Fonologia da língua portuguesa

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A fonologia do português varia consideravelmente entre seus dialetos, chegando, em casos extremos, a causar dificuldades na inteligibilidade. Este artigo tem como foco as pronúncias consideradas geralmente como padrão. Como o português é uma língua pluricêntrica, isto é, possui mais de um centro de referência, e as diferenças entre o português europeu (PE) e o português brasileiro (PB) podem ser consideráveis, as duas variedades são indicadas sempre que necessário.

Para maiores informações sobre as diferentes variações de sotaque, ver dialetos do português; para as mudanças sonoras ocorridas ao longo da história, ver história da língua portuguesa.

Índice

[editar] Consoantes

[editar] Sinopse

O inventário consonantal do português é bastante conservador; as africadas medievais /ts/, /dz/, /tʃ/, /dʒ/ fundiram-se com as fricativas /s/, /z/, /ʃ/, /ʒ/, respectivamente, porém não umas com as outras, e não houve mudanças significantes nos fonemas consonantais desde então. No entanto, diversos fonemas consonantais possuem alófonos especiais quando se localizam no início ou final de uma sílaba, e outros passam por mudanças alofônicas quando estão no fim ou início de uma palavra.

Fonemas consonantais do português[1][2]
Bilabial Labio-
dental
Dentoalveolar Palatal Velar Uvular
alveolar [3] plano labial [4] plano
Nasal m ɲ¹
Plosiva p b ² ² k g
Fricativa f v s³ z³ ʃ³ ʒ³ ʁ4, 5
Aproximante[5] j w
Apr. lateral l6 ʎ
Tepe ɾ5
¹ Na maior parte do Brasil e de Angola, a consoante designada doravante por /ɲ/ pode ser pronunciada como uma aproximante palatal nasal [j̃] que nasaliza a vogal que a precede: [ˈnĩj̃u].[6]
² Em diversos dialetos brasileiros (como aqueles falados nos estados do Rio de Janeiro e Bahia), as oclusivas dentais são africadas para [tʃ] e [dʒ] antes de /i/ e /ĩ/.
³ No final das sílabas, as sibilantes /s/, /z/, /ʃ/, /ʒ/ ocorrem por distribuição complementar.[carece de fontes?] Na maior parte do Brasil, são alveolares: /s/ é utilizado antes das consoantes surdas ou no final da palavra, enquanto /z/ é utilizado antes de consoantes sonoras; ex.: isto /ˈistu/, turismo /tuˈɾizmu/.[2] Na maior parte de Portugal, e no Rio de Janeiro e em alguns estados do Norte do Brasil, as sibilantes situadas no final das sílabas tornaram-se palatoalveolares, /ʃ/ antes de consoantes surdas ou no final da palavra, e /ʒ/ antes de consoantes sonoras: isto /ˈiʃtu/, turismo /tuˈɾiʒmu/.[carece de fontes?]
4 A consoante designada doravante por /ʁ/ tem uma variedade de realizações, dependendo do dialeto. No Brasil, este som pode ser velar, uvular, alveolar ou glotal, e pode ser surdo a menos que esteja colocado entre consoantes sonoras,[2] embora seja costumeiramente pronunciado como uma fricativa velar surda ([x]), uma fricativa glotal surda ([h]), uma fricativa uvular surda ([χ]) ou uma vibrante múltipla alveolar ([r]). Na Europa, suas mais frequentes realizações são a fricativa uvular sonora ([ʁ]), a vibrante múltipla uvular ([ʀ]) e o vibrante múltipla alveolar ([r]).[7] Ver também R gutural.
5 Os dois fonemas róticos, /ʁ/ e /ɾ/, sofrem contraste apenas quando entre vogais. No início das palavras e depois de /l/, /z/, /ʒ/ e de vogais nasais apenas a primeira ocorre e nos conjuntos consonantais (ex: pr, fr, cr,...) apenas o segundo acontece, enquanto em outras situações a maioria dos dialetos usa apenas a segunda. No entanto, diversos dialetos brasileiros, entre eles o dialeto carioca, utilizam-se da segunda no final das sílabas.
6 A consoante /l/ é velarizada nos dialetos europeus. Na maioria dos dialetos brasileiros, /l/ é vocalizado para [w] no final das sílabas.[2] No português brasileiro coloquial, o il átono pode receber o valor de [ju], como em fácil [ˈfasju].[8]

