Georges Bataille

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Georges Bataille
Filosofia do século XX
Nome completo Georges Bataille
Escola/Tradição: Filosofia continental
Data de nascimento: 16 de setembro de 1897
* Local: Billom, França
Data de falecimento 8 de julho de 1962 (64 anos)
* Local: Paris, França
Influenciado por: Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Karl Marx, Friedrich Nietzsche, Sigmund Freud, Alexandre Kojève, Émile Durkheim, Marquês de Sade, Lev Shestov, Marcel Mauss
Influências: Michel Foucault, Jacques Derrida, Maurice Blanchot, Jean Baudrillard, Michel Onfray
Portal Filosofia

Georges Bataille (Puy-de-Dôme, 10 de Setembro de 1897 - 8 de Julho de 1962) foi um escritor francês, cuja obra se enquadra tanto no domínio da Literatura como no campo da Antropologia, Filosofia, Sociologia e História da Arte. O erotismo, a transgressão e o sagrado são temas abordados em seus escritos.

Pensamento[editar | editar código-fonte]

Filho de "pai descrente, mãe indiferente", conforme descrito pelo próprio, converteu-se aos 15 anos ao catolicismo, vindo a abandoná-lo anos após. Muito cedo estudou psicanálise, marxismo e a antropologia de Marcel Mauss; bebeu das águas de Nietzsche, filiando-se ao seu pensamento: em 1929-30 seu caráter contestador já podia ser observado. Preocupado em escapar ao cativeiro da modernidade, do universo fechado da razão ocidental, Bataille, diferente do que fez Heidegger, não pretende encontrar os fundamentos mais profundos da subjetividade, mas sim libertá-la dos seus limites (Habermas).

Começou a escrever por sugestão de seu psicanalista, tendo seu primeiro livro, "História do Olho", publicado em 1928 sob o pseudônimo de Lord Auch, que permanecerá até sua morte por vontade do autor, uma vez que o livro, com traços autobiográficos, foi escrito com a intenção de expurgar sua mente - uma maneira de livrar-se das obsessões atormentadoras ou, como dizia, "Escrevo para apagar meu nome".

Após a "História do Olho", Bataille prossegue sua obra erótica, tributária de Sade, publica em 1937, sob o pseudônimo de Pierre Angélique, "Madame Edwarda". É uma ficção erótica onde encontramos seres angustiados e torturados por conflitos íntimos, que Bataille utiliza para nos mostrar a perda do indivíduo em torno de suas paixões até a morte.

Esse gosto pela literatura o levou a reunir em "A Literatura e o Mal" diversos estudos onde analisa a obra de Emily Brontë, Baudelaire, Jules Michelet, William Blake, Sade, Proust, Kafka e Jean Genet, parcialmente publicados na revista "Critique", nos anos que se seguiram a Primeira Guerra Mundial. Eles nos oferecem o sentido que tinha a literatura para Bataille - a literatura é comunicação, impõe uma lealdade, uma moral rigorosa. Não é inocente. "A literatura é o essencial ou não é nada. O mal - uma forma penetrante do Mal - de que ela é a expressão tem para nós, creio eu, o valor soberano".

Duas obras são fundamentais para compreendermos o pensamento de Bataille. Em "A Parte Maldita", Bataille buscou a elaboração de um pensamento sobre economia partindo da antropologia de Mauss, bastante distinta do liberalismo e do marxismo dominantes em sua época. É o único livro onde ele teria tentado construir sua visão de mundo: filosofia da natureza, filosofia do homem, filosofia da economia, filosofia da história (Jean Piel).

Influenciado pela leitura de "O Ensaio Sobre a Dádiva", "A Noção de Despesa", que precede e origina o livro, sustenta que o consumir, e não o produzir, que o despender e não o conservar, que o destruir em vez de construir, constituem as motivações primeiras da sociedade humana. Reinvertendo o princípio axiomático da primazia da produção sobre o consumo, Bataille traz para a interpretação da economia as análises que privilegiam as formas de circulação e que não se traduzem em medidas de valor. Ao sistematizar sua teoria geral da circulação da energia sobre a terra, sempre numa espiral ascendente que dá o caráter de nossa sociedade, Bataille revela a influência da idéia de dádiva, onde ele nos mostra que existem outros princípios de troca fundadores da sociedade, onde impera a qualidade, como o sacrifício ritual, e que nos vinculam ao que está além do humano. Rejeitando as teorias de Keynes, bem como o marxismo de juventude, Bataille construiu seu pensamento insistindo na hipótese de uma abundância inevitável e inaceitável no mundo, cuja acumulação conduz a morte.

