Fome de 1958-1961 na China

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A Fome de 1958-1961 ou Grande Fome Chinesa (三年大饑荒), oficialmente referida como Os três anos de desastres naturais (三年自然灾害), foi o período em que a República Popular da China entre 1958 e 1961, em que péssimas políticas econômicas causaram fome em massa resultando em milhões de mortes. As frases "Três anos de dificuldades econômicas" e "Três duros anos" também são usadas por oficiais chineses para descrever este período.

Causas[editar | editar código-fonte]

Até o inicio dos anos 1980, a instância do governo Chinês, refletida pelo nome "Três anos de desastres naturais", era de que a fome foi largamente resultado de uma série de desastres naturais acumulados com erros de planejamento. Pesquisadores fora da China, porém, concordam que as massivas mudanças institucionais e políticas, graças ao Grande Salto Adiante foram os fatores chave na fome.[1] Desde a década de 1980, os oficiais chineses reconhecem a importância dos erros políticos que causaram o desastre, alegando que este foi causado por 35% problemas naturais e 65% por ingerência.

Durante o Grande Salto Adiante, a agricultura foi organizada em comunidades e o cultivo de terra privado foi proibido. Esta coletivização forçada reduziu tremendamente os incentivos para os camponeses trabalharem corretamente. Produção de ferro e aço foram identificados como requerimento chave para o progresso econômico. Milhões de camponeses foram ordenados a se distanciarem do trabalho agrário e se juntarem na produção de ferro e aço.

Junto com a coletivização, o governo central decretou varias mudanças nas técnicas agrárias baseadas nas idéias do pseudo-cientista Russo Trofim Lysenko. Uma dessas idéias era o plantio denso, onde a densidade das plantações era inicialmente triplicadas e subsequente, duplicada novamente. A teoria era que plantas da mesma espécie não competem entre si. Na pratica elas competem, o que causou um péssimo crescimento da lavoura, e baixas colheitas. Outra política baseada nas idéias de um colega de Lysenko, Teventy Maltsev, encorajava os camponeses por toda a China a plantar profundamente no solo, de 1 a 2 metros. Eles acreditavam que o solo mais fértil está bem ao fundo da terra, permitindo raízes mais fortes crescerem. Porém, pedras, solo e areia eram jogadas para cima em vez, enterrando o solo.

Estas mudanças radicais na organização coincidiram com mudanças climáticas adversas, incluindo secas e enchentes. Em julho de 1959, o Rio Amarelo inundou o leste da China. De acordo com o Centro de Desastres,[2] isto diretamente matou, seja por fome da falha do plantio ou afogamento, um estimado número de 2 milhões de pessoas, enquanto outras areas também foram afetadas de outras maneiras. Isto é classificado como o 7º pior desastre natural do século XX.

Em 1960, pelo menos algum nível de seca ou clima ruim afetou 55% da terra cultivada, enquanto 60% do plantio não recebia chuvas.[3] A Encyclopædia Britannica dos anos de 1958 a 1962 também reportava clima anormal, seguido de secas e enchentes. Isto incluiu 300mm de chuvas em Hong Kong durante 5 dias em junho de 1959, parte de um padrão que atingiu todo sul da China.

Como resultado destes fatores, a produção de grãos da China caiu 15% em 1959 comparado com 1958. Logo após ocorreu uma nova queda 15% em 1960. Não houve melhora até 1962, quando o Grande Salto Adiante foi encerrado.

De acordo com o trabalho do ganhador do premio Nobel, economista e especialista em fomes em massa, Amartya Sen, a maioria das fomes em massa não se resultam somente da baixa produção de alimentos, mas também da distribuição ineficiente, juntamente com a falta de informação e muitas vezes informação incorreta, que estendem o problema. No caso das fomes chinesas, a população urbana tinha direitos protegidos para uma certa quantidade de grãos. Oficiais locais do interior mentiam inflando os níveis de produção no papel que suas comunidades tinham conseguido, em reposta a nova organização econômica, porem os camponeses locais eram abandonados com um resíduo muito inferior a cota.

Resultado[editar | editar código-fonte]

De acordo com o livro estatístico chinês de 1984, a colheita caiu de 2,000,000 de toneladas em 1958 para 1,435,000 toneladas em 1960. Devido a falta de comida e o incentivo a se casamento neste período do tempo, a população era de aproximadamente 658,590,000 e 1961, algo como 13,480,000 menos de 1959. A taxa de nascimentos caiu de 2,922% em 1958 para 2,089% em 1960, enquanto a taxa de mortes subiu de 1,198% em 1958 para 2,543% em 1960, a médias dos números para 1962-1965 era de 4% e 1% respectivamente.

