Franz Kafka

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Franz Kafka
František Kafka
Nome completo František Kafka
Nascimento 3 de julho de 1883
Praga
 Áustria-Hungria
Morte 3 de junho de 1924 (40 anos)
Klosterneuburg, Áustria
Ocupação Agente de seguros, escritor
Movimento literário Modernismo, existencialismo, surrealismo, precursor do realismo mágico
Magnum opus A Metamorfose
O Castelo
O Processo
Religião Judaísmo
Causa da morte Insuficiência cardíaca
Assinatura
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Franz Kafka (Praga, 3 de julho de 1883Klosterneuburg, 3 de junho de 1924)[1] [2] foi um escritor tcheco, autor de romances e contos, considerado pelos críticos como um dos escritores mais influentes do século XX. A maior parte de sua obra, como A Metamorfose, O Processo e O Castelo, está repleta de temas e arquétipos de alienação e brutalidade física e psicológica, conflito entre pais e filhos, personagens com missões aterrorizantes, labirintos burocráticos e transformações místicas.

Kafka nasceu em uma família judaica de classe média e falante de alemão em Praga, então pertencente ao Império Austro-Húngaro. Durante sua vida, a maior parte da população de Praga falava tcheco e a divisão entre os falantes de tcheco e alemão era visível, já que ambos os grupos estavam tentando fortalecer sua identidade nacional. A comunidade judaica muitas vezes achou-se dividida entre esses dois grupos, levantando, naturalmente, questões sobre a origem de uma pessoa. O própria Kafka era fluente nas duas línguas, considerando o alemão sua língua materna.

Kafka formou-se em direito e, depois de completar sua educação, conseguiu um emprego em uma companhia de seguros. Começou a escrever contos no seu tempo livre. Pelo resto de sua vida, reclamou do pouco tempo que tinha para dedicar-se ao que chegaria a chamar de “seu chamado”. Arrependeu-se de ter tido que dedicar tanto tempo ao seu “ganha pão”. Kafka preferia comunicar-se através de cartas; escreveu centenas de cartas para sua família e amigas próximas, incluindo seu pai, sua noive Felice Bauer e sua irmã mais nova, Ottla Kafka. Tinha uma relação complicada e turbulenta com seu pai, o que teve uma grande influência sobre sua escrita. Também sofreu por ser judeu, sentindo que essa era uma característica que tinha pouco a ver consigo, apesar de críticos afirmarem que isso influenciou sua escrita.

Apenas algumas das obras de Kafka foram publicadas durante sua vida: as coleções de contos Considerações e Um Médico Rural, e contos (como A Metamorfose) em revistas literárias. Preparou a coleção Um Artista da Fome para impressão, mas só foi publicada postumamente. Os trabalhos inacabados de Kafka, como os romances O Processo, O Castelo e O Desaparecido, foram publicados postumamente pelo seu amigo Max Brod, que ignorou o desejo de Kafka de ter seus manuscritos destruídos. Albert Camus, Gabriel García Márquez e Jean-Paul Sartre estão entre os escritores influenciados pela obra de Kafka; o termo "kafkiano" popularizou-se em português como algo complicado, labiríntico e surreal, como as situações encontradas em sua obra.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Família[editar | editar código-fonte]

Os pais de Kafka, Hermann e Julie Kafka, em cerca de 1913.

Kafka nasceu perto da Old Town Square, em Praga, parte então do Império Austro-Húngaro. Pertencia a uma família de judeus esquemazões de classe média. Seu pai, Hermann Kafka (1852-1931), era o quarto filho de Jakob Kafka[3] [4] , um religioso de Osek, uma vila tcheca com uma grande população judaica, localizada perto de Strakonice, no sudeste da Boêmia[5] . Hermann trouxe a família de Kafka para Praga. Depois de trabalhar como representante de vendas de viagem, ele acabou tornando-se um varejista de artigos e roupas de fantasia que contratou mais de 15 pessoas e usou a imagem de uma gralha (“kavka”, em tcheco) como a logotipo de seu negócio.[6] A mãe de Kafka, Julie (1856-1934), era filha de Jakob Löwy, um próspero mercador de varejo em Poděbrady,[7] e recebeu melhor educação formal que seu marido.[3] Os pais de Kafka provavelmente falavam uma variedade de alemão influenciada pela língua iídiche, às vezes chamada pejorativamente de mauscheldeutsch, mas, como a língua alemã era considerada o veículo de mobilidade social, eles provavelmente encorajaram os seus filhos a falar o alemão padrão.[8] Hermann e Julie tiveram seis filhos, de quem Kafka era o mais velho.[9] Os dois irmãos de Franz, Georg e Heinrich, morreram na infância antes de Franz completar sete anos; as suas três irmãs eram Gabriele (“Ellie) (1889-1944), Valerie (“Valli”) (1890-1942) e Ottilie (“Ottla”) (1892-1943). Todas morreram durante o holocausto, na Segunda Guerra Mundial. Valli foi deportada para o Gueto de Łódź na Polônia em 1942 – esta, todavia, é a última referência documentada a ela.

Hermann é descrito pelo biógrafo Stanley Corngold como um “um negociante grande, egoísta e arrogante”[10] e por Franz como “um verdadeiro Kafka nos quesitos força, saúde, apetite, sonoridade vocal, eloquência, autossatisfação, dominação mundial, resistência, presença de mente, [e] conhecimento da natureza humana”.[11] Nos dias de comércio, ambos os pais ausentavam-se da casa, com Julie Kafka trabalhando a até 12 horas por dia para ajudar a manter o negócio. A infância de Kafka foi, consequentemente, de certo modo solitária,[12] e as crianças foram criadas por um grupo de governantas e serventes. A relação turbulenta de Kafka com seu pai é evidente em sua Carta ao Pai, de mais de 100 páginas, nas quais ele reclama de ser profundamente afetado pela autoridade de seu pais e pela sua personalidade exigente;[13] sua mãe, em contraste, era quieta e tímida.[14] A figura dominante do pai de Kafka teve uma influência significante em sua escrita.[15]