Em "O Erotismo", Bataille continua essa linha de estudos. Ao encontrar no erotismo a chave que desvenda os aspectos fundamentais da natureza humana, o ponto limite entre o natural e o social, o humano e o inumano, Bataille o vê como a experiência que permite ir além de si mesmo, superar a descontinuidade que condena o ser humano: "Falarei sucessivamente dessas três formas, a saber: o erotismo dos corpos, o erotismo dos corações e, finalmente, o erotismo sagrado. Falerei dessas três formas a fim de deixar bem claro que nelas o que está sempre em questão é substituir o isolamento do ser, a sua descontinuidade, por um sentimento de continuidade profunda".

Dividida em duas partes, o livro expõe na primeira parte sistematicamente os diferentes aspectos da vida humana sob o ângulo do erotismo e na segunda, estudos independentes que tratam de psicanálise e literatura. Estudioso de religiões orientais, experiências místicas e práticas extáticas e sacrificiais, Bataille nos leva a descobrir que "entre todos os problemas, o erotismo é o mais misterioso, o mais geral, o mais a distância". Mostrando os efeitos de transgredir as interdições impostas milenariamente por estes elementos desordenadores, Bataille dá ao erotismo e à violência uma dimensão religiosa, onde explora os meios para se atingir uma experiência mística "sem Deus": "um homem que ignora o erotismo é tão estranho quanto um homem sem experiência interior".

Sua obra é pouco conhecida no Brasil, porém, sua presença pode ser encontrada em vários os meios, sob as mais diferentes formas. Seu pensamento alimenta teóricos das mais diversas áreas. A morte como destino da sociedade de consumo é essencial à doutrina de Jean Baudrillard; Deleuze e Guattari inspiram-se em Bataille para ver o mundo como espaço de várias alternativas possíveis à lógica do mercado, lugar onde desenbocam pulsões e desejos, um mundo de novas estratégias não mercantis. Ao reconhecer o excesso encarnado no desejo de transgredir os mitos no campo simbólico, Bataille contribuiu para uma geração de intelectuais projetarem da economia à psicanálise uma tonalidade impregnada de culturalismo que não cessa de mostrar-se como alternativa original e criativa de compreender nosso mundo.

Bataille foi enterrado em Vézelay, em um pequeno cemitério próximo à basílica, com uma simples tábua funerária, sem outra inscrição que não seu nome e as datas: Georges Bataille, 1897-1962.

Obra[editar | editar código-fonte]

A obra de Bataille atravessou campos diversos, da literatura à filosofia. Considerado como um dos escritores mais polêmicos e originais do século XX, transitava entre os boêmios na cena intelectual parisiense, além de trabalhar como arquivista da Biblioteca Nacional de Paris durante décadas, sua obra foi marcada por duas experiências centrais - a experiência estética no âmbito do surrealismo e a experiência política ligada ao radicalismo da esquerda.

Livros publicados[editar | editar código-fonte]

  • 1927 - Anus solaire
  • 1928 - Histoire de l'Œil
  • 1941 - Madame Edwarda
  • 1943 - Somme athéologique (trilogie)
  • 1944 - L'expérience intérieure
  • 1945 - Le coupable
  • 1946 - Sur Nietzsche
  • 1947 - Haine de la poésie
  • 1947 - Alleluiah
  • 1949 - La part maudite, tradução portuguesa de Miguel Serras Pereira, Lisboa: Fim de Século, 2005
  • 1950 - L'abbé C.
  • 1955 - Lascaux, ou la naissance de l'art
  • 1955 - Ma mère
  • 1957 - La littérature et le mal
  • 1957 - Le bleu du ciel
  • 1957 - L'érotisme, tradução portuguesa de João Bénard da Costa, Lisboa:Antígona, 1988
  • 1961 - Les larmes d'Éros
  • 1965 - Le procès de Gilles de Rais

Sua correspondência foi publicada em 1997 pela Gallimard sob o título Choix de lettres 1917-1962. Grande parte de sua obra não foi traduzida para o português.