[editar] Notas

  • As consoantes nasais não ocorrem normalmente no fim das sílabas. O /n/ no fim de sílabas pode ocorrer em palavras de uso mais erudito, por alguns falantes.[7] O /ɲ/ no início de palavras ocorre somente em poucos empréstimos linguísticos.[9]
  • No norte e centro de Portugal,as plosivas sonoras /b/, /d/ e /g/ podem sofrer lenição e se transformarem nas fricativas [β], [ð], e [ɣ] respectivamente, exceto no início de palavras, ou depois de vogais nasais.[9][10]
  • Nas pronúncias européias, as fricativas pós-alveolares sofrem fricção apenas no fim da sílaba.[9]

[editar] Pares mínimos

Fonema Exemplo Notas
/m/ mato [ˈmatu]
/p/ pato [ˈpatu]
/b/ bato [ˈbatu]
/n/ nato [ˈnatu]
/t/ ta(c)to [ˈtatu] Soletrado com um c mudo na ortografia europeia, e sem o mesmo na ortografia brasileira.
/d/ dato [ˈdatu]
/f/ faca [ˈfakɐ]
/v/ vaca [ˈvakɐ]
/s/ saca [ˈsakɐ]
/z/ zaca [ˈzakɐ]
/ɾ/ pira [ˈpiɾɐ]
/l/ galo [ˈgalu]
/ɲ/ pinha [ˈpiɲɐ]
/ʃ/ chato [ˈʃatu]
/ʒ/ ja(c)to¹ [ˈʒatu] Soletrado com um c mudo na ortografia europeia, e sem o mesmo na ortografia brasileira.
/ʎ/ galho [ˈgaʎu]
/j/ pais [ˈpajʃ] Pode-se formar pares entre o [j] de pais e o [i] do sobrenome Paes.
/w/ (ele) riu [ʁiw] Pode-se formar pares entre o [w] de (ele) riu e o [u] de (eu) rio.
/k/ ca(c)to [ˈkatu] ou [ˈkaktu] Soletrado com um c mudo na ortografia europeia, e com um c sonoro na ortografia brasileira.
/g/ gato [ˈgatu]
/kʷ/ quais [ˈkʷaiʃ] Pode-se formar pares entre o de /kʷ/ quais e o /ku/ de (vós) coais.
/gʷ/ guano [ˈgʷɐnu] Pode-se formar pares entre o de /gʷ/ guano e o /gu/ de goano.
/ʁ/ rato [ˈʁatu]

[editar] Vogais

Quadro das vogais portuguesas.

O português tem uma das fonologias mais ricas das línguas românicas, com vogais orais e nasais, ditongos nasais e dois ditongos nasais duplos. As vogais semifechadas /e/, /o/ e as vogais semiabertas /ɛ/, /ɔ/ são quatro fonemas separados, ao invés do espanhol, e o contraste entre elas é usado para apofonia. O português europeu também possui duas vogais centrais, uma das quais tende a ser omitida na fala como o e caduc do francês.

Como o catalão, o português usa a altura vocálica para diferenciar sílabas tônicas de átonas; as vogais /a/, /ɛ/, /e/, /ɔ/, /o/ tendem a se tornar /ɐ/, /e/, /i/, /ɨ/, /o/, /u/ quando átonas (embora /ɨ/ não ocorra na maioria dos dialetos do Brasil). Os dialetos de Portugal são caracterizados pela redução de vogais em proporção maior que os outros. Os ditongos decrescentes seguido por uma das semivogais /j/ ou /w/; ainda que exista a ocorrência de ditongos crescentes, eles podem ser interpretados como hiatos.

[editar] Classificação das vogais

Expressando no AFI (pronúncia de Portugal):

Vogais orais
/i/ /'si/ si
/e/ /'se/
/ɛ/ /'sɛ/
/ɔ/ /'pɔʃ/ pós
/o/ /'poʃ/ pôs
/u/ /ˈtu/ tu
/ɐ/ /'dɐ/ da
/a/ /'da/
/ɨ/; /'sɨ/ se
Vogais nasais
/ĩ/ /'vĩ/ vim
/ẽ/ /ˈẽtɾu/ entro
/ɐ̃/ /ˈɐ̃tɾu/ antro
/õ/ /'sõ/ som
/ũ/ /ˈmũdu/ mundo

De acordo com a sua pronúncia na palavra as vogais são classificadas em:

[editar] Nasalidade

Vogais orais: /i/, /e/, /ɛ/, /ɨ/ (não no Brasil), /ɐ/, /a/, /u/, /o/, /ɔ/.

Vogais nasais: /ĩ/, /ẽ/, /ɐ̃/, /ũ/, /õ/.

