a Casa do Saber (São Paulo), o Instituto Mukharajj Brasilan (Rio de Janeiro) e a Nova Acrópole.[9]

Crítica[editar | editar código-fonte]

No Brasil, especialmente a Filosofia Clínica de Packter tem divido opiniões entre psiquiatras, psicólogos e também filósofos. Dentre os problemas apontados, alguns médicos questionam a sua insuficiência para evidenciar disfunções orgânicas que originam males existenciais, afirmação esta contestada por diversos médicos psiquiatras. Já os psicólogos acreditam ser errônea a racionalização de questões que certamente pertencem ao campo das emoções. Também é chamada a atenção para os altos custos das consultas e de consultorias que "filósofos" vêm prestando nos Estados Unidos e o seu contraste com os baixos valores cobrados por "filósofos clínicos" no Brasil.[14] [6]

Regulamentação[editar | editar código-fonte]

No Brasil, o "filósofo clínico" não é uma profissão regulamentada. A Associação Nacional dos Filósofos Clínicos, criada em 2008, estabeleceu diversos estatutos e um código de ética para aqueles que se habilitaram em cursos do Instituto Packter ou por instituições parceiras autorizada por este.[15] [16]

Literatura (seleção)[editar | editar código-fonte]

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. Hilarion Petzold – Wikipedia. de.wikipedia.org (2012). Página visitada em 20 de abril de 2012.
  2. Kiyokazu Washida - Wikipedia, the free encyclopedia. en.wikipedia.org (2012). Página visitada em 20 de abril de 2012.
  3. Marc Sautet - Wikipedia, the free encyclopedia. en.wikipedia.org (2012). Página visitada em 22 de abril de 2012.
  4. Gerd B. Achenbach – Wikipedia. de.wikipedia.org (2012). Página visitada em 22 de abril de 2012.

Referências

  1. Petzold, H.G. , 1971. "Philosophie Clinique, Thérapeutique philosophique, Philopraxie", por ocasião da sua nomeação como professor no Institut St. Denis, Etablissement d'Enseignement Supérieur Libre des Sciences Théologiques et Philosophiques, Paris.
  2. Hilarion Petzold, Integrative Therapie: Modelle, Theorien und Methoden für eine schulenübergreifende Psychotherapie, Volume I, Paderborn 1993 (Google Books). books.google.de (2012). Página visitada em 20 de abril de 2012.
  3. Department of Ethics and Clinical PhilosophyGraduate School of Letters,Osaka University. let.osaka-u.ac.jp (2011). Página visitada em 20 de abril de 2012.
  4. Socratic Dialogue And Ethics - Google Books. books.google.de (2012). Página visitada em 20 de abril de 2012.
  5. "The Socratic Shrink - New York Times", The New York Times, New York Times Company, 21 de março de 20004. Página visitada em 22 de abril de 2012.
  6. a b c A Filosofia e seus usos: crítica e acomodação (tese de doutourado de Marli Aparecida Pechula). diaadiaeducacao.pr.gov.br (2007). Página visitada em 22 de abril de 2012.
  7. Historisches Wörterbuch der Philosophie [Philosophische Praxis Gerd B. Achenbach] vol. 7, Baseléia 1989. achenbach-pp.de (2012). Página visitada em 22 de abril de 2012.
  8. a b VEJA on-line: Um papo-cabeça. veja.abril.com.br (2001). Página visitada em 22 de abril de 2012.
  9. a b Época - Filosofia para todos. revistaepoca.globo.com (2005). Página visitada em 22 de abril de 2012.
  10. Revista Psique - Editora Escala, nº1, pág. 66, 2005.
  11. Lúcio Packter: Filosofia Clínica: Propedêutica, 2001, pág. 11 (3. ed. 2005)
  12. Revista Psique - Editora Escala, nº1, pág. 66, 2005.
  13. ANFIC | Nossa História. anfic.org (2012). Página visitada em 22 de abril de 2012.
  14. VEJA on-line: Sócrates no Divã. veja.abril.com.br (2004). Página visitada em 22 de abril de 2012.
  15. ANFIC | Estatuto do Filósofo Clínico e do Especialista em Filosofia Clínica. anfic.org (2012). Página visitada em 22 de abril de 2012.
  16. ANFIC | Código de Ética do Filósofo Clínico e do Especialista em Filosofia Clínica. anfic.org (2012). Página visitada em 22 de abril de 2012.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]