Gás lacrimogêneo

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Bombas de gás lacrimogêneo em uso na França, maio de 2007.
Explosão de gás lacrimogêneo durante uma manifestação de estudantes em Chania, Creta, 2008.

Gás lacrimogêneo (português brasileiro) ou gás lacrimogéneo (português europeu) (do latim lacrima: lágrima) é o nome genérico dado a vários tipos de substâncias irritantes da pele, dos olhos e das vias respiratórias, tais como o brometo de benzila, ou o gás CS (clorobenzilideno malononitrilo). Ao estimular os nervos da córnea, esses gases causam lacrimação, dor e mesmo cegueira temporária.

Por ser literalmente uma bomba , cujo destino é a população, é classificado como sendo uma arma química,[1] embora considerada como não letal o uso da expressão só atende a rotulação do produto para efeitos imediatos que é o que se esperava tendo em visto a finalidade bélica.

Entretanto quando, costumeira e indiscriminadamente, aplicado contra as populações vem causando graves quadros de alergia respiratória a todas as pessoas (tanto atacantes como as vitimas) seguido de morte. Nesse sentido, tem sido contestado por especialistas e grupos defensores de direitos humanos, que também apontam a relação próxima entre algumas indústrias,coligadas com as forças armadas e de segurança dos governos que permitem a generalização do uso do gás como arma preferencial na repressão aos movimentos de rua desde os anos 1960.[2] bem como o uso de névoa química "Fumace" largamente aplicado nas ruas contra mosquitos juntamente com a população pobre que habitam próximos aos depósitos de lixões trazidos pela propria prefeitura interessada na pseuda intenção de combater as endemias rurais.

Os primeiros estudos clínicos mostraram que o gás causava irritação e mal-estar e, em concentração controlada, era incapaz de deixar marcas ou causar óbitos. Por isso foi considerado como arma não letal. Porém, pode ser consideravelmente perigoso para crianças pequenas, bem como para indivíduos epilépticos ou portadores de problemas respiratórios.[1]

Os gases lacrimogêneos mais comumente utilizados são os irritantes oculares CS, CN (cloroacetofenona) e CR (dibenzoxazepina), o irritante respiratório aerossol de pimenta ou gás OC (oleorresina Capsicum) e com raio de ação, dependente da dissipação atmosférica, seus efeitos, podem chegar a centenas de metros , como foi o caso das ultimas manifestações, na Candelária, que foi sentido no viaduto da avenida perimetral (RJ).

O uso crescente do gás lacrimogêneo, pelas polícias de todo o mundo, como arma de "controle de multidões" deve-se ao fato de ser capaz de dispersar aglomerações sem causar mortes.[2] Tem sido amplamente utilizados tanto em invasões de instalações, quanto no controle de tumultos e manifestações de rua, já que rapidamente provoca irritação ou incapacitação sensorial - efeitos que normalmente desaparecem algum tempo depois de cessada a exposição.

Durante a Primeira Guerra Mundial, agentes lacrimogêneos mais tóxicos foram usados. Atualmente, o uso desses gases em guerra química, constitui uma violação da Convenção sobre Armas Químicas.[3] [4]

A forma mais comum de gás lacrimogêneo, o CS (ortoclorobenzilidenemalononitrila), foi preparada pela primeira vez em 1928, por dois químicos americanos, Ben Corson e Roger Stoughton (as letras CS referem-se às iniciais dos seus nomes). Mas foi somente em 1956 que o laboratório britânico de armas químicas e biológicas do polêmico centro de pesquisas de Porton Down[5] desenvolveu o CS como arma de controle de motins.[6]

Fórmulas[editar | editar código-fonte]

Suas fórmulas variam. Podem ser, por exemplo, cloro-acetona (CH3–CO–CH2–Cl), bromo-acetona (CH3–CO–CH2–Br) ou acroleína (CH2=CH–COH). O CS é mais forte que o CN, porém desvanece mais rápido.

Qualquer composto químico que produza estes efeitos pode ser chamado lacrimogêneo, mas a denominação "agente de controle antidistúrbio" ou "gás lacrimogêneo" refere-se um produto químico lacrimogêneo escolhido por sua baixa toxicidade e por, supostamente, não ser letal.