[editar] Grau de abertura

Vogais fechadas: /i/, /ɨ/, /u/

Vogais semi-fechadas: /e/, /o/

Vogais semi-abertas: /ɛ/, /ɐ/, /ɔ/

Vogais abertas: /a/

[editar] Semivogais

As semivogais na língua portuguesa são consoantes aproximantes que se juntam a uma vogal para formar uma sílaba (ex.: na palavra mau, a letra u é uma semivogal e a é uma vogal). Em português, os ditongos crescentes—isto é, aqueles em que a semivogal vem antes da vogal—surgem somente em alguns casos em que a ortografia preconiza usar "qu-" ou "gu-", os quais em nível pós-lexical acrescenta-se o som aproximante [w] após as oclusivas labiais /kʷ/ e /gʷ/, à frente da vogal seguinte; porém, também pode ocorrer foneticamente em outras circunstâncias, onde as semivogais ocorrem em variação livre com /i/ ou com /u/, como acontece por exemplo em palavras como quiabo [kiˈabu ~ ˈkjabu], suar [suˈaɾ ~ ˈswaɾ].[11]

Expressando no AFI (pronúncia de Portugal):

Ditongos decrescentes orais
/aj/ /'saj/ sai
/ɐj/ /'plɐjnɐ/ plaina
/ɛj/ /ɐˈnɛjʃ/ (nalguns locais do Centro de Portugal [ɐˈnɐjʃ] ) anéis
/ej/ /'sej/ (nalguns locais do Centro de Portugal [sɐj] ) sei
/ɔi/ /'mɔj/ mói
/oj/ /ˈmoitɐ/ moita
/uj/ /'fuj/ fui
/iw/ /'viw/ viu
/ew/ /'mew/ meu
/ɛw/ /'vɛw/ véu
/aw/ /'maw/ mau
/ɐw/ /'ɐw/ ao
/ow/ /'sow/ (fora do Norte de Portugal muitas vezes [so] ) sou
Ditongos decrescentes nasais
/ɐ̃j/ /'mɐ̃j/ mãe
/õj/ /'põj/ põe
/ɐ̃w/ /'mɐ̃w/ mão
/ũj/ /'mũjto/ muito

[editar] Fonemas

[editar] Exemplos de fonemas

O fonema /ch/ pode ser representado na escrita pela letra 'x' ou pelo dígrafo 'ch'.

[editar] Regras de uso

depois das sequências iniciais en- (enxada, enxugar) e me- (mexer, mexerico);

[editar] Curiosidades

[editar] Ver também

Aniceto dos Reis Gonçalves Viana

Referências

  1. Cruz-Ferreira, Madalena (1995), "European Portuguese", Journal of the International Phonetic Association 25 (2): p.91
  2. a b c d Barbosa, Plínio A. & Eleonora C. Albano (2004), "Brazilian Portuguese", Journal of the International Phonetic Association 34 (2): 227-232
  3. Chinelo, Cerveja, Jacaré, Mexer, Cheiro, Lanche, Chá
  4. Bisol (2005), p. 122 Citação: A proposta é que a sequencia consoante velar + glide posterior seja indicada no léxico como uma unidade monofonemática /kʷ/ e /ɡʷ/. O glide que, nete caso, situa-se no ataque não-ramificado, forma com a vogal seguinte um ditongo crescente em nível pós lexical. Ditongos crescentes somente se formam neste nível. Em resumo, a consoante velar e o glide posterior, quando seguidos de a/o, formam uma só unidade fonológica, ou seja, um segmento consonantal com articulação secundária vocálica, em outros termos, um segmento complexo.
  5. Arlo Faria. Applied Phonetics: Portuguese Text-to-Speech (em inglês). University of California, Berkeley: [s.n.]. 7 p.
  6. Thomas, Earl W. (1974), A Grammar of Spoken Brazilian Portuguese, Vanderbilt University Press, ISBN 0-8265-1197-X
  7. a b Mateus, Maria Helena & Ernesto d'Andrade (2000), The Phonology of Portuguese, Oxford University Press, ISBN 0-19-823581-X
  8. Major, Roy C. (1992), "Stress and Rhythm in Brazilian Portuguese", in Koike, Dale April & Macedo, Donaldo P, Romance Linguistics: The Portuguese Context, Westport, CT: Bergin & Garvey, ISBN 0-89789-297-6
  9. a b c Cruz-Ferreira, Madalena (1995), "European Portuguese", Journal of the International Phonetic Association 25 (2): p. 92
  10. Mateus, Maria Helena & Ernesto d'Andrade (2000), The Phonology of Portuguese, Oxford University Press, ISBN 0-19-823581-X, p. 11
  11. Bisol (2005), p. 121-122

[editar] Bibliografia

 Leda Bisol. Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro. 4ª ed. Porto Alegre - Rio Grande do Sul: EDIPUCRS, 2005. ISBN 85-7430-529-4

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