Francisco José de Lacerda e Almeida

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Francisco José de Lacerda e Almeida (São Paulo, 1753 – Cazembe, 1798), Cavaleiro da Ordem de Cristo, Doutor em Matemática pela Universidade de Coimbra, Lente da Real Academia dos Guardas da Marinha de Lisboa, Sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa, Capitão de Fragata e Governador dos Rios de Sena[1] , foi um dos maiores viajantes exploradores do século XVIII.

Durante 10 anos percorreu grande parte da América do Sul, por caminhos fluviais, entre Belém, Vila Bela e São Paulo na campanha de demarcação de fronteiras entre o Brasil e a América espanhola. Mais tarde, percorreu parte de Moçambique e da atual Zâmbia, no que passaria a ser a primeira tentativa científica de travessia de África. Magnus Roberto de Mello escreveu a seu respeito: "A demarcação das fronteiras da América do Sul e a expedição de travessia da África estão entre as maiores aventuras científicas do século XVIII. Lacerda e Almeida participou de ambas"[2] .


Biografia[editar | editar código-fonte]

A antiga Sé de São Paulo onde Lacerda e Almeida foi batizado em 1753

Francisco José de Lacerda e Almeida nasceu em São Paulo em 1753. Era filho do capitão português José António de Lacerda e da luso-brasileira de Itu, D. Francisca de Almeida Pais[3] . O capitão José António de Lacerda, natural de Leiria tinha emigrado para São Paulo, onde possuía uma das únicas três farmácias aí existentes em 1765, situada na atual Praça da Sé [4] . Por parte da mãe, cuja família foi descrita por Pedro Taques na sua obra Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica (títulos Taques Pompeus, Laras e Godoys) [5] , Lacerda e Almeida descendia de alguns dos primeiros povoadores de São Vicente como Estêvão Gomes da Costa ou Garcia Rodrigues, e de conhecidos sertanistas e bandeirantes como Lourenço Castanho Taques, o primeiro descobridor das minas de ouro do Brasil, que "tendo recebido um convite do príncipe regente Dom Pedro em 1674 para o descobrimento de ouro e prata (...) resolveu-se com seus cabedais e força de armas penetrar o sertão dos gentios Cataguazes (...) e conseguiu o 1.º conhecimento das minas, a princípio chamadas de Cataguazes, e mais tarde (...) chamadas Minas Gerais"[6] .

A Academia Real da Marinha de Lisboa onde Lacerda e Almeida foi professor

Formação e primeiros anos da vida profissional[editar | editar código-fonte]

Lacerda e Almeida faz parte da elite brasileira que no final do século XVIII foi estudar para a Universidade de Coimbra, recentemente reformada pelo Marquês de Pombal. Não se sabe onde fez seus primeiros estudos, mas os registos da Universidade de Coimbra indicam que em 1772, Lacerda e Almeida já se encontrava matriculado no 2.° ano de Filosofia e no 1.° ano de Matemática[7] . Com ele encontravam-se outros "brasileiros", entre os quais o seu futuro colega de trabalho no Brasil, o mineiro Antônio Pires da Silva Pontes. Em 1777, aos vinte e quatro anos, recebeu o grau de doutor em Matemática[8] e Astronomia, tendo sido aprovado nemine discrepante.

Demarcação das fronteiras do Brasil[editar | editar código-fonte]

Em 1780 Lacerda e Almeida e o seu colega Antônio Pires da Silva Pontes, também doutorado pela Universidade de Coimbra, receberam a incumbência de tomarem as medidas astronômicas necessárias à demarcação dos limites fronteiriços do Mato Grosso com as colônias castelhanas. A missão demarcadora, que deixou Lisboa em 1780, com destino a Belém do Pará, era um desdobramento do Tratado de Santo Ildefonso, assinado em 1777.

De Belém, os astrônomos seguiram para Vila Bela, no Mato Grosso, onde começaram a atuar na demarcação das fronteiras. Lacerda e Almeida recebeu a incumbência de explorar as bacias do Rio Guaporé e do Rio Paraguai. Por fim, dirigiu-se a Cuiabá e dali a São Paulo, onde chegou em 1790. Foram mais de dez anos explorando o sertão do Brasil.

Lacerda e Almeida deixou uma série de diários relativos a cada uma das etapas da sua grande viagem pelo interior do Brasil, além de mapas e tabelas de latitudes e longitudes. Estes diários viriam a ser publicados em 1841, por ordem da Assembleia Legislativa da Provincia de São Paulo, com o título de Diário da viagem do Dr. Francisco José de Lacerda e Almeida pelas capitanias do Pará, Rio Negro, Matto-Grosso, Cuyabá, e S. Paulo, nos annos de 1780 a 1790.