A família Kafka mantinha uma servente com eles no seu apartamento apertado. O quarto de Franz era geralmente frio. Em novembro de 1913 a família mudou-se para um apartamento maior, apesar de Ellie e Valli terem se casado e mudado ainda no primeiro apartamento. No começo de agosto de 1914, pouco após o começo da Primeira Guerra Mundial, as irmãs não sabiam onde os seus maridos estavam servindo como militares e retornaram ao apartamento da família. Tanto Ellie quanto Valli tiveram filhos. Franz, aos 31 anos, mudou-se para o antigo apartamento de Valli e passou a viver sozinho pela primeira vez.[16]

Educação[editar | editar código-fonte]

Kafka em 1888, aos 5 anos

De 1889 a 1893, Kafka frequentou a escola primária para garotos Deutsche Knabenschule German no Masný trh/Fleischmarkt (“Mercado de Carne”, em uma tradução para o português), conhecido como Masná Street. Sua educação judaica terminou com a celebração de seu Bar Mitzvah aos 13 anos. Kafka nunca gostou de frequentar a sinagoga e visitava-a somente em quatro feriados ao ano com seu pai.[11] [17] [18]

Após concluir a escola primária em 1893, Kafka foi aceito no rigoroso ginásio clássico estadual, o Altstädter Deutsches Gymnasium, uma escola secundária acadêmica na Old Town Square, no Kinský Palace. O alemão era a língua de ensino, mas Kafka também falava e escrevia em tcheco; estudou a língua no ginásio por oito anos, conquistando boas notas. Apesar de ter recebido elogios pelo seu tcheco, nunca considerou-se fluente no idioma, mesmo que falasse alemão com sotaque tcheco. Concluiu seus exames finais em 1901.

Aceito na Deutsche Karl-Ferdinands-Universität, de Praga, em 1901, Kafka começou a estudar química, mas trocou o curso pelo de direito depois de duas semanas.[19] Apesar de esse não ser um campo pelo qual ele sentisse grande empatia, era um campo que oferecia uma gama de carreiras que satisfaziam seu pai. Além disso, direito exigia uma grande grade de cursos, o que deu a Kafka a oportunidade de ter aulas de estudos alemães e história da arte.[20] Também participou de um clube estudantil, o Lese-und Redehalle der Deutschen Studenten (Salão de Leitura e Oratória dos Estudantes Alemães), que organizava eventos literários, leituras e outras atividades.[21] Entre os amigos de Kafka estavam o jornalista Felix Weltsch, que estudou filosofia, o ator Yitzchak Lowy, que vinha de uma família chassídica ortodóxica, e os escritores Oskar Baum e Franz Werfel.[22]

Ao fim dos seus primeiros anos de estudos, Kafka conheceu Max Brod, um colega de direito que tornou-se um grande amigo.[21] Brod logo percebeu que, apesar de tímido e calado, o que Kafka dizia costumava ser profundo.[23] Kafka sempre foi um ávido leitor;[24] juntos, ele e Brod leram Protágoras, de Platão, no original em grego, por iniciativa de Brod, e A Educação Sentimental e A Tentação de Santo Antão, de Gustave Flaubert, em francês, por iniciativa própria.[25] Kafka considerava Fiódor Dostoiévski, Flaubert, Franz Grillparzez e Heinrich von Kleist os seus “verdadeiros irmãos”.[26] Além destes, ele tinha interesse em literatura tcheca e gostava também das obras de Goethe.[27] [28] Kafka obteve o grau de Doutor das Leis em 18 de julho de 1906[29] [30] e prestou um ano de serviço não-remunerado obrigatório como empregado de escritório para cortes civis e criminais.[31]

Emprego[editar | editar código-fonte]

Antiga sede do Instituto de Seguros por Acidentes de Trabalho do Reino da Boêmia.

Em 1 de novembro de 1907, Kafka foi contratado pela Assicurazioni Generali, uma companhia de seguros italiana, onde trabalhou por quase um ano. Sua correspondência durante esse período indica que essa sua primeira experiência com uma jornada de trabalho (das 08:00 às 18:00[32] [33] ) o insatisfez bastante, o que dificultou sua concentração na escrita, que estava ganhando cada vez mais importância para ele. Em 15 de julho de 1908, demitiu-se. Duas semanas depois, encontrou um trabalho que lhe permitia melhores condições para a escrita no Instituto de Seguros por Acidentes de Trabalho do Reino da Boêmia. O emprego envolvia a investigação e a avaliação de compensação por danos pessoais para trabalhadores industriais; acidentes como a perda de dedos ou membros eram comuns na época. O professor de administração Peter Drucker credita Kafka pelo desenvolvimento do primeiro capacete de segurança civil enquanto trabalhava no Instituto de Seguros, apesar de essa afirmação não ser sustentada por nenhum documento da sua empregadora.[34] [35] Seu pais constantemente referia-se ao trabalho de seu filho de oficial de seguros como “trabalho ganha pão”, um trabalho feito apenas para pagar as contas; Kafka afirmava constantemente detestar seu serviço. Foi rapidamente promovido, e os seus deveres incluíam o processamento e a investigação das compensações exigidas, a escrita de relatórios e o comando de pedidos de negociantes que achavam que as suas empresas foram colocadas em uma categoria de risco muito alta, o que acabaria por custar-lhes mais nas compensações de seguro.[36] Ele compilaria e comporia o relatório anual do instituto de seguros de todos os anos em que trabalhou ali. Os relatórios eram bem recebidos pelos seus superiores.[37] Kafka geralmente saía do trabalho às 14:00, o que lhe dava tempo para gastar no seu trabalho literário, ao qual ele tornava-se cada vez mais ligado.[38] O pai de Kafka também esperava que ele ajudasse a tomar conta da loja de fantasias da família.[39] Nos seus últimos anos, a doença de Kafka muitas vezes o liberou do trabalho na investigação de seguros e na escrita dos seus relatórios. Anos mais tarde, Brod cunhou o termo Der enge Prager Kreis (“O Círculo Íntimo de Praga”) para descrever o grupo de artistas em que estavam incluídos Kafka, Felix Weltsch e ele.[40] [41]