Utilização[editar | editar código-fonte]

Estes gases podem ser dispersos por meio de sprays (aerossol) de mão, por meio de recipientes que emitem gás a um ritmo fixo ou de forma explosiva. Tais recipientes são tanto construídos na forma de granadas de mão como projéteis a serem lançados tanto de armas adequadas portáteis como fixas em veículos ou mesmo por morteiros. Podem ainda ser construídas conjuntamente com bombas de efeito moral, liberando o gás conjuntamente com explosão de ruído extremamente intenso.

Nos anos 1960, o gás lacrimogêneo foi utilizado em larga escala pelos Estados Unidos, durante a Guerra do Vietnam.

O CS foi usado em 12 de agosto de 1969, em Derry, na Irlanda do Norte, pela polícia local para combater a revolta dos separatistas irlandeses que se espalhara por toda a província. Diz-se que, na ocasião, mais de 1000 recipientes do CS foram usados. [7]

Efeitos[editar | editar código-fonte]

Os efeitos da exposição ao gás lacrimogêneo são reações de lacrimação, com uma sensação de queimadura na boca e trato respiratório. Coceiras, inflamações, dor de cabeça, sensação de insuficiência respiratória são os efeitos mais comuns.[8]

Riscos[editar | editar código-fonte]

Como toma arma não-letal, ou menos letal, há algum risco de dano permanente sério ou morte quando o gás lacrimogênio é usado.[9] [10] Os riscos incluem ser atingido pelos cartuchos de gás lacrimogênio, que podem provocar escoriações severas, perda de olhos, fratura craniana e até mesmo morte.[11] Enquanto as consequências médicas dos gases em si são tipicamente limitadas a inflamações de pele menores, complicações retardadas são possíveis: pessoas com doenças respiratórias pré-existentes como asma, que estão em risco especial, podem precisar de hospitalização ou mesmo suporte respiratório. [12] A exposição da pele ao gás lacrimogênio pode causar queimaduras químicas[13] ou induzir dermatite de contato alérgico.[8] Quando pessoas são atingidas à curta distância ou são severamente expostas, ferimentos no olho envolvendo cicatrizes na córnea podem levar à perda permanente da acuidade visual.[14]

Uso recente[editar | editar código-fonte]

Desde o início da crise econômica de 2008 e, especialmente, desde a crise da zona euro (desde 2009-2010), várias medidas de austeridade foram adotadas pelos governos de diferentes países, especialmente no ocidente, o que suscitou grandes manifestações populares de protesto, durante as quais foi frequentemente usado o gás lacrimogêneo. Na Espanha, por exemplo, o orçamento do governo para 2012 sofreu cortes em praticamente todas as áreas, mas, no que se refere a equipamentos antidistúrbios o gasto passou de cerca de 173 mil euros a mais de 3 milhões em 2013. A mesma tendência foi observada no Oriente Médio. Desde a Primavera Árabe (iniciada no final de 2010), o mercado de segurança interna na região teve um aumento de 18% em seu valor, chegando próximo aos 6 bilhões de euros em 2012.[2]

A pesquisadora Anna Feigenbaum, da Universidade de Bournemouth, na Grã-Bretanha, investiga a história política do gás lacrimogêneo e defende a íntima correlação entre crises econômico-sociais, protestos populares e uso do gás lacrimogêneo. Segundo ela, durante a Primeira Guerra Mundial, o gás lacrimogêneo era classificado como arma química. Mas a partir daí, o lobby industral-militar-governamental conseguiu mudar o nome de "arma química" para "irritante químico" ou "instrumento de controle de distúrbios". Isso produziu uma normalização. O gás, que começou a ser usado no "controle de multidões" na década de 1930, teve sua utilização generalizada a partir dos anos 1960. A afirmação de que não havia perigo nem para mulheres grávidas, nem para idosos foi duramente criticada pela Anistia Internacional e pela ONG Médicos pelos Direitos Humanos. Ambas as organizações sustentam que não é preciso ser mais velho ou estar grávida para sentir efeitos "irreversíveis" dessas armas supostamente não letais. Entre as mortes mais recentes atribuídas ao uso de gás lacrimogêneo figuram a do adolescente Ali Al-Shiek Bahrain em 2012, e a do palestino Mustafa Tamini, no final de 2011.[2]