Mapa Inglês mostrando a rota da viagem de Lacerda e Almeida até Cazembe (rota 4)

Regresso a Portugal[editar | editar código-fonte]

Lacerda e Almeida chegou de volta a Portugal em 1791, tornando-se professor da Academia Real dos Guardas da Marinha. Entretando, enquanto ainda viajava pelo Brasil, já tinha sido eleito sócio da Academia Real das Ciências.

Em 1797, foi nomeado Governador dos Rios de Sena (Zambézia), na África Oriental, pelo então ministro e secretário de Estado da Marinha e do Ultramar, D. Rodrigo de Sousa Coutinho. Tinha por missão específica fazer a travessia da África, entre Moçambique e Angola.

Primeira tentativa de travessia de África[editar | editar código-fonte]

Em outubro de 1797 Lacerda e Almeida já se encontra em Moçambique. O seu Diário da viagem de Moçambique para os Rios de Senna indica que saiu de Quelimane a 30 de Outubro de 1797 et que chegou a Tete, capital dos Rios de Sena, a 23 de janeiro do ano seguinte. Depois de um periodo de vários meses de preparação Lacerda e Almeida dirigiu, entre julho e outubro de 1798, o que viria a ser a "primeira expedição científica no sul da África Central (...) resultando na descoberta do Cazembe (...) e do lago Moero"[9] , na fronteira atual da Zâmbia com a República Democrática do Congo.

Depois de ter percorrido mais de 1300 Km desde Tete, Lacerda e Almeida chegou, já doente e com febres, a Cazembe, então parte do reino de Lunda, a 3 de outubro de 1798, onde contacta com o Rei Muata Lequéza, 4.° soberano do Cazembe[10] , que o recebe como "irmão". Passadas duas semanas veio a falecer sem conseguir concluir a travessia.

Diário de Lacerda e Almeida contendo instruções para a continuação da missão

No seu diário de viagem deixou ordens expressas escritas para que seus subordinados continuassem a missão. Todavia, houve uma revolta e a expedição retornou a Moçambique. Os homens que continuaram fiéis ao Padre Francisco João Pinto, nomeado pelo próprio Lacerda e Almeida antes de falecer para lhe suceder no comando da expedição, ainda permaneceram alguns meses no Cazembre mas também regressaram a Tete sem tentar continuar até Angola, como inicialmente previsto.

O diário de viagem do explorador foi salvo e trazido para Tete e publicado pela primeira vez em Lisboa entre 1844 e 1845 nos Anais Marítimos e Coloniais por iniciativa do Marquês de Sá da Bandeira acompanhado do diário da viagem de regresso a Tete pelo Padre Francisco João Pinto. Estes documentos virão a ser traduzidos mais tarde para inglês e publicados em Londres em 1873 numa obra intitulada The Lands of Cazembe: Lacerda´s journey to Cazembe in 1798 pelo explorador inglês Sir Richard Francis Burton, que escreveu "se o Dr. Lacerda não executou o seu projeto, o seu sucesso parcial aumentou, consideravelmente, o nosso conhecimento sobre o interior de África, (...) até que o Dr. Livingstone tenha regressado da sua terceira expedição, os escritos de Lacerda devem continuar a fazer autoridade"[11] .

Em 1879, num dos seus livros de História, intitulado Os Grandes Navegadores do século XVIII (3.° volume da História Geral das Grandes Viagens e dos Grandes Viajantes), o conhecido escritor e historiador francês Júlio Verne, escreve três páginas sobre Lacerda e Almeida, lamentando a falta de documentação mais completa sobre o explorador e exprimindo "uma pena profunda de não ter podido (…) escrever mais demoradamente sobre a história dum homem que fez descobertas tão importantes, e em relação ao qual a posteridade é soberanamente injusta deixando-o no esquecimento"[12]

Homenagens e locais a que deixou o nome[editar | editar código-fonte]

Trevo de Pontes e Lacerda no Mato Grosso

A cidede de Pontes e Lacerda no Estado do Mato Grosso foi assim chamada em homenagem aos dois cientistas, Silva Pontes e Lacerda e Almeida, que desenharam os primeiros esboços da carta geográfica dos rios das bacias Amazônica e do rio Prata[13] .

Outros locais no Brasil, como o Rio Lacerda e Almeida no Estado de Rondônia ou a Ilha Lacerda e Almeida no rio Paraná, Estado de São Paulo, receberam nomes em homenagem ao trabalho levado a cabo por Lacerda e Almeida naquelas regiões.

Em África, a primeira homenagem foi uma iniciativa do Rei do Cazembe, que mandou instalar um "Maxâmo", à memória de Lacerda e Almeida, que que o major Pedroso Gamito ainda teve oportunidade de ver em 1832[14] . O major Gamito explica que os Maxâmos são "os jazigos dos Muatas [reis] que os Cazembes reverenciam como lugares sagrados"[15] .

Em 1893, uma povoação de Moçambique, na margem direita do Zambeze, recebeu o nome de Lacerdónia em homenagem ao explorador[16] .

