Aretas V (gassânida)

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Flávio Aretas
rei dos gassânidas
Governo
Reinado ca. 529 - 569
Antecessor Gabalas IV
Sucessor Alamundaros III
Vida
Morte 569
Pai Gabalas IV

[Flávio] Aretas (em grego: [Φλάβιος] Ἀρέθας; 569), em fontes gregas,[1] Al-Ḥarith ibn Jabalah (em árabe: لحارث بن جبلة‎), em fontes árabes, e Khalid ibn Jabalah (em árabe: خالد بن جبلة), em fontes islâmicas,[2] [3] foi um rei dos gassânidas, um povo árabe pré-islâmico que viveu na fronteira oriental do Império Bizantino. O quinto governante gassânida de mesmo nome, reinou de ca. 529 a 569 e desempenhou um papel importante nas guerras com a Pérsia e nos assuntos da Igreja Ortodoxa Síria. Por seus serviços para Bizâncio, foi feito um patrício e um gloriosissimus.[4]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Começo da vida[editar | editar código-fonte]

Aretas foi o filho de Gabalas IV (Jabalah) e irmão de Abocarabo (Abu Karib), filarca de Palestina Tertia.[5] [6] Tornou-se governante dos gassânidas e filarca da Arábia Pétrea e Palestina Segunda, provavelmente em 528, após a morte de seu pai na batalha de Tanuris. Logo após (ca. 529), foi elevado pelo imperador bizantino Justiniano I (r. 527–565), nas palavras do historiador Procópio, "para a dignidade de rei", tornando-se o comandante geral de todos os aliados árabes do império (federados) no Oriente com o título de patrício (em grego: πατρίκιος καὶ φύλαρχος τῶν Σαρακηνῶν , lit. "patrício e filarca dos sarracenos"). Sua atual área de controle, contudo, pode inicialmente ter sido limitada pela parte nordeste da fronteira árabe de Bizâncio.[4] [7] [8] Na época, os bizantinos e seus aliados árabes estava engajados em uma guerra contra o Império Sassânida e seus árabes clientes, os lacmidas, e o movimento de Justiniano foi concebido para criar uma contraparte para o poderoso governante lacmida, Alamundaros III (Al-Mundhir III), que controlava as tribos árabes aliadas dos persas.[9] [10]

Carreira militar[editar | editar código-fonte]

A Diocese bizantina do Oriente. Um número de tribos árabes sob os filarcas deles foram assentadas como federados nas várias províncias. Com a elevação de Aretas à realeza, os gassânidas, com base na Palestina II, tornaram-se primordiais entre eles.[11]

Nesta capacidade, Aretas lutou em nome dos bizantinos em todas as suas numerosas guerras contra a Pérsia.[4] Já em 528, foi um dos comandantes enviados em uma expedição punitiva contra Alamundaros.[12] [13] Em 529, ajudou a suprimir a revolta samaritana, capturando 20.000 meninos e meninas que ele vendeu como escravos. Foi talvez bem sucedido na participação neste conflito que levou Justiniano a promovê-lo para filarca supremo.[14] Possível que ele tomou parte com seus homens na vitória bizantina em Dara, em 530, embora nenhuma fonte explicitamente menciona-o.[15] Em 531, liderou um contingente de 5000 árabes na batalha de Calínico; Procópio, uma fonte hostil do governante gassânida, afirma que os árabes, estacionados à direita bizantina, traíram os bizantinos e fugiram, custando-os a batalha. João Malalas, contudo, cujo registro é geralmente mais confiável, registra que enquanto alguns árabes de fato fugiram, Aretas permaneceu firme.[13] [16] [17] A acusação de traição nivelada por Procópio contra Aretas parece estar ainda mais comprometida pelo fato de, ao contrário de Belisário, ele foi mantido no comando e estava ativo nas operações contra Martirópolis no final do ano.[18]

Em 537/538 ou 539, colidiu com Alamundaros dos lacmidas por mais direitos de pastagem nas terras ao sul de Palmira, próximo da antiga Estrada Diocleciana.[13] [19] [20] De acordo com os relatos posteriores de al-Tabari, o governante gassânida invadiu o território de Alamundaros e levou rico espólio. O governante persa, Cosroes I (r. 531–579), usou esta disputa como um pretexto para recomeçar as hostilidades com os bizantinos, e renovou a guerra, que eclodiu em 540.[3] Na campanha de 541, Aretas e seus homens, acompanhados por 1200 bizantinos sob os generais João, o Glutão e Trajano, foram enviados por Belisário para um raide na Assíria. A expedição foi bem sucedida, penetrando longe no território e reunindo muita pilhagem. Em algum momento, no entanto, o contingente bizantino foi enviado de volta, e subsequentemente Aretas falhou em reunir-se com ou informar Belisário de seu paradeiro. De acordo com o registro de Procópio, isto, além do surto de uma doença entre o exército, forçou Belisário a se retirar. Procópio alega ainda que isto foi feito deliberadamente para que os árabes não tivessem que compartilhar a pilhagem deles. Em sua História Secreta, contudo, Procópio dá um registro diferente da inação de Belisário, completamente alheia ao governante gassânida.[13] [21] [22] Em ca. 544/545, Aretas esteve envolvido em conflito armado com outro filarca árabe, Asuades (al-Aswad).[23]