Pelo fim de 1911, o marido de Elli, Karl Hermann, e Kafka tornaram-se companheiros na primeira fábrica de asbesto de Praga, conhecida como Prager Asbestwerke Hermann & Co., fundada com o dinheiro do dote de Hermann Kafka. Kafka no começo demonstrou uma atitude positiva, dedicando grande parte do seu tempo livre para os negócios, mas mais tarde ressentiu-se pelo tempo que essa atividade lhe tirava da sua escrita.[42] Durante esse período, ele também encontrou interesse e entretenimento em apresentações do teatro iídiche.[43] Após ver uma trupe de um teatro iídiche se apresentar em outubro de 1911, pelos próximos seis meses Kafka “se aprofundou no idioma iídiche e na literatura iídiche”. Este interesse também serviu como ponto inicial da sua crescente exploração do judaísmo.[44] Foi por essa época que Kafka tornou-se vegetariano.[45] Por volta de 1915 Kafka recebeu sua convocação para o serviço militar na Primeira Guerra Mundial, mas os seus patrões no instituto de seguros conseguiram um adiamento, pois consideravam seu trabalho um trabalho governamental essencial. Mais tarde ele tentou se juntar ao exército mas foi impedido pelos seus problemas médicos associados com a tuberculose,[46] com a qual foi diagnosticado em 1917.[47] Em 1918 o Instituto de Seguros afastou Kafka com uma pensão devido à sua doença, para a qual não havia cura na época, e ele passou a maior parte do resto de sua vida em sanatórios.[31]

Vida particular[editar | editar código-fonte]

Placa indicando o local onde Kafka nasceu, em Praga.

Kafka teve uma vida sexual ativa. De acordo com Brod, Kafka era “torturado” pelo desejo sexual[48] e o biógrafo de Kafka Riner Stach coloca que sua vida era afetada por “uma atitude incessante de mulherengo” e que ele tinha medo de “um fracasso sexual”.[49] Visitou bordéis na maior parte de sua vida adulta[50] [51] [52] e tinha interesse por pornografia.[48] Além do mais, ele manteve relações íntimas com diversas mulheres durante sua vida. Em 13 de agosto de 1912, Kafka conheceu Felice Bauer, uma parente de Brod, que trabalhou em Berlim como uma representante de uma empresa de ditafone. Uma semana depois do encontro, na casa de Brod, Kafka escreveu no seu diário:

Senhorita FB. Quando cheguei no Brod em 13 de agosto, ela estava sentada na mesa. Não estava realmente interessado em quem ela era, porque isso estava claro desde o começo. Rosto ossudo e vazio que veste o seu vazio abertamente. Garganta nua. Uma camisa jogada por cima. Aparentava no entanto ser muito doméstica no seu vestido, mas como se viu ela não o era de maneira alguma. (Eu me desvio dela um pouco examinando-a tão detidamente...) Um nariz quase quebrado. Loira, meio que reta, cabelo sem atrativos, queixo rígido. Quando estava sentando-me examinei-a detidamente pela primeira vez, quando estava sentado já tinha uma opinião imutável.[53] [54]

Pouco depois disso, Kafka escreveu o conto O Julgamento em apenas uma noite, e trabalhou em um período produto em Der Verschollene (O Desaparecido) e Die Verwandlung (A Metamorfose). Kafka e Felice Bauer comunicaram-se basicamente por cartas durante os próximos cinco anos, encontraram-se ocasionalmente e noivaram duas vezes.[55] As extensas cartas de Kafka para ela foram publicadas em Brife an Felice (Cartas para Felice); as cartas dela não foram conservadas.[53] [56] [57] De acordo com os biógrafos Stach e James Hawes, por volta de 1920 Kafka estava noivo pela terceira vez, desta vez de Julie Wohryzek, uma camareira pobre e com pouca instrução.[55] [58] Apesar de os dois terem alugado um apartamento e marcado uma data para o casamento, a cerimônia nunca chegou a ocorrer. Durante esse período Kafka começou um esboço da sua Carta ao Pai, que era contra Julie por causa das suas crenças sionistas. Antes da data do casamento, ele ligou-se a outra mulher.[59] Ao passo em que precisava de mulheres e sexo na sua vida, tinha pouca autoestima, sentia-se sexualmente sujo e era tímido – principalmente sobre o seu corpo.[31]

Stach e Brod colocam que na época em que Kafka conheceu Felice Bauer, ele tinha um caso com uma amiga dela, Margarethe “Grete” Bloch,[60] uma judia de Berlim. Brod diz que Bloch deu à luz o filho de Kafka, embora Kafka não tenha tomado conhecimento da criança. O garoto, cujo nome é desconhecido, nasceu em 1914 ou 1915 e morreu em Munique em 1921.[61] [62] Mas o biógrafo Peter-André Alt afirma que, mesmo que Bloch tenha tido a criança, Kafka não era o pai por não ter havido nenhum contato íntimo.[63] [64] Stach coloca que Bloch teve um filho, mas não há nenhuma prova sólida de que Kafka era o pai, apenas evidências contraditórias.[65]

Kafka foi diagnosticado com tuberculose em agosto de 1917 e mudou-se por alguns meses à vila boêmia de Zürau (Siřem, em tcheco), onde sua irmã Ottla trabalhava na fazenda com o seu genro Hermann. Sentiu-se confortável ali e mais tarde descreveu esse período como talvez o melhor período de sua vida, provavelmente porque não tinha responsabilidades. Manteve diários e outros escritos íntimos. Das notas desses livros, Kafka tirou 109 bilhetes enumerados em Zettel, pedaços individuais de papel sem ordem dada. Foram mais tarde publicados como Die Zürauer Aphorismen oder Betrachtungen über Sünde, Hoffnung, Leid und den wahren Weg (Os Aforismos de Zürau ou Reflexões sobre o Pecado, a Culpa, o Sofrimento e a Verdadeira Guerra, editado no Brasil como Aforismos).[66]

Em 1920 Kafka deu início a uma intensa relação com Milena Jesenská, uma jornalista e escritora tcheca. Suas cartas para ela foram publicadas mais tarde como Cartas para Milena.[67] Durante férias em julho de 1923 ao Graal-Müritz, no Mar Báltico, Kafka conheceu Dora Diamant, uma professora de jardim de infância de uma família judaica ortodoxa. Kafka, esperando escapar da influência da sua família para se concentrar na sua escrita, mudou-se rapidamente para Berlim e viveu com Diamant. Ela tornou-se sua amante e fez com que ele começasse a interessar-se no Talmude.[68] Trabalhou em quatro contos, que preparou para serem publicados como Um Artista da Fome.[67]