Referências

  1. Filipe Gastão de Almeida de Eça – "Lacerda e Almeida, escravo do dever e mártir da ciência", Lisboa 1951, pág. 41
  2. Magnus Roberto de Mello Pereira e André Akamine Ribas - "Francisco José de Lacerda e Almeida – Um astrônomo paulista no sertão africano", Editora Universidade Federal do Paraná (Coleção Ciência e Império), 2012, contracapa
  3. Filipe Gastão de Almeida de Eça – "Lacerda e Almeida, escravo do dever e mártir da ciência", Lisboa 1951
  4. Prof.ª Dr.ª Elza C. O. Sebastião - "Apostila Introdução a Farmácia", Universidade Federal de Ouro Preto, 2010
  5. Pedro Taques/Luis Gonzaga da Silva Leme - "Genealogia Paulistana", Tit. Taques Pompeus e Laras, Vol. IV e Tit. Godoys, Vol. VI[1]
  6. Pedro Taques/Luis Gonzaga da Silva Leme - "Genealogia Paulistana", Tit. Taques Pompeus Vol. IV, pág.232 e 233
  7. Filipe Gastão de Almeida de Eça – "Lacerda e Almeida, escravo do dever e mártir da ciência", Lisboa 1951
  8. Prof. Jaime Carvalho e Silva – "A Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra (1771-1911)", disponível no site da Universidade de Coimbra[2]
  9. sir Harry Hamilton Johnston - "A History of the Colonization of Africa by Alien Races", University Press, Cambridge 1905, pág. 52, disponível no Internet Archive (em inglês) [3]
  10. Pedroso Gamito - "O Muata Cazembe", Lisboa 1854, pág. 231
  11. sir Richard Francis Burton - "The Lands of Cazembe: Lacerda´s journey to Cazembe in 1798", Londres 1873, pág. 10 e 11
  12. Júlio Verne - "Les Grands Navigateurs du XVIIIe siècle", vol. 3 da "Histoire des Grands Voyages et des Grands Voyageurs", Ed. Hetzel, Paris 1879, pág. 243 a 245, disponível no Internet Archive (em francês) [4]
  13. Site da Prefeitura de Pontes e Lacerda[5]
  14. Pedroso Gamito - "O Muata Cazembe", Lisboa 1854, pág. 327, disponível na GoogleBooks[6]
  15. Pedroso Gamito - "O Muata Cazembe", Lisboa 1854, pág. 229
  16. Filipe Gastão de Almeida de Eça – "Lacerda e Almeida, escravo do dever e mártir da ciência", Lisboa 1951

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Francisco José de Lacerda e Almeida - "Diário de viagem pelas capitanias do Pará, Rio Negro, Matto-Grosso, Cuyabá e S. Paulo, nos anos de 1780 a 1790", Typ. de Costa Silveira, São Paulo 1841, disponível na Biblioteca Brasiliana[7]
  • Francisco José de Lacerda e Almeida - "Diário da Viagem", Imprensa Nacional, Rio de Janeiro 1944. Prefácio de Sérgio Buarque de Holanda.
  • Francisco José de Lacerda e Almeida - "Diário da Viagem de Moçambique para os Rios de Senna", Imprensa Nacional, Lisboa 1889.
  • Francisco José de Lacerda e Almeida - "Travessia da África", Agência Geral das Colônias, Lisboa 1936. Prefácio de Manuel Múrias.
  • (em inglês) sir Richard Francis Burton - "The Lands of Cazembe: Lacerda´s journey to Cazembe in 1798", John Murray, London 1883, disponível no Internet Archive[8]
  • D. José Maria Correia de Lacerda - " Exame das Viagens do Doutor Livingstone", Imprensa Nacional, Lisboa 1867, disponível no Internet Archive[9]
  • Quirino da Fonseca - "Um drama no sertão", Lisboa 1936. Prefácio do Almirante Gago Coutinho.
  • Magnus Roberto de Mello Pereira e André Akamine Ribas - "Francisco José de Lacerda e Almeida – Um astrônomo paulista no sertão africano", Editora Universidade Federal do Paraná (Coleção Ciência e Império), 2012, (O livro traz a obra completa de Lacerda e Almeida, bem como sua correspondência)

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • A Ilustração em Portugal e no Brasil: Cientistas & Viajantes [10] Francisco José de Lacerda e Almeida[11]
  • (em inglês) Appleton's Cyclopedia de American Biography, editado por James Grant Wilson, John Fiske y Stanley L. Klos Seis volúmenes, Nueva York: D. Appleton y Compañía, 1887-1889
  • Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT) - Projecto Biografias [12] Lacerda e Almeida, Francisco José [13]
  • Instituto Hidrográfico da Marinha Portuguesa - História - Figuras Ilustres [14]Francisco Lacerda e Almeida [15]
  • Manuscrito do Diário de Viagem para o Centro da África na Biblioteca Digital Mundial [16]