Georges Canguilhem

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Georges Canguilhem
Século XX
Nome completo Georges Canguilhem
Escola/Tradição: Filosofia ocidental
Racionalismo de tendência vitalista e anti-positivista
Data de nascimento: 4 de junho de 1904
Local: Castelnaudary  França
Data de falecimento 11 de setembro de 1995 (91 anos)
Local: Marly-le-Roi
Principais interesses: Epistemologia, Filosofia da Ciência, História da Ciência, Medicina, Biologia, Psicologia
Trabalhos notáveis Le normal et le pathologique ;
La connaissance de la vie ;
Idéologie et rationalité dans l'histoire des sciences de la vie
Influenciado por: Aristóteles, Galeno, Buffon, Kant, Comte, Claude Bernard, Marx, Bergson, Kurt Goldstein, Bachelard
Influências: Lacan, Althusser, Foucault, F. Dagognet, D. Lecourt

Georges Canguilhem (Castelnaudary, 4 de junho de 1904 - Marly-le-Roi, 11 de setembro de 1995) foi um filósofo e médico francês. Especialista em epistemologia e história da ciência, publicou obras importantes sobre a constituição da biologia como ciência, sobre medicina, psicologia, ideologias científicas e ética, notadamente Le normal et le pathologique e La connaissance de la vie. Discípulo de Gaston Bachelard, inscreve-se na tradição da epistemologia histórica francesa e terá uma notável influência sobre Michel Foucault.

Sua tese principal é de que a vida não pode ser deduzida a partir de leis físico-químicas, ou seja, é preciso partir do próprio ser vivo para compreender a vida. Assim, o objeto de estudo da biologia é irredutível à análise e a decomposição lógico-matemática.

Esboço biográfico[editar | editar código-fonte]

Georges Canguilhem nasceu no dia 4 de junho de 1904 em Castelnaudary, vilarejo situado no sudoeste da França. Descendente de uma família camponesa, Canguilhem fez o ensino básico com excelente desempenho escolar, antes de prosseguir seus estudos, no Liceu Henri IV em Paris, onde fez seu curso preparatório para a École Normale Supérieure (ENS) em 1921. Segundo Roudinesco (2007), neste curso preparatório “reinava” Émile-Auguste Chartier (1868-1951), mais conhecido sob o pseudônimo de Alain. Filósofo engajado em causas humanitárias e pacifistas, Alain influenciou profundamente Canguilhem com sua “filosofia da ação, assumidamente voltairiana e fundamentada no primado da liberdade, da consciência e da razão” (ROUDINESCO, 2007, p. 18).

Seguidor fervoroso de Alain, o jovem Canguilhem ingressou na ENS em 1924, fazendo parte da mesma turma que Jean-Paul Sartre, Raymond Aron, Daniel Lagache e Paul Nizan, que se tornariam, mais à frente, grandes expoentes da intelectualidade francesa. Dois anos mais tarde transferiu seu diploma de estudos superiores para a Sorbonne e escolheu como tema de seu trabalho de conclusão em filosofia “A teoria da ordem e do progresso em Augusto Comte”. Em 1927, ingressou no Doutorado de Filosofia e começou a publicar artigos, sob o pseudônimo de C. G. Bernard, no Libres Propos, jornal filosófico e político criado por Alain. “Pacifista ardoroso, Canguilhem situou-se de imediato na vanguarda da contestação dos normalianos contra a ordem estabelecida” (ROUDINESCO, 2007, p. 18). Em função da montagem, de uma peça de teatro com um colega, na qual satiricamente criticava o diretor da ENS, Canguilhem foi acusado de propaganda revolucionária pelo Ministério da Guerra. No ano seguinte, em decorrência de um protesto contra a obrigação do serviço militar, Canguilhem foi recrutado para um serviço de dezoito meses com a patente de cabo, tendo de adiar, com isso, sua formatura (ROUDINESCO, 2007).

No início da década de 1930 foi nomeado para Charleville, e, mesmo com o declínio progressivo do pacifismo alainiano, Canguilhem continuou manifestando sua ligação com as idéias de seu mestre, chegando a se declarar hostil a toda forma de poder instituído (ROUDINESCO, 2007). Tanto que, com a tomada do poder por Hitler, em 1934, aderiu ao Comitê de Vigilância dos Intelectuais Antifascistas (CVIA), organização política francesa fundada neste mesmo ano.