Personalidade[editar | editar código-fonte]

Franz Kafka, gravura de Jan Hladík, de 1978

Kafka temia que as pessoas achassem-no repulsivo física e mentalmente. No entanto, aqueles que conheciam-no percebiam que ele possuía um comportamente quieto e agradável, uma inteligência óbvia e um senso de humor seco; também achavam-no juvenilmente bonito, apesar de sua aparência austera.[69] [70] [71] Brod comparou Kafka a Heinrich von Kleist, observando que ambos os escritores tinham a habilidade de descrever realistiamente uma situação com detalhes precisos.[72] Brod achava Kafka uma das pessoas mais divertidas que conheceu; Kafka gostava de se divertir com seus amigos, e também ajudava-os em situações difíceis com bons conselhos.[73] De acordo com Brod, ele era um recitador apaixonado, capaz de falar seu discurso como se fosse música.[74] Brod sentia que dois dos traços mais distintos de Kafka eram “veracidade absoluta” e “conscienciosidade exata”.[75] [76] Ele explorava o detalhe, o imperceptível, o profundo com tanto amor e precisão que as coisas vinham à tona de uma forma inimaginável, parecendo estranhas mas não passando da pura verdade.[77]

Apesar de Kafka ter demonstrado pouco interesse em exercitar-se quando criança, mais tarde mostrou-se interessado em jogos e atividades físicas,[24] sendo um bom ciclista, nadador e remador.[75] Em fins-de-samana ele e seus amigos faziam longas caminhadas, muitas vezes planejadas pelo próprio Kafka.[78] Seus outros interesses incluíam medicina alternativa, sistemas modernos de educação, como o método Montessori,[75] e novidades técnicas, como aviões e filmes.[79] A escrita era importante para Kafka; considerava-na uma “forma de oração”.[80] Era muito sensível ao barulho e preferia a quietude quando estava escrevendo.[81]

Pérez-Álverez sustentou que Kafka provavelmente tinha transtorno de personalidade esquizoide.[82] Seu estilo, ele afirma, não somente em A Metamorfose, mas em várias de suas obras, aparentemente mostra características esquizoides de nível baixo a médio, o que explica muito da sua obra surpreendente.[83] Sua agonia pode ser vista nessa entrada no seu diário de 21 de junho de 1913:[84]

O gigante mundo que tenho em minha cabeça. Mas como me libertar e libertá-los sem rasgos. E uma centena de vezes rasgam-se em mim para então serem segurados ou enterrados. Por isso estou aqui, isso está bastante claro para mim.[85]

E no Zürau Aphorism de número 50:

O homem não pode viver sem uma confiança permanente de algo indestrutível em si mesmo, apesar de tanto essa coisa indestrutível como a sua própria confiança nisso poderem permanecer escondidas dele.[86]

Apesar de Kafka nunca ter se casado, tinha o casamento e os filhos em alta conta. Teve inúmeras namoradas,[87] mas alguns acadêmicos já especularam sobre sua orientação sexual. Outros sugeriram que ele sofreu de um distúrbio alimentar. O doutor Manfred. M. Fichter, da Clínica Psiquiátrica da Universidade de Munique, apresentou “provas para a hipótese de que o escritor Franz Kafka sofreu de uma anorexia nervosa anormal”,[88] e que Kafka não era somente solitário e depressivo mas também “ocasionalmente suicida”.[70] No seu livro de 1995 Franz Kafka, the Jewish Patient, Sander Gilman investiga “o motivo pelo qual um judeu pode ter sido considerado ‘hipocondríaco’ ou ‘homossexual’ e como Kafka incorporou aspectos dessas maneiras de entendimento do judeu na sua imagem de si mesmo e na sua escrita”.[89] Kafka pensou em cometer suicídio pelo menos uma vez, no fim de 1912.[90]

Visões políticas[editar | editar código-fonte]

Retrato de cerca de 1900 do escritor anarquista russo Piotr Kropotkin, citado por Kafka em seu diário.

Antes da Primeira Guerra Mundial,[91] Kafka assistiu a diversos encontros do Klub Mladých, uma organização anarquista, anti-militarista e anti-clerical.[92] Hugo Bergmann, que frequentou às mesmas escolas elementares e primárias, desentendeu-se com Kafka durante seu último ano acadêmico (1900-1901) porque “o socialismo [de Kafka] e o meu sionismo eram muito acentuados”.[93] [94]Em 1898 Franz tornou-se um socialista, eu tornei-me um sionista. As sínteses do sionismo e do socialismo ainda não existiam”. Bergmann sustenta que Kafka vestiu um cravo rosa na escola para mostrar o seu apoio ao socialismo.[94] Em uma passagem em seu diário, Kafka fez uma referência ao influente anarquista e filósofo Piotr Kropotkin: “Não esqueça Kropotkin![95] Mais tarde ele disse, referindo-se aos anarquistas tchecos: “Eles, irrepreensivelmente, buscam compreender a felicidade humana. Eu os entendo. Mas... era incapaz de continuar marchando ao seu lado por muito tempo”.[96]

Durante a era comunista, o legado da obra de Kafka para o Bloco do Leste foi tema de discussões acaloradas. As opiniões foram do pensamento de que ele satirizava a trapalhada burotrática de um Império Austro-Húngaro decadente à crença que ele encarnou a ascenção do socialismo. Outro ponto importante foi a teoria da alienação de Marx. Enquanto a posição ortodótica defendia que as representação de alienação de Kafka não eram mais relevantes para uma sociedade que havia supostamente acabado com a alienação, uma conferência em 1963 realizada em Liblice, na então Tchecoslováquia, no octogésimo aniversário da sua morte, fez com que a importância da representação de Kafka da burocracia ressurgisse.[97] Se Kafka foi ou não um escritor político ainda é uma questão em debate.