Durante a Primavera Árabe, empresas americanas exportaram cerca de 40 mil unidades de gás lacrimogêneo. Em 2013, o ministério do Interior do Egito encomendou cerca de 140 mil cartuchos de gás lacrimogêneo a um pequeno grupo de exportadoras americanas. A organização internacional War Resister League, que empreende uma campanha específica contra o gás lacrimogêneo, identificou a presença de empresas americanas exportadoras do gás, como Combined Systems Inc., Federal Laboratories e NonLethal Technologies da Argentina até a Índia; de Bahrein, Egito e Israel até Alemanha, Holanda, Camarões, Hong Kong, Tailândia e Tunísia. Em termos de manejo de protestos, nada mudou com a democratização egípcia. A brasileira Condor Non-Lethal Technologies, uma das principais provedoras da Turquia, vende seus produtos a 41 países.[2]

No Brasil[editar | editar código-fonte]

Também no Brasil, o gás lacrimogêneo vem sendo largamente utilizado na repressão às recentes manifestações populares de protesto. Durante um desses eventos, em Belém (Pará), no dia 20 de junho de 2013, a gari Cleonice Vieira de Moraes, de 54 anos, inalou gás lacrimogêneo, lançado pela Polícia Militar do Estado, e morreu na manhã seguinte. A vítima trabalhava na limpeza noturna do centro de Belém. Durante a radicalização dos protestos em frente à prefeitura da cidade, Cleonice e outros trabalhadores se protegeram dentro do monumento de um bonde restaurado para visitação turística na cidade. Após a explosão das bombas, a gari passou mal e teve parada cardíaca. Foi socorrida mas não resistiu.[15] [16] .

Referências

  1. a b Pesquisadora adverte para crescente uso de gás lacrimogêneo. Carta Maior, 28 de junho de 2013.
  2. a b c d e Protestos impulsionam indústria do gás lacrimogêneo. Manifestações pelo mundo garantem alta demanda por produto "não letal" polêmico. R7, 20 de junho de 2013
  3. OPCW. Overview of the Chemical Weapons Convention
  4. Convenção sobre a Proibição do Desenvolvimento, Produção, Estocagem e Uso de Armas Químicas e sobre a Destruição das Armas Químicas Existentes no Mundo. Nações Unidas, 1993 (em português)
  5. Porton Down - the unwitting victims. BBC, 28 de outubro de 2002
  6. Contact sensitization to CS, a riot control agent, por Richard Levin, et al. Edgewood Arsenal Aberdeen Proving Ground, Maryland. Novembro de 1973.
  7. A Chronology of Events Relating to Chemical & Biological Warfare. CBW Events 1969
  8. a b Smith, J; Greaves, I. (March 2002). "The use of chemical incapacitant sprays: a review" (PDF). J Trauma 52 (3): 595-600. PMID 11901348.
  9. Heinrich U (September 2000). Possible lethal effects of CS tear gas on Branch Davidians during the FBI raid on the Mount Carmel compound near Waco, Texas Prepared for The Office of Special Counsel John C. Danforth.
  10. Hu H, Fine J, Epstein P, Kelsey K, Reynolds P, Walker B. (August 1989). "Tear gas--harassing agent or toxic chemical weapon?". JAMA 262 (5): 660–3. DOI:10.1001/jama.1989.03430050076030. PMID 2501523.
  11. Clarot F, Vaz E, Papin F, Clin B, Vicomte C, Proust B. (October 2003). "Lethal head injury due to tear-gas cartridge gunshots". Forensic Sci. Int. 137 (1): 45–51. DOI:10.1016/S0379-0738(03)00282-2. PMID 14550613.
  12. Carron, PN; Yersin, B. (19 June 2009). "Management of the effects of exposure to tear gas". BMJ 338: b2283. DOI:10.1136/bmj.b2283. PMID 19542106.
  13. Worthington E, Nee PA. (May 1999). "CS exposure—clinical effects and management". J Accid Emerg Med 16 (3): 168–70. DOI:10.1136/emj.16.3.168. PMID 10353039.
  14. Oksala A, Salminen L. (December 1975). "Eye injuries caused by tear-gas hand weapons". Acta Ophthalmol (Copenh) 53 (6): 908–13. DOI:10.1111/j.1755-3768.1975.tb00410.x. PMID 1108587.
  15. Folha de S. Paulo - Morre em Belém (PA) gari que inalou gás lacrimogêneo em protesto
  16. G1 - Gari morre após manifestação em Belém

Ligações externas[editar | editar código-fonte]