Gaulês Ludovisi

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Gaulês Ludovisi, com 2,11 m de altura, Palazzo Altemps.

O Gaulês Ludovisi, ou Gaulês suicida (por vezes chamado "gálata") é uma cópia romana de mármore de uma estátua grega do período helenístico. Tem esse nome devido ao fato de pertencer à coleção de antiguidades da poderosa família Ludovisi, e foi recuperada no século XVII. Pertence hoje à coleção dos Museus Capitolinos e está exibida no Palazzo Altemps, em Roma.

Origem[editar | editar código-fonte]

A estátua é provavelmente uma cópia romana do século II d.C. a partir de um original de bronze feito entre 230 e 220 a.C. O original provavelmente fazia parte de um conjunto de estátuas encomendadas pelo rei Átalo I de Pérgamo, para comemorar sua vitória sobre os gálatas que haviam invadido a região da Anatólia (atual Turquia).

Uma hipótese considera que essa estátua compunha um conjunto, do qual também faz parte o famoso "Gaulês moribundo" e o menos conhecido "Gaulês ajoelhado", inspirado nas esculturas do pedimento do templo de Afaia, em Egina.[1] Para isso, tal interpretação aponta que o rei tinha laços expressivos com a ilha e uma política cultural voltada para a construção de um ambiente de erudição, com referências clássicas, e autopromoção.[2]

Descrição[editar | editar código-fonte]

A escultura faz parte do que se convencionou chamar de Escola de Pérgamo da escultura, com representações realistas do movimento de corpos, com músculos e expressões faciais mostrando sofrimento e pathos.[3] Um guerreiro começa a enterrar sua espada em seu próprio peito, enquanto olha para trás em postura desafiadora e ainda segura com o braço esquerdo uma mulher, talvez sua esposa, que está falecendo. O sangue começa a jorrar de sua ferida, tal como no caso do Gaulês moribundo. O tipo de penteado, o bigode e a capa característica indicam que se trata de um guerreiro gálata, ou gaulês, uma das antigas tribos celtas. Sua nudez também aparece nas fontes antigas[4] como característica desses guerreiros, embora também possa ser interpretada como a tradicional representação heróica do guerreiro nu grego.[5]

Recuperação e influência[editar | editar código-fonte]

O rapto das sabinas, de Nicolas Poussin. O grupo à direita, na frente, é inspirado na composição do Gaulês Ludovisi.

A escultura apareceu pela primeira vez em um inventário da coleção da família Ludovisi, datado de 2 de fevereiro de 1623, e provavelmente havia sido encontrada pouco antes nos jardins da Villa Ludovisi. A área havia sido antes parte dos Jardins de Salústio na época antiga, e se mostrou uma rica fonte de esculturas gregas e romanas em escavações até o século XIX, tais como, por exemplo, o Trono Ludovisi.[6]

Agora parte do acervo dos Museus Capitolinos, em Roma, a obra foi muito admirada e influente a partir do século XVII. Ela apareceu no conjunto de gravuras de esculturas romanas por François Perrier, em 1638,[7] e foi classificada por Gérard Audran em 1683 como uma das esculturas da antiguidade que definiam o cânone das proporções ideais do corpo humano.[8] Nicolas Poussin adaptou a figura para o grupo retratado do lado direito, à frente, de seu quadro O rapto das Sabinas, que hoje se encontra no Metropolitan Museum of Art.[9] Talvez a atribuição a esse contexto se deva à própria descrição do inventário dos Ludovisi, que lista a escultura como de "um certo Mário que mata sua filha e a si mesmo",[10] baseando-se na história de um patrício chamado Sexto Mário, que, procurando proteger sua filha da luxúria do imperador Tibério, havia sido acusado de cometer incesto com ela.[11]

Giovanni Francesco Susini copiou o grupo em uma pequena peça de bronze. O mármore também foi copiado por François Lespingola para o rei francês Luís XIV, e pode ainda ser visto ao lado do grupo de Laocoonte na entrada do Tapis Vert no Palácio de Versalhes; o molde feito para a cópia foi mantido na Academia Francesa de Roma, onde ainda permanece. Os herdeiros dos Ludovisi proibiram a confecção de novos moldes, mas entre 1816 e 1819 o príncipe Luigi Boncompagni Ludovisi enviou moldes de gesso para o rei Jorge IV do Reino Unido, na época ainda príncipe regente, para o Grão-Duque da Toscana, o príncipe Metternich e para o diplomata no Congresso de Viena, Wilhelm von Humboldt.[12]

Referências

  1. HOWARD, Seymour. The Dying Gaul, Aigina Warriors, and Pergamene Academicism. American Journal of Archaeology, p. 483-487, 1983.
  2. STEWART, Andrew F.; KORRES, Manolēs. Attalos, Athens, and the Akropolis: The Pergamene'Little Barbarians' and Their Roman and Renaissance Legacy. Cambridge University Press, 2004.
  3. Encyclopaedia of Art and Classical Antiquities
  4. Diodoro Sículo, V, 29; Políbio, II, 28.
  5. OSBORNE, Robin. Men without clothes: heroic nakedness and Greek art. Gender & History, v. 9, n. 3, p. 504-528, 1997.
  6. HASKELL, Francis; PENNY, Nicholas. Taste and the Antique: The Lure of Classical Sculpture 1500-1900. Yale University Press, 1982.
  7. PERRIER, François. Segmenta nobilium signorum et statuarum que temporis dentem invidium evase, 1638, pl. 32.
  8. AUDRAN, Gérard. Les proportions du corps humain mesurées sur les belles figures de l'Antiquité, 1683, pls 8 and 9.
  9. FRIEDLAENDER, Walter.Nicolas Poussin: A New Approach (New York: Abrams) 1964.
  10. "un certo mario ch'ammazza sua figlia e se stesso" (cf. Haskell; Penny, p. 282).
  11. Tácito, Anais, VI, 19.
  12. Haskell; Penny, p. 284.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • FRASER, A. D. The Restoration of the Ludovisi Gaul. American Journal of Archaeology, v. 36, n. 4, p. 418-425, 1932.
  • NIEUWKOOP, Martin von. The Galatian Suicide: Unravelling the Ludovisi Gaul killing himself and his wife. Leiden, 2012.

Ver também[editar | editar código-fonte]