Judaísmo e sionismo[editar | editar código-fonte]

Kafka foi criado em Praga como um judeu falante de alemão.[98] Teve grande fascinação pelos judeus do Leste Europeu, de quem pensava possuírem uma vida espiritual de uma intensidade que não era encontrada nos judeus do Ocidente. Seu diário está cheio de referências a escritores iídiches.[99] Apesar disso, por vezes ele distanciava-se do judaísmo e da vida judaica: “O que eu tenho em comum com os judeus? Mal tenho algo em comum comigo mesmo, e deveria estar quieto em um corredor, contente por respirar”.[100] Na sua adolescência, Kafka se declarou um ateu.[101]

Hawes sugere que Kafka, apesar de bastante consciente de seu próprio judaísmo, não colocou-o na sua obra, a qual, de acordo com Hawes, carece de personagens, cenas ou temas judeus.[102] [103] [104] Na opinião do crítico literário Harold Bloom, apesar da dureza de Kafka com sua herança judaica, ele foi o escritor judeu por excelência.[105] Lothar Kahn mostra ainda menos dúvida quanto a isso: “A presença do judaísmo na obra de Kafka não é mais assunto para se discutir”.[106] Pavel Eisner, um dos primeiros tradutores de Kafka para o idioma inglês, interpretou o clássico O Processo como a encarnação da “terceira dimensão da existência judaica em Praga... seu protagonista Josef K. é (simbolicamente) preso por um alemão (Rabensteiner), um tcheco (Kullich) e um judeu (Kaminer). Ele representa a ‘culpa inculpável’ que vive no judeu no mundo moderno, mesmo que não haja provas de que ele seja judeu”.[107]

No seu ensaio Sadness in Palestine?!, Dan Miron explora a conexão de Kafka ao sionismo: “Parece que aqueles que afirmam que houve tal conexão e que o sionismo ocupou um papel central na sua vida e na sua obra literária, e aqueles que negam completamente a conexão ou descartam sua importância, estão igualmente enganados. A verdade reside em um lugar bastante esquivo entre esses pólos simplistas”.[99] Kafka pensou em se mudar para a Palestina com Felice Bauer, e mais tarde com Dora Diamant. Estudou hebreu enquanto vivia em Berlim, contratando um amigo de Brod da Palestina, Pua Bat-Tovim, para ensinar-lhe o idioma,[99] e frequentou as aulas dos rabinos Julius Grünthal[108] e Julius Guttman no Berlin Hochschule für die Wissenschaft des Judentums (Colégio de Berlim para o Estudo do Judaísmo).[109]

Túmulo da família Kafka, no Novo Cemitério Judeu, em Praga, com epitáfios em hebraico.

Livia Rothkirchen chama Kafka de “a figura simbólica da sua época”.[107] Entre seus contemporâneos há inúmeros escritores judeus (tchecos, alemães e nascidos em comunidades judaicas) que eram sensíveis à cultura alemã, tcheca, austríaca e judaica. De acordo com Rothkirchen, “A situação emprestou a seus escritos uma ampla visão cosmopolita e uma qualidade de exaltação que beira a contemplação metafísica transcendental. Um famoso exemplo disso é Franz Kafka”.[107]

Perto do fim de sua vida, Kafka enviou um cartão-postal para seu amigo Hugo Bergman, em Tel Aviv, informando sua intenção de imigrar para a Palestina. Bergman recusou-se a hospedar Kafka pois tinha filhos pequenos e temia a possibilidade de Kafka infectá-los com tuberculose.[110]

Morte[editar | editar código-fonte]

A tuberculose laríngea de Kafka piorou e em março de 1924 ele voltou de Berlim a Praga,[55] onde familiares, principalmente sua irmã Ottla, tomaram conta dele. Ele foi para o sanatório do Dr. Hoffmann, em Klosterneuburg, perto de Viena, em 10 de abril[67] e morreu lá em 3 de junho de 1924. A causa da sua morte aparentemente foi fome: a condição da garganta de Kafka fez com que comer tornasse-se uma atividade muito dolorosa para ele, e já que a nutrição parenteral ainda não tinha sido desenvolvida, não houve meios de alimentá-lo.[111] [112] Kafka estava editando Um Artista da Fome no seu leito de morte, um conto cuja composição tinha sido iniciada antes da sua garganta se fechar ao ponto dele não mais poder se alimentar.[113] Seu corpo foi trazido de volta a Praga, onde foi sepultado em 11 de junho de 1924, no Novo Cemitério Judeu, em Žižkov.[51] Kafka foi desconhecido em vida, mas ele não considerava a fama algo importante. Tornou-se famoso logo após sua morte.[80]

Obra[editar | editar código-fonte]

Primeira página do manuscrito de Kafka de Carta ao Pai.

Toda a obra publicada de Kafka, com exceção de algumas cartas que escreveu em tcheco para Milena Jesenská, foram escritas em alemão. O pouco que foi publicado em sua vida atraiu pouca atenção pública.

Kafka não terminou nenhum de seus romances maiores e queimou cerca de 90% da sua própria obra,[114] [115] grande parte durante o período em que viveu em Berlim com Diamant, que ajudou-lhe a queimar os rascunhos.[116] Nos seus primeiros anos como escritor, ele foi influenciado por von Kleist, cuja obra ele descreveu em uma carta a Bauer como assustadora e a quem ele considerava mais próximo que sua própria família.[117]

Contos[editar | editar código-fonte]

As primeiras obras publicadas de Kafka foram oito contos que apareceram em 1908 na primeira edição do jornal litário Hyperion, sob o título de Contemplação. Escreveu o conto Descrição de uma Luta]] em 1904; mostrou-o a Bord em 1905, que aconselhou-o a continuar a escrever e o convenceu a enviá-lo ao Hyperion. Kafka publicou um excerto em 1908[118] e duas seções na primavera de 1909, tudo em Munique.[119]

Em um repente criativo na noite de 22 de setembro de 1912, Kafka escreveu o conto O Veredicto e o dedicou a Felice Bauer. Brod notou a similariedade entre os nomes do protagonista principal e da sua noiva fictícia, Georg Bendemann e Frieda Brandenfeld, aos de Franz Kafka e Felice Baeur.[120] O conto é ferequentemente considerado a obra de avanço para a escrita de Kafka. Trata da relação conturbada de um filho e seu pai dominante, a qual enfrenta uma nova fase após o noivado de seu filho.[121] [122] Kafka mais tarde revelou estar escrevendo em “completa abertura de corpo e alma”[123] um conto que “desenvolveu-se em um nascimento verdadeiro, coberto de sujeira e lodo”.[124] O conto foi publicado primeiramente em Leipzig em 1912 e dedicado “à senhorita Felice Bauer” e em edições subsequentes “a F.[67]

