Gerião

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Hércules lutando com Gerião, ânfora c. 540 a. C., museu do Louvre.

Gerião (do grego antigo Γηρυών), na mitologia greco-romana, o nome de um dos gigantes, filho de Crisaor e de Calírroe, dotado de três cabeças; era irmão de Équidna, monstro metade mulher metade serpente, que gerou o cão Ortros, que velava pelo gado de Gerião.[1] Seu mito está ligado ao de Hércules, a quem coube, num dos seus trabalhos, roubar-lhe os bois.[2]

Gerião habitava Erítia (a "vermelha"), uma das míticas ilhas das Hespérides, situada no extremo Ocidente do mar Mediterrâneo. Trata-se provavelmente da Espanha, próximo a Cádiz[3] .

Origem do nome[editar | editar código-fonte]

O nome Gerião deriva do verbo grego γηρύειν (guerýein), que significa gritar, fazer ressoar, possivelmente porque ele era um pastor ou porque este talvez fosse originalmente o nome do cão que lhe pastoreava o rebanho.[2]

Características[editar | editar código-fonte]

Gerião tinha três cabeças (policefalia) e três torsos.[2] Era um ser cruel,[4] cuja deformidade ia até os quadris.[5]

Hércules e os bois de Gerião[editar | editar código-fonte]

Seu cobiçado rebanho de bovinos vermelhos era guardado pelo pastor Euritião e pelo cão Ortros, próximo ao local em que também pastava o rebanho de Hades (Plutão), cuidado por Menetes.[5]

Havendo Hércules recebido de Euristeu a incumbência de capturar o rebanho de Gerião, atravessa o Oceano na Taça do Sol e, chegando à Erítia após várias aventuras (dentre as quais a abertura do estreito de Gibraltar), liquida Ortros com sua clava e depois derrota Euritião. Avisado por Menetes, Gerião trava com o herói um combate às margens do rio Ântemo, onde é finalmente é morto a flechadas. Hércules então segue sua jornada de volta à Grécia, enfrentando vários desafios.[5]

Junito Brandão, computando a Hércules treze tarefas (sendo a última a vitória sobre a morte), diz que seus três últimos trabalhos compõem essa escalada do herói rumo à vitória; o périplo até as terras brumosas de Gerião seria, assim, parte desse seu "namoro com Thánatos".[6]

Gerioneida, a morte de Gerião[editar | editar código-fonte]

Dedicou a Gerião o poeta Estesícoro (nascido na Magna Grécia) os versos de sua obra Gerioneida, da qual restaram inúmeros fragmentos, além de um resumo na obra Biblioteca, de Pseudo-Apolodoro.[7]

Neste poema Estesícoro de certa forma procede a uma humanização do monstro Gerião, tomando de Homero a imagem da morte de uma das suas cabeças com o cair de uma pétala, restando entretanto as demais; também recorre à imagem de sua mãe Calírroe a lamentar sua morte, tal como Hécuba fizera na Ilíada.[7]

Revisão do mito por Diodoro Sículo[editar | editar código-fonte]

Diodoro Sículo racionalizou o mito de Gerião; ele não seria um filho de Crisaor, mas três filhos, irmãos, que lutavam lado a lado, e tinham, cada um, um grande exército.[8] A construção do gigante com três corpos pelos escritores dos mitos foi semelhante à invenção dos centauros,[9] que eram, na realidade, cavaleiros.[10]

Revisão do mito na cultura ibérica medieval[editar | editar código-fonte]

O mito de Gerião, que guarda fortes raízes com a formação nacional de Espanha e Portugal, em sendo ele um habitante daquelas terras, ganhou algumas obras revisionistas ao longo do tempo.[11]

Produziram obras neste sentido autores medievais espanhóis, como o Bispo de Girona e Joan Margarit (1422-1484), em cuja obra se procura legitimar a resistência de Gerião ao invasor grego, e ainda Rodrigo Ximénez de Rada, arcebispo de Toledo, dentre outros.[11]

Uma lenda galega conta que Hércules chegou de barco às costas de Brigâncio, onde atualmente se situa A Corunha, para combater o rei Gerião, um tirano que obrigava os seus súditos a entregarem a metade dos seus bens, incluindo os filhos. Hércules derrotou o rei, enterrou-o, e levantou, à guisa de túmulo, a Torre de Hércules, que existe ainda hoje. Esta lenda está representada no escudo da Corunha.

Já em Portugal o monge Bernardo de Brito trata o monstro como um invasor, que procurou estabelecer na Lusitânia uma colônia hispânica. Seria, assim, uma figura real, histórica: "Reynou Gerião em Espanha, depois da morte de Beto vltimo Rey dos naturaes, & descendẽtes de Tubal, trinta & quatro annos, & sua morte succedeo, aos quinhentos & quarenta & cinco do dilluio, no qual tempo se acabou a idade dourada nestas partes, & começarão os homens a cometter insultos, & latrocinios, seguindo o exemplo do Rey que os gouernara: que hum Senhor desalmado basta pera contaminar hum Reyno todo.".[11]

Cultura moderna[editar | editar código-fonte]

A colônia britânica de Gibraltar lançou uma moeda de 2 Libras de Gibraltar com a efígie da rainha Elizabeth II numa face, e na outra uma imagem de Hércules a derrotar Gerião.[12]

Referências

  1. Brandão, Junito de Souza. Mitologia Grega. [S.l.]: Vozes, 1986. 419 pp. p. 155. 3 vol. vol. I.
  2. a b c BRANDÃO, op. cit., págs. 241-242
  3. Grimal, Pierre, Dicionário da Mitologia Grega e Romana, Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, p.183-184
  4. BRANDÃO, op. cit., pág. 159
  5. a b c Brandão, Junito de Souza. Mitologia Grega. [S.l.]: Vozes, 1986. 451 pp. p. 108-112. 3 vol. vol. III.
  6. BRANDÃO, op. cit. (2), pág. 130)
  7. a b Roosevelt Rocha. Estesícoro entre Épica e Drama PhaoS - 2009 (9) - pp. 65-79. Página visitada em setembro de 2011.
  8. Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica, Livro IV, 17.2 [ael/fr][en][en]
  9. Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica, Livro IV, 8.4 [ael/fr][en][en]
  10. Diodoro Sículo, Biblioteca Histórica, Livro IV, 70.1 [ael/fr][en][en]
  11. a b c José Sílvio Moreira Fernandes. Estrutura e função do mito de Hércules na Monarquia Lusitana de Bernardo de Brito Ágora. Estudos Clássicos em Debate 9 (2007) 119-150 — ISSN: 0874-5498. Página visitada em setembro de 2011.
  12. Numista. Imagem da peça. Página visitada em setembro de 2011.
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