Os relatórios oficiais de mortes mostram um dramático aumento em um número de províncias e vilas. Na província de Sichuan, a mais populosa província da China, por exemplo, o governo reportou 11 milhões de mortes de uma média populacional de 70 milhões durante 1958-1961, uma morte para cada sete pessoas. No condado de Huaibin, província de Henan, o governo reportou 102 mil mortes de uma população de 378 mil em 1960. A nível nacional, as estatísticas oficiais implicam 15 milhões de "mortes anormais", a maioria resultado de fome.

Especialistas acreditam que o número de mortes reportado pelo governo seja seriamente reduzido. Muitos professores e acadêmicos estimam que o número de "mortes anormais" esteja entre 17 milhões a 50 milhões. Alguns analistas ocidentais como Patricia Buckley Ebrey estimam que de 20 a 40 milhões de pessoas morreram de fome causado por políticas ruins do governo e desastres naturais. J. Banister estima este número em 23 milhões. Li Chengrui, antigo ministro do Instituto nacional de estatísticas da China, estimou em 22 milhões o número de mortos em 1998. Seu número foi baseado na estimativa de Ansley J. Coale e Jiang Zhenghua de 17 milhões. Cao Shuji estima 32.5 milhões.

As estimativas variam largamente por causa dos dados imprecisos, graças as tentativas do governo de esconder a situação atual, todos os dados relacionados eram classificados como extremamente confidenciais até 1983. Devido às implicações políticas não prazerosas, algumas pessoas negam a validade de qualquer destas estimativas baseadas na "falta de um confiável censo nacional". Assim como Wim F. Werthheim, professor emérito da universidade de Amsterdam, escreveu em seu artigo "Wild Swans and Mao's Agrarian Strategy":

Normalmente argumenta-se que os censos da década de 1960 "entre 17 e 29 milhões de chineses" aparentam estar desaparecidos, em comparação com os censos oficiais da década de 1950. Porém estes cálculos não parecem ter qualquer semblante de confiabilidade... é difícil de acreditar que, de repente, num curto período de tempo (1953-1960), a população da China tenha saltado de 450 milhões para 600 milhões.[3]

Esta afirmação, porém, não menciona o fato que o governo Chinês tornou público o número de mortes há mais de 20 anos atrás.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. China: A Century of Revolution. Narr. Will Lyman. Ed. Howard Sharp. and Sue Williams Dir. (WinStar Home Entertainment, 1997); Demeny, Paul and Geoffrey McNicoll, Eds. "Famine in China". Encyclopedia of Population. vol. 1 (New York: Macmillan Reference USA, 2003) p. 388-390
  2. 100 top disasters of the 20th century
  3. a b Asia times online

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Ashton, Basil, Kenneth Hill, Alan Piazza, Robin Zeitz, "Famine in China, 1958-61", Population and Development Review, Vol. 10, No. 4. (Dec., 1984), pp. 613–645.
  • Banister, J. "Analysis of recent data on the population of China", Population and Development, Vol.10, No.2, 1984.
  • Cao Shuji, The deaths of China's population and its contributing factors during 1959-1961. China's Population Science (Jan.2005) (In Chinese)
  • China Statistical Yearbook (1984), edited by State Statistical Bureau. China Statistical Publishing House, 1984.Page 83,141,190
  • China Statistical Yearbook (1991), edited by State Statistical Bureau. China Statistical Publishing House, 1991.
  • China Population Statistical Yearbook (1985), edited by State Statistical Bureau. China Statistical Bureau Publishing House, 1985.
  • Coale, Ansley J., Rapid population change in China, 1952-1982, National Academy Press, Washington, D.C., 1984.
  • Li Chengrui(李成瑞): Population Change Caused by The Great Leap Movement, Demographic Study, No.1, 1998 pp. 97–111
  • Jiang Zhenghua(蒋正华),Method and Result of China Population Dynamic Estimation, Academic Report of Xi'an University, 1986(3). pp46,84
  • Peng Xizhe, "Demographic Consequences of the Great Leap Forward in China's Provinces", Population and Development Review, Vol. 13, No.4. (Dec., 1987), pp. 639–670
  • Official Chinese statistics, shown as a graph.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]