Em 1912, Kafka escreveu o conto A Metamorfose,[125] publicado em 1915 em Leipzig. O conto começa com um caixeiro-viajante acordando e descobrindo-se metamorfoseado em uma criatura repulsiva. Os críticos consideram a obra uma das obras essenciais da ficção do século XX.[126] [127] [128] O conto Na Colônia Penal, que trata de um elaborado dispositivo de tortura e execução, foi escrito em outubro de 1914,[67] revisado em 1918 e publicado em Leipzig durante outubro de 1919. O conto Um Artista da Fome, publicado no periódico Die neue Rundschau em 1924, narra a história de um protagonista fracassado cuja grande façanha era a de poder passar fome por vários dias.[129] Seu último conto, Josefina, a cantora ou o Povo dos Ratos, também lida com a relação entre o artista e seu público.[130]

Romances[editar | editar código-fonte]

Folha de rosto da primeira edição de O Processo, publicada em 1925.

Kafka começou o projeto para seu primeiro romance em 1912;[131] seu primeiro capítulo é o conto O Foguista. Kafka intitulou a obra, que permaneceu inacabada, de O Desaparecido, mas Brod o publicou, após a morte de Kafka, sob o título de Amérika.[132] A inspiração para o romance veio da apresentação teatral iídiche que ele assistiu no último ano e que levou-o a uma nova percepção sobre sua origem - o que, por sua vez, fez com que ele passasse a acreditar que dentro de cada um vive uma apreciação inata de sua origem.[133] Com um humor mais explícito e um estilo um pouco mais realista do que os encontrados na maior parte das obras de Kafka, o romance tem como base para sua trama um sistema opressivo e intocável que coloca repetidamente o protagonista em situações bizarras.[134] Contém muitos detalhes de experiências vividas por parentes de Kafka que emigraram para a América[135] e é a única obra para a qual Kafka destinou um final otimista.[136]

Durante 1914, Kafka começou o romance O Processo,[119] a história de um homem processado por uma autoridade remota e inacessiva, sendo a natureza de seu crime mantida oculta tanto para ele quanto para o leitor. Kafka não concluiu o romance, apesar de ter finalizado o capítulo final. De acordo com Elias Canetti, vencedor do Prêmio Nobel e especialista em Kafka, Felice foi fundamental para o desenvolvimento da trama do romance e Kafka disse que esta era “a história dela”.[137] [138] Canetti intitulou o seu livro sobre as cartas de Kafka para Felice de O Outro Processo, em reconhecimento da relação entre as cartas e o romance.[138] Michiko Katutani observou em uma resenha para o The New York Times que as cartas de Kafka tem as “digitais de sua ficção: a mesma atenção nervosa a particularidades diminutas; o mesmo conhecimento paranoico de balanças mutáveis do poder; a mesma atmosfera de sufocamente emocional – combinados, surpreendentemente, com momentos de ardor e encanto juvenis”.[138]

De acordo com seu diário, Kafka já tinha em planejamento o romance O Castelo em 11 de junho de 1914; de qualquer modo, ele não começou a escrevê-lo até 27 de janeiro de 1922.[119] O protagonista é um agrimensor chamado K., que luta por razões desconhecidas para ter acesso às misteriosas autoridades de um castelo que governa a vila. A intenção de Kafka era que as autoridades do castelo notificassem K. no seu leito de morte que “seu requerimento legal de viver na vila era inválido, mas, levando-se em conta certas circunstâncias auxiliadoras, ele estava prestes a ser autorizado a viver e trabalhar ali”.[139] Sombrio e algumas vezes surreal, o romance foca na alienação, na burocracia, nas aparentemente intermináveis tentativas fracassadas do homem em resistir ao sistema, e na busca inúltil e infrutífera de uma meta inalcançável. Hartmut M. Rastalsky observou na sua teste: “Como em sonhos, seus textos unem detalhes ‘realistas’ precisos com coisas absurdas, observações detalhadas e protagonistas racionais com esquecimentos e descuidos inexplicáveis”.[140]

História de publicação[editar | editar código-fonte]

Os contos de Kafka foram primeiro publicados em periódicos literários. Seus oito primeiro contos foram publicados na primeira edição, de 1908, da revista bimensal Hyperion.[141] Franz Bei, amigo de Kafka, publicou dos diálogos em 1909 que viriam a se tornar parte da Descrição de uma Luta.[141] Um trecho do conto Os Aviões em Brescia, escrito em uma viagem à Itália para Brod, apareceram no jornal Bohemia em 18 de setembro de 1909.[141] [142] Em 27 de março de 1910, vários contos que mais tarde integrariam a coleção Contemplação foram publicados na edição especial de Páscoa do Bohemia. Em 1913, em Leipzig, Brod e o editor Kurt Wolff colocaram O Veredito. Um Conto por Franz Kafka no seu anuário de poesia Arkadia. O conto Diante da Lei foi publicado na edição comemorativa de ano-novo de 1915 do semanário judeu independente Selbstwehr; foi reimpresso em 1919 como parte da coleção de contos Um Médico Rural e tornou-se parte do romance O Processo. Outros contos foram editados em diversas publicações, incluindo a Der Jude, revista de Brok, o jornal Prager Tagblatt e os periódicos Die neue Rundschau, Genius e Prager Presse.[141]

O primeiro livro publicado de Kafka, Contemplação, é uma coleção de 18 contos escritos entre 1904 e 1912. Em uma viagem de férias para Weimar, Brod apresentou Kafka para Kurt Wolff;[143] Wolff publicou Meditações na editora Rowohlt Verlag no fim de 1912 (na edição, o ano está 1913).[144] Kafka dedicou o livro para Brod, “Für M.B.”, e colocou na cópia dada a seu amigo “So wie es hier schon gedruckt ist, für meinen liebsten Max — Franz K.” (“Como já está impresso, a meu querido Max”).[145]

O conto de Kafka A Metamorfose foi primeiramente publicado na edição de outubro de 1915 da Die Weißen Blätter, uma revista literária mensal de literatura expressionista, editada por René Schickele.[144] Outra coleção de contos, Um Doutor Rural, foi publicada por Kurt Wolff em 1919,[144] dedicada ao pai de Kafka.[146] Kafka preparou uma coleção final de quatro contos para impressão, Um Artista da Fome, que foi publicada pouco depois de sua morte em 1924, no periódico vanguardista Verlag Die Schmiede. Em 20 de abril de 1924, o jornal Berliner Börsen-Courier publicou o ensaio de Kafka sobre Adalbert Stifter.[147]

Max Brod[editar | editar código-fonte]

Fotografia de Max Brod, testamenteiro literário de Kafka, em 1914.