De ca. 564 em diante, enquanto os dois grandes império estavam em paz na Mesopotâmia após a trégua de 545, o conflito entre seus aliados árabes continuou. Em um raide repentino, Alamundaros capturou um dos filhos de Aretas e sacrificou-o. Logo após, contudo, os lacmidas sofreram uma pesada derrota em uma batalha campal entre os dois exércitos árabes.[24] [25] [26] O conflito continuou, com Alamundaros encenando repetidos raides na Síria. Em um destes raides, em junho de 554, Aretas encontrou-o em na batalha decisiva de Yawm Halima (o "Dia de Halima"), celebrado na poesia árabe pré-islâmica, próximo de Cálcis, em que os lacmidas foram derrotados. Alamundaros caiu em campo, mas Aretas também perdeu seu filho mais velho Gabalas.[27] [28]

Em novembro de 563, Aretas visitou o imperador Justiniano em Constantinopla, para discutir sua sucessão e os raides contra seus domínios pelo governante lacmida Ambros III ('Amr III ibn al-Mundhir), que foi finalmente comprado por Justiniano.[29] [30] [31] Ele certamente deixou uma impressão vívida na capital imperial, não apenas por sua presença física: João do Éfeso registra que anos depois, o imperador Justino II (r. 565–578), que desceu à loucura, estava assustado e foi esconder-se quando foi dito a ele, "Aretas está vindo para você".[32]

Quando Aretas morreu em 569, possivelmente durante um terremoto,[33] foi sucedido por seu filho Alamundaros III (al-Mundhir III). Tomando vantagem disso, o novo rei lacmida Caboses lançou um ataque, mas foi decisivamente derrotado.[29] [34]

Políticas religiosas[editar | editar código-fonte]

Em contraste com seus senhores bizantinos, Aretas foi um firme monofisista e rejeitou o Concílio da Calcedônia. Vazão para seu governo, Aretas apoio as tendências anti-calcedonianas na região da Síria, presidindo concílios e engajando-se na teologia, contribuindo ativamente para a revitalização da igreja monofisista durante o século VI.[35] Assim, em 542, após duas décadas de perseguições que tinha decapitado a liderança monofisista, ele apelou para a nomeação de novos bispos monofisistas na Síria para a imperatriz Teodora, cujos próprios ensinamentos monofisistas foram bem conhecidos. Teodora então apontou Jacó Baradeu e Teodoro como bispos. Jacó, em particular, provaria-se um líder muito competente, convertendo pagãos e expandindo e fortalecendo a organização da igreja monofisista.[4] [29] [36]

Referências

  1. Shahîd 1995, p. 260, 294–297
  2. Shahîd 1995, p. 216–217
  3. a b Greatrex 2002, p. 102-103
  4. a b c d Kazhdan 1991, p. 163
  5. Martindale 1992, p. 111
  6. Shahîd 1995, p. 69
  7. Martindale 1992, p. 111-112
  8. Shahîd 1995, p. 84–85, 95–109
  9. Greatrex 2002, p. 88
  10. Shahîd 1995, p. 63
  11. Shahîd 1995, p. 357
  12. Shahîd 1995, p. 70-75
  13. a b c d Martindale 1992, p. 112
  14. Shahîd 1995, p. 82-89
  15. Shahîd 1995, p. 132-133
  16. Greatrex 2002, p. 92-93
  17. Shahîd 1995, p. 133-142
  18. Shahîd 1995, p. 142
  19. Greatrex 2002, p. 102
  20. Shahîd 1995, p. 209-210
  21. Greatrex 2002, p. 108-109
  22. Shahîd 1995, p. 220–223, 226–230
  23. Martindale 1992, p. 112, 137
  24. Martindale 1992, p. 112–113
  25. Greatrex 2002, p. 123
  26. Shahîd 1995, p. 237–239
  27. Martindale 1992, p. 111; 113
  28. Greatrex 2002, p. 129-130
  29. a b c Martindale 1992, p. 113
  30. Greatrex 2002, p. 135
  31. Shahîd 1995, p. 282-288
  32. Shahîd 1995, p. 288
  33. Shahîd 1995, p. 337
  34. Greatrex 2002, p. 136
  35. Shahîd 1995, p. 225-226
  36. Greatrex 2002, p. 129-112

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Greatrex, Geoffrey; Lieu, Samuel N. C.. The Roman Eastern Frontier and the Persian Wars (Part II, 363–630 AD). Londres: Routledge, 2002. ISBN 0-415-14687-9.
  • Kazhdan, Alexander Petrovich. The Oxford Dictionary of Byzantium. Nova Iorque e Oxford: Oxford University Press, 1991. ISBN 0-19-504652-8.