Após lecionar em diversos Liceus da França, Canguilhem foi nomeado, em 1936, para Toulouse, assumindo a função daquele que havia sido seu mestre, Alain. E foi nessa época que Canguilhem iniciou seus estudos de medicina. Os motivos para tal empreitada passam, segundo Roudinesco (2007, p. 22), por uma certa decepção com a filosofia mas, acima de tudo, por uma necessidade de confrontar-se “com uma experiência concreta, um ‘campo’, uma disciplina que, sem ser científica, permitisse dar corpo e vida à reflexão conceitual”. A medicina, “abandonada há um século pela filosofia, fosse porque não fazia parte das ciências ditas ‘nobres’, como a matemática ou a física, fosse porque se aproximara da biologia, esta própria ignorada pela filosofia (...) podia se tornar, para o jovem filósofo, o centro de uma nova forma de racionalidade” (ROUDINESCO, 2007, p. 23). Em 1939, atento à iminência de uma guerra de grandes proporções, Canguilhem escreveu uma obra intitulada “Traité de logique et de morale” em parceria com seu colega Camille Planet, onde, segundo Roudinesco (2007), ele abandonou o ideal pacifista de sua juventude. Nesta obra, Canguilhem instigava o leitor a se posicionar com relação à guerra, escolhendo claramente entre sua aceitação e seu enfrentamento. No ano seguinte, com a derrota militar da França – humilhação inaceitável para ele – e a ocupação de sua universidade por militares, Canguilhem escolheu seu lado neste conflito. Inicialmente pediu licença de Toulouse, alegando não ter feito concurso de filosofia “para ensinar Trabalho, Família e Pátria” (ROUDINESCO, 207, p. 26). A seguir, em 1941, aceitou o convite de suceder um professor na Universidade de Estranburgo, ao mesmo tempo em que iniciou sua participação nas ações de um grupo de resistência organizado na região, o Liberation.

Neste mesmo período, influenciado pela teoria organísmica do neurologista e psiquiatra Kurt Goldstein (1878-1965) , Canguilhem escreveu sua tese de doutorado em medicina sobre o normal e o patológico, defendida em julho de 1943 - portanto, em plena II Guerra Mundial. Publicada no mesmo ano, tornou-se sua obra mais célebre e referência até hoje sobre o assunto.

Paralelamente ao seu trabalho de ensino e pesquisa e à redação de sua tese, Canguilhem, com o codinome de Lafont, colaborou com o já referido grupo de resistência, atuando, inclusive, como médico nos maquis de Auvergne. Segundo Roudinesco (2007, p. 28), Canguilhem “foi médico apenas na guerra e pela guerra: um médico de urgência, dos ferimentos e carnificinas, um médico do presente e do instante, do acontecimento e do trauma. Nunca mais voltaria a praticar; por sinal recusou-se a se inscrever no Conselho de Medicina”. Em 1944, com o fim da ocupação da França pela Alemanha, Canguilhem foi condecorado com a Cruz Militar e com Médaille de la Résistance, por sua atuação nos maquis (HORTON, 1995).

Posteriormente, em 1948, assumiu o prestigioso título de Inspecteur Général de Philosophie da Université de Strasbourg, permanecendo no cargo até 1955, ano em que defendeu sua tese de doutorado em filosofia sobre o conceito de reflexo. Neste mesmo ano foi nomeado professor em Sourbone e assumiu a direção do Institut d’histoire dês Sciences et dês Techniques de L’université de Paris, posto ocupado por Gaston Bachelard até sua morte. Ocupou esta posição até 1971, momento no qual começou uma ativa carreira como docente emérito. Em 1983 foi agraciado com a Medalha de Sarton pelo mesmo Instituto de História das Ciências; e em 1987 com a médaille d'or do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Morreu em Marly em 1995, aos 91 anos, tendo deixado uma vasta e importante obra, dentre livros e artigos, além de uma brilhante carreira acadêmica que influenciou várias gerações de pensadores franceses.

As principais obras de Canguilhem, além de “O normal e o patológico” são: A connaissance da vie (1952); A formation du concept de réflexe aux XVIIe et XVIIIe siècles (1955); Études d'histoire et de philosophie dês sciences concernant lhes vivants et a vie (1968) e Idéologie et rationalité dans l'histoire lhes sciences da vie (1977). No Brasil, a única obra completa de Canguilhem publicada é “O normal e o patológico”, além de uma pequena coletânea de textos intitulada “Escritos sobre medicina” (PUTINI, s/d).

Como podemos constatar, com o esboço biográfico apresentado nos parágrafos anteriores, Canguilhem foi um filósofo atípico. Lutou não apenas com palavras, indo efetivamente à campo para defender seus ideais. Lutou pela liberdade e contra toda forma de dominação do homem. Foi um Herói da Resistência, um Filósofo na Tormenta, conforme expressões de Roudinesco (2007). E todo este engajamento se refletiu em seus escritos. Conforme aponta a autora, “o conjunto da obra canguilhemiana carrega o vestígio desse encontro inicial entre uma filosofia do conceito e uma filosofia do engajamento”. Para Roudinesco (2007, p. 49), Canguilhem foi um filósofo da rebelião conceitual: “tinha horror a qualquer abordagem do homem que visasse reduzir o espírito a uma coisa, a psique a um determinismo fisiológico, o pensamento a um reflexo, em suma, o homem a um inseto”. Foucault, orientando de Canguilhem em sua tese de doutorado (que deu origem à obra clássica História da loucura na Idade Clássica) escreveu o seguinte sobre o mestre:

“suprimam Canguilhem e vocês não compreenderão mais grande coisa de toda uma série de discussões que ocorreram entre os marxistas franceses: vocês não mais apreenderão o que há de específico em sociólogos como Bordieu, Castel, Passeron, e o que os marca tão intensamente no campo da sociologia; vocês negligenciarão todo um aspecto do trabalho teórico feito pelos psicanalistas, especialmente os lacanianos. Mais: em todo o debate de idéias que precedeu ou sucedeu o movimento de 1968, é fácil reencontrar o lugar daqueles que direta ou indiretamente, haviam sido formados por Canguilhem” (FOUCAULT, 2005, p. 353).