Kafka deixou os direitos de sua obra, tanto a publicada quanto a não publicada, para seu amigo e testamenteiro literário Max Brod, com instruções explícitas de que ela deveria ser destruída após a morte de Kafka; Kafka escreveu: “Querido Max, meu último pedido: Tudo que eu deixo para trás... na forma de diários, manuscritos, cartas (minhas e de outras pessoas), esboços, e assim por diante, deve ser queimado sem ser lido”.[148] [149] Brod decidiu ignorar este pedido e publicar os romances e a obra completa entre 1925 e 1935. Levou consigo muitos papéis, que permaneceram sem ser publicados, nas suas malas quando fugiu para a Palestina em 1939.[150] A última amante de Kafka, Dora Diamant (mais tarde chamada de Dymant-Lask), também ignorou seus pedidos, mantendo secretamente 20 cadernos e 35 cartas. Eles foram confiscados pela Gestapo em 1933, mas pesquisadores continuam a procurá-los.[151]

Quando Kafka publicou uma parte do espólio que estava com ele,[152] a obra de Kafka começou a atrair maior atenção e elogios por parte da crítica. Kafka achou difícil organizar os cadernos de Kafka em ordem cronológica. Um problema encontrado para isso é que Kafka muitas vezes escrevia em diferentes partes do livro, ao invés de concluir um capítulo para iniciar outro e assim por diante; às vezes isso acontecia no meio, às vezes ele começava do fim e escrevia dali para o começo o restante da obra.[153] [154] Brod tentou organizar, com o material que tinha, da forma como Kafka aparentemente organizaria, de acordo com seus diários e cartas, muitas das obras inacabadas, para que elas pudessem ser publicadas. Kafka, por exemplo, deixou O Processo com capítulos inumerados e inacabados e O Castelo com frases incompletas e conteúdos ambíguos;[154] Brod reorganizou os capítulos, editou o texto e mudou a pontuação. O Processo foi publicado em 1925 na Verlag Die Schmiede. Kurt Wolff publicou outros dois romances, O Castelo, em 1926, e O Desaparecido (sob o título de Amérika), em 1927. Em 1931, Brod editou uma coleção de prosa e contos não publicados em A Grande Muralha da China, que inclui o conto de mesmo nome. O livro foi publicado pela editora Kiepenheuer & Witsch. As edições de Brod geralmente são chamadas de edições definitivas.[155]

Edições modernas[editar | editar código-fonte]

Em 1961, Malcolm Pasley adquiriu a maior parte dos manuscritos originais de Kafka para a Biblioteca Bodleiana, da Universidade de Oxford.[156] [157] O manuscrito de O Processo mais tarde foi adquirido através de um leilão e está guardado no Arquivo de Literatura Alemã em Marbach am Neckar, na Alemanha.[157] [158] Mais tarde, Pasley liderou uma equipe (da qual participaram Gerhard Neumann, Jost Schillemeit e Jürgen Born) que reconstruiu os romances de Kafka; S. Fischer Verlag republicou-os.[159] Pasley foi o editor da edição de O Castelo publicada em 1982 e a de O Processo publicada em 1990. Jost Schillemeit foi o editor da edição de O Desaparecido publicada em 1983. Essas edições são chamadas de edições críticas, ou edições de Fischer.[160]

Escritos não publicados[editar | editar código-fonte]

Quando Brod morreu em 1968, ele deixou os escritos ainda não publicados de Kafka, cujo número acredita-se chegar às centenas, a sua secretária, Ester Hoffe.[161] Ela publicou e vendeu alguns, mas deixou a maioria para suas filhas, Eva e Ruth, que também se recusaram a publicar os escritos. Um processo começou em 2008 entre as irmãs e a Livraria Nacional de Israel, que alegou que essas obras tornaram-se propriedade da nação de Israel quando Brod emigrou para a Palestina Britânica em 1939. Esher Hoffe vendeu o manuscrito original de O Processo por US$ 2 milhões em 1988 para o Arquivo de Literatura Alemã do Museu de Literatura Moderna em Marbach am Neckar.[114] [162] Somente Eva ainda estava viva em 2012.[163] A decisão de um tribunal de família de Tel Aviv decidiu em 2010 que os escritos deveriam ser divulgados, juntamente com outros mais concluídos, incluindo um conto jamais publicado, mas a disputa legal continuou.[164] Os Hoffes alegam que os escritos são patrimônio pessoal deles, enquanto a Biblioteca Nacional argumenta que eles são “patrimônios culturais pertencentes ao povo judeu”.[164] A Biblioteca Nacional também sugere que Brod legou os escritos para ela em seu testamento. A corte de família de Tel Aviv decidiu em outubro de 2012 que os escritos eram propriedade da Biblioteca Nacional.[165]

Leituras críticas[editar | editar código-fonte]

Retrato de Fiódor Dostoiévski (1872), por Vassilij Grigorovič Perov, escritor a quem Kafka chamou de "irmão" e cuja obra é largamente paralelizada pelos críticos com a de Kafka.

O poeta W. H. Auden chamou Kafka de “o Dante do século XX”;[166] o romancista Vladimir Nabokov colocou-o entre os maiores escritores do século XX.[167] Gabriel García Márquez comentou que a leitura de A Metamorfose o mostrou que “era possível escrever de uma forma diferente”.[100] [168] O tema central da obra de Kafka, demonstrado pela primeira vez no conto O Julgamento,[169] é o conflito entre pai e filho: a culpa sentida pelo filho é aliviada através do sofrimento e da reparação.[13] [169] Outros temas e arquétipos importantes incluem alienação, brutalidades física e psicológica, personagens com missões aterrorizantes e transformações místicas.[170]

O estilo de Kafka foi comparado ao de Heinrich von Kleist ainda em 1916, em uma resenha de A Metamorfose e O Foguista, por Oscar Walzel no Berliner Beiträge.[171] A natureza da prosa de Kafka também abre espaço para diversas interpretações e os críticos já a colocaram em inúmeras escolas literárias.[172] Os marxistas, por exemplo, já tiveram grandes desentimentos sobre como interpretar as obras de Kafka.[92] [172] Alguns acusaram-no de distorcer a realidade, enquanto outros afirmam que ele estava criticando o capitalismo.[172] A desesperança e o absurdo comuns em suas obras são vistos como simbolismos existencialistas.[173] Alguns dos livros de Kafka são influenciados pelo expressionismo, apesar de a maior parte de sua produção literária ser associada com o gênero experimental do modernismo. Kafka também explora a questão dos conflito do homem com a burocracia. Wiliam Burrows afirma que o foco da obra de Kafka são os conceitos de luta, dor, solidão e a necessidade de relações.[174] Outros, como Thomas Mann, veem a obra de Kafka como uma alegoria religiosa: uma missão, metafísica por natureza, para Deus.[175] [176]

De acordo com Gilles Deleuze e Félix Guattari, os temas de alienação e perseguição, apesar de presentes na obra de Kafka, têm sido superestimados pelos críticos. Eles argumentam que a obra de Kafka é mais cautelosa e subversiva – e mais divertida – do que pode parecer à primeira vista. Eles ressaltam que ler a sua obra focando na futilidade das lutas dos personagens revela a jogada humorística de Kafka; ele não está necessariamente comentando sobre os próprios problemas, e sim mostrando como as pessoas tendem a inventar problemas. Em sua obra, Kafka muitas vezes cria mundos absurdos e cruéis.[177] [178] Kafka lia para seus amigos esboços das suas obras, tendo tido o costume de focar nas partes prosaicamente humorísticas. O escritor Milan Kundera sugere que o humor surrealista de Kafka seja uma inversão do estilo de Dostoiévski, que apresentou personagens punidas por algum crime. Na obra de Kafka, uma personagem é punida mesmo que nenhum crime tenha sido cometido. Kundera acredita que as inspirações de Kafka para as suas situações características vieram tanto por crescer em uma família patriarcal quanto por viver em um Estado totalitário.[179]

Tentativas de identificar o papel da lei na sua ficção e as influências que Kafka teve para criar o pano de fundo jurídico de seus livros foram feitas.[180] [181] A maior parte das interpretações considera os aspectos da lei e da legaligade como importantes para sua obra,[182] na qual o sistema legal é muitas vezes opressivo.[183] A lei na obra de Kafka, mais do que representar qualquer entidade política ou legal, geralmente é interpretada como a representação de uma variedade de forças anônimas e incompreensíveis. Forças estas que são escondidas do indivíduo, mas que controlam a vida das pessoas, que são vítimas inocentes de sistemas que vão além de seus controles.[182] Críticos que defendem essa interpretação absurdista citam circunstâncias em que Kafka se descreveu em conflito com um universo absurdo, como nessa entrada de seu diário:

Preso entre quatro paredes de mim mesmo, descubro-me um emigrante preso em um país estrangeiro... vejo minha família como alienígenas cujos costumes, ritos e linguagem estrangeiros desafiaram minha compreensão... apesar de eu não querê-lo, eles forçaram-me a participar de seus rituais bizarros... não pude resistir.[184]

De qualquer modo, James Hawes argumenta que muitas descrições de Kafka sobre procedimentos legais em O Processo são baseados em descrições precisas e detalhadas de processos criminais alemães e austríacos da época, que foram mais inquisitoriais do que legais – com o mesmo apelo metafísico e absurdista, a confusão e a atmosfera de pesadelo encontrados na obra de Kafka.[185] Apesar de trabalhar com seguros, Kafka era “particularmente inteirado dos debates legais de sua época”.[181] [186] Em uma publicação do início do século XXI que usa os relatórios oficiais de Kafka como ponto de partida,[187] Pothik Ghosh afirma que para Kafka a lei “não tem nenhum outro sentido que não o de ser uma força de pura dominação e determinação”.[188]

Estilo literário[editar | editar código-fonte]

A escrita de Kafka é marcada pelo seu tom despegado, imparcial, atenciosa ao menor detalhe, e abrange os temas da alienação e perseguição. Os seus trabalhos mais conhecidos são as pequenas histórias A Metamorfose, Um artista da fome e os romances O Processo, América e O Castelo. Os seus contos são julgados como verdadeiros e realistas, em contato com o homem do século XXI, pois os personagens kafkianos sofrem de conflitos existenciais, como o homem de hoje. No mundo kafkiano, os personagens não sabem que rumo podem tomar, não sabem dos objetivos de sua vida, questionam seriamente a existência e acabam sós, diante de uma situação que não planejaram, pois todos os acontecimentos se viraram contra eles, não lhes oferecendo a oportunidade de se aproveitar da situação e, muitas vezes, nem mesmo de sair dela. Por isso, a temática da solidão como fuga, a paranoia e os delírios de influência estão muito ligados à obra kafkiana, sendo comum a existência de personagens secundários que espiam, e conspiram contra o protagonista das histórias de Kafka (geralmente homens, à exceção de alguns contos onde aparecem animais e raros onde a personagem principal é uma mulher). No fundo, estes protagonistas não são mais que projecções do próprio Kafka, onde ele expõe os seus medos, a sua angústia perante o mundo, a sua solidão interior, sua problemática em lidar com a família e o círculo social.[carece de fontes?]

Obra[2] [editar | editar código-fonte]

Filmes inspirados em Kafka[editar | editar código-fonte]

Referências

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Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  1. Hamalian, Leo (Ed.). [1974]. Franz Kafka: A Collection of Criticism. Nova York: McGraw-Hill. ISBN 0-07-025702-7.

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