Obras (em francês)[editar | editar código-fonte]

  • Essai sur quelques problèmes concernant le normal et le pathologique (1943); reeditado sob o título Le Normal et le Pathologique, acrescido de Nouvelles Réflexions concernant le normal et le pathologique (1966), 9ème. réed. PUF/Quadrige, Paris, 2005 ISBN|2130549586.
  • La connaissance de la vie (1952), reedição revista e aumentada Vrin, Paris, 1965 e 1992 ISBN 2711611329.
  • La Formation du concept de réflexe aux XVIIème. et XVIIIème. siècles, PUF, Paris, 1955.
  • Com Georges Lapassade, Jean Piquerol, Jacques Ulmann, Du développement à l’évolution au XIXème siècle (1962), Paris, PUF/Quadrige, 2003 ISBN 2130538355.
  • Études d'histoire et de philosophie des sciences concernant les vivants et la vie (1968) 7ème. réed. Vrin, Paris, 1990 ISBN|2711601080.
  • « Le Cerveau et la Pensée » (1980), in G. Canguilhem, philosophe, historien des sciences, 1992, p. 11 à 33 ISBN 2226062017
  • « Vie » et « Régulation » articles de l’Encyclopaedia Universalis (1974), 2ème. éd., Paris, 1989.
  • Idéologie et rationalité dans l'histoire des sciences de la vie (1977) ed. aumentada Vrin, Paris, 2000.
  • La Santé, concept vulgaire et question philosophique (1988), Sables, Pin-Balma, 1990 ISBN 2907530348.
  • Raymond Aron et la philosophie critique de l'histoire, confência de 1989, publicada em na revista Enquête, « Max Weber », 1992
  • Vie et mort de Jean Cavaillès, Éd. Allia, 1998 ISBN 2911188179
  • Écrits sur la médecine, Éd. du Seuil, Coll. « Champ freudien », 2002 ISBN 2020551705

Obras (lançadas no Brasil)[editar | editar código-fonte]

  • "O normal e o patológico" - Ed. Forence Universitária. 7a edição. 2011
  • "Escritos sobre medicina" - Ed Forence Universitária. 1a edição. 2005
  • "Conhecimento da vida" - Ed. Forence Universitária. 1a edição. 2012
  • "Estudos de História e de Filosofia Das Ciências - Concernentes Aos Vivos e À Vida" - Ed. Forence Universitária. 1a edição. 2012

Bibliografia sobre o Canguilhem[editar | editar código-fonte]

DAGONET, F. Georges Canguilhem: Philosophie de la vie. Le Plessis-Robinson. Institut Synthélabo, 1997.

HORTON, R. Georges Canguilhem: philosopher of disease. Jornal of Royal Society of Medicine. Londres:: v. 88, 1995.

FOUCAULT, M. A vida: a experiência e a ciência. In: MOTTA, M. B. (org). Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Ditos e Escritos II. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.

FRANCO, F. L. F. N. Georges Canguilhem e a psiquiatria: norma, saúde e patologia mental. Primeiros escritos. Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 87-95, 2009.

PORTOCARRERO, V. Filosofia, ciência e vida no pensamento de Canguilhem. Em: PORTOCARRERO, V. As ciências da vida: de Canguilhem a Foucault. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2009.

PORTOCARRERO, V. Instituição escolar e normalização em Foucault e Canguilhem. Educação & Realidade. Porto Alegre: v.29, n.1, p.169-185, 2004.

PUTINI, R. O normal e o patológico e a epistemologia das ciências da vida e da saúde em Georges Canguilhem. Disponível em: http://www.cetrans.com.br/artigos/Rodolfo_Puttini.pdf Acessado em 12 de Setembro de 2010.

RAMMINGER, T. Entre a normatividade e a normalidade: contribuições da G. Canguilhem e M. Foucault para as práticas de saúde. Mnemosine. Rio de Janeiro, v.4, n. 2, p. 68-97, 2008.

ROUDINESCO, E. Georges Canguilhem: uma filosofia do heroísmo. In: ROUDINESCO, Elizabeth. Filósofos na tormenta: Canguilhem, Sartre, Foucault, Althusser, Deleuze e Derrida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. p. 13-59.

SERPA JR., O. D. Indivíduo, organismo e doença: a atualidade de “O normal e o patológico” de Georges Canguilhem. Psicologia Clínica. Rio de Janeiro, v.15, n.1, p.121-35, 2003.

Ligações internas[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]


Precedido por
Nicole Marthe Le Douarin
Medalha de Ouro CNRS
1987
com Jean-Pierre Serre
Sucedido por
Philippe Nozières


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